{"id":12402,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/havera-uma-beleza-que-nos-salve\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"havera-uma-beleza-que-nos-salve","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/havera-uma-beleza-que-nos-salve\/","title":{"rendered":"Haver\u00e1 uma beleza que nos salve?"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 uma beleza que nos salve. S\u00f3 a bondade nos salva. E a bondade manifesta-se, por vezes, no meio da maior fealdade. Explico-me. Uma pessoa capaz de actos de bondade, uma pessoa com bom cora\u00e7\u00e3o, pode ter uma cara que \u00e9 considerada feia, pode vestir-se de uma maneira que \u00e9 considerada pirosa, pode ter tido notas med\u00edocres, pode ser um artista med\u00edocre. Quando visitamos um museu com obras bel\u00edssimas, como o Louvre ou o Prado, podemo-nos esquecer de que as pessoas, os visitantes e os funcion\u00e1rios que est\u00e3o l\u00e1 connosco, s\u00e3o obras mais belas do que as mais belas obras expostas que andamos a ver. Um artista torturado pela beleza que consegue, ou que n\u00e3o consegue, dar ao que pinta e que se autodestr\u00f3i est\u00e1 equivocado. Seria prefer\u00edvel deixar de pintar ou pintar obras med\u00edocres. Como dizia o meu av\u00f4 materno, que era m\u00e9dico, \u201cmais vale burro vivo do que s\u00e1bio morto\u201d. Se a busca da beleza nos impede de viver, ent\u00e3o h\u00e1 \u00e9 uma beleza que nos perde. E h\u00e1.  Penso que n\u00e3o nos devemos enganar sobre a beleza. Se a nossa obra art\u00edstica, ou outra, n\u00e3o implica a ren\u00fancia \u00e0s coisas in\u00fateis e a partilha, ent\u00e3o \u00e9 bastante in\u00fatil. E as coisas in\u00fateis, para uma poetisa, s\u00e3o o desejo de escrever obras perfeitas e de ser reconhecida pelos seus pares. Roubei \u00e0 Irm\u00e3 Emmanuelle a express\u00e3o \u201cren\u00fancia \u00e0s coisas in\u00fateis e partilha\u201d (\u201crenonce aux choses inutiles et partage\u201d, in \u201cFamille chr\u00e9tienne\u201d, Num\u00e9ro hors s\u00e9rie, \u00e9t\u00e9 2004, p. 6). Se n\u00e3o h\u00e1 partilha, o artista \u00e9 quase t\u00e3o aberrante como um padre que celebrasse a missa s\u00f3 para si.  Os artistas s\u00e3o, \u00e0s vezes, muito ego\u00edstas. \u00c9 verdade que as suas obras, apesar disso, podem comunicar \u2013 mas ser\u00e1 involuntariamente? \u2013 bons sentimentos. A arte est\u00e1 cheia de \u00f3dio, de maus sentimentos. Parece que estou a dizer mal da arte e n\u00e3o queria fazer isso.  No Natal, uma amiga mandou-me um cart\u00e3o de boas festas da Unicef com um Anjo da Anuncia\u00e7\u00e3o de Fra Angelico. Tenho-o em exposi\u00e7\u00e3o no meu quarto e, quando quero rezar, olho para ele. Mas n\u00e3o sou contempor\u00e2nea de Fra Angelico. N\u00e3o posso tomar caf\u00e9 e tagarelar com ele nos caf\u00e9s como posso fazer com a amiga que me enviou o anjo dele pelo Correio. Por isso o Anjo da Anuncia\u00e7\u00e3o de Fra Angelico, que \u00e9 t\u00e3o bonito, pode tamb\u00e9m ser doloroso. Fra Angelico j\u00e1 morreu. E n\u00e3o \u00e9 a beleza do anjo de Fra Angelico que me garante que Fra Angelico ressuscitar\u00e1.  Um poema de Rimbaud est\u00e1 cheio de viol\u00eancia. H\u00e1 muita beleza na express\u00e3o dessa viol\u00eancia. E isto \u00e9 terr\u00edvel. Preferia que Rimbaud n\u00e3o estivesse ferido a ponto de escrever daquela maneira? Preferia. Mas n\u00e3o posso dizer isto assim.  A arte \u00e9 feita para construir a paz. N\u00e3o \u00e9 um esgrimir no vazio. N\u00e3o pode ser. Olho para o Anjo da Anuncia\u00e7\u00e3o de Fra Angelico. Parece-me bel\u00edssimo. \u00c9 vermelho e dourado. \u00c9 verde e azul. Mas, ao escrever assim, parece-me que estou a evocar o poema de Rimbaud intitulado \u201cVogais\u201d. A arte \u00e9 um modo de lidar com a aus\u00eancia. E por isso \u00e9 t\u00e3o preciosa e t\u00e3o perigosa. Nunca \u00e9 a alegria da presen\u00e7a.  Ad\u00edlia Lopes, poetisa in Observat\u00f3rio da Cultura on line (www.ecclesia.pt\/cec)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 uma beleza que nos salve. S\u00f3 a bondade nos salva. E a bondade manifesta-se, por vezes, no meio da maior fealdade. Explico-me. Uma pessoa capaz de actos de bondade, uma pessoa com bom cora\u00e7\u00e3o, pode ter uma cara que \u00e9 considerada feia, pode vestir-se de uma maneira que \u00e9 considerada pirosa, pode [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[267],"class_list":["post-12402","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-natal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12402","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12402"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12402\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12402"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12402"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12402"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}