{"id":122557,"date":"2018-12-23T12:02:07","date_gmt":"2018-12-23T12:02:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=122557"},"modified":"2018-12-28T10:17:55","modified_gmt":"2018-12-28T10:17:55","slug":"d-antonio-bessa-taipa-uma-vida-ao-servico-da-igreja-catolica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/d-antonio-bessa-taipa-uma-vida-ao-servico-da-igreja-catolica\/","title":{"rendered":"D. Ant\u00f3nio Bessa Taipa, uma vida ao servi\u00e7o da Igreja Cat\u00f3lica"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p>A Diocese do Porto junta-se hoje numa celebra\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as pelo minist\u00e9rio do seu bispo auxiliar em\u00e9rito D. Ant\u00f3nio Taipa. A Ag\u00eancia ECCLESIA esteve com o homenageado para conversar sobre o seu percurso de vida: dos quase 20 de minist\u00e9rio episcopal; da sua dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 forma\u00e7\u00e3o e ao ensino; da sua vida em Roma, onde estou Sagrada Escritura e encontrou um mundo novo; e da pr\u00f3pria Igreja Cat\u00f3lica no Porto.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Paulo Rocha<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-122461 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/antonio_taipa2018a.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/antonio_taipa2018a.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/antonio_taipa2018a-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/antonio_taipa2018a-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/antonio_taipa2018a-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/antonio_taipa2018a-1080x720.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/strong><\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia ECCLESIA (AE) \u2013 D. Ant\u00f3nio Taipa prepara-se para uma nova etapa na sua vida, que foi marcada pela forma\u00e7\u00e3o, pelo ensino, pela proximidade ao clero desta Diocese do Porto.<\/strong><\/p>\n<p><strong>D. Ant\u00f3nio Taipa (AT) \u2013<\/strong> De facto assim foi. Quando D.\u00a0Florentino\u00a0(de Andrade e Silva, administrador apost\u00f3lico entre 1959 e 1969) me chamou para me nomear, depois de me ter ordenado presb\u00edtero, disse-me: \u201cSei que preferias ser p\u00e1roco, e disseste-o muitas vezes, mas preciso de ti noutro s\u00edtio\u201d. E mandou-me para o semin\u00e1rio, onde comecei o exerc\u00edcio do minist\u00e9rio sacerdotal com meninos do que agora equivaleria ao 6.\u00ba ano de escolaridade.<\/p>\n<p>Fui com a alegria de quem vai mandado para ver o que ia acontecer. J\u00e1 estavam l\u00e1 dois padres que conhecia, tinham sido meus contempor\u00e2neos. Foi muito bonito e acabei o ano encantado com o servi\u00e7o, com a miss\u00e3o de ajudar aqueles mi\u00fados a crescer nas diversas dimens\u00f5es da vida.<\/p>\n<p>No fim do ano j\u00e1 estava a projetar o ano seguinte quando o senhor D. Florentino nos chamou aos tr\u00eas \u2013 eu, o padre Peres e o padre Boaventura &#8211; e disse que um ia sair e n\u00e3o disse quem. J\u00e1 quase no fim da conversa disse que era eu quem ia estudar.<\/p>\n<p>Eu disse: Se tenho de sair, se tenho de ir para Roma, quero estudar Sagrada Escritura.<\/p>\n<p>Custou-me muito, custou-me mais isso do que inicialmente ter ido para o semin\u00e1rio, j\u00e1 estava projetado naquela vida, porque eram cinco anos que estavam na frente.<\/p>\n<p>Recordo-me que um m\u00eas antes de ir fui apresentar ao senhor D. Florentino os requerimentos dos alunos para o 3.\u00ba e vinha com ela estudada: vou dizer que n\u00e3o quero ir.<\/p>\n<p>Ele falou-me de ir para Roma como se fosse ali a Santo Tirso ou Penafiel e fiquei absolutamente desarmado\u2026<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>AE \u2013 Como foram vividos esses cinco anos em Roma? Sentiam-se muito as tens\u00f5es por causa do Conc\u00edlio Vaticano II?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AT &#8211;<\/strong> Foram cinco anos maravilhosos de descoberta. Estava o conc\u00edlio ainda a ferver, era em 1967-1968. Estava a decorrer um s\u00ednodo em Roma, era um entusiamo imenso pelas novidades.<\/p>\n<p>As tens\u00f5es sentiam-se muito. Nunca mais esque\u00e7o que vi o (Papa) Paulo VI chorar numa homilia de Quinta-feira Santa, das perturba\u00e7\u00f5es que estavam a acontecer na Igreja.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes ouvia dizer que quem vai para Roma perde a f\u00e9. Gra\u00e7as a Deus n\u00e3o perdi a f\u00e9, mas solidifiquei a f\u00e9, porque em contacto com o estudo, com as fraquezas, com a humanidade da Igreja, que ali se sente mais, fui purificando a minha ideia da Igreja, da f\u00e9, de crente e vivi cinco anos maravilhosos.<\/p>\n<p>Era novo, tinha 24 anos, ir para Roma naquela altura era uma coisa complicada, est\u00e1vamos em 1967, era outro mundo. O que se via naquelas ruas era uma coisa horrorosa e quem me ajudou imenso foi D. Jos\u00e9 Policarpo, que j\u00e1 l\u00e1 estava, era mais velho 4 ou 5 anos. Fez o favor de ser muito meu amigo, de brincar muito comigo sobre tudo o que ia acontecendo. Foi o que me ficou mais, mas tive gra\u00e7as a Deus muitos colegas, amigos, t\u00ednhamos uma camaradagem muito forte.<\/p>\n<p>Depois era a paix\u00e3o pelo estudo: n\u00e3o fazia mais nada sen\u00e3o estudar, sen\u00e3o trabalhar e dia e de noite. Recordo-me do ano de licenciatura e estudava mais de 12 horas por dia, mas apaixonado. Era um estudar que n\u00e3o era propriamente para o exame, era para saber, para mergulhar naquelas coisas todas. Para mim era quase tudo novo.<\/p>\n<p>A certa altura custou-me tanto vir para Portugal como ir para l\u00e1. Sou muito f\u00e1cil de adaptar-me a situa\u00e7\u00f5es novas, n\u00e3o tenho problema, fa\u00e7o amizades e encontrei amigos por toda a parte, encontrei grandes professores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE \u2013 Quando regressou a Portugal, veio completamente imbu\u00eddo da Sagrada Escritura?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AT &#8211;<\/strong> Apaixonado pela Sagrada Escritura, isso n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida. Essa paix\u00e3o come\u00e7ou c\u00e1, quando era seminarista no Semin\u00e1rio do Porto, com um dos meus grandes professores, o Dr. Godinho. Ele ensinava, pregava, quase que morria a ensinar Sagrada Escritura, conquistava-nos, e essa paix\u00e3o continuou.<\/p>\n<p>Aprofundei em Roma, foram dois anos em Teologia Dogm\u00e1tica e tr\u00eas em Sagrada Escritura e vim apaixonado.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>AE \u2013 Disse que lhe custou ir para o semin\u00e1rio. Qual era a sua vontade, depois da ordena\u00e7\u00e3o presbiteral?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AT &#8211;<\/strong> Projetei-me sempre para ser p\u00e1roco e sonhava com a paroquialidade e com uma equipa de padres a trabalhar numa zona em Amarante; era o meu sonho, gostava muito daquela gente.<\/p>\n<p>Estava sentado na sala de espera do Pa\u00e7o para ser nomeado e perguntei ao secretario do senhor D. Florentino: Ontem esteve aqui o senhor padre Celestino Ramos de Santo Tirso? Pensava que ia para Santo Tirso como coadjutor.<\/p>\n<p>\u201cEsteve mas tamb\u00e9m esteve o padre Peres\u201d, que era o diretor do semin\u00e1rio. Depois chegou outro colega, o senhor padre Jardim, e disse que eu ia para o semin\u00e1rio e ele para Santo Tirso.<\/p>\n<p>De facto, custou-me nessa altura, mas s\u00f3 at\u00e9 dizer que sim e depois acabou. Projetei-me para aquilo, como se diz agora, focalizei-me naquilo e n\u00e3o tive problemas nenhuns de ordem nenhuma.<\/p>\n<p>Custou-me a ida para Roma mas tamb\u00e9m a vinda, depois de cinco anos, por muitos motivos: Est\u00e1vamos em 67 e impressionou-me imenso entrar numa sociedade livre. Estava a ver televis\u00e3o e at\u00e9 tinha medo porque ouvia dizer mal do primeiro-ministro, a criticar o presidente da Rep\u00fablica (It\u00e1lia) e at\u00e9 sentia medo.<\/p>\n<p>Fez-me crescer muito, numa sociedade livre, com os seus defeitos e tamb\u00e9m as suas virtudes, e aqui tamb\u00e9m me ajudou muito o senhor D. Jos\u00e9 Policarpo a manter os equil\u00edbrios, a ser capaz de fazer o discernimento das coisas, para manter a serenidade. Foi um tempo muito forte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE &#8211; Houve esta mudan\u00e7a na Igreja Cat\u00f3lica, para uma liberdade tamb\u00e9m, a que se seguiu depois na sociedade portuguesa, no 25 de Abril. Viveu todos esses movimentos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AT \u2013<\/strong> Regressei em 1972 e o bispo D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes mandou-me para o semin\u00e1rio, para professor de Sagrada Escritura, e para perfeito, colaborador de D. Armindo (Coelho, futuro bispo da diocese) que era reitor. Come\u00e7ou uma etapa s\u00e9ria e forte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE \u2013 Antes dessa etapa, gostava que recordasse como foi a vida na Diocese do Porto nesses tempos de transi\u00e7\u00e3o entre D. Florentino e D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AT &#8211;<\/strong> Fui ordenado em 1966, e o senhor D. Ant\u00f3nio veio depois em 69. Penso que posso diz\u00ea-lo, no semin\u00e1rio viveu-se uma certa antecipa\u00e7\u00e3o do maio de 68, em Paris. N\u00e3o digo de revolu\u00e7\u00e3o, mas de convuls\u00f5es fortes internas ao semin\u00e1rio. T\u00ednhamos um reitor muito aberto e aproveit\u00e1vamos a abertura: convers\u00e1vamos e diz\u00edamos e discut\u00edamos, p\u00fanhamos tudo de pernas ao ar. Foram dois, tr\u00eas anos muito fortes que continuaram.<\/p>\n<p>Esta mudan\u00e7a no semin\u00e1rio foi a passagem para um tipo de rela\u00e7\u00e3o entre seminaristas e formadores e professores diferenciada, mais livre, mais aberta, mais personalizada, mais centrada na pessoa de cada um. Isso aconteceu e com alguma viol\u00eancia. As coisas acalmaram, o senhor D. Ant\u00f3nio passou ali uns tempos um bocado dif\u00edceis e chamou o senhor D. Armindo para reitor, as coisas foram-se equilibrando, e vim nessa altura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE \u2013 Que tens\u00f5es eram essas? Entre os respons\u00e1veis e os alunos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AT &#8211;<\/strong> Eram tens\u00f5es com o sistema. N\u00f3s ador\u00e1vamos o nosso reitor, o nosso vice-reitor, os padres que l\u00e1 estavam eram maravilhosos.<\/p>\n<p>Era o rebentar de uma situa\u00e7\u00e3o que j\u00e1 n\u00e3o podia mais. Do professor e do aluno, do superior e do inferior para outro tipo de rela\u00e7\u00e3o mais amiga. N\u00e3o \u00e9 mais igualit\u00e1ria, n\u00f3s respeit\u00e1vamo-nos muito, mas de maior considera\u00e7\u00e3o de uns pelos outros. T\u00ednhamos uma associa\u00e7\u00e3o de estudantes muito forte e interventiva na vida da casa. A certa altura come\u00e7amos a dizer que quer\u00edamos um bocado mais.<\/p>\n<p>Havia interven\u00e7\u00f5es da parte do reitor, mesmo do vice-reitor, que ultrapassavam um bocado e calcavam um bocado aquilo que eram os nossos direitos, dos nossos estatutos. Recordo que tivemos conversas interessant\u00edssimas com o reitor. Tudo de maneira pac\u00edfica, mas dura, e fazia sofrer, era convicta da nossa parte e dos superiores da altura.<\/p>\n<p>Foi muito bonito e a\u00ed tivemos oportunidade de ver e apreciar o valor de quem estava connosco, os padres que estavam connosco. Grandes padres, grandes dedica\u00e7\u00f5es que nunca tremeram, viveram connosco as situa\u00e7\u00f5es e as dificuldades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE &#8211; D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes soube gerir toda essa situa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AT \u2013 <\/strong>O senhor D. Ant\u00f3nio ouvia. N\u00f3s \u00edamos falar com ele, lia e respondia a comunicados, exposi\u00e7\u00f5es que faz\u00edamos. Respondia \u00e0 maneira dele, a bater mesmo no osso nas ideias e nas propostas. Gra\u00e7as a Deus. Quando ele falava, quando nos recebia para falar connosco, era de tremer, ia at\u00e9 ao osso.<\/p>\n<p>Gostava muito dele por muitas coisas e tamb\u00e9m por isto: um homem tremendamente exigente, ia ao fundo das coisas, mas ouvia e era capaz de voltar atr\u00e1s e refazer maneiras de pensar, ideias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE \u2013 Foi este semin\u00e1rio que ajudou a construir, enquanto seminarista, que depois teve de liderar?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AT \u2013<\/strong> Foi um semin\u00e1rio que vim encontrar um bocado pacificado, mas ainda tenso, em outubro de 72, recordo-o muito bem. Tive depois de ouvir o outro lado, os seminaristas, com muito gosto. Tamb\u00e9m fui seminarista e dizia: \u2018N\u00e3o fazeis nada de novo para mim\u2019. Foi um tempo muito bonito, at\u00e9 ao 25 de abril (1974) e pacifica\u00e7\u00e3o nos anos seguintes. O D. Armindo, que era o reitor na altura, era um homem maravilhoso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE \u2013 Mas eram personalidades diferentes?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AT-<\/strong> Sim, sim, mas com muita coisa parecida. O senhor D. Armindo parecia um homem frio, mas n\u00e3o era. Sentado a uma mesa ou numa conversa era maravilhoso. Quando saiu para bispo perguntei: Mas e agora como \u00e9 que vamos comer? Sem o D. Armindo aqui com a alegria dele, o apetite, a boa disposi\u00e7\u00e3o. Era um homem espantoso com uma capacidade de humor \u00fanica, que ningu\u00e9m conhecia. E depois era muito amigo e era muito meu amigo. Conifava muito em mim, ajudou-me muito a crescer.<\/p>\n<p>Foram sete anos a aprender com ele. D. Ant\u00f3nio (Ferreira Gomes), em janeiro, mandou-me chamar e disse: \u201cSabe que o cargo de reitor n\u00e3o \u00e9 vital\u00edcio, se D. Armindo sa\u00edsse, quem teria um perfil de reitor?\u201d.<\/p>\n<p>Estive a dizer o que como entendia um reitor de semin\u00e1rio. \u201cBom, estava a pensar em si\u201d.<\/p>\n<p>A responsabilidade era grande, o semin\u00e1rio ainda estava com algumas tens\u00f5es, mas tinha bons colegas, amigos, colaboradores, fi\u00e9is, impec\u00e1veis. E realizei o que foi sempre o meu sonho, que era trabalhar com uma equipa de padres.<\/p>\n<p>Foram ali 20 anos como reitor, mas de maneira apaixonada, gostei muito, muito, um tempo que \u00e9 desgastante, a ocupa\u00e7\u00e3o 24 sobre 24 horas, pensamos neles em tudo e a respeito de tudo. \u00c9 estar com eles: estar com eles a comer, estar com eles a brincar, estar com eles a rezar, estar com eles a trabalhar. Obriga a viver ali concentrado, concentrado na vida, mas com muita alegria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE \u2013 Essa alegria, paix\u00e3o, compet\u00eancia por esse trabalho faz com que v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es de sacerdotes na Diocese do Porto o tenham na sua hist\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AT &#8211;<\/strong> Tenho 110 padres no exerc\u00edcio do minist\u00e9rio que passaram por mim, fui reitor deles. Gra\u00e7as a Deus. Isso foi muito bom para mim, como bispo.<\/p>\n<p>A minha vida de reitor foi uma vida simples. Passou muita gente pela m\u00e3o, muita gente que se ordenou, muitos que n\u00e3o se ordenaram que est\u00e3o a\u00ed na sociedade, homens fortes, homens vivos, homens dedicados, que d\u00e3o cartas na vida social, gra\u00e7as a Deus.<\/p>\n<p>J\u00e1 naquela altura, e agora mais, penso que quer a Igreja, quer a sociedade, t\u00eam necessidade grande de homens fi\u00e9is a si pr\u00f3prios, fieis \u00e0 miss\u00e3o que a sociedade ou a Igreja lhe confia. Homens de verdade, longe das corrup\u00e7\u00f5es e do tr\u00e1fico de influ\u00eancias. Penso que \u00e9 por aqui que se deve andar, aqui na forma\u00e7\u00e3o de homens a s\u00e9rio, porque \u00e9 onde aparece um padre a s\u00e9rio, e um bispo a s\u00e9rio. Com defeitos, tudo o que se quiser imaginar. Um homem que vive projetado num esfor\u00e7o de verdade, em rela\u00e7\u00e3o a si, \u00e0 sua miss\u00e3o, aos outros.<\/p>\n<p>Estou convencido que o que Deus quer de cada um de n\u00f3s \u00e9 que viva, viva com verdade. E para viver com verdade \u00e9 preciso comer, sen\u00e3o morre-se; ir \u00e0 mesa e comer e &#8220;beber uma pinga&#8221;. Tamb\u00e9m \u00e9 preciso rezar e \u00e9 preciso meditar, refletir e refletir-se a si pr\u00f3prio, refletir a vida e refletir a sua rela\u00e7\u00e3o com o que \u00e9 para n\u00f3s o homem perfeito; sem isso tamb\u00e9m n\u00e3o vai. Isto para viver! O homem \u00e9 criado para viver. E tudo mais na vida \u00e9 o viver que d\u00e1 sentido.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>AE \u2013 Estava a ouvi-lo e a pensar nos casos que deitam por terra todo esse ideal. No tempo em que foi reitor, deparou-se com situa\u00e7\u00f5es de ambiguidade de car\u00e1cter, abusos de autoridade, e outros? Como foi gerindo esses casos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AT \u2013<\/strong> Olhamos para eles e pensamo-los muito. Olhava eu e mais tr\u00eas padres para tentar penetrar na personalidade de cada um, nos segredos, naquilo que n\u00e3o se diz a ningu\u00e9m, mas que topamos em todas as situa\u00e7\u00f5es, at\u00e9 a jogar futebol.<\/p>\n<p>Em todas as situa\u00e7\u00f5es, as pessoas v\u00e3o dizendo quem s\u00e3o, as suas virtudes e defeitos. Tive de pedir a alguns para abandonar o semin\u00e1rio. Nunca tive problemas, todos aceitaram, por desvios de personalidade, afetivos, e eles entendiam perfeitamente. \u00c0s vezes, pessoas c\u00e1 de fora n\u00e3o entendiam como eles.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 doloroso termos de chamar um rapaz e dizer-lhe: N\u00f3s entendemos que a tua vida n\u00e3o ser\u00e1 esta. \u2013 \u201cO Senhor acha? \u00c9 que eu tamb\u00e9m acho isso\u201d.<\/p>\n<p>Resolv\u00edamos sempre de maneira pac\u00edfica. Ajudei muitos depois de sa\u00edrem a fazer os cursos superiores porque fic\u00e1vamos de bem, com boa rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como tamb\u00e9m \u00e9 doloroso haver quem alimentamos esperan\u00e7as, que vai ser um padre fora de s\u00e9rie, e ele vem connosco ao gabinete: \u201cQuero desistir e n\u00e3o me diga que sou simp\u00e1tico, inteligente\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE \u2013 A\u00ed tamb\u00e9m se v\u00ea a integridade da pessoa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AT \u2013<\/strong> A gente consolava-se com esta simplicidade, integridade, verdade. N\u00e3o quer dizer que n\u00e3o tenha n\u00e3o houvesse coisas que passaram e n\u00e3o deviam ter passado. Somos humanos, empenhamo-nos, damos o nosso melhor. Depois a vida de cada \u00e9 sempre um mist\u00e9rio. Foram 20 anos ador\u00e1veis, mas desgastantes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE &#8211; Foram 20 anos em que muitos falam de uma pedagogia da proximidade que desenvolveu com todos. Pedagogia da \u201cporta aberta\u201d, foi a express\u00e3o que ouvi.<\/strong><\/p>\n<p><strong>AT &#8211;<\/strong> Era a pedagogia do padre Am\u00e9rico, um homem que me apaixonou. N\u00e3o o conheci pessoalmente, mas li os livros dele v\u00e1rias vezes, era e \u00e9 apaixonante a leitura do padre Am\u00e9rico.<\/p>\n<p>Os seminaristas n\u00e3o tinham chave da porta, porque era um perigo, quando queriam sair, pediam e levavam a chave. Iam ao meu gabinete, ou de outro padre, tirar a chave. \u00c0s vezes ficava \u00e0 espera que ele voltasse. E eles comentavam: \u2018Olha o gajo a vigiar\u2019.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o estava a vigiar, estava morto que viesse porque queria v\u00ea-lo em casa, com medo que acontecesse alguma coisa. Eles perceberam tamb\u00e9m isto, que estava \u00e0 espera deles n\u00e3o era para ver a que horas chegavam, era para ter a certeza que estava em casa, que n\u00e3o tinha acontecido nada.<\/p>\n<p>Depois, as coisas foram avan\u00e7ando, foram mudando. Esteve l\u00e1 um padre a fazer um tratamento no (hospital) Santo Ant\u00f3nio, que tinha sido meu contempor\u00e2neo, e n\u00e3o lhe dava jeito ir para casa, que, a certa altura, disse: \u201c\u00d3 Ant\u00f3nio, isto j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 nada como no nosso tempo\u201d. N\u00e3o, e mudou sem a gente dar conta. Fomos vivendo e tentando responder \u00e0s coisas de ano para ano, de m\u00eas para m\u00eas, e estamos aqui e vamos ver at\u00e9 onde vai. Foi tudo de maneira simples e conversada.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos reuni\u00f5es anuais com outros reitores, como D. Ant\u00f3nio Francisco (dos Santos \u2013 ent\u00e3o reitor na Diocese de Lamego, que seria bispo do Porto) com quem conversei muito.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>AE &#8211; Como est\u00e1 a acompanhar os casos de abusos sexuais por membros do clero e a resposta da Igreja Cat\u00f3lica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AT \u2013<\/strong> S\u00e3o as mazelas da sociedade, a Igreja est\u00e1 na sociedade e somos homens como os outros homens. Com estas mudan\u00e7as todas, \u00e0s vezes, n\u00e3o sei tamb\u00e9m n\u00e3o perderemos algumas refer\u00eancias para a nossa vida.<\/p>\n<p>Sofro com essas coisas todas, mas n\u00e3o desespero. Dizemos desde sempre que a Igreja \u00e9 pecadora mas nunca levamos isto a s\u00e9rio. Agora v\u00ea-se, s\u00e3o os nossos pecados que s\u00e3o da responsabilidade de uns e outros, de uma maneira ou outra maneira. Isto obriga-nos a ver como estamos a fazer, como estamos a proceder nestas \u00e1reas e depois tamb\u00e9m nos obriga a sermos muito mais misericordiosos e tolerantes com a sociedade.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes criticamos situa\u00e7\u00f5es e temos de ter calma, porque temos em casa as mesmas coisas, \u00e0s vezes em grau superior. Aqui vem o que dizia h\u00e1 pouco, o que se exige \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o do homem em sociedade, do homem que seja capaz de viver e conviver com o outro. Viver para o outro, viver com o outro, viver ao lado. Isto \u00e9 que se exige, no sentido de ajudar em cada momento, e em cada altura, ser fiel a si pr\u00f3prio e \u00e0 miss\u00e3o que a sociedade ou a Igreja lhe confia.<\/p>\n<p>Depois temos outras ajudas a n\u00edvel espiritual, que, \u00e0s vezes, tamb\u00e9m n\u00e3o se respeita muito. Para viver \u00e9 preciso comer e rezar, e refletir, e pensar-se diante de Deus, pensar-se diante de Jesus Cristo. Pensar como somos, sem medo daquilo que somos, sem medo das fraquezas, dos limites, das limita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes dizia aos rapazes que Ele disse aos ap\u00f3stolos \u201cN\u00e3o fostes v\u00f3s que me escolheste, fui eu que vos chamei\u201d, portanto, Ele \u00e9 que tem a responsabilidade e depois n\u00e3o falha nas ajudas que \u00e9 preciso dar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE &#8211; Uma refer\u00eancia \u00e0 sua paix\u00e3o pela B\u00edblia, no tempo em que estudava 12 horas por dia, mas sobretudo no tempo em que foi professor de Sagrada Escritura. Segundo ouvimos, contagiou e passou essa paix\u00e3o aos alunos\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>AT \u2013<\/strong> Isso foi o que quis. Para al\u00e9m de ensinar algumas coisas que \u00e9 preciso saber de Grego, Hebraico e t\u00e9cnicas de interpreta\u00e7\u00e3o, criar neles alguma paix\u00e3o de leitura pela Sagrada Escritura. Se n\u00e3o criar neles alguma paix\u00e3o, as t\u00e9cnicas n\u00e3o t\u00eam interesse nenhum.<\/p>\n<p>Procurei sempre nas minhas aulas dar de acordo com a sociedade, com o que se ia passando, para irem fazendo esta descoberta da adequa\u00e7\u00e3o da Palavra B\u00edblica \u00e0 \u00a0palavra da vida, \u00e0 vida, da vida \u00e0 B\u00edblia: iluminar a vida com a B\u00edblia e depois aprender a ler a B\u00edblia com a vida. Isto tentei fazer.<\/p>\n<p>Pela maneira que falam e me procuram, parece que muita coisa ficou. Ter de dar as aulas tamb\u00e9m me obrigava a estudar, a atualizar. E foi bonito. Agora olho para eles encantado da vida, com alguma vaidade por ter sido professor deles.<\/p>\n<p>A certa altura tamb\u00e9m disse ao bispo, j\u00e1 era o D. Armindo, \u201cagora saio mesmo, j\u00e1 n\u00e3o sei mais educar, \u00e9 preciso um reitor novo\u201d. Tinha 55 anos, era preciso um reitor novo que estivesse mais metido na vida do que eu.<\/p>\n<p>No meu tempo, eles tinham aulas de manh\u00e3, estudavam de tarde, jog\u00e1vamos futebol juntos, faz\u00edamos refei\u00e7\u00f5es juntos, isto mudou tudo: \u00a0aulas de tarde, um v\u00eam almo\u00e7ar \u00e0 1 hora, outro \u00e0 hora e meia, outro \u00e0s 2, j\u00e1 n\u00e3o estava com eles\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE \u2013 Passado pouco tempo, foi nomeado bispo auxiliar do Porto. Antes, no final da d\u00e9cada de 60, tinha vivido com D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes, com D. Florentino. Como \u00e9 que a diocese passou nessas tens\u00f5es, que eram tamb\u00e9m pol\u00edticas e sociais? <\/strong><\/p>\n<p><strong>AT \u2013<\/strong> Tive um professor, que depois foi meu colega, que ficava altamente mal-disposto quando lhe falavam na divis\u00e3o do Clero Porto. Foi uma altura tensa, o senhor D. Ant\u00f3nio no ex\u00edlio, o senhor D. Florentino como administrador apost\u00f3lico.<\/p>\n<p>Alguns dos homens mais apaixonados pelo D. Ant\u00f3nio eram os colaboradores mais fortes de D. Florentino. O facto de uns estarem mais inclinados, simpatizando por D. Florentino, outros por D. Ant\u00f3nio, n\u00e3o contribuiu minimamente para qualquer tipo de divis\u00e3o.<\/p>\n<p>A diocese trabalhou muito e muito bem durante os 10 anos que senhor D. Florentino foi administrador apost\u00f3lico. Eu falava muito nisto aos rapazes.<\/p>\n<p>Foi um espa\u00e7o na hist\u00f3ria muito bonito para as pessoas aprenderem com a grandeza destes padres desta altura. Eram grandes sacerdotes que trabalharam imenso para vir o senhor D. Ant\u00f3nio e colaboraram imenso com o senhor D. Florentino na maior lealdade, na maior dedica\u00e7\u00e3o. \u00c9 esta a ideia que tenho deste tempo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE \u2013 Falar da divis\u00e3o do clero \u00e9 uma falsa ideia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AT &#8211;<\/strong> Para mim \u00e9 falsa ideia falar de divis\u00e3o. Podia haver alguma coisa, mas no conjunto o Clero estava unido a trabalhar na diocese e sob a orienta\u00e7\u00e3o do senhor D. Florentino, n\u00e3o conhe\u00e7o infidelidade, nem trai\u00e7\u00f5es. O que me d\u00e1 um prazer particular porque ajuda a ver a grandeza destes homens, destes padres, que trabalharam num tempo que n\u00e3o era f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Depois veio o senhor D. Ant\u00f3nio, entrou, n\u00e3o houve convuls\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE \u2013 Damos um salto na hist\u00f3ria at\u00e9 \u00e0 altura que foi nomeado bispo auxiliar &#8211; primeiro com D. Armindo, depois D. Manuel Clemente, D. Ant\u00f3nio Francisco e agora D. Manuel Linda. Foi um percurso bastante longo, com diferentes tipos de colabora\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AT &#8211;<\/strong> Foi bonito, porque foi uma vida de auxiliar com muita liberdade por parte do bispo diocesano. Na fidelidade, estou a dizer isto, mas devia estar calado, estes problemas nem se p\u00f5em, acontecem naturalmente. Dizia D. Manuel Clemente, temos um minist\u00e9rio episcopal nesta diocese que \u00e9 exercido por quatro bispos: um mais tr\u00eas.<\/p>\n<p>Viv\u00edamos em comunh\u00e3o, no trabalho que cada um fazia, e cada um trabalhou sempre de acordo consigo pr\u00f3prio e, consequentemente, de maneira diferente, ainda que ningu\u00e9m notasse. Todos os 15 dias p\u00fanhamos em comum o que \u00edamos fazendo, os projetos, as realiza\u00e7\u00f5es. As dificuldades, os problemas que era preciso resolver. De maneira t\u00e3o diferente, qu\u00e3o diferente eram as pessoas.<\/p>\n<p>E de maneira muito simples, amiga, normal e natural, de algu\u00e9m que estava empenhado na mesma coisa que era a vida da diocese. Tivemos a vida organizada de maneira diferente. Com D. Armindo n\u00e3o t\u00ednhamos zonas pastorais, fiz visitas pastorais na diocese toda. Depois mudou o sistema e estive na regi\u00e3o Nascente, era uma zona que adorava particularmente, tinha no meio Amarante, que era terra dos meus sonhos. \u00c9 uma paix\u00e3o que n\u00e3o sei explic\u00e1-la, quando era seminarista ia l\u00e1 muito.<\/p>\n<p>Foi um exerc\u00edcio do minist\u00e9rio episcopal diversificado, de acordo tamb\u00e9m com a diversifica\u00e7\u00e3o da orienta\u00e7\u00e3o de cada bispo. Depois a riqueza de trabalhar com bispos diferentes, D. Armindo, D. Manuel Clemente, D. Ant\u00f3nio Francisco, pessoas todas t\u00e3o diferentes e que nos demos sempre t\u00e3o bem e gostamos sempre uns dos outros.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 consolador, quer com o bispo auxiliar, quer com o bispo diocesano demo-nos sempre t\u00e3o bem. Nem sempre tivemos de acordo em absoluto, mas discutimos e conversamos.<\/p>\n<p>Foram 19 anos muito felizes, apaixonados, mas com muita alegria, com muita felicidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE &#8211; O que significa ser bispo do Porto na sociedade portuguesa, na Igreja Cat\u00f3lica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AT &#8211;<\/strong> \u00c9 ser bispo de uma grande diocese. Somos quase 2 milh\u00f5es e meio, temos umas centenas de padres, centenas de paroquias. \u00c9 ser bispo de uma grande diocese. \u00c9 estar preparado para os problemas correlativos, uma grande diocese naturalmente tem mais problemas e eventualmente mais fortes. \u00c9 tamb\u00e9m uma diocese onde se trabalha muito, com muita seriedade, com um laicado maravilhoso.<\/p>\n<p>A gente vai por a\u00ed e faz reuni\u00f5es com os que trabalham com o p\u00e1roco na pastoral da paroquia e encontram-se centenas de pessoas, dedicad\u00edssimas, interessad\u00edssimas nas coisas, muito bem formadas. Estamos sempre a dizer que \u00e9 preciso formar os leigos, e \u00e9, mas este est\u00e3o informados e querem avan\u00e7ar.<\/p>\n<p>\u00c9 uma diocese que tem um peso muito forte. Costumo dizer que muitas dioceses do pa\u00eds t\u00eam a popula\u00e7\u00e3o da nossa cidade do Porto, 300 mil pessoas, e esta dimens\u00e3o da diocese obriga a pensar, a refletir, a partilhar, obriga a praticar com verdade a corresponsabilidade. E para haver correspons\u00e1veis, \u00e9 preciso que o respons\u00e1vel conceda, admita isto. A responsabilidade \u00e9 tamb\u00e9m entre n\u00f3s, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 dos padres e dos leigos.<\/p>\n<p>A Diocese do Porto vai partilhando tamb\u00e9m as suas coisas. No nosso semin\u00e1rio tivemos alunos de Bragan\u00e7a-Miranda, Vila Real, Portalegre-Castelo Branco, agora temos seminaristas de Vila Real, de Coimbra. \u00c9 uma maneira de as Igrejas praticarem a sua comunh\u00e3o e daqueles que podem mais acolherem aqueles que eventualmente podem menos, e padres que v\u00eam de fora.<\/p>\n<p>Temos defeitos decorrentes das nossas fraquezas, mas temos um clero muito trabalhador, dedicado, temos um laicado igualmente vivo, apaixonado e apaixonante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE \u2013 Foram anos de estudo, 20 anos no semin\u00e1rio, outros tantos como bispo auxiliar. E agora o que pretende fazer, que projetos quer ver concretizados?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AT &#8211; <\/strong>Estou a passar de uma etapa da minha vida para outra, \u00e0s vezes digo que agora vou fazer o que me apetecer. De certo modo \u00e9 verdade, mas n\u00e3o deixei de ser bispo, h\u00e1 coisas que n\u00e3o devo fazer como bispo em\u00e9rito, mas h\u00e1 coisas que posso fazer, estar com os padres, ir \u00e0s paroquias, crismar.<\/p>\n<p>Estou na disponibilidade de fazer o que me pedirem, quer o bispo da diocese, quer os padres, at\u00e9 onde puder e Deus me der ajuda.<\/p>\n<p>Costumo contar um epis\u00f3dio com a minha m\u00e3e. Uma ocasi\u00e3o est\u00e1vamos na minha casa, num domingo, e ela disse-me: \u201c\u00d3 Ant\u00f3nio, tu n\u00e3o achas que rezas pouco?\u201d.<\/p>\n<p>Nunca mais me esqueci e agora vou dizer \u00e0 minha m\u00e3e que vou rezar mais. Neste tempo de menos ocupa\u00e7\u00e3o, vai dar para rezar mais, para estudar algumas coisas que gostava de rezar e n\u00e3o tinha tempo para isso. Tenho medo de n\u00e3o o fazer porque tudo o que fiz foi sempre solicitado para dar uma aula, fazer uma homilia. Tenho de ter vontade para estudar sem ser para colmatar uma necessidade imediata.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE \u2013 Voltar ao tempo em que estudava 12 horas por dia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AT \u2013<\/strong> N\u00e3o sei se tenho tempo para isso, nessa altura tinha 20, agora tenho 76 anos. Tamb\u00e9m tenho de ter consci\u00eancia das limita\u00e7\u00f5es, mas feliz da vida. Custa fazer esta passagem, custa.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o entreguei as chaves do Pa\u00e7o Episcopal, mas j\u00e1 entreguei o comando da garagem e \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o agora n\u00e3o \u00e9s daqui, isto n\u00e3o \u00e9 a tua casa. Custa, mas n\u00e3o arrasa. Aceita-se, naturalmente, s\u00e3o os caminhos da vida.<\/p>\n<p>Tenho falado disto, a gente sente que a morte \u00e9 uma coisa lenta, come\u00e7amos a morrer logo que nascemos. Come\u00e7amos a perder capacidades, at\u00e9 quando Nosso Senhor no quiser levar e acabou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE \u2013 Em todo o seu percurso de vida, o que lhe ter\u00e1 custado mais foi saber da morte do senhor D. Ant\u00f3nio Francisco dos Santos&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>AT \u2013<\/strong> Nem queria falar muito disso porque, ainda agora, n\u00e3o acredito muito que ele tenha morrido. Ainda agora parece-me um sonho\u2026<\/p>\n<p>Vivi muito com ele a diocese e depois vivi aquele entusiasmo dele em F\u00e1tima na peregrina\u00e7\u00e3o (diocesana do Porto ao santu\u00e1rio). Era muito amigo do D. Ant\u00f3nio. Aquela morte\u2026 Ia a caminho de F\u00e1tima, ele telefonou-me e disse-lhe: \u2018Senhor D. Ant\u00f3nio, est\u00e1 mal\u2019. Custou-me imenso.<\/p>\n<p>Muitas vezes ainda me d\u00e1 a impress\u00e3o de que est\u00e1 ali a olhar. Era um homem bom, um homem grande, santo.<\/p>\n<p>Ele muitas vezes ia celebrar \u00e0s 08h00 da manh\u00e3 diretamente da mesa do trabalho. Dizia-lhe \u201co senhor mata-se\u201d e ele ria-se. O senhor D. Manuel Martins (primeiro bispo de Set\u00fabal) dizia: \u201conde \u00e9 que ele arranja tempo para fazer o que faz e como faz?\u201d.<\/p>\n<p>Depois muito amigo, muito atento, muito atento \u00e0 nossa vida. Com ele e D. Armindo tive uma rela\u00e7\u00e3o particular, muito mais forte, do que com senhor D. Manuel que era muito amigo e colaborador, e D. Manuel Linda, de quem sou muito amigo e fui professor.<\/p>\n<p>D. Ant\u00f3nio Francisco foi \u00fanico. A gente pergunta como \u00e9 poss\u00edvel que em tr\u00eas anos e pouco movimentar assim a diocese. Passou ao lado dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, mas era muito pr\u00f3ximo das pessoas. Era um homem profundamente atento a tudo, \u00e0 vida de todos e a toda a vida. Dos mais fracos e dos mais fortes, recebia com o mesmo entusiasmo um capitalista, um homem da grande sociedade, como um sem-abrigo, falava deles com a mesma preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um homem que deixou marcas, que me deixou marca a mim. Gra\u00e7as a Deus que est\u00e1 no c\u00e9u, perdemos um bispo aqui na terra, mas ganh\u00e1mos um intercessor no c\u00e9u. Assim esperamos.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"http:\/\/www.diocese-porto.pt\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=632:d-antonio-maria-bessa-taipa&amp;catid=37:bispos-auxiliares&amp;Itemid=80\">Perfil Biogr\u00e1fico<\/a> de D. Ant\u00f3nio Bessa Taipa na Diocese do Porto.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"epyt-video-wrapper\"><iframe  id=\"_ytid_40080\"  width=\"480\" height=\"270\"  data-origwidth=\"480\" data-origheight=\"270\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/aYeiUJekDIQ?enablejsapi=1&#038;autoplay=0&#038;cc_load_policy=0&#038;cc_lang_pref=pt&#038;iv_load_policy=1&#038;loop=0&#038;rel=0&#038;fs=1&#038;playsinline=1&#038;autohide=2&#038;theme=dark&#038;color=red&#038;controls=1&#038;disablekb=0&#038;\" class=\"__youtube_prefs__  epyt-is-override  no-lazyload\" title=\"YouTube player\"  allow=\"fullscreen; accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen data-no-lazy=\"1\" 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