{"id":122850,"date":"2018-12-28T16:57:25","date_gmt":"2018-12-28T16:57:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=122850"},"modified":"2018-12-28T16:57:25","modified_gmt":"2018-12-28T16:57:25","slug":"ano-novo-entre-a-memoria-o-presente-e-o-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ano-novo-entre-a-memoria-o-presente-e-o-futuro\/","title":{"rendered":"Ano Novo \u2013 entre a mem\u00f3ria, o presente e o futuro"},"content":{"rendered":"<p><em>Jos\u00e9 Lu\u00eds Gon\u00e7alves<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Segundo o sacerdote e fil\u00f3sofo da educa\u00e7\u00e3o Octavi Fullat i Gen\u00eds, a civiliza\u00e7\u00e3o do trigo &#8211; a nossa, portanto -, foi culturalmente moldada por tr\u00eas cidades-s\u00edmbolo distintas, a saber: Jerusal\u00e9m, Atenas e Roma. Para melhor ilustrar o que as distingue, mas tamb\u00e9m complementa do ponto de vista antropol\u00f3gico e, sobretudo, na conce\u00e7\u00e3o de tempo que veiculam, basta recordar tr\u00eas grandes obras da Antiguidade e suas respetivas figuras m\u00edticas: como s\u00e3o Abra\u00e3o (Jerusal\u00e9m), Ulisses (Atenas) e Eneias (Roma).<\/p>\n<p>Assim, na B\u00edblia, Abra\u00e3o vive o tempo hist\u00f3rico como chamamento\/voca\u00e7\u00e3o ao futuro, mediante um acontecimento de rela\u00e7\u00e3o e de abertura a um Outro absoluto \u2013 Abra\u00e3o sai da sua terra, mas n\u00e3o mais a ela volta. A t\u00f3nica temporal acentuada \u00e9 o futuro, a busca de valores por realizar, a profecia por cumprir. Jerusal\u00e9m acentua o car\u00e1cter educativo da imagina\u00e7\u00e3o humana, da novidade por descobrir, da decis\u00e3o livre e da vontade. A pessoa constitui aqui uma identidade aberta, tarefa a realizar na voca\u00e7\u00e3o-promessa.<\/p>\n<p>Na Odisseia, a viagem de Ulisses desenvolve-se num tempo c\u00edclico de renova\u00e7\u00e3o constante, mas sempre num regresso anunciado. Ulisses \u00e9 conhecido pelas muitas viagens realizadas, mas tamb\u00e9m pela incapacidade de encontrar um sentido de auto e de h\u00e9tero-consci\u00eancia nessas mesmas viagens. Uma vez regressado a casa, a \u00cdtaca, volta a encontrar o sentido de si mesmo. \u00c9 um regresso ao ponto de partida e, ao n\u00edvel antropol\u00f3gico, a constata\u00e7\u00e3o da impossibilidade do reconhecimento do outro na sua radical alteridade. A t\u00f3nica temporal predominante \u00e9 o passado tecido de mem\u00f3rias, a busca da renova\u00e7\u00e3o na ciclicidade; Atenas, que viu nascer a ci\u00eancia, privilegia a mem\u00f3ria como eixo axiol\u00f3gico fundamental.<\/p>\n<p>Na Eneida, o espa\u00e7o das viagens de Eneias tamb\u00e9m \u00e9 m\u00edtico e geogr\u00e1fico, mas n\u00e3o tende para a circularidade nem para a ciclicidade, mas para a abertura linear. Eneias \u00e9 criador heroico-m\u00edtico de uma nova ordem social, pol\u00edtica e espiritual, para o Ocidente. O tempo privilegiado \u00e9 o presente, a atualidade \u00e9 entendida como manipul\u00e1vel; da\u00ed surge a t\u00e9cnica como o maior valor educativo desta cultura.<\/p>\n<p>A chegada do novo ano convida a realizar balan\u00e7os de vida e a projetar inten\u00e7\u00f5es de realiza\u00e7\u00e3o pessoal. Nesta incessante busca de significado, muitos escolhem ficar presos ao passado da mesmidade; outros optam por viver no presente \u2013 sempre psiquicamente mais saud\u00e1vel -, embora apenas desejem a linearidade da vida omitindo, desta forma, a vulnerabilidade e complexidade da mesma; h\u00e1 quem, por fim, queira permanecer aberto ao acontecimento da rela\u00e7\u00e3o por estabelecer \u2013 consigo pr\u00f3prio e com o Outro -, manifestando a abertura ao imprevis\u00edvel.<\/p>\n<p>Para os crist\u00e3os, \u00e9 Jesus Cristo quem, na \u2018plenitude dos tempos\u2019 (Ef\u00e9sios, Colossenses), estabelece a ponte entre dois tempos \u2013 o humano e o divino. Se o tempo humano \u00e9 limitado, contabiliz\u00e1vel, quantitativo, de extens\u00e3o, <em>cronol\u00f3gico,<\/em> portanto<em>,<\/em> o divino tem sabor a eternidade (Salmo 90,4), \u00e9 qualitativo (Ecl. 3), refere-se \u00e0 intensidade, \u00e9 <em>kairol\u00f3gico<\/em>. Em Jesus, Deus apresenta a hist\u00f3ria da humanidade em dois p\u00f3los de tens\u00e3o de tempo: entre o G\u00e9nesis (1,1) \u00ab\u2026 No princ\u00edpio, Deus criou\u2026\u00bb e o Apocalipse (22,20): \u00abSim, Eu venho em breve!\u00bb Jesus \u00e9, ent\u00e3o para n\u00f3s, a chave do tempo, o <em>Alfa<\/em> e o <em>\u00d3mega<\/em>. N\u2019Ele, o tempo adquire definitivamente dire\u00e7\u00e3o e sentido \u00ab\u2026at\u00e9 que Cristo seja tudo em todos\u2026\u00bb. Um bom ano!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Lu\u00eds Gon\u00e7alves<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":92268,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-122850","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/122850","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=122850"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/122850\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/92268"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=122850"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=122850"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=122850"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}