{"id":129102,"date":"2019-02-26T11:00:58","date_gmt":"2019-02-26T11:00:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=129102"},"modified":"2019-02-27T11:45:16","modified_gmt":"2019-02-27T11:45:16","slug":"mensagem-do-papa-francisco-para-a-quaresma-de-2019","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/mensagem-do-papa-francisco-para-a-quaresma-de-2019\/","title":{"rendered":"Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2019"},"content":{"rendered":"<p><em>\u00abA cria\u00e7\u00e3o encontra-se em expetativa ansiosa, aguardando a revela\u00e7\u00e3o dos filhos de Deus\u00bb (Rm 8, 19)<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s!<\/p>\n<p>Todos os anos, por meio da M\u00e3e Igreja, Deus \u00abconcede aos seus fi\u00e9is a gra\u00e7a de se prepararem, na alegria do cora\u00e7\u00e3o purificado, para celebrar as festas pascais, a fim de que (\u2026), participando nos mist\u00e9rios da renova\u00e7\u00e3o crist\u00e3, alcancem a plenitude da filia\u00e7\u00e3o divina\u00bb (Pref\u00e1cio I da Quaresma). Assim, de P\u00e1scoa em P\u00e1scoa, podemos caminhar para a realiza\u00e7\u00e3o da salva\u00e7\u00e3o que j\u00e1 recebemos, gra\u00e7as ao mist\u00e9rio pascal de Cristo: \u00abDe facto, foi na esperan\u00e7a que fomos salvos\u00bb (<em>Rm<\/em> 8, 24). Este mist\u00e9rio de salva\u00e7\u00e3o, j\u00e1 operante em n\u00f3s durante a vida terrena, \u00e9 um processo din\u00e2mico que abrange tamb\u00e9m a hist\u00f3ria e toda a cria\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo chega a dizer: \u00abAt\u00e9 a cria\u00e7\u00e3o se encontra em expetativa ansiosa, aguardando a revela\u00e7\u00e3o dos filhos de Deus\u00bb (<em>Rm<\/em> 8, 19). Nesta perspetiva, gostaria de oferecer algumas propostas de reflex\u00e3o, que acompanhem o nosso caminho de convers\u00e3o na pr\u00f3xima Quaresma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>1.\u00a0 A reden\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>A celebra\u00e7\u00e3o do Tr\u00edduo Pascal da paix\u00e3o, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, ponto culminante do Ano Lit\u00fargico, sempre nos chama a viver um itiner\u00e1rio de prepara\u00e7\u00e3o, cientes de que tornar-nos semelhantes a Cristo (cf. <em>Rm<\/em> 8, 29) \u00e9 um dom inestim\u00e1vel da miseric\u00f3rdia de Deus.<\/p>\n<p>Se o homem vive como filho de Deus, se vive como pessoa redimida, que se deixa guiar pelo Esp\u00edrito Santo (cf. <em>Rm<\/em> 8, 14), e sabe reconhecer e praticar a lei de Deus, a come\u00e7ar pela lei gravada no seu cora\u00e7\u00e3o e na natureza, <em>beneficia tamb\u00e9m a cria\u00e7\u00e3o<\/em>, cooperando para a sua reden\u00e7\u00e3o. Por isso, a cria\u00e7\u00e3o \u2013 diz S\u00e3o Paulo \u2013 deseja de modo intens\u00edssimo que se manifestem os filhos de Deus, isto \u00e9, que a vida daqueles que gozam da gra\u00e7a do mist\u00e9rio pascal de Jesus se cubra plenamente dos seus frutos, destinados a alcan\u00e7ar o seu completo amadurecimento na reden\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio corpo humano. Quando a caridade de Cristo transfigura a vida dos santos \u2013 esp\u00edrito, alma e corpo \u2013, estes rendem louvor a Deus e, com a ora\u00e7\u00e3o, a contempla\u00e7\u00e3o e a arte, envolvem nisto tamb\u00e9m as criaturas, como demonstra admiravelmente o \u00abC\u00e2ntico do irm\u00e3o sol\u00bb, de S\u00e3o Francisco de Assis (cf. Enc\u00edclica <em>Laudato si\u2019,<\/em> 87). Neste mundo, por\u00e9m, a harmonia gerada pela reden\u00e7\u00e3o continua ainda \u2013 e sempre estar\u00e1 \u2013 amea\u00e7ada pela for\u00e7a negativa do pecado e da morte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>2.\u00a0 A for\u00e7a destruidora do pecado<\/h3>\n<p>Com efeito, quando n\u00e3o vivemos como filhos de Deus, muitas vezes adotamos comportamentos destruidores do pr\u00f3ximo e das outras criaturas \u2013 mas tamb\u00e9m de n\u00f3s pr\u00f3prios \u2013, considerando, de forma mais ou menos consciente, que podemos us\u00e1-los como bem nos apraz. Ent\u00e3o sobrep\u00f5e-se a intemperan\u00e7a, levando a um estilo de vida que viola os limites que a nossa condi\u00e7\u00e3o humana e a natureza nos pedem para respeitar, seguindo aqueles desejos incontrolados que, no livro da Sabedoria, se atribuem aos \u00edmpios, ou seja, a quantos n\u00e3o t\u00eam Deus como ponto de refer\u00eancia das suas a\u00e7\u00f5es, nem uma esperan\u00e7a para o futuro (cf. 2, 1-11). Se n\u00e3o estivermos voltados continuamente para a P\u00e1scoa, para o horizonte da Ressurrei\u00e7\u00e3o, \u00e9 claro que acaba por se impor a l\u00f3gica do <em>tudo e imediatamente, <\/em>do <em>possuir cada vez mais<\/em>.<\/p>\n<p>Como sabemos, a causa de todo o mal \u00e9 o pecado, que, desde a sua apari\u00e7\u00e3o no meio dos homens, interrompeu a comunh\u00e3o com Deus, com os outros e com a cria\u00e7\u00e3o, \u00e0 qual nos encontramos ligados antes de mais nada atrav\u00e9s do nosso corpo. Rompendo-se a comunh\u00e3o com Deus, acabou por falir tamb\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o harmoniosa dos seres humanos com o meio ambiente, onde est\u00e3o chamados a viver, a ponto de o jardim se transformar num deserto (cf. <em>Gn<\/em> 3, 17-18). Trata-se daquele pecado que leva o homem a considerar-se como deus da cria\u00e7\u00e3o, a sentir-se o seu senhor absoluto e a us\u00e1-la, n\u00e3o para o fim querido pelo Criador, mas para interesse pr\u00f3prio em detrimento das criaturas e dos outros.<\/p>\n<p>Quando se abandona a lei de Deus, a lei do amor, acaba por se afirmar a lei do mais forte sobre o mais fraco. O pecado \u2013 que habita no cora\u00e7\u00e3o do homem (cf. <em>Mc<\/em> 7, 20-23), manifestando-se como avidez, ambi\u00e7\u00e3o desmedida de bem-estar, desinteresse pelo bem dos outros e muitas vezes tamb\u00e9m do pr\u00f3prio \u2013 leva \u00e0 explora\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o (pessoas e meio ambiente), movidos por aquela gan\u00e2ncia insaci\u00e1vel que considera todo o desejo um direito e que, mais cedo ou mais tarde, acabar\u00e1 por destruir inclusive quem est\u00e1 dominado por ela.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>3.\u00a0 A for\u00e7a sanadora do arrependimento e do perd\u00e3o<\/h3>\n<p>Por isso, a cria\u00e7\u00e3o tem impelente necessidade que se revelem os filhos de Deus, aqueles que se tornaram \u00abnova cria\u00e7\u00e3o\u00bb: \u00abSe algu\u00e9m est\u00e1 em Cristo, \u00e9 uma nova cria\u00e7\u00e3o. O que era antigo passou; eis que surgiram coisas novas\u00bb (<em>2 Cor<\/em> 5, 17). Com efeito, com a sua manifesta\u00e7\u00e3o, <em>a pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o pode tamb\u00e9m<\/em> \u00ab<em>fazer p\u00e1scoa\u00bb<\/em>: abrir-se para o novo c\u00e9u e a nova terra (cf. <em>Ap<\/em> 21, 1). E o caminho rumo \u00e0 P\u00e1scoa chama-nos precisamente a restaurar a nossa fisionomia e o nosso cora\u00e7\u00e3o de crist\u00e3os, atrav\u00e9s do arrependimento, a convers\u00e3o e o perd\u00e3o, para podermos viver toda a riqueza da gra\u00e7a do mist\u00e9rio pascal.<\/p>\n<p>Esta \u00abimpaci\u00eancia\u00bb, esta expetativa da cria\u00e7\u00e3o ver-se-\u00e1 satisfeita quando se manifestarem os filhos de Deus, isto \u00e9, quando os crist\u00e3os e todos os homens entrarem decididamente neste \u00abparto\u00bb que \u00e9 a convers\u00e3o. Juntamente connosco, toda a cria\u00e7\u00e3o \u00e9 chamada a sair \u00abda escravid\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o, para alcan\u00e7ar a liberdade na gl\u00f3ria dos filhos de Deus\u00bb (<em>Rm<\/em> 8, 21). A Quaresma \u00e9 sinal sacramental desta convers\u00e3o. Ela chama os crist\u00e3os a encarnarem, de forma mais intensa e concreta, o mist\u00e9rio pascal na sua vida pessoal, familiar e social, particularmente atrav\u00e9s do jejum, da ora\u00e7\u00e3o e da esmola.<\/p>\n<p><em>Jejuar<\/em>, isto \u00e9, aprender a modificar a nossa atitude para com os outros e as criaturas: passar da tenta\u00e7\u00e3o de \u00abdevorar\u00bb tudo para satisfazer a nossa voracidade, \u00e0 capacidade de sofrer por amor, que pode preencher o vazio do nosso cora\u00e7\u00e3o. <em>Orar<\/em>, para saber renunciar \u00e0 idolatria e \u00e0 autossufici\u00eancia do nosso eu, e nos declararmos necessitados do Senhor e da sua miseric\u00f3rdia. <em>Dar esmola<\/em>, para sair da insensatez de viver e acumular tudo para n\u00f3s mesmos, com a ilus\u00e3o de assegurarmos um futuro que n\u00e3o nos pertence. E, assim, reencontrar a alegria do projeto que Deus colocou na cria\u00e7\u00e3o e no nosso cora\u00e7\u00e3o: o projeto de am\u00e1-Lo a Ele, aos nossos irm\u00e3os e ao mundo inteiro, encontrando neste amor a verdadeira felicidade.<\/p>\n<p>Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s, a \u00abquaresma\u00bb do Filho de Deus consistiu em entrar no <em>deserto<\/em> da cria\u00e7\u00e3o para faz\u00ea-la voltar a ser aquele <em>jardim <\/em>da comunh\u00e3o com Deus que era antes do pecado das origens (cf. <em>Mc<\/em> 1,12-13; <em>Is<\/em> 51,3). Que a nossa Quaresma seja percorrer o mesmo caminho, para levar a esperan\u00e7a de Cristo tamb\u00e9m \u00e0 cria\u00e7\u00e3o, que \u00abser\u00e1 libertada da escravid\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o, para alcan\u00e7ar a liberdade na gl\u00f3ria dos filhos de Deus\u00bb (<em>Rm<\/em> 8, 21). N\u00e3o deixemos que passe em v\u00e3o este tempo favor\u00e1vel! Pe\u00e7amos a Deus que nos ajude a realizar um caminho de verdadeira convers\u00e3o. Abandonemos o ego\u00edsmo, o olhar fixo em n\u00f3s mesmos, e voltemo-nos para a P\u00e1scoa de Jesus; fa\u00e7amo-nos pr\u00f3ximo dos irm\u00e3os e irm\u00e3s em dificuldade, partilhando com eles os nossos bens espirituais e materiais. Assim, acolhendo na nossa vida concreta a vit\u00f3ria de Cristo sobre o pecado e a morte, atrairemos tamb\u00e9m sobre a cria\u00e7\u00e3o a sua for\u00e7a transformadora.<\/p>\n<p>Vaticano, Festa de S\u00e3o Francisco de Assis, 4 de outubro de 2018.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abA cria\u00e7\u00e3o encontra-se em expetativa ansiosa, aguardando a revela\u00e7\u00e3o dos filhos de Deus\u00bb (Rm 8, 19)<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":129110,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[195,91],"class_list":["post-129102","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-enciclica-laudato-si","tag-quaresma"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/129102","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=129102"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/129102\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/129110"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=129102"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=129102"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=129102"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}