{"id":12406,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/o-pacto-dos-poetas\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"o-pacto-dos-poetas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-pacto-dos-poetas\/","title":{"rendered":"O pacto dos poetas"},"content":{"rendered":"<p>Temendo que no alarido da morte possa deixar esmorecida a voz dos poetas, ficarei por Eug\u00e9nio de Andrade na trilogia dos que, nestes dias de Junho, deixaram as p\u00e1ginas vivas da nossa hist\u00f3ria recente.  Desde jovem me habituei a sentir a sua voz melanc\u00f3lica na poesia \u201cque prefere a pobreza ao luxo, a simplicidade \u00e0 complica\u00e7\u00e3o\u201d como ele diz dum outro poeta querendo dizer de si pr\u00f3prio. Refiro-me ao texto de Eug\u00e9nio de Andrade no posf\u00e1cio do livro De igual para igual de Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a. Percebi, nessa leitura atenta e agora revisitada, que o pacto destes dois poetas vai para muito al\u00e9m do campo das letras. H\u00e1 uma comunh\u00e3o de procuras nos oceanos em que apenas os poetas sabem navegar. Eug\u00e9nio de Andrade encanta-se com a \u201cinoc\u00eancia e sabedoria\u201d na cita\u00e7\u00e3o que faz de Tolentino de Mendon\u00e7a:  Nesse tempo ainda era poss\u00edvel encontrar Deus pelos baldios. &#8211; Em que tempo? \u2013 pergunta Eug\u00e9nio de Andrade? \u201cProvavelmente em todos os tempos. Isto \u00e9, na inf\u00e2ncia de cada um de n\u00f3s, nessa inf\u00e2ncia que todo o ser humano arrecada para que a poesia um dia a\u00ed fa\u00e7a o seu ninho\u201d. E volta a citar o autor de Baldios: \u201cA poesia \u00e9 o lugar desse tempo interior, ciciado, secreto\u201d. Eug\u00e9nio de Andrade embala-se nesta express\u00e3o austera e acrescenta: \u201cA frase \u00e9 densa, carregada de sentidos, de press\u00e1gios. \u00c9 como se falasse de um lugar antiqu\u00edssimo, onde cada gesto, cada balbucio cada som procurasse dar sinal de um deus (ou de Deus) \u00e0queles que o escutam. As suas palavras s\u00e3o as de uma alma atravessada pelo espanto de uma presen\u00e7a.\u201d Sei que com esta colagem de palavras corro o risco n\u00e3o s\u00f3 de profanar a poesia, como tamb\u00e9m de trair o que os poetas, na sua prof\u00e9tica sabedoria, perscrutam do indiz\u00edvel de vida. Mas na morte de Eug\u00e9nio de Andrade apraz-me encontr\u00e1-lo de m\u00e3os dadas com jovens poetas numa procura misteriosa da presen\u00e7a de Deus: \u201cmas quando tombei sobre a terra perdido como o fio de um cabelo&#8230; estavas junto de mim\u201d. Dos que quase em simult\u00e2neo partiram: Gon\u00e7alves, Cunhal e Andrade, demoro-me no poeta. Por ele os sinos n\u00e3o dobraram tanto. Mas o seu dobrar, quase em pian\u00edssimo, \u00e9 o que mais se assemelha \u00e0 eternidade. Que a sua voz se n\u00e3o perca nos ru\u00eddos que a morte sempre suscita. Refiro-me ao concerto transcendente dos poetas porque, nos muitos dizeres da morte cai, por vezes, na sombra, a ess\u00eancia da vida.  Ant\u00f3nio Rego<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Temendo que no alarido da morte possa deixar esmorecida a voz dos poetas, ficarei por Eug\u00e9nio de Andrade na trilogia dos que, nestes dias de Junho, deixaram as p\u00e1ginas vivas da nossa hist\u00f3ria recente. 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