{"id":12541,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/cardeal-martino-apresenta-catecismo-social-em-portugues\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"cardeal-martino-apresenta-catecismo-social-em-portugues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/cardeal-martino-apresenta-catecismo-social-em-portugues\/","title":{"rendered":"Cardeal Martino apresenta \u00abCatecismo Social\u00bb em portugu\u00eas"},"content":{"rendered":"<p>O presidente do Conselho Pontif\u00edcio Justi\u00e7a e Paz, Cardeal Renato Martino, est\u00e1 no Brasil, onde presidiu ao lan\u00e7amento do Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja em l\u00edngua portuguesa. O evento teve lugar ontem, na sede da Confer\u00eancia Nacional de Bispos do Brasil (CNBB).  De acordo com o Cardeal Martino, a maior dificuldade foi a de se tratar de \u201cum documento sem precedentes na hist\u00f3ria da Igreja\u201d. \u201cFoi necess\u00e1ria muita reflex\u00e3o para ordenar algumas complexas quest\u00f5es epistemol\u00f3gicas relativas \u00e0 natureza mesma do <i>corpus<\/i> desta doutrina; para dar ao documento uma dimens\u00e3o unit\u00e1ria e universal, apesar dos numerosos aspectos e das infinitas diversidades em que se declina a realidade social no e do mundo; bem como para oferecer um ensinamento que resistisse ao desgaste do tempo, numa fase hist\u00f3rica caracterizada pela fugacidade e rapidez das mudan\u00e7as sociais, econ\u00f3micas e pol\u00edticas da contemporaneidade\u201d, explicou na CNBB. O \u201cCatecismo Social\u201d da Igreja Cat\u00f3lica apresenta uma explica\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica e oficial dos princ\u00edpios cat\u00f3licos sobre quest\u00f5es como os direitos humanos, a guerra, a democracia, a vida econ\u00f3mica, a comunidade internacional, o terrorismo ou a ecologia. Este foi um pedido expl\u00edcito do Papa Jo\u00e3o Paulo II ao Conselho Pontif\u00edcio Justi\u00e7a e Paz, em 1998, a quem encomendou um &#8220;comp\u00eandio ou s\u00edntese autorizada da Doutrina Social cat\u00f3lica&#8221; que mostrasse a conex\u00e3o entre esta e a Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o. A s\u00edntese da Doutrina Social da Igreja (DSI) destina-se a Bispos, sacerdotes, leigos \u2013 sobretudo aos pol\u00edticos, empres\u00e1rios e sindicalistas -, mas tamb\u00e9m a fi\u00e9is de outras religi\u00f5es e a todos os \u201chomens de boa vontade que desejam servir o bem comum\u201d, como refere o pref\u00e1cio do documento. Ap\u00f3s uma Introdu\u00e7\u00e3o, a obra est\u00e1 dividida em tr\u00eas partes, que abordam os fundamentos, os conte\u00fados e as perspectivas pastorais dos ensinamento da Igreja nos dom\u00ednios sociais, pol\u00edticos, econ\u00f3micos e morais. A primeira parte tem quatros cap\u00edtulos, onde se tratam os pressupostos fundamentais da Doutrina Social: o projecto de Deus para o homem e a sociedade; a Miss\u00e3o da igreja e a Natureza da DSI; a pessoa humana e os seus direitos; os princ\u00edpios e os valores da DSI. A segunda parte, composta por sete cap\u00edtulos, apresenta os conte\u00fados e os temas cl\u00e1ssicos da DSI: a fam\u00edlia, o trabalho, a economia, a pol\u00edtica, a paz e o ambiente. A \u00faltima parte, mais breve, apresenta um \u00fanico cap\u00edtulo com uma s\u00e9rie de indica\u00e7\u00f5es para a utiliza\u00e7\u00e3o da DSI na ac\u00e7\u00e3o pastoral da Igreja e na vida dos crist\u00e3os. A Conclus\u00e3o, intitulada \u201cPor uma civiliza\u00e7\u00e3o do amor\u201d, exprime o entendimento de fundo de todo o documento.  <b>Apresenta\u00e7\u00e3o do Cardeal Renato Martino \u00e0 Confer\u00eancia Episcopal Brasileira<\/b> 1.   No dia 25 de Outubro do ano passado foi apresentado o Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja, redigido pelo Conselho Pontif\u00edcio \u00abJusti\u00e7a e Paz\u00bb, por vontade do Santo Padre Jo\u00e3o Paulo II. O documento \u2014longamente esperado, dado que inicialmente se previa a publica\u00e7\u00e3o pouco depois do Ano jubilar e longamente elaborado, devido aos complexos problemas que a sua pr\u00f3pria clareza conceptual e redac\u00e7\u00e3o material comportavam\u2014 foi acolhido com grande interesse. Trata-se, por\u00e9m, de um documento destinado, em base ao pr\u00f3prio projecto que o gerou, a semear de modo prolongado, a fertilizar o terreno da constru\u00e7\u00e3o da sociedade dos tempos futuros, a motivar e orientar a presen\u00e7a dos cat\u00f3licos na hist\u00f3ria num modo n\u00e3o improvisado. O destino do Comp\u00eandio n\u00e3o se esgotar\u00e1 no n\u00famero de c\u00f3pias vendidas, t\u00e3o pouco nas confer\u00eancias de apresenta\u00e7\u00e3o, igualmente \u00fateis e at\u00e9 indispens\u00e1veis, mas medir-se-\u00e1 pela convic\u00e7\u00e3o com que ser\u00e1 acolhido e pelo uso que dele se far\u00e1 para um relan\u00e7amento da pastoral social em geral e, sobretudo, para uma presen\u00e7a reflectida, consciente, coerente e comunit\u00e1ria dos leigos cat\u00f3licos comprometidos na sociedade e na pol\u00edtica. Se o hoje atesta um significativo acolhimento, ser\u00e1 o amanh\u00e3 a decretar se o esp\u00edrito e a finalidade que orientaram a realiza\u00e7\u00e3o do Comp\u00eandio ter\u00e3o sido honrados. O Comp\u00eandio da doutrina social da Igreja oferece um quadro completo das linhas fundamentais do \u00abcorpus\u00bb doutrinal do ensinamento social cat\u00f3lico. Em fidelidade \u00e0 autoridade das indica\u00e7\u00f5es que o Santo Padre Jo\u00e3o Paulo II havia oferecido no n. 54 da Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica Ecclesia in America, o documento apresenta \u00abde maneira global e sistem\u00e1tica, ainda que em forma sint\u00e9tica, o ensinamento social, que \u00e9 fruto da sapiente reflex\u00e3o magisterial e express\u00e3o do constante empenho da Igreja na fidelidade \u00e0 Gra\u00e7a da salva\u00e7\u00e3o de Cristo e na afectuosa solicitude pelos destinos da humanidade\u00bb (Comp\u00eandio n. 8). O Comp\u00eandio tem uma estrutura simples e linear. Depois de uma Introdu\u00e7\u00e3o, seguem-se tr\u00eas partes: a primeira, composta de quatro cap\u00edtulos, trata dos pressupostos fundamentais da doutrina social \u2013 o des\u00edgnio de amor de Deus pelo homem e pela sociedade, a miss\u00e3o da Igreja e a natureza da doutrina social, a pessoa humana e os seus direitos, os princ\u00edpios e os valores da doutrina social-; a segunda parte, composta de sete cap\u00edtulos, trata os conte\u00fados e os temas cl\u00e1ssicos da doutrina social \u2013 a fam\u00edlia, o trabalho humano, a vida econ\u00f3mica, a comunidade pol\u00edtica, a comunidade internacional, o ambiente e a paz-; a terceira parte, bastante breve porque composta apenas de um cap\u00edtulo, cont\u00e9m uma s\u00e9rie de indica\u00e7\u00f5es para a utiliza\u00e7\u00e3o da doutrina social na pr\u00e1xis pastoral da Igreja e na vida dos crist\u00e3os, sobretudo dos fi\u00e9is leigos. A Conclus\u00e3o, intitulada Para uma civiliza\u00e7\u00e3o do amor, exprime o entendimento de fundo de todo o documento.  2.   O Comp\u00eandio tem uma precisa finalidade e caracteriza-se por alguns objectivos presentes de modo claro na Introdu\u00e7\u00e3o, no n. 10. Esse, de fato, \u00abprop\u00f5e-se como um instrumento para o discernimento moral e pastoral dos complexos eventos que caracterizam os nosso tempos; como um guia para inspirar, a n\u00edvel individual e colectivo, os comportamentos e escolhas de modo a permitir olhar o futuro com f\u00e9 e esperan\u00e7a; como um subs\u00eddio para os fi\u00e9is sobre o ensinamento da moral social\u00bb. Um instrumento elaborado, al\u00e9m disso, com o preciso objectivo de promover \u00abum novo compromisso capaz de responder \u00e0s exig\u00eancias do nosso tempo e medido sobre as necessidades e recursos do homem, mas sobretudo o anseio de valorizar em formas novas a voca\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria dos v\u00e1rios carismas eclesiais em ordem \u00e0 evangeliza\u00e7\u00e3o do social, porque \u00abtodos os membros da Igreja participam da sua dimens\u00e3o secular\u00bb. Um dado que \u00e9 oportuno sublinhar, porque presente em v\u00e1rias partes do documento, \u00e9 o seguinte: o texto \u00e9 proposto como um instrumento para alimentar o di\u00e1logo ecum\u00e9nico e inter-religioso dos cat\u00f3licos com todos aqueles que desejam sinceramente o bem do homem. Afirma-se, com efeito, no n. 12 que \u00abeste documento \u00e9 proposto tamb\u00e9m aos irm\u00e3os das outras Igrejas e Comunidades Eclesiais, aos seguidores das outras religi\u00f5es, bem como a quantos, homens e mulheres de boa vontade, se empenham em servir o bem comum\u00bb. A doutrina social tem, de fato, um destino universal al\u00e9m daquele, prim\u00e1rio e espec\u00edfico, aos filhos da Igreja. A luz do Evangelho, que a doutrina social reverbera sobre a sociedade, ilumina todos os homens: cada consci\u00eancia e intelig\u00eancia \u00e9 capaz de colher a profundidade humana dos significados e dos valores expressos nesta doutrina e a carga de humanidade e humaniza\u00e7\u00e3o das suas normas de a\u00e7\u00e3o. Evidentemente, o \u00abComp\u00eandio da doutrina social da Igreja\u00bb concerne, antes de mais, aos cat\u00f3licos, porque \u00abprimeira destinat\u00e1ria da doutrina social \u00e9 a comunidade eclesial em todos os seus membros, porque todos t\u00eam responsabilidades sociais a assumir\u2026 Nos trabalhos de evangeliza\u00e7\u00e3o, ou seja, de ensinamento, de catequese e de forma\u00e7\u00e3o, que a doutrina social da Igreja suscita, essa \u00e9 destinada a cada crist\u00e3o, segundo as compet\u00eancias, os carismas, os of\u00edcios e a miss\u00e3o de an\u00fancio de cada um\u00bb (n. 83). A doutrina social implica tamb\u00e9m responsabilidades relativas \u00e0 constru\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o e ao funcionamento da sociedade: obriga\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, econ\u00f3micas, administrativas, ou seja, de natureza secular, que pertencem aos fi\u00e9is leigos de modo particular, em raz\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o secular do seu estado de vida e da \u00edndole secular da sua voca\u00e7\u00e3o: mediante tais responsabilidades, os leigos colocam em ac\u00e7\u00e3o o ensinamento social e realizam a miss\u00e3o secular da Igreja. O Comp\u00eandio sublinha como a doutrina social est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o da miss\u00e3o da Igreja. Isso ilustra, sobretudo no cap. II, o car\u00e1cter eclesiol\u00f3gico da doutrina social, ou seja, a \u00edntima rela\u00e7\u00e3o desta doutrina com a miss\u00e3o da Igreja, com a evangeliza\u00e7\u00e3o e o an\u00fancio da salva\u00e7\u00e3o crist\u00e3 nas realidades temporais. A miss\u00e3o de servi\u00e7o ao mundo, pr\u00f3pria da Igreja, que consiste em ser sinal de unidade de todo o g\u00e9nero humano e sacramento de salva\u00e7\u00e3o, inclui, de fato, entre os seus instrumentos, tamb\u00e9m a doutrina social[3][3]. O fato de o Comp\u00eandio colocar a doutrina social dentro da miss\u00e3o pr\u00f3pria da Igreja, por um lado induz a n\u00e3o consider\u00e1-la como qualquer coisa acrescentada ou colateral \u00e0 vida crist\u00e3, por outro ajuda a compreender como essa pertence a um sujeito comunit\u00e1rio. O sujeito adequado \u00e0 natureza da doutrina social outra coisa n\u00e3o \u00e9, de fato, que a inteira comunidade eclesial. Afirma o Comp\u00eandio no n. 79: \u00abA doutrina social \u00e9 da Igreja porque a Igreja \u00e9 o sujeito que a elabora, a difunde e a ensina. Essa n\u00e3o \u00e9 prerrogativa de um componente do corpo eclesial, mas da inteira comunidade: \u00e9 express\u00e3o do modo como a Igreja compreende a sociedade e se p\u00f5e em confronto com as suas estruturas e as suas mudan\u00e7as. Toda a comunidade eclesial \u2013 sacerdotes, religiosos e leigos \u2013 concorre a constituir a doutrina social, segundo a diversidade das fun\u00e7\u00f5es, carismas e minist\u00e9rios no seu interior\u00bb.  3.  N\u00e3o me \u00e9 poss\u00edvel separar a reflex\u00e3o sobre o Comp\u00eandio da doutrina social da Igreja, ao qual dedicamos este nosso encontro, e a morte do Santo Padre Jo\u00e3o Paulo II e a elei\u00e7\u00e3o de Bento XVI. N\u00e3o me \u00e9 poss\u00edvel n\u00e3o s\u00f3 por motivos cronol\u00f3gicos \u2014 encontramo-nos, de fato, a pouca dist\u00e2ncia deste dois grandes acontecimentos \u2014 mas sobretudo por motivos de subst\u00e2ncia, ligados \u00e0 pr\u00f3pria natureza do Comp\u00eandio e, portanto, com o objectivo deste nosso encontro. \u00c9 imposs\u00edvel separar a pergunta sobre a natureza do Comp\u00eandio e do como podemos e devemos adopt\u00e1-lo, da recorda\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas emotiva mas especulativa e, diria, teol\u00f3gica, do ensinamento de Jo\u00e3o Paulo II e da esperan\u00e7a que suscitou a elei\u00e7\u00e3o de Bento XVI. N\u00e3o posso, em particular, esquecer que o Comp\u00eandio foi um dos \u00faltimos projectos org\u00e2nicos de grande envergadura no campo da doutrina social da Igreja que Jo\u00e3o Paulo II concebeu e conduziu a termo e, de consequ\u00eancia, uma das frescas heran\u00e7as assumidas por Bento XVI. Isto, para mim, para n\u00f3s, tem uma enorme import\u00e2ncia. A morte de Jo\u00e3o Paulo II lan\u00e7a, hoje, sobre o Comp\u00eandio, sobre as suas raz\u00f5es e finalidades, uma luz ainda mais forte que ontem, a luz de um inteiro pontificado e de um pontificado humanamente conclu\u00eddo: o Comp\u00eandio n\u00e3o representa a s\u00edntese de um tal pontificado, mas certamente o integra plenamente. Contemporaneamente, a elei\u00e7\u00e3o de Bento XVI abre, na continuidade, um desenvolvimento ulterior. Como todos n\u00f3s, tamb\u00e9m eu reflecti muito nestas semanas de particular concita\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m \u00edntima, sobre muitos aspectos de um pontificado, grande e luminoso, como aquele que o Senhor quis que se conclu\u00edsse no passado dia 2 de Abril. Assim fazendo, dei por mim parando repetidamente nestas considera\u00e7\u00f5es. Jo\u00e3o Paulo II prop\u00f4s, com modalidades pessoais profundas e originais, a mensagem crist\u00e3 na sua integridade, sem deixar nada de fora. Apresentou o ser do cristianismo. Viveu-o. Indicou-o \u00e0 Igreja  e a toda a humanidade. Falou, escreveu, advertiu, solicitou, viajou, defendeu\u2026 mas sobretudo soube ser. A Igreja evangeliza se \u00e9 Igreja. O cristianismo n\u00e3o deve renunciar \u00e0 sua certeza de Verdade para dialogar com as outras religi\u00f5es. A abertura a todos os irm\u00e3os, o amor em todas as dimens\u00f5es, a miseric\u00f3rdia e o perd\u00e3o n\u00e3o requerem alguma ren\u00fancia \u00e0 integralidade da mensagem crist\u00e3, bem pelo contr\u00e1rio, \u00e9 exactamente sobre as suas exig\u00eancias que se fundam e da sua intensidade que extraem alimento. Foi assim que reflecti repensando, numa esp\u00e9cie de mem\u00f3ria ajustada, no longo pontificado de Jo\u00e3o Paulo II. E fiz a mesma reflex\u00e3o pensando, numa esp\u00e9cie de antecipa\u00e7\u00e3o, ao pontificado de Bento XVI, agora apenas iniciado. Sobre o an\u00fancio da Verdade toda inteira se funda a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00abditadura do relativismo\u00bb, como o novo Papa disse na sua \u00faltima homilia de cardeal e como escreveu num seu famoso livro: \u00abN\u00e3o seria dif\u00edcil demonstrar que a concep\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo como pessoa e a tutela do valor da dignidade de cada pessoa n\u00e3o se podem sustentar sem que sejam fundadas sobre a ideia de Deus\u00bb.  4.   Neste horizonte de sentido se coloca tamb\u00e9m o Comp\u00eandio e a doutrina social da Igreja da qual aquele \u00e9 express\u00e3o e instrumento. O Comp\u00eandio deve ser entendido correctamente, antes de mais, em sentido teol\u00f3gico. Depois, e consequentemente, deve ser interpretado correctamente em sentido pastoral. Permito-me algumas reflex\u00f5es sobre ambos os planos. O Comp\u00eandio \u00e9 um instrumento para a difus\u00e3o da doutrina social da Igreja. Esta pertence \u00e0 integralidade da proposta crist\u00e3 e ao an\u00fancio da Verdade inteira da qual falei anteriormente. Como Jo\u00e3o Paulo II soube transmitir a riqueza humana da f\u00e9 em Cristo, assim a doutrina social da Igreja, e portanto o Comp\u00eandio, mostram como aquela riqueza humana que a f\u00e9 crist\u00e3 alimenta pode e deve tornar-se riqueza social e comunit\u00e1ria. A Cria\u00e7\u00e3o est\u00e1 j\u00e1 na \u00f3ptica da Salva\u00e7\u00e3o; essa torna-se luminosa dentro do olhar de f\u00e9. A doutrina social da Igreja exprime a riqueza humana do olhar de f\u00e9. Nasce da colabora\u00e7\u00e3o com Deus na constru\u00e7\u00e3o da comunidade humana. A doutrina social da Igreja, e portanto o Comp\u00eandio, t\u00eam a ver intimamente com a vida da Igreja e s\u00e3o express\u00e3o da totalidade sint\u00e9tica desta vida, separ\u00e1vel analiticamente e decompon\u00edvel para usos de compreens\u00e3o humana, mas unit\u00e1ria na sua ess\u00eancia. T\u00eam, por isso mesmo, a ver com a vida da humanidade que viaja entre a Cria\u00e7\u00e3o e a Salva\u00e7\u00e3o ou, melhor, na Cria\u00e7\u00e3o para a Salva\u00e7\u00e3o. Todo o homem e todos os homens, toda a humanidade do homem e todos os homens da humanidade, est\u00e3o contemplados no mist\u00e9rio da Cria\u00e7\u00e3o e a sua humanidade \u00e9 plenamente assumida e elevada no olhar de f\u00e9 que, com a promessa da Salva\u00e7\u00e3o, ilumina o criado. O cristianismo \u00e9 uma s\u00f3 e \u00fanica proposta de Salva\u00e7\u00e3o; aquela da Igreja \u00e9 uma s\u00f3 e \u00fanica vida; a constru\u00e7\u00e3o da humanidade segundo a gram\u00e1tica da Cria\u00e7\u00e3o e em vista da Salva\u00e7\u00e3o anunciada \u00e9 uma s\u00f3 e \u00fanica constru\u00e7\u00e3o, obra de toda a fam\u00edlia humana em paz consigo mesma e com a cria\u00e7\u00e3o, porque sabe contemplar Deus. Este aspecto da doutrina social da Igreja tornou-se-me ainda mais claro nestes meses depois da morte de Jo\u00e3o Paulo II. Todo o seu magist\u00e9rio o ilustrou, porque desde o in\u00edcio ele entendeu a doutrina social dentro da pr\u00f3pria vida da Igreja. Mas ilustrou-o tamb\u00e9m na sua morte, \u00faltimo ato de uma pedagogia completa e complexa sobre a doutrina social. O homem \u00e9 a via da Igreja. A Igreja deve aprender do homem, enquanto na Cria\u00e7\u00e3o est\u00e1 j\u00e1 a luz da f\u00e9, mas o homem n\u00e3o se compreende a si mesmo sen\u00e3o em Cristo e sem Ele n\u00e3o consegue construir a pr\u00f3pria cidade. A doutrina social da Igreja, que desabrocha do ser da Igreja, desabrocha tamb\u00e9m do ser do homem e, na unidade sint\u00e9tica da vida, essa representa um extraordin\u00e1rio instrumento de di\u00e1logo entre a Igreja e o mundo \u00ad\u2014 uma est\u00e1 dentro do outro, mas n\u00e3o se identificam \u2014 na colabora\u00e7\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o de uma cidade terrena \u00e0 medida da Cidade celeste.  5.   Esta \u00e9 a natureza da doutrina social da Igreja, por tudo aquilo que ainda pude perceber profundamente nestas \u00faltimas semanas t\u00e3o particulares, sucessivas \u00e0 morte do Papa Jo\u00e3o Paulo II. O Comp\u00eandio e o seu uso est\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o com quanto at\u00e9 agora disse. Com o Comp\u00eandio n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel haver uma rela\u00e7\u00e3o improvisada, mas cont\u00ednua; com o Comp\u00eandio n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel haver uma rela\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica, mas central; com o Comp\u00eandio n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel haver uma rela\u00e7\u00e3o somente individual, mas comunit\u00e1ria. Estas necessidades n\u00e3o derivam de exig\u00eancias extr\u00ednsecas ou de um excesso de considera\u00e7\u00f5es para com o pr\u00f3prio Comp\u00eandio. N\u00e3o \u00e9 por amor ao Comp\u00eandio que digo isto, mas pela fidelidade que devemos todos ao ser da doutrina social da Igreja. Essa est\u00e1 no centro \u2014mesmo se n\u00e3o \u00e9 o centro\u2014 e n\u00e3o na periferia da vida crist\u00e3; essa \u00e9 um fato n\u00e3o apenas pessoal, mas comunit\u00e1rio; essa pede-nos uma rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o improvisada, mas continuada. O Comp\u00eandio n\u00e3o deve ser entendido, absolutamente, como um resumo did\u00e1tico da doutrina social da Igreja. Ele tem um valor simb\u00f3lico e um valor pr\u00e1tico. O simb\u00f3lico consiste no chamar-nos a todo o corpus da doutrina social da Igreja, a entend\u00ea-la como uma proposta unit\u00e1ria radicada na unidade da proposta crist\u00e3: a seq\u00fcela de Cristo. Isto n\u00e3o significa \u2014 digo-o mesmo n\u00e3o desejando regressar a quest\u00f5es j\u00e1 bem debatidas no passado e j\u00e1 resolvidas \u2014 que a doutrina social da Igreja n\u00e3o tenha e n\u00e3o deva ter uma sua articula\u00e7\u00e3o e at\u00e9 uma sua aproxima\u00e7\u00e3o, significa apenas que essa tem no centro uma proposta de vida unit\u00e1ria. O pr\u00e1tico consiste em meter-nos entre m\u00e3os um instrumento \u00fanico que deve ser usado comunitariamente, com formas de converg\u00eancia pastoral, de modo que sejamos todos ajudados a caminhar conjuntamente. Este \u00e9 o significado pr\u00e1tico-pastoral mais interessante. O Comp\u00eandio n\u00e3o \u00e9 um instrumento exclusivo, n\u00e3o substitui e, bem pelo contr\u00e1rio, solicita at\u00e9 o acesso \u00e0s enc\u00edclicas sociais ou \u00e0s outras fontes do Magist\u00e9rio, mas pode produzir unidade na forma\u00e7\u00e3o, na reflex\u00e3o, no discernimento, na pr\u00e1xis.   6.  Regressemos agora \u00e0s tr\u00eas indica\u00e7\u00f5es apresentadas acima sinteticamente: um uso n\u00e3o improvisado, mas continuado; n\u00e3o perif\u00e9rico, mas central; n\u00e3o individual, mas comunit\u00e1rio. O aprofundamento destes tr\u00eas elementos, que agora tentarei desenvolver sucintamente, mas que deixo \u00e0 vossa reflex\u00e3o sucessiva ligada tamb\u00e9m \u00e0 vossa experi\u00eancia e compet\u00eancia, do aprofundamento destes tr\u00eas elementos, dizia, podem nascer ricas e concretas indica\u00e7\u00f5es sobre como utilizar o Comp\u00eandio. Um uso n\u00e3o improvisado, mas continuado. O Comp\u00eandio, exactamente pela sua natureza, obriga-nos a ter presente o inteiro desenvolvimento da doutrina social. Avizinhando-se a ele, tomando-o nas m\u00e3os e folheando-o, compreende-se que \u00e9 fruto de uma hist\u00f3ria. Seria um erro v\u00ea-lo como ass\u00e9ptico e compilat\u00f3rio. Ele nasce de uma leitura teol\u00f3gica \u2014como dizia anteriormente\u2014 da vida da Igreja no mundo e para o mundo. N\u00e3o pode, portanto, que apelar a uma hist\u00f3ria e n\u00e3o pode propor-se sen\u00e3o como continua\u00e7\u00e3o dessa hist\u00f3ria, como est\u00edmulo a prossegui-la e a renov\u00e1-la. Um uso improvisado, motivado pela sua publica\u00e7\u00e3o, pela actualidade e pelo interesse que suscitou e suscita, \u00e9 insuficiente e completamente inadequado ao projecto no qual reentra este Comp\u00eandio. Este est\u00e1 ao servi\u00e7o de uma presen\u00e7a vital das nossas comunidades dentro da hist\u00f3ria dos homens. Estimula-nos, portanto, a pensar para ela um uso programado, pastoralmente meditado, a longo prazo. Um uso n\u00e3o perif\u00e9rico, mas central. Aqui devo apelar as anota\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas das quais vos falei, a proposta integral da sequela de Cristo, cujos diversos aspectos n\u00e3o devem absolutamente fazer pensar em alguma forma de separa\u00e7\u00e3o, porque uma e \u00fanica \u00e9 a vida crist\u00e3, aquela que se torna testemunho cred\u00edvel. \u00c9 claro, ent\u00e3o, que a programa\u00e7\u00e3o pastoral do uso do Comp\u00eandio n\u00e3o pode prever momentos isolados, compartimentos estanques, percursos paralelos ou por encarregados de trabalho, mas deve ser pensado dentro da pr\u00f3pria vida da comunidade crist\u00e3, ou seja, em rela\u00e7\u00e3o com a leitura da Palavra de Deus, com a liturgia e com a ora\u00e7\u00e3o, com o desenvolvimento de uma aut\u00eantica espiritualidade social crist\u00e3. Deve ser pensado tamb\u00e9m dentro da programa\u00e7\u00e3o pastoral da matura\u00e7\u00e3o de uma verdadeira cultura de inspira\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Um uso n\u00e3o individual, mas comunit\u00e1rio. Distribuir o Comp\u00eandio, faz\u00ea-lo adquirir pelo fi\u00e9is, fazer de modo que cada pessoa interessada pelo bem da comunidade o possua e se avizinhe dele \u00e9 sem d\u00favida uma coisa boa. Mas n\u00e3o devemos esquecer que a sua destina\u00e7\u00e3o principal \u00e9 comunit\u00e1ria e tamb\u00e9m a sua utiliza\u00e7\u00e3o deve prever momentos comunit\u00e1rios de leitura, de confronto e de discernimento. Como n\u00e3o \u00e9 suficiente um ciclo de confer\u00eancias que assumam como escada o \u00edndice do Comp\u00eandio, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 suficiente que esse seja vendido em livrarias. Al\u00e9m disto \u00e9 necess\u00e1rio pensar em experi\u00eancias continuativas de confronto comunit\u00e1rio sobre ele e, se posso permitir-me tamb\u00e9m esta anota\u00e7\u00e3o, experi\u00eancias continuativas de confronto com este documento, que \u00e9 a voz da Igreja, mesmo do interior do compromisso social, econ\u00f3mico e pol\u00edtico. Dentro da comunidade e dentro da hist\u00f3ria: estes s\u00e3o os lugares iminentes para a leitura do Comp\u00eandio e o confronto com o Comp\u00eandio. A sua luz resulta tanto mais clara quanto mais se o interroga juntamente e dentro de um projecto de ac\u00e7\u00e3o social, tendo diante de n\u00f3s qualquer coisa para realizar o bem comum, na presen\u00e7a de rostos concretos de pessoas e concretas coisas para fazer. Deste modo tamb\u00e9m os leigos estar\u00e3o envolvidos e, sobretudo,  ser\u00e3o envolvidos \u00abcomo leigos\u00bb.  7.   Como conclus\u00e3o desta minha interven\u00e7\u00e3o sobre o Comp\u00eandio e o seu uso, gostaria agora de ter particularmente presente quem tenho diante de mim, ou seja, o Conselho Permanente da vossa Confer\u00eancia Episcopal. Creio que o Comp\u00eandio pode ser um instrumento importante tamb\u00e9m para os Bispos, \u00fatil para o vosso trabalho. A utilidade do Comp\u00eandio manifesta-se na colabora\u00e7\u00e3o entre v\u00f3s. A articula\u00e7\u00e3o setorial dos deveres, necess\u00e1ria para a resposta \u00e0s necessidades humanas com as quais o cristianismo deve sempre contar, pode ofuscar a vis\u00e3o da unidade da proposta crist\u00e3 de vida de que falei anteriormente. Certamente o Comp\u00eandio diz respeito, antes de mais, ao sector da pastoral social. Mas se entendemos a doutrina social dentro da vida da Igreja, como nos ensina a Gaudium et spes e, sobretudo, o magist\u00e9rio de Jo\u00e3o Paulo II e como procurei exprimir nas reflex\u00f5es atr\u00e1s conduzidas, eis que o Comp\u00eandio se torna um instrumento comum, de converg\u00eancia a jusante, nas comunidades crist\u00e3s, mas tamb\u00e9m e sobretudo a montante, na vossa Confer\u00eancia episcopal e nos seus Of\u00edcios e Organismos. O Comp\u00eandio, quando bem utilizado, pode representar um instrumento de trabalho transversal, como hoje se diz com frequ\u00eancia, e comum a todos. Sempre a n\u00edvel de trabalho comum, gostaria de sublinhar como o Comp\u00eandio convide, pelo pr\u00f3prio fato de existir, a reconsiderar a refer\u00eancia org\u00e2nica a toda a doutrina social. Certamente pode ser \u00fatil afrontar pastoralmente um ou outro problema emergente, mesmo para fornecer \u00e0s comunidades instrumentos de orienta\u00e7\u00e3o e discernimento. Mas a coisa verdadeiramente decisiva \u00e9 fazer proceder a forma\u00e7\u00e3o e o confronto estruturado com a inteira doutrina social da Igreja de modo a construir no tempo uma capacidade de produ\u00e7\u00e3o cultural, de presen\u00e7a social e de empenhamento pol\u00edtico. Sem d\u00favida que o Comp\u00eandio impele a isto e, de algum modo, faz-se instrumento de um tal projecto. A recep\u00e7\u00e3o do Comp\u00eandio a n\u00edvel das bases, isto \u00e9, dos fi\u00e9is, das Associa\u00e7\u00f5es e dos Movimentos, das Dioceses e das Par\u00f3quias, depender\u00e1 muito da for\u00e7a e da coordena\u00e7\u00e3o dos Of\u00edcios da Confer\u00eancia Episcopal. Refiro-me aqui n\u00e3o tanto \u00e0 quantidade da recep\u00e7\u00e3o, mas sobretudo \u00e0 qualidade. Se o Comp\u00eandio for utilizado n\u00e3o ocasionalmente mas sistematicamente, n\u00e3o perifericamente mas centralmente, n\u00e3o individualmente mas comunitariamente, depender\u00e1 tamb\u00e9m de como a vossa Confer\u00eancia Episcopal e os Of\u00edcios da Secretaria lhe ter\u00e3o dado utiliza\u00e7\u00e3o.  <i>Renato Raffaele Card. Martino<\/i>, Presidente do Conselho Pontif\u00edcio Justi\u00e7a e Paz<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O presidente do Conselho Pontif\u00edcio Justi\u00e7a e Paz, Cardeal Renato Martino, est\u00e1 no Brasil, onde presidiu ao lan\u00e7amento do Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja em l\u00edngua portuguesa. O evento teve lugar ontem, na sede da Confer\u00eancia Nacional de Bispos do Brasil (CNBB). 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