{"id":122613,"date":"2018-12-24T15:42:15","date_gmt":"2018-12-24T15:42:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=122613"},"modified":"2018-12-24T15:42:15","modified_gmt":"2018-12-24T15:42:15","slug":"do-natal-numa-gruta-em-belem-da-judeia-ao-escondimento-do-facto-religioso-na-atualidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/do-natal-numa-gruta-em-belem-da-judeia-ao-escondimento-do-facto-religioso-na-atualidade\/","title":{"rendered":"Do Natal numa gruta em Bel\u00e9m da Judeia ao escondimento do facto religioso na atualidade"},"content":{"rendered":"<p><em>Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA, D. Manuel Clemente afirma que, como no pres\u00e9pio, \u00e9 pela verdade que a Igreja se tem de afirmar, sobretudo num tempo em que as pessoas s\u00e3o poucos institucionais na pr\u00e1tica religiosa, analisa acontecimentos sociais e projeta o ano 2019, para a Igreja Cat\u00f3lica e para a sociedade<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista realizada por Paulo Rocha<\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/manuelClemente2018a_dir.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-122600 alignleft\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/manuelClemente2018a_dir-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/manuelClemente2018a_dir-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/manuelClemente2018a_dir-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/manuelClemente2018a_dir-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/manuelClemente2018a_dir-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/manuelClemente2018a_dir.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Ag\u00eancia Ecclesia \u2013 O Natal de Jesus aconteceu no escondimento. Hoje, o escondimento do facto religioso, desde logo do acontecimento de Bel\u00e9m, \u00e9 um problema para a Igreja Cat\u00f3lica?<\/em><\/p>\n<p>D. Manuel Clemente \u2013 Creio que \u00e9 uma carater\u00edstica constante das coisas que realmente acontecem. Isto \u00e9: n\u00f3s ficamos geralmente apanhados e deslumbrados pelas coisas que t\u00eam impacto e s\u00e3o facilmente mediatizadas. Mas, aquilo que realmente acontece e determina profundamente as nossas vidas em geral n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o patente, mas mais profundo e \u00e0s vezes s\u00f3 com o tempo se manifesta e se repara. Creio que aconteceu isso com o Natal de Jesus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Mas hoje, para ser relevante para a sociedade, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio dar-lhe lugar de destaque?<\/em><\/p>\n<p>DMC \u2013 Mas sempre como ele foi, para n\u00e3o ser outra coisa&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Talvez seja por isso que D. Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a diz que \u201cO Natal n\u00e3o \u00e9 ornamento, \u00e9 fermento\u201d?<\/em><\/p>\n<p>DMC \u2013 E muito certo! Bela ideia porque corresponde \u00e0 verdade das coisas.<\/p>\n<p>Reparemos: o que sabemos dos 30 anos da vida de Jesus, a maioria to do tempo que passou neste mundo? Poucas coisas: n\u00e3o foi em Bel\u00e9m, mas na Nazar\u00e9 da Galileia, na oficina de Jos\u00e9, com pouca gente e numa terra que n\u00e3o dava muito nas vistas&#8230; At\u00e9 se perguntava em Jerusal\u00e9m se \u201cde Nazar\u00e9 poder\u00e1 vir alguma coisa boa?\u201d. Era tudo o mais discreto poss\u00edvel! At\u00e9 que, aos 30 anos, a um s\u00e1bado, vai \u00e0 sinagoga, leu uma passagem que l\u00e1 estava, escrita h\u00e1 s\u00e9culos, do profeta Isa\u00edas: \u201cO Esp\u00edrito de Deus est\u00e1 sobre mim, enviou-me a ensinar o Evangelho aos pobres\u201d. E, a partir dessa altura, Ele faz isso mesmo: vai para as margens do lago, com gente simples, que adere e depois se vai embora e fica um pequeno grupo&#8230; E da\u00ed a dois, tr\u00eas anos, em Jerusal\u00e9m, foi morto numa cruz. E n\u00e3o foi nada de \u201cespetacular\u201d, porque al\u00e9m dele foram, pelo menos, mais dois condenados. Tudo \u00e9 discreto, quase irreconhec\u00edvel.<\/p>\n<p>,<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Ent\u00e3o o que o tornou t\u00e3o relevante?<\/em><\/p>\n<p>DMC \u2013 A verdade que trazia! E a verdade \u00e9 exatamente assim&#8230;<\/p>\n<div class=\"epyt-video-wrapper\"><iframe  id=\"_ytid_49852\"  width=\"480\" height=\"270\"  data-origwidth=\"480\" data-origheight=\"270\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/sImGFMz0-Zs?enablejsapi=1&#038;autoplay=0&#038;cc_load_policy=0&#038;cc_lang_pref=pt&#038;iv_load_policy=1&#038;loop=0&#038;rel=0&#038;fs=1&#038;playsinline=1&#038;autohide=2&#038;theme=dark&#038;color=red&#038;controls=1&#038;disablekb=0&#038;\" class=\"__youtube_prefs__  epyt-is-override  no-lazyload\" title=\"YouTube player\"  allow=\"fullscreen; accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen data-no-lazy=\"1\" data-skipgform_ajax_framebjll=\"\"><\/iframe><\/div>\n<p><em>AE \u2013 E essa ter\u00e1 de ser a estrat\u00e9gia, hoje?<\/em><\/p>\n<p>DMC \u2013 Acabou por se impor&#8230; Da\u00ed a dois tr\u00eas dias aquele pequeno n\u00facleo que ficou sabe que Ele est\u00e1 vivo e nunca mais o deixou de dizer, como dizemos nas liturgias: \u201cO Senhor esteja convosco! Ele est\u00e1 no meio de n\u00f3s\u201d. A maneira como Ele viveu, t\u00e3o verdadeira e t\u00e3o discreta ao mesmo tempo, \u00e9 uma maneira vencedora. E porque vence convence!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Mas foi nos lugares chave da sociedade de ent\u00e3o&#8230;<\/em><\/p>\n<p>DMC \u2013 Mas muito perif\u00e9rico&#8230; A sociedade de ent\u00e3o era o grande imp\u00e9rio, que pela primeira vez reunia tr\u00eas continentes (Norte de \u00c1frica, \u00c1sia Menor e o que n\u00f3s hoje chamamos Europa) no Imp\u00e9rio Romano, com aquela figura do Otaviano C\u00e9sar Augusto. Foi o cume da humanidade na sua organiza\u00e7\u00e3o, civiliza\u00e7\u00e3o e de certa maneira at\u00e9 na cultura. Mas Ele n\u00e3o nasceu em Roma&#8230; Porque \u00e9 que n\u00e3o nasceu em Roma? N\u00e3o nasceu em Atenas nem na Alexandria, que eram os centros culturais da \u00e9poca&#8230; Nem\u00a0sequer em Jerusal\u00e9m nasceu&#8230; Nasceu naquele lugarejo de Bel\u00e9m e vai depois viver e crescer num s\u00edtio ainda mais perif\u00e9rico, Nazar\u00e9 da Galileia dos gentios, onde se juntava toda a gente&#8230; Isto d\u00e1 que pensar! \u00c9 tudo t\u00e3o a partir da periferia que s\u00f3 a grande verdade, a absoluta verdade que trazia acabou por se tornar convincente. Depois, do que havia em Jerusal\u00e9m, o templo caiu, passados uns anos; do que havia em Roma, o F\u00f3rum Romano, s\u00f3 por arqueologia;\u00a0 na cultura, a grande parte do que sobrou foi o que os crist\u00e3os acabaram por veicular, quer os que ficaram na Europa como no mundo \u00e1rabe&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Natal a desistitucionaliza\u00e7\u00e3o da Igreja<\/strong><\/p>\n<p><em>AE \u2013 E o que \u00e9 que isso diz \u00e0s mulheres e aos homens da Igreja Cat\u00f3lica, hoje?<\/em><\/p>\n<p>DMC \u2013 Que a grande li\u00e7\u00e3o do Natal \u00e9 a grande discri\u00e7\u00e3o de Deus, o que alguns autores chamam a humildade de Deus. A realidade absoluta que chamamos Deus e que em Jesus Cristo se revela de uma maneira t\u00e3o convincente, vive-se inteiramente, serenamente, humildemente. E por isso mesmo \u00e9 que o Evangelho \u00e9 enviado aos pobres, no sentido material e num sentido da humildade, dos que est\u00e3o dispon\u00edveis para acreditar, n\u00e3o deslumbrados pelas grandezas deste mundo, mas percebem que a grandeza deste mundo \u00e9 a que Cristo viveu e oferece.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Isso pode ser uma provoca\u00e7\u00e3o para 20 s\u00e9culos de hist\u00f3ria de uma institui\u00e7\u00e3o&#8230;<\/em><\/p>\n<p>DMC \u2013 Mas todos os dias&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 E a institui\u00e7\u00e3o que pode n\u00e3o propor o Evangelho nessa discri\u00e7\u00e3o&#8230;<\/em><\/p>\n<p>DMC \u2013 Se a refer\u00eancia \u00e9 \u00e0 Igreja, a Igreja \u00e9 como as palhas do pres\u00e9pio&#8230; Mas j\u00e1 agora que seja uma palha bonita&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Mas nem sempre o \u00e9&#8230;<\/em><\/p>\n<p>DMC \u2013 De vez em quando precisa de ser arejada&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O que significam estudos como o que se realizou recentemente na regi\u00e3o de Lisboa, onde \u00e9 patriarca, que indica o aumento de crentes sem religi\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>DMC \u2013 Isso tem a ver com outra coisa, com o facto de vivermos numa sociedade e numa cultura, como referem os fil\u00f3sofos p\u00f3s-modernos, muito l\u00edquida, muito dilu\u00edda, muito pouco s\u00f3lida em si mesmo. E por isso tamb\u00e9m \u00e9 muito pouco institucional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 N\u00e3o tem a ver com a verdade da institui\u00e7\u00e3o, comparativamente \u00e0 verdade de Jesus?<\/em><\/p>\n<p>DMC \u2013 \u00c9 a institui\u00e7\u00e3o em si! Tudo o que seja institucional, informal, organiza\u00e7\u00e3o, que continua a ser indispens\u00e1vel para que n\u00f3s nos encontremos e tenhamos ritmos de encontro, de transmiss\u00e3o. \u00c9 necess\u00e1ria a institui\u00e7\u00e3o fam\u00edlia, escola, Estado, a institui\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, tamb\u00e9m a institui\u00e7\u00e3o Igreja. Tudo o que transporta uma ideia precisa de ter uma organiza\u00e7\u00e3o. Mas hoje, a nossa apet\u00eancia, a nossa sociocultura, pelo menos a que vivemos no mundo euroamericano, n\u00e3o \u00e9 institucional. \u00c9 muito desistitucional, as coisas refluem muito para cada um, para conex\u00f5es que se fazem e desfazem segundo cada um, segundo a vontade, o tempo. E tudo quanto seja formal e institucional n\u00e3o \u00e9 muito apetecido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Estou a ouvi-lo e a pensar que talvez Jesus tenha sido o primeiro desinstitucional, nomeadamente no Imp\u00e9rio Romano&#8230;<\/em><\/p>\n<p>DMC \u2013 Mas depois cria o grupo, que imediatamente funda. \u00c9 interessante que desde que come\u00e7a a sua vida publica e o an\u00fancio do Evangelho, come\u00e7a tamb\u00e9m o grupo&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>As pessoas s\u00e3o mais religiosas por si<\/strong><\/p>\n<p><em>AE \u2013 A fragilidade das institui\u00e7\u00f5es provocou tamb\u00e9m a fragilidade do fator religioso?<\/em><\/p>\n<p>DMC \u2013 N\u00e3o. Muda-o na maneira dele se viver, conviver e transmitir. Reparamos at\u00e9 nessa recente sondagem e estudo de opini\u00e3o na Grande Lisboa que h\u00e1 uma percentagem, que ainda \u00e9 maiorit\u00e1ria, que se diz cat\u00f3lica, depois cresce o n\u00famero dos crentes sem religi\u00e3o, mas que s\u00e3o crentes, e depois h\u00e1 outras perten\u00e7as religiosas. As pessoas n\u00e3o s\u00e3o menos religiosas, mas s\u00e3o mais religiosas por si. Ou seja, menos institucionais nessa pr\u00e1tica religiosa.<\/p>\n<p>O que \u00e9 que isto acarreta e nos obriga, concretamente aos crist\u00e3os cat\u00f3licos? Obriga-nos a ser mais convictos daquilo que cremos, mais compreensivos de como estas realidades se transmitem. E onde entra o fator institucional, ele tem de ser cada vez mais convicto e transparente. E quando isto acontece, o encontro verifica-se. Ou seja, cada um de n\u00f3s que aqui se mant\u00e9m sabe porque se mant\u00e9m e prossegue: porque a transmiss\u00e3o religiosa no seu caso funcionou. Isto \u00e9, se nascemos em fam\u00edlias crist\u00e3s, se temos bons encontros, com boa gente, na Igreja, no espa\u00e7o religioso e at\u00e9 na sociedade que nos transmite Evangelho vivo, isso convence-nos. Por isso, a \u00fanica maneira destas coisas prosseguirem, mesmo num tempo t\u00e3o desinstitucional como \u00e9 o nosso, \u00e9 a convic\u00e7\u00e3o dos que se mant\u00eam e que prop\u00f5em.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Acha que as lideran\u00e7as cat\u00f3licas deveriam intervir na sociedade, propondo essa chave de leitura religiosa crist\u00e3?<\/em><\/p>\n<p>DMC \u2013 \u00c9 uma quest\u00e3o de ter mais ou menos aten\u00e7\u00e3o. Reparo, falando do caso portugu\u00eas, que conhe\u00e7o mais concretamente, mas poderia falar em termos universais a partir do magist\u00e9rio dos Papas.<\/p>\n<p>N\u00e3o faltam indica\u00e7\u00f5es, aqui em Portugal, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s grandes quest\u00f5es mais fraturantes. Alguma vez faltou ou falta uma palavra clara e at\u00e9 pedag\u00f3gica dos bispos portugueses em notas sucessivas sobre ideologia g\u00e9nero, aborto, eutan\u00e1sia? N\u00e3o faltam indica\u00e7\u00f5es! \u00c9 preciso estarem atentos&#8230; Hoje h\u00e1 uma possibilidade de informa\u00e7\u00e3o como nunca houve. Depois, no que diz respeito \u00e0 presen\u00e7a p\u00fablica, ela tem de ser feita em termos de sociedade, de cidadania. E essa cidadania \u00e9 protagonizada por cada crist\u00e3o e por cada crist\u00e3, onde est\u00e1!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Mas sabemos da for\u00e7a das lideran\u00e7as nos dias de hoje, contraponto \u00e0 fragilidade das institui\u00e7\u00f5es&#8230;<\/em><\/p>\n<p>DMC \u2013 Mas n\u00e3o s\u00e3o as lideran\u00e7as institucionais cl\u00e1ssicas. S\u00e3o as lideran\u00e7as protagonizadas por quem vive a s\u00e9rio aquilo que est\u00e1 a dizer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Acontecimentos de 2018 e perspetivas para 2019<\/strong><\/p>\n<p><em>AE \u2013 Para o centro do catolicismo vieram os casos de abusos sexuais por parte de membros do clero. \u00c9 um momento na Hist\u00f3ria da Igreja fr\u00e1gil, tenso, com alguma incerteza?<\/em><\/p>\n<p>DMC \u2013 \u00c9 uma grande fragilidade e \u00e9 uma grande tristeza que tenham acontecido e \u00e9 um momento de corre\u00e7\u00e3o e purifica\u00e7\u00e3o, como diz o Papa Francisco, que se tem de levar muito a s\u00e9rio para que n\u00e3o aconte\u00e7am e sobretudo se previnam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O que espera da reuni\u00e3o de fevereiro dos presidentes das confer\u00eancias episcopais, sobre este assunto?<\/em><\/p>\n<p>DMC \u2013 \u00c9 uma oportunidade para se esclarecer este ponto. E isso acontecer\u00e1 com opini\u00f5es balizadas de muita gente que o tem estudado e que pode dar as melhores indica\u00e7\u00f5es para que estas situa\u00e7\u00f5es se ultrapassem e sobretudo se previnam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Podemos esperar uma posi\u00e7\u00e3o mais concertada nos diferentes pa\u00edses?<\/em><\/p>\n<p>DMC \u2013 Sim. As indica\u00e7\u00f5es que Roma tem dado s\u00e3o muito claras, aquelas concretamente as que seguimos em Portugal de acompanhamento dos casos e a sua resolu\u00e7\u00e3o com a colabora\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios, das v\u00edtimas, das fam\u00edlias, das autoridades policiais, e tudo isto com espirito evang\u00e9lico de recupera\u00e7\u00e3o das pessoas. Tudo isso tem sido feito e vai continuar a ser feito. Tem de ser um problema resolvido no conjunto: na religi\u00e3o, na sociocultura, no global. Com certeza que a reuni\u00e3o de fevereiro ser\u00e1 mais uma contribui\u00e7\u00e3o para que isso se consiga.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 N\u00e3o vamos fazer uma previs\u00e3o do ano 2019, mas queria perguntar-lhe sobre<\/em><em>alguns factos. Desde logo o que decorre do que foi falado na opini\u00e3o publica a<\/em><em>prop\u00f3sito da Jornada Mundial da Juventude no Panam\u00e1. O que se pode esperar que<\/em><em>afete ou n\u00e3o Portugal?<\/em><\/p>\n<p>DMC \u2013 As Jornadas da Juventude, desde o Papa S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, ganharam uma for\u00e7a e uma presen\u00e7a na vida da Igreja, sobretudo na sua juventude, muito forte! E mais uma vez isso vai acontecer. L\u00e1 estaremos os que formos de Portugal e de outras partes do mundo, no Panam\u00e1! Depois, no final da jornada, como tem acontecido nas outras, o Papa Francisco h\u00e1 de anunciar onde ser\u00e1 a pr\u00f3xima, no ver\u00e3o de 2022. Foi noticiado que Lisboa se candidatou e a candidatura est\u00e1 l\u00e1&#8230; N\u00e3o foi a \u00fanica que apareceu e, por isso, o Papa que decida!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 E h\u00e1 que esperar&#8230;<\/em><\/p>\n<p>DMC \u2013 H\u00e1 que esperar!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Aguardemos ent\u00e3o para dar essa not\u00edcia, esperando que seja, de facto, c\u00e1 para Portugal&#8230; Pedia-lhe tamb\u00e9m um coment\u00e1rio a alguns acontecimentos que t\u00eam marcado a sociedade portuguesa nos \u00faltimos meses, nomeadamente uma onda crescente de greves. O que indicam essas manifesta\u00e7\u00f5es?<\/em><\/p>\n<p>DMC \u2013 Indicam imediatamente que as pessoas desses setores socioprofissionais t\u00eam insatisfa\u00e7\u00f5es grandes que as levam \u00e0s greves. \u00c9 um direito que t\u00eam! Sabemos que, na sociedade, os direitos conjugam-se com direitos: as pessoas t\u00eam esse direito que tem de ser conjugado com outro direito. Por exemplo, no caso das pessoas que trabalham na \u00e1rea da sa\u00fade t\u00eam os seus direitos, lutam por eles, e h\u00e1 tamb\u00e9m os direitos dos utentes, das pessoas que t\u00eam doen\u00e7as e precisam de ser assistidas. E \u00e9 preciso conjugar esses direitos. A mesma coisa se diga das pris\u00f5es nesta quadra, dos funcion\u00e1rios das pris\u00f5es, concretamente dos guardas prisionais: t\u00eam as suas insatisfa\u00e7\u00f5es, apresentam-nas, fazem greves, o que \u00e9 um direito que tem de ser conjugado depois com o direito que t\u00eam os presos e as suas fam\u00edlias \u00e0 assist\u00eancia, ao acompanhamento. \u00c9 sempre a procura de conjugar direitos distintos, mas que s\u00f3 na sua conjuga\u00e7\u00e3o se resolvem. Somos uma sociedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O Papa Francisco fala da \u201cboa pol\u00edtica\u201d na Mensagem para o Dia Mundial da Paz, referindo 12 v\u00edcios na pol\u00edtica que enfraquecem a democracia e podem p\u00f4r em perigo a paz social. As greves e sobretudo as manifesta\u00e7\u00f5es que acontecem em Fran\u00e7a podem ser um indicativo de que a pol\u00edtica pode estar a p\u00f4r em perigo a paz social?<\/em><\/p>\n<p>DMC \u2013 A pol\u00edtica \u00e9 a vida da \u201cpolis\u201d, da cidade, da sociedade. Nas sociedades democr\u00e1ticas, isto faz-se pela participa\u00e7\u00e3o de cada cidad\u00e3o e faz-se pelos v\u00e1rios patamares de participa\u00e7\u00e3o, desde o aut\u00e1rquico ao internacional, no nosso caso tamb\u00e9m a Uni\u00e3o Europeia, e s\u00f3 se pode fazer por representa\u00e7\u00e3o, a todos os n\u00edveis da sociedade. Entra aqui outro fator que \u00e9 muito contempor\u00e2neo: para al\u00e9m desta participa\u00e7\u00e3o institucionalizada, h\u00e1 uma participa\u00e7\u00e3o mediatizada e imediata, que torna dif\u00edcil a conjuga\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. Afinal, falamos com quem? Por outro lado, sabemos tudo, a partir de sele\u00e7\u00f5es que s\u00e3o feitas, o que se passa em todo o lado. O que ganha uma globaliza\u00e7\u00e3o de tal ordem que, quem sabe impor-se e tem qualidades pessoais e de apresenta\u00e7\u00e3o e eloqu\u00eancia e de persuas\u00e3o para isso, rapidamente pode concentrar \u00e0 sua volta grandes apoios (que tamb\u00e9m rapidamente podem desaparecer). Esta desconjuga\u00e7\u00e3o do que deveria estar mais conjugado e a desinstitucionaliza\u00e7\u00e3o do que s\u00e3o os modos de participa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, a globaliza\u00e7\u00e3o e mediatiza\u00e7\u00e3o, que ao mesmo tempo \u00e9 uma individualiza\u00e7\u00e3o, porque cada um clica ou n\u00e3o clica no que quer ou n\u00e3o quer, aparece ou n\u00e3o aparece quando \u00e9 ou n\u00e3o convocado&#8230; Tudo isto torna a vida democr\u00e1tica mais complicada e hoje em dia a vida pol\u00edtica, que continua a ser uma nobre voca\u00e7\u00e3o, requer uma consist\u00eancia pessoal, uma determina\u00e7\u00e3o, uma resili\u00eancia que dantes n\u00e3o eram t\u00e3o precisas&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O que tem consequ\u00eancias imediatas. O Brexit pode ser um desses sintomas? A tal desconjuga\u00e7\u00e3o de que fala pode afetar at\u00e9 o projeto da Uni\u00e3o Europeia?<\/em><\/p>\n<p>DMC \u2013 A ideia que d\u00e1 \u00e9 que tudo foi muito precipitado. E deram-na desde logo os pr\u00f3prios ingleses, no dia a seguir, uns muitos euf\u00f3ricos outros muito perplexos e ainda hoje n\u00e3o se resolveu o assunto&#8230;<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Elei\u00e7\u00f5es em 2019<\/strong><\/p>\n<p><em>AE \u2013 O que se pode esperar das elei\u00e7\u00f5es europeias de 2019?<\/em><\/p>\n<p>DMC \u2013 Espero que n\u00e3o tenham grandes absten\u00e7\u00f5es. Espero que as pessoas participem mesmo, que tenham consci\u00eancia que o projeto europeu, com as defici\u00eancias que tem, foi uma realidade muito bem concebida na sua origem porque, tendo um des\u00edgnio grande, a Europa, come\u00e7ou com os p\u00e9s na terra, por organizar a coletivamente aqueles bens e mat\u00e9rias-primas que eram necess\u00e1rias para o desenvolvimento europeu, depois da II Guerra Mundial (o carv\u00e3o e o a\u00e7o); garantiu-nos 7 d\u00e9cadas de paz, o que n\u00e3o \u00e9 normal na Hist\u00f3ria Europeia, que tem sido uma sucess\u00e3o de guerras civis europeias ao longo dos s\u00e9culos. Que nada disto se perca! Que as pessoas tenham consci\u00eancia do que est\u00e1 em jogo, de que o enfraquecimento da Uni\u00e3o Europeia seria uma fatalidade para todos n\u00f3s e um enorm\u00edssimo retrocesso e de que se deixarmos que, por absten\u00e7\u00e3o nossa, grupos mais determinados preencham o Parlamento Europeu com deputados antieuropeus, seria tremendo, com consequ\u00eancias muito nefastas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O mesmo espera para Portugal, num ano de elei\u00e7\u00f5es regionais e legislativas, que acontecem depois de uma legislatura que foi singular na hist\u00f3ria da democracia portuguesa?<\/em><\/p>\n<p>DMC \u2013 A mesma coisa: informa\u00e7\u00e3o, participa\u00e7\u00e3o, discernimento, campanhas eleitorais bem feitas, programas claros, melhor liga\u00e7\u00e3o entre deputados e a popula\u00e7\u00e3o. E que tudo isso resulte numa vota\u00e7\u00e3o com mais consci\u00eancia e mais determinada, n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 volta deste ou daquele pol\u00edtico que possa aparecer, mas do que realmente se disp\u00f5e a fazer e se compromete.<\/p>\n<p><em>PR<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA, D. Manuel Clemente afirma que, como no pres\u00e9pio, \u00e9 pela verdade que a Igreja se tem de afirmar, sobretudo num tempo em que as pessoas s\u00e3o poucos institucionais na pr\u00e1tica religiosa, analisa acontecimentos sociais e projeta o ano 2019, para a Igreja Cat\u00f3lica e para a sociedade<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":122600,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[343,267],"class_list":["post-122613","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","tag-diocese-de-lisboa","tag-natal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/122613","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=122613"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/122613\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/122600"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=122613"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=122613"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=122613"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}