{"id":128003,"date":"2019-02-15T08:15:48","date_gmt":"2019-02-15T08:15:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=128003"},"modified":"2019-07-04T17:01:14","modified_gmt":"2019-07-04T16:01:14","slug":"estado-social-so-tera-futuro-com-mudancas-e-o-pensamento-catolico-pode-ajudar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/estado-social-so-tera-futuro-com-mudancas-e-o-pensamento-catolico-pode-ajudar\/","title":{"rendered":"Estado Social s\u00f3 ter\u00e1 futuro com mudan\u00e7as. E o pensamento cat\u00f3lico pode ajudar (c\/\u00e1udio)"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_128010\" aria-describedby=\"caption-attachment-128010\" style=\"width: 2048px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-128010 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/IMG_6635.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"1366\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/IMG_6635.jpg 2048w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/IMG_6635-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/IMG_6635-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/IMG_6635-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/IMG_6635-1080x720.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-128010\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR<\/figcaption><\/figure>\n<p>O padre Jorge Teixeira da Cunha, da Diocese do Porto, \u00e9 especialista em Teologia Moral e professor na Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa. Num momento em que se sucedem greves e conflitos envolvendo trabalhadores do Estado e do Governo, procuramos analisar a realidade \u00e0 luz da Doutrina Social da Igreja, em entrevista conjunta da Ag\u00eancia Ecclesia e da Renascen\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por \u00c2ngela Roque (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ag\u00eancia Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Foto:\u00a0Mar\u00edlia Freitas<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>A fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica est\u00e1 em greve, os professores j\u00e1 amea\u00e7am com novas paralisa\u00e7\u00f5es, para o final do ano levito, e os enfermeiros prosseguem com a greve cir\u00fargica, que j\u00e1 levou o governo a recorrer \u00e0 requisi\u00e7\u00e3o civil, que os sindicatos contestaram. Como \u00e9 que tem acompanhado, em concreto, este protesto?<\/em><\/p>\n<p>Pessoalmente, tenho acompanhado com a maior aten\u00e7\u00e3o, uma vez que se trata de trabalhadores que t\u00eam as suas raz\u00f5es para fazerem o que fazem. Do meu ponto de vista pessoal, tenho sempre tend\u00eancia para me colocar do lado dos trabalhadores, porque se se metem nisso, pacificamente, ordenadamente, \u00e9 porque t\u00eam raz\u00f5es para tal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Sendo a sa\u00fade uma \u00e1rea muito sens\u00edvel, h\u00e1 quem se interrogue sobre a \u00e9tica desta greve. Pode haver aqui, de facto, um conflito entre o direito \u00e0 greve, de uns, e o direito aos cuidados de sa\u00fade, de outros?<\/em><\/p>\n<p>De acordo, isso \u00e9 outro n\u00edvel de leitura. A\u00ed, realmente, a Doutrina Social da Igreja n\u00e3o subscreve muito o que chama \u201cdireito \u00e0 greve\u201d. A greve \u00e9 uma prerrogativa que os trabalhadores t\u00eam, que \u00e9 irreprim\u00edvel, mas a greve \u00e9 sempre uma subvers\u00e3o do Direito, porque \u00e9 deixar de cumprir aquilo que s\u00e3o as obriga\u00e7\u00f5es dos trabalhadores. Portanto, \u00e9 um direito na medida em que tem um regulamento e n\u00e3o pode ser reprimida para l\u00e1 de certos pontos, mas uma greve \u00e9 sempre uma greve, causa inc\u00f3modos, de toda a maneira.<\/p>\n<p>Do ponto de vista \u00e9tico, teremos de nos situar no \u00e2mbito do funcionamento normal das institui\u00e7\u00f5es e creio que a\u00ed, o que a Doutrina Social da Igreja tem a dizer, mais imediatamente, \u00e9 que um Estado Social tem imensas dificuldades em funcionar. Porque num regime democr\u00e1tico, temos dificuldades em n\u00f3s entendermos sobre as necessidades, sobre os quereres das pessoas.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 mal, no fundo, \u00e9 n\u00f3s colocarmos o direito \u00e0 sa\u00fade dentro de um universo estatal. O Estado, compete-lhe prover \u00e0 sa\u00fade de todos os cidad\u00e3os, mas o exerc\u00edcio normal do direito \u00e0 sa\u00fade e do tratamento da sa\u00fade deveria ser, preferencialmente, do \u00e2mbito cooperativo. Portanto, a sociedade civil \u00e9 que \u00e9 o sujeito do tratamento da sa\u00fade das pessoas. Seria no \u00e2mbito social e civil que se devia situar isso. O Estado, que funciona como \u00faltimo garante de que todas as pessoas tenham sa\u00fade, n\u00e3o deveria ser tamb\u00e9m, primariamente, o principal prestador de cuidados de sa\u00fade.<\/p>\n<p>\u00c9 disso que v\u00eam estes conflitos insan\u00e1veis: o Estado tem de ser para todos os cidad\u00e3os, tem de prover para todos. Se se coloca no lugar do empres\u00e1rio, vai encontrar os trabalhadores a funcionarem como tal e a fazer greve contra o Estado, que \u00e9 o seu empres\u00e1rio. A\u00ed \u00e9 que est\u00e1 o problema \u00e9tico, digamos, mais profundo do assunto. Do ponto de vista do universo humanista da Doutrina Social da Igreja.<\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-128003-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Saude1.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Saude1.mp3\">https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Saude1.mp3<\/a><\/audio>\n<p><em>A\u00ed h\u00e1 um princ\u00edpio que \u00e9 o da Subsidiariedade, recordado muitas vezes pela Igreja Cat\u00f3lica na sua rela\u00e7\u00e3o com os v\u00e1rios governos: n\u00e3o sobrepor a iniciativa estatal ao que j\u00e1 \u00e9 da iniciativa da sociedade civil.<\/em><\/p>\n<p>Sim, compete \u00e0 sociedade com as suas organiza\u00e7\u00f5es, com os corpos interm\u00e9dios, prover \u00e0 sa\u00fade. N\u00f3s, hoje, na forma de organiza\u00e7\u00e3o do Estado, n\u00e3o temos maneira de nos pormos de acordo sobre as presta\u00e7\u00f5es, os direitos, os desejos das pessoas. \u00c9 imposs\u00edvel. Por isso, temos de deixar isso a um \u00e2mbito interm\u00e9dio.<\/p>\n<p>As pessoas que querem um certo tipo de presta\u00e7\u00f5es\u2026 Por exemplo: uns querem aborto, outros n\u00e3o; uns querem anticoncetivos, outros n\u00e3o querem; ou ajuda m\u00e9dica \u00e0 conce\u00e7\u00e3o em certas condi\u00e7\u00f5es\u2026 Isso \u00e9 imposs\u00edvel estarmos todos de acordo, nessa mat\u00e9ria. Nesse sentido, dizemos: vamos ter de arranjar uma arbitragem para todas essas necessidades ou quereres, que s\u00e3o contradit\u00f3rios.<\/p>\n<p>O Estado tem de arbitrar todos esses interesses, fazer justi\u00e7a a todos os grupos, n\u00e3o pode deixar nenhum grupo para tr\u00e1s, nem pode optar por nenhum dos grupos que est\u00e3o a exprimir a sua leg\u00edtima forma de funcionar, o seu leg\u00edtimo querer, e o seu leg\u00edtimo direito, at\u00e9, de querer de uma certa maneira.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas \u00e0s vezes o Estado parece incapaz de sanar os conflitos. Por exemplo, no caso dos professores, que amea\u00e7am agora n\u00e3o dar aulas ao 12.\u00ba ano, no terceiro per\u00edodo, nem fazer avalia\u00e7\u00f5es finais, se o Governo n\u00e3o negociar a recupera\u00e7\u00e3o do tempo de servi\u00e7o at\u00e9 abril. Ser\u00e1 que os sindicatos t\u00eam apenas uma vis\u00e3o corporativista das quest\u00f5es? <\/em><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o teria coragem para censurar os sindicatos na procura dos seus leg\u00edtimos interesses. N\u00e3o teria, porque os sindicatos t\u00eam um papel muito relevante na defesa dos trabalhadores.<\/p>\n<p>A nossa organiza\u00e7\u00e3o escolar colocou-se na perspetiva de gerar conflitos insan\u00e1veis, porque se transformou no \u00fanico prestador de ensino, n\u00e3o \u00e9? Portanto, colocou-se na perspetiva de ter conflitos insan\u00e1veis. O que se coloca hoje em cima da mesa \u00e9 a evolu\u00e7\u00e3o da nossa organiza\u00e7\u00e3o, para que possamos dizer: bom, o sujeito da Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 a sociedade civil, \u00e9 a fam\u00edlia, s\u00e3o os corpos interm\u00e9dios. Ao Estado compete garantir que todas as pessoas v\u00e3o \u00e0 escola, que todas t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de ir \u00e0 escola, que todas s\u00e3o educadas, mas n\u00e3o lhe compete ser o \u00fanico prestador, e esse \u00e9 que \u00e9 o problema, creio eu.<\/p>\n<p>O Estado torna-se um jogador, em vez de ser um \u00e1rbitro.<\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-128003-2\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Arbitragem.mp3?_=2\" \/><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Arbitragem.mp3\">https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Arbitragem.mp3<\/a><\/audio>\n<p><em>Seria justo dizer que essas refer\u00eancias fundamentais da Doutrina Social da Igreja, quando aplicadas \u00e0 vida da sociedade, ajudariam a aperfei\u00e7oar o que \u00e9 hoje o Estado Social?<\/em><\/p>\n<p>Completamente. O Estado Social torna-se ingovern\u00e1vel se n\u00f3s n\u00e3o come\u00e7armos a pens\u00e1-lo na base da subsidiariedade. \u00c9 um problema geral em todo o lugar. Na Europa, os pa\u00edses do sul t\u00eam esse problema para resolver. Os do norte j\u00e1 o resolveram, mas os pa\u00edses do sul, de tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, por estranho que pare\u00e7a, s\u00e3o os que t\u00eam uma organiza\u00e7\u00e3o mais pensada ideologicamente. N\u00e3o sei, ter\u00edamos de pensar quais s\u00e3o as ra\u00edzes da nossa evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa evolu\u00e7\u00e3o que tivemos levou-nos a esta situa\u00e7\u00e3o em que o nosso Estado se colocou de ambos os lados da barricada: por um lado, tem de garantir o direito \u00e0 greve; por outro lado, tem de garantir que a Educa\u00e7\u00e3o funciona. Isso \u00e9 um conflito insan\u00e1vel, digamos assim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Existe em Portugal um afastamento dos setores ligados ao que se chama Democracia Crist\u00e3 do mundo sindical? <\/em><\/p>\n<p>O mundo sindical n\u00e3o se coloca fora, creio eu, vem principalmente da Doutrina Social da Igreja e tamb\u00e9m do mundo socialista, de acordo. Mas n\u00e3o se coloca fora, foi a evolu\u00e7\u00e3o que n\u00f3s tivemos.<\/p>\n<p>Houve a tend\u00eancia de pensar que o Estado era o principal sujeito da Educa\u00e7\u00e3o, ora, n\u00f3s estamos a ter as consequ\u00eancias disso, n\u00e3o \u00e9? Temos l\u00f3bis poderos\u00edssimos que assumem, tendencialmente, o poder de controlar o pr\u00f3prio Estado central. O Estado agora est\u00e1 a reagir, a p\u00f4r em causa direitos, porque a requisi\u00e7\u00e3o civil \u00e9 a greve ao contr\u00e1rio, \u00e9 o direito a funcionar ao contr\u00e1rio, um mecanismo que aparece em cena quando h\u00e1 um conflito insan\u00e1vel. \u00c9 direito contra direito, ou melhor, eu diria que \u00e9 a subvers\u00e3o do direito contra a subvers\u00e3o do direito, na medida em que o Estado de direito n\u00e3o est\u00e1 a funcionar na sua base.<\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-128003-3\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Educacao.mp3?_=3\" \/><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Educacao.mp3\">https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Educacao.mp3<\/a><\/audio>\n<p><em>H\u00e1 necessidade, nesta altura, de se refletir sobre o futuro do sindicalismo, sobre a validade do instrumento da greve, por exemplo?<\/em><\/p>\n<p>Sim. A greve \u00e9 indiscut\u00edvel, no sentido de ser uma \u00faltima raz\u00e3o, um \u00faltimo protesto, contra um direito esmagado. Portanto, a greve \u00e9 indiscut\u00edvel nesse ponto de vista.<\/p>\n<p>N\u00e3o pensada como um direito, porque um direito \u00e9 uma coisa tecnicamente diferente, mas \u00e9 uma garantia. Toda a pessoa pode protestar, quando o seu direito estiver a ser desqualificado, n\u00e3o estiver a ser respeitado. Toda a pessoa tem direito a um ato de insubmiss\u00e3o \u00faltimo, que \u00e9 o que a greve representa para os trabalhadores. Depois, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma greve que n\u00e3o tenha pressupostos pol\u00edticos: tem garantias, hoje, mas no s\u00e9culo XIX as pessoas eram esmagadas.<\/p>\n<p>Lembrem-se daquela hist\u00f3ria de uma f\u00e1brica, nos Estados Unidos na Am\u00e9rica, em que as senhoras morreram l\u00e1 dentro, quando pegaram fogo ao edif\u00edcio. N\u00f3s hoje temos mecanismos, h\u00e1 um direito \u00e0 greve porque esta se encontra regulamentada e n\u00f3s n\u00e3o calcamos certos n\u00edveis de respeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas a realidade pol\u00edtica e sindical est\u00e1, de facto, em mudan\u00e7a. Em muitos pa\u00edses t\u00eam surgido movimento c\u00edvicos, que j\u00e1 t\u00eam peso e representa\u00e7\u00e3o parlamentar, como em Espanha, com o \u2018Podemos\u2019 e o \u2018Ciudadanos\u2019, ou at\u00e9 em Portugal, com o PAN\u2026 Em Fran\u00e7a o movimento \u2018Coletes amarelos\u2019 ultrapassou o tradicional dom\u00ednio dos sindicatos nos protesto de rua\u2026 isto tamb\u00e9m merece um olhar atento da Igreja, \u00e0 luz da sua Doutrina Social?<\/em><\/p>\n<p>Sim, porque o movimento sindical hoje funciona n\u00e3o tanto em rela\u00e7\u00e3o aos empres\u00e1rios e patr\u00f5es, que havia, mas o Estado. H\u00e1 muitos trabalhadores que continuam a ser exploradas, o os sindicatos praticamente n\u00e3o olham, por exemplo, para os trabalhadores dos sistemas de sa\u00fade n\u00e3o-estatais. Os nossos enfermeiros fazem greve porque est\u00e3o maltratados no Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade, ganham pouco, mas ainda ganham menos nos sistemas de sa\u00fade n\u00e3o-estatais. E o mesmo na Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por isso, o sindicalismo devia voltar-se para este segundo aspeto, n\u00e3o s\u00f3 para o primeiro. Se houvesse uma greve de enfermeiros, em rela\u00e7\u00e3o aos grupos privados de sa\u00fade, ela seria muito bem-vinda, e era indiscut\u00edvel. A diferen\u00e7a entre a fatura\u00e7\u00e3o ao Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade, ao Estado, e aquilo que pagam \u00e0s pessoas \u00e9 completamente escandaloso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A transforma\u00e7\u00e3o social muito r\u00e1pida, no que diz respeito ao trabalho, tem tido, no Papa Francisco, um l\u00edder de pensamento e de reflex\u00e3o, sobre aquilo que a Doutrina Social tem e pode ensinar \u00e0 sociedade, sobre estes aspetos?<\/em><\/p>\n<p>Com certeza que sim! O Papa tem toda a raz\u00e3o em chamar a aten\u00e7\u00e3o para os prec\u00e1rios e eu acho que tamb\u00e9m era necess\u00e1rio chamar a aten\u00e7\u00e3o para aqueles que vivem ou que est\u00e3o associados ao trabalho tempor\u00e1rio, que \u00e9 outra realidade que est\u00e1 a crescer muito de volume na nossa sociedade, pessoas que se inscrevem em empresas que depois os colocam no trabalho. N\u00f3s n\u00e3o podemos deixar de ver o que \u00e9 que isso significa. O ponto de vista da Doutrina Social da Igreja \u00e9 sempre dizer que n\u00f3s n\u00e3o podemos ficar descansados enquanto houver um trabalhador que diga que \u00e9 explorado, e que seja realmente explorado.<\/p>\n<p>As formas de explora\u00e7\u00e3o hoje s\u00e3o uma certa precariedade &#8211; a precariedade dos pobres, porque h\u00e1 tamb\u00e9m a precariedade dos ricos, que essa n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria ser guardada &#8211; mas a precariedade dos pobres \u00e9 um problema.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores tempor\u00e1rios \u00e9 outra, e essa a\u00ed \u00e9 que a Igreja diz que tem de ser absolutamente vista e defendida pelo movimento sindical.<\/p>\n<p>O movimento sindical n\u00e3o pode ser um grupo de press\u00e3o dentro da Fun\u00e7\u00e3o P\u00fablica, tem de ser uma defesa dos trabalhadores onde e quando for necess\u00e1rio defender os direitos dos trabalhadores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>De que forma \u00e9 que todo o movimento social, pol\u00edtico, econ\u00f3mico, perdeu de vista um conceito fundamental da Doutrina Social da Igreja, que \u00e9 o bem comum?<\/em><\/p>\n<p>O bem comum \u00e9 uma categoria um pouco abstrata para pensar as coisas em concreto. Em \u00faltimo caso realmente \u00e9 o bem comum, a sociedade vive com esse horizonte.<\/p>\n<p>N\u00f3s temos de ter em conta outras categorias mais imediatas, como sejam as categorias da justi\u00e7a, da solidariedade, da inclus\u00e3o, da exclus\u00e3o, que nos falam de forma mais imediata acerca do funcionamento das sociedades. Mas realmente, em \u00faltimo caso, \u00e9 o bem comum, que \u00e9 aquilo que n\u00f3s podemos dizer como a sociedade enquanto dada a si mesmo, desde a gra\u00e7a divina, deixem-me falar assim, que \u00e9 dada por Deus a si mesmo.<\/p>\n<p>A express\u00e3o do bem comum \u00e9 por exemplo aquela que vem no livro dos Atos dos Ap\u00f3stolos &#8211; eles viviam todos em comum, quem tinha propriedades repartia. Ora, este \u00e9 o princ\u00edpio ordenador \u00faltimo da vida social, \u00e9 a sociedade enquanto dada a si mesma. Portanto, esse \u00e9 o horizonte que nos mobiliza para podermos pensar em imediato a justi\u00e7a, a justi\u00e7a de uma dada situa\u00e7\u00e3o, da situa\u00e7\u00e3o da greve dos enfermeiros, dos professores que, por sua vez, representam o imediato do funcionamento da nossa sociedade.<\/p>\n<p>S\u00e3o eles que se sentem mal, e, portanto, se se sentem mal n\u00f3s temos de ver se t\u00eam raz\u00e3o para isso e se o bem comum funciona, se n\u00e3o estamos a privilegiar o bem apenas de um grupo. A\u00ed compete ao Estado arbitrar para que um grupo que tem muita for\u00e7a, um grupo de press\u00e3o, n\u00e3o possa conduzir em favor do seu pr\u00f3prio querer aquilo que \u00e9 comum, aquilo que \u00e9 de todos.<\/p>\n<p>Isto \u00e9, que um grupo econ\u00f3mico n\u00e3o possa mobilizar em seu favor o fornecimento ao Sistema Nacional de Sa\u00fade, ou que um grupo de trabalho n\u00e3o possa bloquear completamente todo um sistema, que \u00e9 o que est\u00e1 a acontecer. E isso est\u00e1 a acontecer porque a evolu\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o da nossa sociedade o permitiu.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>A Doutrina Social da Igreja devia ser mais conhecida pelos pr\u00f3prios cat\u00f3licos?<\/em><\/p>\n<p>Pelos cat\u00f3licos e pelos outros. A Doutrina Social da Igreja \u00e9 a reflex\u00e3o \u00e9tica da Teologia e dos crist\u00e3os sobre a sociedade. \u00a0N\u00f3s temos, n\u00e3o s\u00f3 desde o s\u00e9culo XIX mas desde sempre, uma reflex\u00e3o sobre as exig\u00eancias \u00e9ticas do funcionamento da vida social, desde a B\u00edblia.<\/p>\n<p>A B\u00edblia \u00e9 talvez o primeiro testemunho da exist\u00eancia de uma considera\u00e7\u00e3o \u00e9tica da sociedade, desde o s\u00e9culo V ou VI antes de Cristo ou at\u00e9 antes disso. Portanto, \u00e9 um patrim\u00f3nio important\u00edssimo. Eu diria que \u00e9 a corrente humanista, de pensamento da sociedade, primeira que houve no Ocidente. Podem dizer que tamb\u00e9m houve na Gr\u00e9cia, mas n\u00e3o foi t\u00e3o explicita.<\/p>\n<p>\u00c9 o primeiro patrim\u00f3nio que n\u00f3s temos a orientar-nos na resolu\u00e7\u00e3o dos problemas de agora. Portanto, eu lamento muito que a Igreja em Portugal d\u00ea pouca import\u00e2ncia \u00e0 Doutrina Social da Igreja, e que os movimentos de realiza\u00e7\u00e3o de valores da sociedade estejam muito debilitados.<\/p>\n<p>Quer os movimentos de trabalhadores, de professores, est\u00e3o muito debilitados e essa parte da nossa pastoral continua bastante desconsiderada, um pouco desprezada, porque ela \u00e9 mais dif\u00edcil. Mesmo os nossos bispos t\u00eam feito algum pronunciamento, mas n\u00e3o s\u00e3o muito relevantes os pronunciamentos nesta \u00e1rea do funcionamento da nossa sociedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Deviam acontecer mais vezes&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que sim, deviam acontecer mais vezes e de forma a mobilizar os crist\u00e3os para poderem intervir de forma l\u00facida dentro da nossa sociedade.<\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-128003-4\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/DSI.mp3?_=4\" \/><a 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