{"id":1258,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/dimensoes-de-25-anos-de-episcopado\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"dimensoes-de-25-anos-de-episcopado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/dimensoes-de-25-anos-de-episcopado\/","title":{"rendered":"Dimens\u00f5es de 25 anos de Episcopado"},"content":{"rendered":"<p>Celebrou no Domingo 25 anos de ordena\u00e7\u00e3o episcopal. Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia Ecclesia, emitida parcialmente no Programa 70 X 7de 29 de Junho, D. Jos\u00e9 Policarpo recorda os percursos da miss\u00e3o episcopal, revela motiva\u00e7\u00f5es e contextualiza 25 anos de hist\u00f3ria <!--more--> Ag\u00eancia Ecclesia \u2013 Que sinais passam para a sociedade com a celebra\u00e7\u00e3o das Bodas de Prata Episcopais? Cardeal D. Jos\u00e9 Policarpo \u2013 Quem celebra \u00e9 o povo que est\u00e1 comigo. Esta \u00e9 celebra\u00e7\u00e3o dos outros comigo, mais do que uma celebra\u00e7\u00e3o que eu pr\u00f3prio fa\u00e7o. O serem 25 anos, 2 ou um m\u00eas tem uma relev\u00e2ncia muito pequena, porque a minha vida tem tido uma intensidade tal que a dura\u00e7\u00e3o do tempo quase a relativizou. Estes 25 anos parecem-me um dia com 25 anos. Para mim \u00e9 um momento de ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as e \u00e9 sobretudo um momento em que eu me vejo em Igreja e em sociedade. A alegria destas celebra\u00e7\u00f5es \u00e9 a que me vem desse carinho e dessa for\u00e7a comunit\u00e1ria com que me sinto envolvido durante este anos. E se algum sinal eu gostaria que permanecesse \u00e9 o de uma Igreja unida \u00e0 volta do seu bispo, com alegria de ser crist\u00e3o e com esperan\u00e7a no futuro da Igreja.  AE &#8211; \u201cHoje, o regresso \u00e0 casa \u00e9 sacramento\u201d, afirmou o Pe. \u00c1lvaro Bizarro sobre a import\u00e2ncia dos momentos que passa em Alvorninha. Concorda? Que significado tem este  \u201csacramento\u201d? DJP \u2013 O regresso \u00e0 casa onde nasci come\u00e7a por ter, hoje, um sentido muito pragm\u00e1tico: \u00e9 local onde descanso, onde trabalho (muitas das coisas que escrevo, normalmente escrevo-as l\u00e1)\u2026  AE \u2013 \u00c9 um s\u00edtio de elei\u00e7\u00e3o? DJP \u2013 \u00c9, exactamente por isso, pelo ambiente silencioso, repousante. N\u00e3o escondo que o encontrar-me com o ambiente onde vivi a minha inf\u00e2ncia \u00e9 uma componente dessa elei\u00e7\u00e3o daquele lugar como lugar de ref\u00fagio. Certamente se fosse uma outra casa qualquer, noutro s\u00edtio do pa\u00eds, que eu adquirisse n\u00e3o teria por ela o mesmo interesse e carinho. At\u00e9 porque n\u00f3s, homens, misturamos sempre o nosso presente com o nosso passado. E o elo que faz a liga\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre a afectividade, \u00e9 a liga\u00e7\u00e3o afectiva que n\u00f3s temos \u00e0s pessoas, aos locais, \u00e0s coisas. A minha casa \u00e9 de campo. Tem uma paisagem, que me diz muito, por ser onde eu caldeei, na minha inf\u00e2ncia, na minha juventude, muitas das s\u00ednteses que ainda hoje tenho. As s\u00ednteses pessoais, do ponto de vista intelectual, da f\u00e9, da matura\u00e7\u00e3o de uma voca\u00e7\u00e3o tem muito a ver com esse di\u00e1logo com a natureza onde nasci e onde vivi a minha inf\u00e2ncia e que ainda hoje me diz muito. Aquele vale faz parte do meu contexto (embora as \u00e1rvores que l\u00e1 est\u00e3o hoje n\u00e3o sejam as da minha inf\u00e2ncia, a maior parte delas).  AE \u2013 A forma\u00e7\u00e3o, nos semin\u00e1rios e na Universidade, de candidatos ao sacerd\u00f3cio foi das principais e primeiras miss\u00f5es. \u00c9 uma urg\u00eancia essa forma\u00e7\u00e3o e \u00e9 necess\u00e1rio rever m\u00e9todos e estrat\u00e9gias nessa \u00e1rea? DJP \u2013 N\u00e3o s\u00f3 precisam de ser continuamente reformados, como o foram. O itiner\u00e1rio que eu fiz j\u00e1 n\u00e3o existe, nem como enquadramento nem como pedagogia. Naquele tempo, o semin\u00e1rio menor era uma alternativa \u00e0 escolaridade: eu ainda fiz exame de admiss\u00e3o ao liceu, mas depois acabei por entrar directamente no semin\u00e1rio (at\u00e9 porque, para uma crian\u00e7a como eu, ir para o liceu, que s\u00f3 existia nessa altura nas sedes de distrito, significava tamb\u00e9m uma deslo-ca\u00e7\u00e3o). A\u00ed fiz toda a escolaridade (usando um termo actual) em internato, de que eu guardo grat\u00edssimas recorda\u00e7\u00f5es. (Sobretudo ao n\u00edvel liter\u00e1rio t\u00eam aparecido textos a denunciar a falta de sanidade dessas institui\u00e7\u00f5es\u2026 \u00e9 completamente falso naquela que me diz respeito). Foi um tempo que, com os aspectos que pesam sempre numa crian\u00e7a que sai de casa, as saudades (lembro que no primeiro trimestre n\u00e3o fugi porque n\u00e3o me deixaram, porque me apetecia ir para casa) mas depois a gente adapta-se. Foi um caminho de muita camaradagem, de muita solicitude dos meus educadores, de uma escolaridade intensa. Eu, como fui sempre bom aluno, tinha essa gratifica\u00e7\u00e3o: o ser bom aluno era meio caminho andado. Durante esse per\u00edodo, n\u00e3o s\u00f3 se amadureceram a personalidade humana, mas tamb\u00e9m aquilo que \u00e9 o crescimento maior de uma op\u00e7\u00e3o vocacional assumida l\u00e1 muito mais tarde, l\u00e1 por volta dos 18, 19, 20 anos.  AE &#8211; Que lugar est\u00e1 reservado \u00e0 Teologia na vida pastoral da Igreja Cat\u00f3lica em Portugal? Ela ultrapassa as fronteiras acad\u00e9micas? DJP \u2013 O estudo da Teologia, como qualquer saber, tem fase informativa, onde a pessoa ouve e aprende, e depois tem uma fase criativa, onde a pessoa adquiriu as meto-dologias pr\u00f3prias de trabalhar um determinado saber e avan\u00e7a pelo seu p\u00e9. Os nossos padres t\u00eam todos a licenciatura, e alguns v\u00e3o um bocadinho mais longe, at\u00e9 ao mestrado e o doutoramento. A licenciatura confirma uma informa\u00e7\u00e3o harm\u00f3nica, o mais vasta poss\u00edvel, do ramo de saber em quest\u00e3o, no caso concreto a teologia. Eu costumava dizer aos meus alunos da Universidade que a licenciatura lhes dava o direito de estudarem por conta pr\u00f3pria. A teologia \u00e9 uma ci\u00eancia muito peculiar: \u00e9 a busca de uma compreens\u00e3o mais profunda poss\u00edvel daquilo em que n\u00f3s acreditamos, porque a f\u00e9, como qualquer realidade importante da vida humana, clama por uma compreens\u00e3o que come\u00e7a por ser intuitiva, mas pode transformar-se num saber at\u00e9 com metodologia cient\u00edfica. Portanto, n\u00f3s encontramos o g\u00e9rmen, o gosto pela Teologia tanto no simples crente, \u00e0s vezes at\u00e9 pouco letrado, mas que tem espontaneamente uma busca de compreens\u00e3o daquilo que vive, at\u00e9 \u00e0queles que procuram essa compreens\u00e3o num estudo j\u00e1 metodologicamente orientado. Nesse sentido, a teologia acontece na Igreja, n\u00e3o necessariamente dentro de uma escola. O seu papel \u00e9 apetrechar, e no caso concreto dos sacerdotes e n\u00e3o s\u00f3 porque hoje os candidatos ao sacerd\u00f3cio s\u00e3o apenas 50% dos que fazem o curso teol\u00f3gico, a todos esses o que a escola lhes d\u00e1 \u00e9 um gosto e um apetrechamente para que eles possam, pelo seu p\u00e9, em contacto com o mundo e numa experi\u00eancia pessoal de f\u00e9, caminhar nessa compreens\u00e3o.  AE \u2013 Poderemos falar em tradi\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica portuguesa, escola portuguesa? DJP \u2013 Eu n\u00e3o sei mesmo se isso se pode dizer em rela\u00e7\u00e3o a qualquer outro pa\u00eds. A teologia \u00e9 t\u00e3o universal como a f\u00e9, embora sendo um dos aspectos onde a acultura\u00e7\u00e3o da f\u00e9 se nota mais: um africano a escrever ou a pensar a f\u00e9 p\u00f4r-lhe-\u00e1 um tom diferente de um indiano ou de um europeu; nesse sentido poder\u00edamos falar de escola e nesse caso a Teologia em Portugal insere-se na teologia Europeia. Em Portugal ouve um hiato na forma\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica da Teologia: entre 1910, 11 ali\u00e1s, em que foi encerrada a Faculdade de Teologia da Universidade de Coimbra, e a abertura, em 68, da Faculdade de Teologia da Universidade Cat\u00f3lica, n\u00e3o houve em Portugal nenhuma escola superior de Teologia. Havia os Semin\u00e1rios, que desempenharam essa fun\u00e7\u00e3o (alguns com n\u00edvel n\u00e3o inferior ao de muitas Faculdades de Teologia), mas n\u00e3o tinham o reconhecimento acad\u00e9mico. Isso fez com que os professores, os que avan\u00e7aram para graus acad\u00e9micos (como \u00e9 o meu caso), fizeram-no no estrangeiro, em grandes escolas de toda a Europa, o que deu ao pensar teol\u00f3gico portugu\u00eas essa caracter\u00edstica de internacionalidade. N\u00e3o se pode dizer que haja uma escola portuguesa: eu pr\u00f3prio, na minha forma\u00e7\u00e3o, sou subsidi\u00e1rio da Teologia alem\u00e3, francesa, espanhola, italiana. Por outro lado \u00e9 cedo ainda &#8211; n\u00f3s estamos com 30 anos do exerc\u00edcio acad\u00e9mico da Teologia entre n\u00f3s \u2013 para falar de escola. H\u00e1 nomes, h\u00e1 pessoas que se t\u00eam destacado na produ\u00e7\u00e3o e no pensar teol\u00f3gico, mas parece-me cedo para pensar numa Escola Portuguesa de Teologia.  AE &#8211; As actividades da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa pautam-se pela formalidade institucional ou, pelo contr\u00e1rio, respeitam \u00e0s preocupa\u00e7\u00f5es de pequenos e grandes grupos, e promovem o desenvolvimento de estrat\u00e9gias e projectos pastorais concretos que possam beneficiar todo o pa\u00eds? DJP &#8211;  A Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o bonito, mas delicado. Porque os bispos todos juntos t\u00eam menos poder do que um s\u00f3 Bispo na sua diocese. A CEP n\u00e3o \u00e9 um super-poder, nem \u00e9 um parlamento onde se decidem as coisas.  AE \u2013 O poder est\u00e1 na autonomia das Dioceses? DJP \u2013 O Bispo na sua Diocese tem mais poder do que os bispos todos juntos na CEP. A CEP \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o de converg\u00eancia, de comunh\u00e3o, de di\u00e1logo, onde as pr\u00f3prias decis\u00f5es, votadas por dois ter\u00e7os e confirmadas por decreto da Santa S\u00e9, s\u00f3 ent\u00e3o t\u00eam valor de lei. As decis\u00f5es normais da CEP s\u00e3o sugest\u00f5es \u00e0s dioceses. A for\u00e7a da CEP \u00e9 a for\u00e7a da comunh\u00e3o, da converg\u00eancia, do di\u00e1logo, de pormos em comum e, juntamente, com os seus \u00f3rg\u00e3os, atrav\u00e9s dos estudos e dos elementos que produz para a pastoral, pode ser um enriquecimento para todas as dioceses de Portugal.  DESCOBRIR O MOMENTO E O MODO DA AC\u00c7\u00c3O DA IGREJA  AE &#8211; Afirmando a actualidade do texto que foi a sua tese de doutoramento, D. Jos\u00e9 Policarpo escreve, Trinta anos depois, nas \u201cObras Escolhidas\u201d apresentadas esta quinta-feira na Universidade Cat\u00f3lica, que o facto de a Igreja se declarar \u201cdisposta a escutar o que o mundo tem para lhe dizer, sugerindo-lhe, porventura, os caminhos da miss\u00e3o, \u00e9 perspectiva nova, a exigir uma transforma\u00e7\u00e3o progressiva de mentalidades dentro da Igreja, na sua aten\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria e no seu amor por todos os homens\u201d. Quer isto dizer que a Igreja vive ainda em atitude de div\u00f3rcio em rela\u00e7\u00e3o ao mundo, ou pelo menos distante do que o mundo lhe quer dizer? DJP \u2013 \u00c9 tudo isso. Decorre da Igreja se assumir, no Conc\u00edlio Vaticano II, como enviada ao mundo. O Senhor disse ao disc\u00edpulos \u201cv\u00f3s estais no mundo, mas n\u00e3o sois do mundo\u201d. A Igreja n\u00e3o se identifica com a hist\u00f3ria, mas faz parte da Hist\u00f3ria da Humanidade. O seu lugar na Hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 condenar, n\u00e3o \u00e9 julgar, n\u00e3o \u00e9 criar um espa\u00e7o \u00e0 parte, n\u00e3o \u00e9 dizer n\u00f3s somos os bons, voc\u00eas s\u00e3o os maus\u2026 Mas \u00e9 fazer parte dessa aventura humana, com um sentido, com uma mensagem, com uma proposta. Sobretudo com uma mensagem. O desafio dos sinais dos tempos n\u00e3o \u00e9 que a Igreja perca a sua especifidade, mas que ela se redescubra continuamente como esse fermento no meio de uma massa de que ela faz parte. E se ela faz parte, escuta, ama, est\u00e1 atenta, h\u00e1 coisas que lhe fazem doer o cora\u00e7\u00e3o, h\u00e1 coisas que a interpelam, h\u00e1 coisas que se revelam abertura para a sua pr\u00f3pria mensagem. O Papa Jo\u00e3o XXIII dizia uma coisa de que eu estou perfeitamente convencido: o mundo n\u00e3o se divide de uma maneira clara entre crentes e descrentes. Muitas das pessoas que habitualmente aparecem como descrentes, como ateias, t\u00eam nos seus comportamentos e nos seus cora\u00e7\u00f5es inquieta\u00e7\u00f5es, aberturas que, se a Igreja as soubesse escutar para lhe dizer no momento oportuno a palavra que eles precisam de ouvir \u2013 porque a gente \u00e0s vezes diz uma palavra para a qual as pessoas n\u00e3o est\u00e3o preparadas, damos a resposta a uma pergunta que n\u00e3o nos foi feita &#8211; , se a Igreja soubesse sempre ler aquilo que s\u00e3o essas interroga\u00e7\u00f5es profundas, esses anseios do cora\u00e7\u00e3o humano, em plano individual, mas \u00e9 evidente que a leitura dos sinais p\u00f5e-se em plano global da hist\u00f3ria, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida nenhuma que o mundo oferece \u00e0 Igreja a defini\u00e7\u00e3o do momento e do modo da sua miss\u00e3o. Isto \u00e9 uma perspectiva evang\u00e9lica, mas muito exigente, porque \u00e9 uma perspectiva da incarna\u00e7\u00e3o, sup\u00f5e que a Igreja aceita, no realismo da sua vida, ser esse fermento na massa, mas uma massa que n\u00e3o a protege nem a isola: o fermento confunde-se com a massa, para a transformar. Para ser isso no meio do mundo, ela tem que amar o mundo, n\u00e3o pode rejeitar tudo o que vem do outro lado da barricada. N\u00e3o h\u00e1 barricadas!  AE \u2013 \u00c9 isso que acontece nos dias de hoje? DJP \u2013 N\u00e3o, eu n\u00e3o tenho coragem de dizer que acontece nos dias de hoje: sempre aconteceu, ainda acontece e h\u00e1-de acontecer. Mas o contr\u00e1rio sempre aconteceu, ainda acontece e h\u00e1-de acontecer!  AE &#8211; Refere-se tamb\u00e9m no cap\u00edtulo que acrescenta \u00e0 sua tese de doutoramento, agora publicado, ao \u201cvigor de novos movimentos carism\u00e1ticos, que acentuam a dimens\u00e3o espiritual e pessoal da f\u00e9, mas nem sempre favorecem esse confronto com a realidade da hist\u00f3ria, porque as suas \u201ccertezas\u201d se sobrep\u00f5em a qualquer surpresa que possa vir dessa osmose com o mundo\u201d. Quer isto dizer que h\u00e1 \u201cfalsas certezas\u201d em atitudes de aparente fervor evang\u00e9lico? H\u00e1 leituras deturpadas do que \u00e9 ser crist\u00e3o no mundo de hoje? DJP \u2013 N\u00e3o. Eu aponto nesse cap\u00edtulo v\u00e1rios elementos que, de forma convergente, podem n\u00e3o ter facilitado este realismo pastoral da inser\u00e7\u00e3o da Igreja no mundo. Esse \u00e9 um dos fen\u00f3menos, n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico que eu aponto l\u00e1. \u00c9 um facto que (e isso ali\u00e1s \u00e9 normal) quando a vemos num tempo alargado na hist\u00f3ria, a Igreja (como qualquer realidade humana) tem um gr\u00e1fico de sensibilidades. E nestes anos depois do Conc\u00edlio, em que porventura esta perspectiva de que temos estado a falar, de uma incarna\u00e7\u00e3o, p\u00f4s em quest\u00e3o ou levou a esquecer dimens\u00f5es mais m\u00edsticas, mais espirituais, n\u00f3s assistimos na Igreja nestes \u00faltimos anos a um voltar-se muito para os valores espirituais, carism\u00e1ticos com grande vigor e com grande riqueza no seu todo. \u00c9 evidente que isso pode tornar as pessoas menos sens\u00edveis a esta forma muito mais austera e muito mais apagada, eu diria at\u00e9 mais ousada, que \u00e9 deste estar presente como fermento na massa. Esta frase n\u00e3o \u00e9 um julgar desses movimentos. \u00c9 um fen\u00f3meno global.  AE \u2013 Podem ser alienantes? DJP \u2013 N\u00e3o, eu n\u00e3o diria isso. O que \u00e9 preciso \u00e9 termos em conta que a Igreja \u00e9 uma realidade de tal maneira plural que uma s\u00f3 dimens\u00e3o da sua viv\u00eancia nunca \u00e9 completa. Se h\u00e1 per\u00edodos da sua hist\u00f3ria em que n\u00f3s pomos toda a gente a rezar, mas nos esquecemos do testemunho do mundo ou do testemunho da caridade, n\u00e3o est\u00e1 certo. Se pomos toda a gente a tratar dos pobres, mas ningu\u00e9m reza, n\u00e3o est\u00e1 certo. Se pomos toda a gente atenta \u00e0s realidades terrestres, mas n\u00e3o reza nem trata dos pobres, n\u00e3o est\u00e1 certo. A an\u00e1lise que eu fa\u00e7o \u00e9 em que medida a presen\u00e7a \u00e0s realidades terrestres n\u00e3o ficou, e eu estou convencido que sim, apagada. Porque desapareceram grandes movimentos vocacionados para isso, como era a Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica. E a leitura dos sinais dos tempos faz-se com o todo da Igreja, mas nunca se far\u00e1 se n\u00e3o h\u00e1 esta consci\u00eancia de incarna\u00e7\u00e3o presente nas realidades terrestres.  REITOR APESAR DE SER BISPO  AE \u2013 Evoquemos o tempo que passou na Universidade Cat\u00f3lica. Escreveu o actual reitor da UCP que a sua fun\u00e7\u00e3o de reitor da UCP (de 1988 a 1996) foi valorizada pelo seu m\u00fanus episcopal e que a sua miss\u00e3o de pastor se refor\u00e7ou com as tarefas universit\u00e1rias da Reitoria. Concorda e de que forma se processou esse duplo benef\u00edcio? DJP \u2013 Eu disse muitas vezes nessa altura que n\u00e3o era Reitor por ser Bispo, mas apesar de ser Bispo. Eu inseri-me na Universidade Cat\u00f3lica numa fase constitutiva da pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o (n\u00e3o sou dos fundadores, mas quase: entrei no segundo ano da implanta\u00e7\u00e3o da UC aqui em Lisboa). Nessa altura todos \u00e9ramos poucos para solidificar uma institui\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, que ali\u00e1s teve o desafio de um crescimento muito r\u00e1pido devido aos acontecimentos pol\u00edticos do 25 de Abril. Nessa ocasi\u00e3o, o meu Bispo, o Cardeal Ribeiro, achou por bem pedir-me esse servi\u00e7o, apesar de eu ser Bispo. H\u00e1 at\u00e9 uma hist\u00f3ria curiosa que, quando me pediu para ser Bispo, disse-me: isto tem um inconveniente\u2026 a sua carreira universit\u00e1ria acabou!. E eu disse-lhe: Senhor Patriarca a minha carreira universit\u00e1ria s\u00f3 tem um sentido que \u00e9 servir a Igreja\u2026 E, portanto, n\u00e3o acabou. Depois ele disse: mas no entanto \u2013 eu era director da Faculdade de Teologia \u2013 pe\u00e7o-lhe que leve o mandato at\u00e9 ao fim. A seguir, quando se tratou de fazer as sondagens para re-elei\u00e7\u00e3o do director, eu, nesta l\u00f3gica, retirei-me. Ele ficou muito zangado de eu n\u00e3o me ter candidatado! Assim, nunca abandonei a Universidade.  AE &#8211; Como conciliou o trabalho na Reitoria com outros compromissos episcopais? DJP &#8211; Fiz coincidir a grande abrang\u00eancia de um cargo de Reitor com as tarefas episcopais. Eu tinha outra juventude, outra resist\u00eancia, mas foi um per\u00edodo muito intenso da minha vida, porque eu tinha a preocupa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o falhar em nenhum s\u00edtio.  AE &#8211; O ser Bispo marcou o ser Reitor? DJP &#8211; O Ser Bispo marcou o sentido de miss\u00e3o de ser Reitor. Porque eu sempre considerei a Universidade Cat\u00f3lica como uma express\u00e3o da miss\u00e3o da Igreja. Agora n\u00e3o creio \u2013 pelo menos tentei n\u00e3o o fazer &#8211; que o eu ser Bispo tirasse seja o que for ao rigor da fun\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica, que \u00e9 muito espec\u00edfica. E eu, como Reitor, estava presente no Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, fui Vice-Presidente da Associa\u00e7\u00e3o Internacional das Universidades Cat\u00f3lica, integrei grupos de trabalho, em plano europeu, n\u00e3o apenas de Universidades Cat\u00f3licas, mas tamb\u00e9m de outras Universidades e n\u00e3o lhe escondo que, numa vez ou outra, nas primeiras reuni\u00f5es desses grupos de trabalho senti uma certa retic\u00eancia dos meus colegas Reitores, leigos a maior parte deles e alguns at\u00e9 nem crentes. Aparecia ali um bispo no meio daquilo tudo\u2026 e essa impress\u00e3o desfazia-se com a qualidade acad\u00e9mica da minha forma de estar.  AE \u2013 Eram crit\u00e9rios exclusivamente acad\u00e9micos aqueles por que se pautava? DJP \u2013 Eram crit\u00e9rios acad\u00e9micos para uma Universidade Cat\u00f3lica. Ainda hoje considero que uma Universidade Cat\u00f3lica, seja dirigida por um eclesi\u00e1stico ou por um leigo, ela \u00e9 uma express\u00e3o da Igreja. E esta dimens\u00e3o da express\u00e3o da Igreja faz parte da qualidade acad\u00e9mica de quem aceita trabalhar na Universidade Cat\u00f3lica.  RAZ\u00d5ES PARA O INSUCESSO DA TVI  AE \u2013 A que se deve o insucesso do projecto de televis\u00e3o de inspira\u00e7\u00e3o crist\u00e3? DJP \u2013 Nunca fizemos uma an\u00e1lise exaustiva para poder responder a essa pergunta. Penso que houve alguns erros de an\u00e1lise. Antes tudo, o que quer\u00edamos, ao contr\u00e1rio do g\u00e9nero de lei da televis\u00e3o que saiu, era uma coisa muito mais pequenina que fosse crescendo; fomos obrigados a concorrer a um canal nacional, com 70% de cobertura do territ\u00f3rio no in\u00edcio e com 40% de produ\u00e7\u00e3o portuguesa. Um segundo erro de an\u00e1lise foi pensar que o p\u00fablico da R\u00e1dio Renascen\u00e7a se transporia para o p\u00fablico de uma televis\u00e3o da Igreja: enganamo-nos redondamente! S\u00e3o dois dinamismos completamente diferentes e isso n\u00e3o aconteceu. Depois, o contexto s\u00f3cio-econ\u00f3mico e pol\u00edtico em que surgiu n\u00e3o foi f\u00e1cil. E porventura tamb\u00e9m alguns erros internos que, se fosse hoje, algumas pessoas que estiveram \u00e0 frente n\u00e3o os teriam cometido. N\u00f3s avali\u00e1mos mal! Avali\u00e1mos mal o custo de um produto que eu considero inflacionado (n\u00e3o se justifica que o produto televisivo custe o que custa, mas \u00e9 um facto em todo o mundo). Acabou por n\u00e3o ter sucesso. Eu costumo dizer a quem me pergunta\u2026  AE \u2013 H\u00e1 muita gente que pergunta, que pede contas pelo insucesso? DJP \u2013 H\u00e1 sobretudo um conjunto de pessoas, sobretudo os pequenos accionistas, que entusiasmados pelos p\u00e1rocos, n\u00e3o deram um contributo com o crit\u00e9rio de accionista, mas de contribuinte, de quem ajuda. Foram pessoas at\u00e9 que puseram as suas economias generosamente ao servi\u00e7o. N\u00e3o foram os grandes investidores que se queixaram. \u00c9 o pequeno participante (quem investiu 100, 500 contos), que nunca jogou com crit\u00e9rio de ter t\u00edtulos e que de repente percebeu que tudo tinha falhado que \u00e0s vezes ainda me escrevem a pedir o dinheiro!!!  AE \u2013 O que \u00e9 que responde? DJP \u2013 Respondo sempre, se as cartas t\u00eam a delicadeza que faz parte de um processo destes, a explicar o que aconteceu. \u00c0s vezes apetecia-me, e num caso ou outro j\u00e1 tenho feito isso: pessoas que est\u00e3o hoje em dificuldades, a quem esse dinheiro fazia falta, tenho dado do meu bolso esse dinheiro. Mas isso n\u00e3o \u00e9 solu\u00e7\u00e3o. H\u00e1 pessoas que perguntam \u201cporque \u00e9 que isto falhou?\u201d E eu costumo responder: falhou porque h\u00e1 coisas na vida que falham, mas que tendo em conta o contexto em que est\u00e1vamos naquela altura, eu teria continuado a correr a mesma aventura que corremos naquela altura. A hist\u00f3ria \u00e9 assim: n\u00f3s n\u00e3o ganhamos sempre; quem n\u00e3o arrisca, esse nunca ganha.  AE \u2013 N\u00e3o ser\u00e1 necess\u00e1ria uma explica\u00e7\u00e3o p\u00fablica por esse insucesso? DJP \u2013 N\u00e3o vejo porqu\u00ea. As coisas s\u00e3o suficientemente claras e foram suficientemente publicitadas. O que aconteceu na TVI foi que, num determinado momento, os credores eram muitos. Durante um certo tempo, isso aguentou-se com o equil\u00edbrio normal de uma empresa em crise. Acabou tudo no dia em que os credores se associaram e fizeram uma Assembleia de Credores. Nessa altura os tr\u00e2mites foram os normais.  N\u00e3o creio que haja nenhuma raz\u00e3o de explica\u00e7\u00e3o: a TVI est\u00e1 no ar com outros gestores. Penso que, apesar de tudo, guarda alguns tra\u00e7os da sua origem, quanto mais n\u00e3o seja por uma programa\u00e7\u00e3o religiosa de qualidade, e pronto\u2026 a hist\u00f3ria \u00e9 assim&#8230; Eu n\u00e3o sinto necessidade de dar nenhuma esp\u00e9cie de explica\u00e7\u00e3o at\u00e9 porque a coisa ao mesmo tempo fez-nos sofrer mas foi t\u00e3o simples no seu acontecer que tudo o que a gente tente explicar pode confundir mais do que esclarecer: no fundo, num determinado momento, n\u00e3o conseguimos pagar os custos de uma televis\u00e3o e os credores n\u00e3o tiveram a paci\u00eancia de acreditar que isso ia ser poss\u00edvel e resolveram reivindicar os seus direitos, o que eu compreendo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Celebrou no Domingo 25 anos de ordena\u00e7\u00e3o episcopal. 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