{"id":128692,"date":"2019-02-22T09:23:28","date_gmt":"2019-02-22T09:23:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=128692"},"modified":"2019-07-04T16:57:02","modified_gmt":"2019-07-04T15:57:02","slug":"abusos-sexuais-a-denuncia-e-uma-obrigatoriedade-de-todos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/abusos-sexuais-a-denuncia-e-uma-obrigatoriedade-de-todos\/","title":{"rendered":"Abusos sexuais: A den\u00fancia \u00e9 uma \u00abobrigatoriedade de todos\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><i>Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA e \u00e0 Renascen\u00e7a, o diretor do Ponto SJ, diz\u00a0que a preven\u00e7\u00e3o dos casos de abuso sobre menores \u00e9 \u00abum caminho longo\u00bb e pressup\u00f5e \u00abn\u00e3o ter medo da verdade\u00bb. O padre Jos\u00e9 Maria Brito fala tamb\u00e9m do que est\u00e1 a ser feito na Companhia de Jesus.<\/i><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><i>Desde o ver\u00e3o de 2018, est\u00e1 em vigor o \u2018Sistema de Prote\u00e7\u00e3o e Cuidados de Menores e Pessoas Vulner\u00e1veis\u2019, que est\u00e1 a ser aplicado em mais de 30 institui\u00e7\u00f5es. Trata-se de\u00a0<\/i><i>um \u00absistema abrangente\u00bb, n\u00e3o s\u00f3 por causa dos abusos sexuais, que tem por objetivo criar \u00abambientes que sejam humanamente saud\u00e1veis\u00bb.<\/i><\/p>\n<figure id=\"attachment_128693\" aria-describedby=\"caption-attachment-128693\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/jose_maria_brito_rr.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-128693 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/jose_maria_brito_rr.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/jose_maria_brito_rr.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/jose_maria_brito_rr-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/jose_maria_brito_rr-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/jose_maria_brito_rr-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/jose_maria_brito_rr-1080x720.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-128693\" class=\"wp-caption-text\">Foto In\u00eas Rocha\/Renascen\u00e7a &#8211; Padre Jos\u00e9 Maria Brito, diretor do Ponto SJ<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por \u00c2ngela Roque (Renascen\u00e7a) e Paulo Rocha (Ag\u00eancia ECCLESIA)<\/em><\/p>\n<p><em>O que \u00e9 vos levou a criar este \u2018Sistema de prote\u00e7\u00e3o e cuidado de menores e adultos vulner\u00e1veis\u2019, que est\u00e1 em vigor desde o ver\u00e3o passado? Foram casos de abusos que tiveram de enfrentar, ou a vossa preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 sobretudo de preven\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 sobretudo uma preocupa\u00e7\u00e3o positiva de prote\u00e7\u00e3o, e isto veio daquilo que foram os apelos, tanto do Papa como ainda do anterior Superior Geral da Companhia de Jesus, o padre Adolfo Nicol\u00e1s, que pediu que a Companhia de Jesus desse um contributo \u00e0 Igreja na cria\u00e7\u00e3o de uma cultura de cuidado, de prote\u00e7\u00e3o das pessoas pelas quais somos respons\u00e1veis, que colaboram connosco, com as quais trabalhamos e para as quais trabalhamos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas havia casos de pedofilia na Companhia de Jesus e era necess\u00e1rio resolver tamb\u00e9m esses casos?<\/em><\/p>\n<p>Em Portugal, que tiv\u00e9ssemos conhecimento, n\u00e3o. Este sistema n\u00e3o surgiu para responder a nenhum caso, mas como uma forma de criar uma cultura de cuidado e prote\u00e7\u00e3o nas nossas obras, melhorando pr\u00e1ticas que j\u00e1 existiam, mas torn\u00e1-las mais conscientes, levar as pessoas a refletirem sobre elas, para tamb\u00e9m de alguma forma poderem trabalhar mais as suas inten\u00e7\u00f5es no modo como est\u00e3o com aqueles que lhes s\u00e3o confiados, sejam crian\u00e7as, jovens ou adultos vulner\u00e1veis.<\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-128692-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/JMBrito_SPC.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/JMBrito_SPC.mp3\">https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/JMBrito_SPC.mp3<\/a><\/audio>\n<p><em>O sistema est\u00e1 a ser aplicado em quantas institui\u00e7\u00f5es e obras ligadas aos jesu\u00edtas?<\/em><\/p>\n<p>S\u00e3o mais ou menos 30 as institui\u00e7\u00f5es que est\u00e3o ligadas a este sistema. Algumas s\u00e3o efetivamente obras da Companhia de Jesus, outras est\u00e3o ligadas \u00e0 Companhia de Jesus por algum tipo de v\u00ednculo, como a nossa assist\u00eancia espiritual, e elas pr\u00f3prias tamb\u00e9m aceitaram integrar este sistema e desejaram fazer este caminho de prote\u00e7\u00e3o, de preven\u00e7\u00e3o e de cuidado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E como \u00e9 que funciona, na pr\u00e1tica?<\/em><\/p>\n<p>O \u2018Sistema de Prote\u00e7\u00e3o e Cuidado de Menores e Pessoas Vulner\u00e1veis\u2019 primeiro d\u00e1 a conhecer \u00e0s pessoas qual \u00e9 que \u00e9 a legisla\u00e7\u00e3o e identifica os comportamentos que devem ser positivos na rela\u00e7\u00e3o com as pessoas que nos s\u00e3o confiadas. Um dos processos que se faz quando se implementa este sistema \u00e9 criar mapas de risco, perceber onde \u00e9 que na nossa a\u00e7\u00e3o pode haver ocasi\u00f5es que, de alguma forma, pela natureza dessas ocasi\u00f5es, possam ser suscet\u00edveis de criar alguma situa\u00e7\u00e3o menos clara. Para que nesses momentos possa estar claro qual \u00e9 que \u00e9 a atitude construtiva, de uma rela\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel com as pessoas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E quais s\u00e3o as indica\u00e7\u00f5es que o sistema prop\u00f5e?<\/em><\/p>\n<p>Prop\u00f5e sobretudo que as rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas possam ser rela\u00e7\u00f5es de cuidado, que se possam desfazer ambiguidades, situa\u00e7\u00f5es em que \u00e0s vezes possa ficar pouco claro quais s\u00e3o as fronteiras saud\u00e1veis de relacionamento, o modo como, por exemplo, se aborda as pessoas nas redes sociais, para dar assim um exemplo muito concreto. Mas, com a preocupa\u00e7\u00e3o de perceber que h\u00e1 indica\u00e7\u00f5es que est\u00e3o no manual deste sistema que depois, na pr\u00e1tica, t\u00eam que ser percebidas em cada obra, dentro do seu contexto, como \u00e9 que s\u00e3o aplicadas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>SPC: Um sistema para promover rela\u00e7\u00f5es saud\u00e1veis<\/strong><\/p>\n<p><em>H\u00e1 preocupa\u00e7\u00e3o em indicar palavras que n\u00e3o devem ser usadas, comportamentos que n\u00e3o devem ser praticados?<\/em><\/p>\n<p>Este sistema \u00e9 um sistema abrangente, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 relativamente a esta quest\u00e3o de eventuais abusos sexuais, mas as quest\u00f5es do bullying, de algum tipo de linguagem verbal que possa ser entendida como uma linguagem violenta, n\u00e3o pr\u00f3pria. Ou seja, \u00e9 muito mais abrangente e resulta da nossa preocupa\u00e7\u00e3o de criarmos ambientes que sejam humanamente saud\u00e1veis, construtivos do ponto de vista afetivo. N\u00e3o \u00e9 nossa preocupa\u00e7\u00e3o que as pessoas deixem de ter uma rela\u00e7\u00e3o que seja saud\u00e1vel, de cuidado. Naturalmente que a proximidade faz parte tamb\u00e9m daquilo que \u00e9 a nossa miss\u00e3o, ao termos estas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Nos col\u00e9gios, por exemplo, as rela\u00e7\u00f5es implicam proximidade?\u00a0 <\/em><\/p>\n<p>Claro! E cuidado. Um pastor n\u00e3o pode deixar de ser pastor, um professor n\u00e3o pode deixar de ter, com os seus alunos, em algum momento, express\u00e3o de que os compreende. Isto n\u00e3o \u00e9 congelar os afetos, n\u00e3o \u00e9 essa a ideia, de maneira nenhuma. \u00c9 viver os afetos de uma forma que seja saud\u00e1vel e humanizadora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O sistema prev\u00ea a &#8220;cuidadosa sele\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o&#8221; de todos aqueles que trabalham nas vossas obras, mas tamb\u00e9m sublinha que deve haver &#8220;aten\u00e7\u00e3o e resposta atempada e adequada&#8221; a todas as suspeitas. Como \u00e9 que atuam no caso de haver uma den\u00fancia ou uma suspeita?<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 um protocolo interno do modo como \u00e9 que isto se faz. H\u00e1 delegados em cada uma das obras, que est\u00e3o preparados, do ponto de vista da forma\u00e7\u00e3o, para receber estas den\u00fancias. Depois, se se percebe que \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o grave que possa configurar um crime, h\u00e1 a obrigatoriedade de comunicar \u00e0s autoridades competentes&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_128694\" aria-describedby=\"caption-attachment-128694\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/jose_maria_brito_rr1.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-128694\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/jose_maria_brito_rr1-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/jose_maria_brito_rr1-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/jose_maria_brito_rr1-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/jose_maria_brito_rr1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/jose_maria_brito_rr1-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/jose_maria_brito_rr1.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-128694\" class=\"wp-caption-text\">Foto In\u00eas Rocha\/Renascen\u00e7a &#8211; Padre Jos\u00e9 Maria Brito, diretor do Ponto SJ<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>\u00c0s autoridades eclesi\u00e1sticas e civis?<\/em><\/p>\n<p>Sim, naquilo que tem a ver com aquilo que \u00e9 tamb\u00e9m a legisla\u00e7\u00e3o a que estamos obrigados. O sistema tamb\u00e9m come\u00e7a por fazer justamente o elenco, quer da legisla\u00e7\u00e3o can\u00f3nica, quer civil, a que estamos obrigados. Por um lado por sermos institui\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 Igreja, e por outro por sermos institui\u00e7\u00f5es que est\u00e3o inseridas na sociedade, e no contexto da sociedade portuguesa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Uma das cr\u00edticas que tem sido feita \u00e0s dioceses portuguesas tem a ver com a comunica\u00e7\u00e3o dos casos \u00e0s autoridades, porque n\u00e3o t\u00eam atuado todas da mesma forma. No vosso caso h\u00e1 essa obrigatoriedade expl\u00edcita?<\/em><\/p>\n<p>Que resulta tamb\u00e9m da lei que regula a atividade das institui\u00e7\u00f5es que t\u00eam a seu cargo crian\u00e7as e jovens, institui\u00e7\u00f5es educativas. E n\u00f3s, como \u00e9 \u00f3bvio, n\u00e3o podemos estar fora dessa legisla\u00e7\u00e3o. Mas, eu acho que tamb\u00e9m decorre da consci\u00eancia que temos de ter de que vivemos numa sociedade e n\u00e3o somos auto-suficientes. Naturalmente que h\u00e1 quest\u00f5es que n\u00e3o deixam de dizer respeito \u00e0 pr\u00f3pria Igreja, mas n\u00f3s vivemos numa sociedade e temos que tamb\u00e9m saber colaborar. Ali\u00e1s, a quest\u00e3o da colabora\u00e7\u00e3o com as autoridades est\u00e1 definida desde que o Papa Bento XVI definiu qual devia ser a postura da Igreja neste campo, uma colabora\u00e7\u00e3o ativa com as autoridades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Est\u00e3o a fazer alguma monitoriza\u00e7\u00e3o da aplica\u00e7\u00e3o deste sistema? H\u00e1 relat\u00f3rios da sua aplica\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Est\u00e1 previsto que cada obra fa\u00e7a um relat\u00f3rio anual, e depois haver um relat\u00f3rio anual geral. O sistema come\u00e7ou a ser posto em pr\u00e1tica no \u00faltimo ver\u00e3o, e agora em abril haver\u00e1 uma reuni\u00e3o de todos os delegados das obras que assumiram este protocolo, este sistema de prote\u00e7\u00e3o e cuidado, para fazerem uma avalia\u00e7\u00e3o e eventualmente identificarem o que \u00e9 que ter\u00e1 corrido melhor ou pior, o que \u00e9 que \u00e9 preciso melhorar. Isto \u00e9 um ponto para n\u00f3s importante. Temos perfeita consci\u00eancia de que estamos s\u00f3 a come\u00e7ar um caminho, todos, e por isso h\u00e1 muito por fazer em tudo. Certamente que ser\u00e3o detetadas dimens\u00f5es que t\u00eam que ser mais cuidadas, melhoradas, na forma\u00e7\u00e3o que se d\u00e1 \u00e0s pr\u00f3prias pessoas, na nossa capacidade de desenvolvermos mais a capacidade de escuta. H\u00e1 muita coisa que ter\u00e1 de ser melhorada, n\u00e3o temos minimamente a pretens\u00e3o de achar que j\u00e1 fizemos o que t\u00ednhamos que fazer, de maneira nenhuma. H\u00e1 muito por fazer, e n\u00f3s temos que ter a humildade de perceber que n\u00e3o \u00e9 por implementarmos um relat\u00f3rio destes que, de repente, ficamos com o mapa total da realidade, que ficamos a conhecer tudo, ou que fica tudo resolvido. \u00c9 um longo caminho. Como disse o padre Hans Zollner (o jesu\u00edta respons\u00e1vel pela organiza\u00e7\u00e3o da Cimeira do Vaticano) na entrevista que deu ao Ponto SJ, &#8216;isto n\u00e3o \u00e9 nem um sprint, nem uma maratona&#8217;, \u00e9 um caminho mais longo. Acho que foi um bom alerta, dizer que nem sequer \u00e9 uma maratona, \u00e9 muito mais que uma maratona. Ent\u00e3o, acho que temos que entrar neste processo, que \u00e9 tamb\u00e9m um processo de verdade, de cuidado, com essa consci\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O sistema fala de \u2018prote\u00e7\u00e3o de menores e pessoas vulner\u00e1veis\u2019. Houve a preocupa\u00e7\u00e3o, intencional ou n\u00e3o, de n\u00e3o usar a express\u00e3o &#8216;abuso sexual de menores&#8217;?<\/em><\/p>\n<p>Justamente. Porque, primeiro, o sistema n\u00e3o se restringe a essa quest\u00e3o, como eu expliquei h\u00e1 pouco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas, isso n\u00e3o \u00e9 manter a tal cortina de fumo sobre o problema, que o Papa tanto denuncia?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, at\u00e9 porque se virmos, no documento chama-se abuso \u00e0quilo que \u00e9 abuso, procura-se definir os termos com clareza, procura-se identificar que situa\u00e7\u00f5es \u00e9 que s\u00e3o abusivas, que situa\u00e7\u00f5es \u00e9 que podem ser de bullying, distinguir aquilo que tem que ser distinguido, mas tamb\u00e9m entender que a nossa miss\u00e3o n\u00e3o se cinge apenas a evitar que haja abusos, \u00e9 criar uma cultura que v\u00e1 para al\u00e9m disso, que tenha esta preocupa\u00e7\u00e3o de criar ambientes que, do ponto de vista do desenvolvimento humano e pessoal de cada uma das pessoas que nos est\u00e1 confiada, sejam potenciadores disso e que olhem para outras dimens\u00f5es da pessoa, que n\u00e3o nos centremos e absolutizemos esta quest\u00e3o. Acho que revela que esta \u00e9 uma oportunidade, partindo daquilo que nos foi pedido, de ir mais longe. Se nos centr\u00e1ssemos s\u00f3 nisso est\u00e1vamos, a\u00ed sim, a querer quase cumprir um requisito, limpar a nossa imagem diante da sociedade, e n\u00e3o perceber que isto \u00e9 um caminho muito mais longo, e que tem muito mais implica\u00e7\u00f5es do que s\u00f3 resolver aqui um problema.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 uma cultura que \u00e9 preciso implementar?<\/em><\/p>\n<p>Exatamente, essa \u00e9 a express\u00e3o. Uma cultura de verdade, de transpar\u00eancia de liberdade, para que as pessoas, quando sentirem que t\u00eam alguma coisa a dizer, poderem dizer. E esse \u00e9 um caminho longo que ainda temos que fazer, perceber como \u00e9 que se cria este ambiente de liberdade e de escuta, que facilite efetivamente que as pessoas possam dizer o que t\u00eam a dizer com liberdade, sentindo que v\u00e3o ser escutadas profundamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O combate aos abusos parece ser uma aposta a longo prazo da Companhia de Jesus, que acaba de definir as prioridades para os pr\u00f3ximos 10 anos, e entre essas prioridades est\u00e1 a de eliminar a &#8216;chaga dos abusos&#8217;, como \u00e9 identificada.<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma prioridade por si s\u00f3, est\u00e1 no \u00e2mbito do nosso trabalho com a juventude. \u00c9 um \u00e2mbito mais geral, mas que se liga a outras prioridades, por exemplo \u00e0 profundidade da vida espiritual, e isto \u00e9 mais abrangente do que a Companhia de Jesus. Aquilo que n\u00f3s percebemos, daquilo que \u00e9 esta chaga na Igreja, \u00e9 que quando adoecemos do ponto de vista da nossa vida espiritual, entramos numa situa\u00e7\u00e3o de maior perigo, de alguma forma de maior risco de que estas coisas possam acontecer. Quando somos capazes de proporcionar na forma\u00e7\u00e3o humana, na forma\u00e7\u00e3o afetiva, mas tamb\u00e9m na exig\u00eancia de vida espiritual de quem faz caminho na Igreja, servindo a Igreja no sacerd\u00f3cio e na vida religiosa, quando estas dimens\u00f5es s\u00e3o bem cuidadas, n\u00f3s estamos claramente tamb\u00e9m a fazer prote\u00e7\u00e3o e preven\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 muito importante. Por isso, esta preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o que tenha que ser vista isolada, naquilo que s\u00e3o agora as prioridades da Companhia de Jesus. A nossa atividade tem que ter este aspeto em conta, mas \u00e9 um bocadinho mais abrangente e toca v\u00e1rias dimens\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falemos ent\u00e3o da Cimeira que est\u00e1 a decorrer no Vaticano, sobre a prote\u00e7\u00e3o dos menores na Igreja. Como sacerdote que expectativas tem relativamente a este encontro? O que \u00e9 que pode mudar, e o que \u00e9 que espera que mude?<\/em><\/p>\n<p>Aquilo que realmente gostava que este encontro nos pudesse convidar \u00e9 a esta atitude de humildade, de contri\u00e7\u00e3o, de perceber que todos temos de fazer aqui caminho, e sobretudo que houvesse uma maior consci\u00eancia da responsabilidade de cada Igreja local, de cada comunidade local, seja uma ordem religiosa ou uma par\u00f3quia, e tamb\u00e9m de cada crist\u00e3o neste caminho, lembrando aquilo que o Papa Francisco dizia na carta ao povo de Deus, que cada um de n\u00f3s, seja qual for a sua forma de estar e participar na vida da Igreja, \u2018\u00e9 respons\u00e1vel por fazer caminho\u2019. Eu acho que isto \u00e9 muito importante.<\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-128692-2\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/JMBrito_Reincidencia.mp3?_=2\" \/><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/JMBrito_Reincidencia.mp3\">https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/JMBrito_Reincidencia.mp3<\/a><\/audio>\n<p><em>Na abertura da Cimeira o Papa afirmou que sente o &#8220;peso da responsabilidade&#8221; relativamente ao problema dos abusos e que tem de se ir mais longe, porque os pr\u00f3prios crentes exigem isso.<\/em><\/p>\n<p>Os pr\u00f3prios crentes, e eu acho que o Esp\u00edrito Santo nos grita isso. A sociedade tamb\u00e9m exige. N\u00f3s, nas obras que nos s\u00e3o confiadas, ajudamos as crian\u00e7as a tomarem consci\u00eancia de como \u00e9 que elas pr\u00f3prias podem perceber situa\u00e7\u00f5es de perigo a este n\u00edvel, ajudamos as pr\u00f3prias fam\u00edlias a ganharem esse processo de consciencializa\u00e7\u00e3o. Acho que estamos a ajudar n\u00e3o s\u00f3 a Igreja, mas toda a sociedade, e \u00e9 um servi\u00e7o tamb\u00e9m que podemos fazer. Por outro lado, tem de ficar claro que a nossa primeira preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 de empatia, de solidariedade, de responsabilidade para com as v\u00edtimas, isso \u00e9 muito claro, mas ao mesmo tempo perceber que membros da Igreja que tenham cometido abusos, que tenham at\u00e9 inclusivamente cumprido as suas penas, quer can\u00f3nicas quer civis, que continuamos a ser tamb\u00e9m respons\u00e1veis por eles. Acho que isso tamb\u00e9m \u00e9 uma consci\u00eancia que temos que criar, ajudar essas pessoas a criarem mecanismos de controle interno, que as fa\u00e7am perceber os sinais de alarme, porque o perigo de incid\u00eancia \u00e9 real, mas sem que fiquem penalizadas toda a vida. A pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o tem de sentir que \u00e9 respons\u00e1vel por aquela pessoa, para a proteger e acompanhar, para que ela possa n\u00e3o voltar a reincidir, e tamb\u00e9m para proteger aqueles que pudessem ser v\u00edtimas de uma eventual reincid\u00eancia. Eu acho que \u00e9 muito importante termos esta preocupa\u00e7\u00e3o. Se este encontro nos ajudar a tomar mais consci\u00eancia: primeiro, de que o caminho \u00e9 longo, e sermos pacientes neste caminho; segundo, de n\u00e3o termos medo da verdade e de cada um de n\u00f3s poder dar um contributo para que essa verdade possa ser transparente aos olhos de todos, ent\u00e3o acho que teremos ganho muito com isso.<\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-128692-3\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/JMBrito_Media.mp3?_=3\" \/><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/JMBrito_Media.mp3\">https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/JMBrito_Media.mp3<\/a><\/audio>\n<p><em>A tens\u00e3o medi\u00e1tica em que tudo isto est\u00e1 a acontecer, ser\u00e1 uma vantagem, um contributo para resolver o problema, ou pode manter a fragilidade em que o assunto \u00e9 muitas vezes cuidado no interior da Igreja Cat\u00f3lica?<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que h\u00e1 aqui uma verdade, que o pr\u00f3prio o Papa j\u00e1 o disse &#8211; se n\u00e3o fosse toda a press\u00e3o medi\u00e1tica, a Igreja n\u00e3o teria iniciado o caminho de convers\u00e3o que iniciou, e isso acho que \u00e9 absolutamente claro. O Papa quando agradeceu aos jornalistas certamente n\u00e3o o fez por acaso. A verdade que foi revelada pelo jornais obrigou-nos a n\u00e3o fugirmos de olhar para esta realidade. Agora, este encontro n\u00e3o \u00e9 um evento medi\u00e1tico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Nem \u00e9 uma presta\u00e7\u00e3o de contas com os m\u00e9dia?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o. A nossa primeira presta\u00e7\u00e3o de contas \u00e9 com as v\u00edtimas e com aqueles que sofreram&#8230; porque as v\u00edtimas n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 as pessoas que foram abusadas, s\u00e3o as suas fam\u00edlias, os seus amigos, toda a sua envolvente. Por isso a nossa primeira responsabilidade \u00e9 para com essas pessoas, de poder de alguma forma iniciar com elas um caminho de as ajudar tamb\u00e9m a serem curadas naquilo que s\u00e3o as suas feridas. E esta responsabilidade ser uma responsabilidade que \u00e9 de toda a comunidade, de cada um de n\u00f3s, acho que \u00e9 muito importante. A nossa responsabilidade continuar\u00e1 para al\u00e9m das manchetes nos jornais, mas ao mesmo tempo temos que ter a humildade de agradecer \u00e0s manchetes dos jornais que nos ajudaram a identificar casos e a olhar para aquilo que aconteceu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E a n\u00e3o ter receio de responder quando h\u00e1 perguntas?<\/em><\/p>\n<p>Sim. Mas tamb\u00e9m a n\u00e3o ter a pretens\u00e3o de saber tudo. Eu n\u00e3o sei de tudo, ningu\u00e9m sabe tudo sobre esta realidade, at\u00e9 pela pr\u00f3pria natureza destes crimes. Sabemos que muitas vezes o que acontece \u00e9 que \u00e9 muito dif\u00edcil para as v\u00edtimas falarem sobre este assunto. \u00c9 muito normal que haja situa\u00e7\u00f5es em que estes casos ficaram ocultados pela pr\u00f3pria dificuldade das v\u00edtimas, para al\u00e9m daquilo que foi a responsabilidade da Igreja em ocultar situa\u00e7\u00f5es destas, que \u00e9 uma das coisas que temos que efetivamente nos penitenciar. Mas, saber que muitas vezes estas coisas tamb\u00e9m n\u00e3o se souberam porque, para as v\u00edtimas, n\u00e3o foi poss\u00edvel encontrar dentro da Igreja, e dentro do espa\u00e7o das suas rela\u00e7\u00f5es, um lugar onde pudessem expressar a sua dor.<\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-128692-4\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/JMBrito_vitimas.mp3?_=4\" \/><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/JMBrito_vitimas.mp3\">https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/JMBrito_vitimas.mp3<\/a><\/audio>\n<p><em>Antes de partir para Roma, para participar na Cimeira do Vaticano,\u00a0 D. Manuel Clemente disse que se encontrou com uma v\u00edtima de abusos. Que sinal \u00e9 esse, e como \u00e9 que olha a forma como em Portugal o assunto est\u00e1 a ser tratado?<\/em><\/p>\n<p>Nesse ponto acho muito positivo que esse encontro tenha acontecido, mas tamb\u00e9m sinto com verdade que todos n\u00f3s temos de perceber como \u00e9 que vamos ser capazes de gerar nas nossas comunidades, na nossa Igreja, uma cultura de escuta atenta e humilde da dor das v\u00edtimas. Acho que ainda temos caminho a fazer, todos, a esse n\u00edvel, qualquer comunidade, ordem religiosa, diocese. E n\u00e3o adianta muito estarmos a dizer quem \u00e9 que tem de fazer primeiro, \u00e9 perceber que este \u00e9 um caminho que todos temos de fazer, em conjunto. A minha experi\u00eancia deste assunto tem sido com algumas pessoas da Igreja, de movimentos diferentes, fazer conversa, partilha, que nos tem ajudado a sermos mais sens\u00edveis a este assunto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 essa a condi\u00e7\u00e3o para devolver a confian\u00e7a a todas as pessoas?<\/em><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m. Mas, ao mesmo tempo saber que este n\u00e3o \u00e9 um processo autom\u00e1tico, e que \u00e9 normal que haja pessoas que ainda sintam alguma resist\u00eancia a recuperar essa confian\u00e7a, e por isso vamos ter que fazer esse caminho de humildade. E perceber que aquilo que isto possa trazer para cada um de n\u00f3s de inc\u00f3modo, de algum sofrimento, \u00e9 absolutamente incompar\u00e1vel com o sofrimento das v\u00edtimas. Por isso acho que a n\u00e3o vitimiza\u00e7\u00e3o e a humildade s\u00e3o, neste caminho, duas atitudes a que estamos obrigados como crist\u00e3os.<\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-128692-5\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/JMBrito_sociedade.mp3?_=5\" \/><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/JMBrito_sociedade.mp3\">https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/JMBrito_sociedade.mp3<\/a><\/audio>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA e \u00e0 Renascen\u00e7a, o diretor do Ponto SJ, diz\u00a0que a preven\u00e7\u00e3o dos casos de abuso sobre menores \u00e9 \u00abum caminho longo\u00bb e pressup\u00f5e \u00abn\u00e3o ter medo da verdade\u00bb. 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