{"id":12215,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/sociedade-de-sao-rafael-um-laicado-para-a-proteccao-dos-migrantes\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"sociedade-de-sao-rafael-um-laicado-para-a-proteccao-dos-migrantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/sociedade-de-sao-rafael-um-laicado-para-a-proteccao-dos-migrantes\/","title":{"rendered":"Sociedade de S\u00e3o Rafael: um laicado para a protec\u00e7\u00e3o dos migrantes"},"content":{"rendered":"<p>I Congresso Mundial do Movimento dos Leigos Scalabrinianos  <!--more--> I Congresso Mundial do Movimento dos Leigos Scalabrinianos &#8211; Piacenza, 1 a 5 de Junho de 2005  <i>Interven\u00e7\u00e3o de Albertino Silva, do n\u00facleo em Portugal do Movimento de Leigos Scalabrinianos<\/i>  1. INTRODU\u00c7\u00c3O Foi-me pedida, para este 1\u00ba Congresso Mundial, uma leitura sapiencial das ra\u00edzes dos Leigos Scalabrinianos, a partir da funda\u00e7\u00e3o da Sociedade de S. Rafael. Mais do que os factos hist\u00f3ricos, j\u00e1 conhecidos por todos, certamente, importa real\u00e7ar as intui\u00e7\u00f5es de Scalabrini ao fundar esta Sociedade de Leigos, dotada de autonomia, e da\u00ed retirar as devidas consequ\u00eancias para o mundo de hoje e, especialmente, para a revitaliza\u00e7\u00e3o do Movimento de Leigos Scalabrinianos. Ao iniciar a minha reflex\u00e3o, quero fazer mem\u00f3ria de todos aqueles e aquelas que deram corpo, desde o in\u00edcio, a este Movimento, iniciado em 1887, e que nos legaram um patrim\u00f3nio que nos cabe descobrir, aprofundar e concretizar face aos novos e crescentes fluxos migrat\u00f3rios que, por todo o mundo, se verificam. Tenho tido o privil\u00e9gio de privar, desde 1991, com o mission\u00e1rio Pe. Luigi Tacconi, um dos continuadores, entusiasta e apaixonado, deste projecto laical ao servi\u00e7o dos migrantes atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o da AMSE.  2. SCALABRINI, O PASTOR ATENTO  \u00abN\u00e3o h\u00e1 mais grego e judeu, circunciso e incircunciso, b\u00e1rbaro, escravo e livre, mas Cristo \u00e9 tudo em todos\u00bb (Col 3, 11)  2.1. A aten\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade  A segunda metade do s\u00e9culo XIX foi marcada por um \u00eaxodo maci\u00e7o de popula\u00e7\u00f5es italianas para a Am\u00e9rica do Norte e para o Brasil. Este fen\u00f3meno europeu atingiu profundamente as popula\u00e7\u00f5es de It\u00e1lia que, diante do desemprego e da fome, procuraram um novo rumo para a sua qualidade de vida (cf. Jo 10,10).  Esta realidade atingiu profundamente a vida pol\u00edtica e social da It\u00e1lia de 1800. Scalabrini, bispo de Piacenza, marcou o seu episcopado pela aten\u00e7\u00e3o permanente \u00e0s necessidades espirituais e temporais do povo que lhe fora confiado. Disso s\u00e3o testemunho as numerosas iniciativas de apoio, de resposta concreta, aos problemas que encontrou, nomeadamente a aten\u00e7\u00e3o aos doentes, \u00e0s mondadoras de arroz e outros trabalhadores sazonais em mobilidade interna, o reconhecimento da dignidade dos portadores de defici\u00eancia \u2013 com a cria\u00e7\u00e3o dos Instituto dos Surdos-Mudos, aten\u00e7\u00e3o aos presos, a promo\u00e7\u00e3o dos cegos para quem fundou um instituto, a institui\u00e7\u00e3o da sopa dos pobres tendo chegado a alimentar cerca de 4000 pessoas, recorrendo, para isso, \u00e0 venda de bens preciosos que considerava desnecess\u00e1rios perante a carestia ent\u00e3o vivida; o pr\u00f3prio c\u00e1lice de ouro que lhe fora oferecido por Pio IX foi vendido com esta finalidade solid\u00e1ria. A sua preocupa\u00e7\u00e3o constante com a sa\u00fade f\u00edsica, moral e espiritual dos emigrantes, que rumavam a novas e long\u00ednquas paragens, levaram-no a procurar uma resposta integral que salvaguardasse a sua dignidade.  2.2. O profundo respeito pela dignidade da pessoa humana Alimentado pela for\u00e7a da ora\u00e7\u00e3o frequente e pela Eucaristia di\u00e1ria, o grande segredo, a fonte renovadora da sua grandiosa ac\u00e7\u00e3o, Scalabrini foi o profeta dos novos tempos que intuiu a urg\u00eancia duma Igreja portadora da Boa Nova de Jesus Cristo a todos, duma feliz not\u00edcia incarnada na hist\u00f3ria do seu tempo, capaz de apontar caminhos de felicidade e de dignidade \u00e0s pessoas a quem a crise econ\u00f3mica e social roubara a for\u00e7a da esperan\u00e7a e a alegria de viver. O Beato Jo\u00e3o Batista Scalabrini, atento \u00e0 voz do Esp\u00edrito e aos sinais do seu tempo, foi o intr\u00e9pido defensor dos direitos humanos dos \u00faltimos, enfrentando corajosamente os poderes institu\u00eddos e denunciando a sua incapacidade de resposta perante os graves problemas humanos que ent\u00e3o se viviam. Homem de comunh\u00e3o, procurou, at\u00e9 ao limite (Jo 13,1), buscar solu\u00e7\u00f5es de consenso para responder \u00e0s problem\u00e1ticas s\u00f3cio-pastorais para as quais urgia encontrar solu\u00e7\u00f5es dignas, concretas e actuais. Nesta linha, foi o grande precursor do Conc\u00edlio Vaticano II, nomeadamente da Constitui\u00e7\u00e3o Pastoral Gaudium et Spes e da Declara\u00e7\u00e3o Dignitatis Humanae, ao fazer suas as alegrias, as esperan\u00e7as, as tristezas e as ang\u00fastias das pessoas do seu tempo, independentemente das suas origens sociais e da sua perten\u00e7a religiosa.  Para Scalabrini, todos eram pessoas a reabilitar, devolvendo-lhes aquilo a que, por des\u00edgnio do Criador, tinham direito: uma p\u00e1tria, uma l\u00edngua, uma identidade, uma fam\u00edlia reunida, trabalho digno, um patrim\u00f3nio cultural, direitos sociais, culturais e religiosos, \u2026  3. MUITAS RA\u00cdZES, UMA S\u00d3 TERRA \u2013 AS INTUI\u00c7\u00d5ES DE SCALABRINI \u00abterra m\u00e3e terra \u00fanica v\u00e1ria de ra\u00edzes flores frutos azul verde todas as cores sonho m\u00e3e maravilhosa  terra m\u00e3e terra vida em paz senhora nossa ra\u00edzes brancas negras vermelhas amarelas todas \u00e0 uma festa vida em paz senhora nossa  terra m\u00e3e terra (\u00e1gua vento azul verde rio fonte luz montanha \u00e1rvore lagoa rocha barro gr\u00e3o de areia brilho flor erva p\u00e1ssaro homem casa riso\u2026) terra nossa m\u00e3e\u00bb (JAB).  3.1. Uma terra e uma pessoa a preservar Este poema recorda que a terra em que vivemos \u00e9 uma, \u00e9 una, apesar da diversidade de solos que a comp\u00f5em: a terra escura e f\u00e9rtil onde germinam as plantas, o barro vermelho que o oleiro molda, a rocha firme em que o alpinista se pode ancorar, a areia movedi\u00e7a onde se espraia o oceano\u2026 Nesta terra crescem ra\u00edzes donde brotar\u00e3o as \u00e1rvores, tamb\u00e9m elas t\u00e3o diversas, os arbustos, as tenras plantas, as pequenas ervas. Uma s\u00f3 terra, muitas ra\u00edzes, uma s\u00f3 seiva! Scalabrini, desde cedo, descobre que, \u00e0 luz da f\u00e9 em Jesus Cristo, existe uma radical igualdade entre toda a pessoa humana, independentemente da sua origem, estatuto social, nacionalidade, grupo de perten\u00e7a pol\u00edtica ou religiosa. Em Cristo h\u00e1 apenas uma terra onde germinam diversas ra\u00edzes e corre uma \u00fanica seiva! Somente \u00e0 luz desta convic\u00e7\u00e3o profunda se pode compreender o empenho abnegado do bispo Jo\u00e3o Batista Scalabrini ao afrontar a problem\u00e1tica da emigra\u00e7\u00e3o europeia e descobrir nela uma ocasi\u00e3o providencial para que a Igreja fosse fiel ao seu Senhor, vendo em cada migrante o rosto de Cristo pobre e humilhado que \u00e9 urgente defender, reabilitar e desvendar. Para Scalabrini n\u00e3o h\u00e1 terra de origem nem terra de destino: apenas h\u00e1 uma terra e a pessoa humana a preservar! Por isso decide encurtar a pr\u00f3pria dist\u00e2ncia entre as duas terras, sulcando com os seus mission\u00e1rios e leigos o Atl\u00e2ntico. A viagem \u00e9 um momento importante de \u201ctransi\u00e7\u00e3o\u201d e de \u201ccontinuidade\u201d da \u00fanica terra, da \u00fanica Igreja. Que ningu\u00e9m se perca pelo caminho, nos perigos dos portos e nas vicissitudes da dif\u00edcil travessia\u2026  3.2. A escuta e a busca de solu\u00e7\u00f5es \u00c9 neste contexto que Scalabrini, muito atento \u00e0 realidade e desafiado pelo Esp\u00edrito, l\u00ea a realidade migrat\u00f3ria \u2013 a sua esta\u00e7\u00e3o de Mil\u00e3o \u2013 e procura incansavelmente criar estruturas que respondam com efic\u00e1cia, rapidez e dignidade \u00e0s necessidades dos emigrantes que rumavam aos portos italianos de G\u00e9nova e N\u00e1poles, aos portos europeus de Antu\u00e9rpia, Hamburgo ou do Havre. Consciente da import\u00e2ncia do apoio espiritual dos sacerdotes aos emigrantes, cedo compreende que se torna igualmente necess\u00e1ria a presen\u00e7a e a ac\u00e7\u00e3o comprometida dos leigos no apoio imediato e directo aos mesmos emigrantes nos locais de partida e de chegada, mas tamb\u00e9m numa ac\u00e7\u00e3o concertada de den\u00fancia da injusti\u00e7a social existente e da explora\u00e7\u00e3o dos migrantes indefesos, na cria\u00e7\u00e3o duma opini\u00e3o p\u00fablica esclarecida que se dedicasse ao estudo desta problem\u00e1tica e procurasse influenciar os organismos da administra\u00e7\u00e3o do Estado para a elabora\u00e7\u00e3o de leis justas que defendessem os emigrantes. Para a prossecu\u00e7\u00e3o destes objectivos Scalabrini procura conhecer as iniciativas organizadas existentes e colher a sua experi\u00eancia, contactando, por isso, com personalidades que tinham criado estruturas com algumas destas finalidades. Neste sentido, podemos afirmar que Scalabrini n\u00e3o foi totalmente original: inspira-se, entre outras, na Uni\u00e3o de S. Rafael, constitu\u00edda na Alemanha em 1868, e na Associa\u00e7\u00e3o Nacional de apoio aos Mission\u00e1rios Italianos de Floren\u00e7a, coordenada pelo Ernesto Schiapparelli e criada em 1867.   3.3. A grande intui\u00e7\u00e3o de Scalabrini Todavia, Scalabrini inspira-se nestas associa\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o abdica de imprimir o seu cunho pessoal ao fundar a Associa\u00e7\u00e3o de Leigos S\u00e3o Rafael, para os Emigrantes, em 1887. Para Scalabrini o facto da maioria das associa\u00e7\u00f5es se ficar pela ac\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-caritativa era profundamente redutor do importante trabalho que se impunha desenvolver no apoio integral ao emigrante. Queria ir mais longe, ir \u00e0 raiz, passando da simples assist\u00eancia caritativa de emerg\u00eancia a uma ac\u00e7\u00e3o social entendida como o conjunto de iniciativas c\u00edvicas, sociais, religiosas em torno do fen\u00f3meno migrat\u00f3rio e suas causas. Encontrou em Volpe Landi um fiel colaborador que pertencia \u00e0 Obra dos Congressos. Nesta linha e com este objectivo claro, Scalabrini desenvolve contactos ass\u00edduos com dirigentes dos grupos pol\u00edticos de ent\u00e3o, liberais e conservadores, situa\u00e7\u00e3o nem sempre bem vista pela Santa S\u00e9, tendo em conta que se vivia a \u201cquest\u00e3o romana\u201d e a luta entre \u201ccat\u00f3licos transigentes e intransigentes\u201d. Scalabrini, demonstrando sempre uma profunda paix\u00e3o pela unidade, soube manter-se acima das disputas e divis\u00f5es que grassavam na sociedade italiana de 1800. Ao criar a Associa\u00e7\u00e3o S. Rafael, Scalabrini decide que esta deveria estar aberta \u00e0 participa\u00e7\u00e3o de todas as pessoas, independentemente da sua perten\u00e7a pol\u00edtica ou religiosa, e livre da tutela dos cl\u00e9rigos e religiosos. Scalabrini funda a Sociedade de Leigos S. Rafael com um estatuto aut\u00f3nomo, valorizando, assim, j\u00e1 em 1887 a leg\u00edtima autonomia dos leigos e da sua ac\u00e7\u00e3o no mundo. Scalabrini acautelou o car\u00e1cter laical da Associa\u00e7\u00e3o. Autonomia, n\u00e3o oposi\u00e7\u00e3o, nem ac\u00e7\u00e3o divergente. Em Scalabrini foi sempre clara a necessidade da exist\u00eancia de uma cadeia de solidariedade nas v\u00e1rias fases do processo de emigra\u00e7\u00e3o de modo a proteger as popula\u00e7\u00f5es desde o momento de partida, durante a viagem e no local de destino. E esta cadeia de solidariedade apenas podia existir na medida em que fossem criadas rela\u00e7\u00f5es de colabora\u00e7\u00e3o m\u00fatua entre a Associa\u00e7\u00e3o e os Mission\u00e1rios.  3.4. A busca de parcerias Scalabrini foi pioneiro, podemos diz\u00ea-lo, ao defender que a cria\u00e7\u00e3o da Sociedade de S. Rafael se inserisse numa rede de parcerias mais abrangente existente na It\u00e1lia e na Europa. Scalabrini foi, no seu tempo, o primeiro bispo a estabelecer um acordo com Estado para concretizar os objectivos de acolhimento, de assist\u00eancia e de protec\u00e7\u00e3o jur\u00eddica aos emigrantes. Todavia, este seu sonho pioneiro foi curto; a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-religiosa vigente e o posicionamento da Propaganda Fide (Santa S\u00e9) criaram demasiados obst\u00e1culos e o mesmo n\u00e3o vingou. Ao criar a Associa\u00e7\u00e3o S. Rafael, Scalabrini requer o envolvimento de todos, independentemente de op\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-religiosas, como vimos, de modo a evitar que a Sociedade ficasse ref\u00e9m de elites, ainda que laicais. Para Scalabrini, tratava-se de um movimento social, de uma sociedade aberta a todos; sempre recusou uma institui\u00e7\u00e3o elitista. Refiro pela sua import\u00e2ncia e actualidade, a intui\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica de Scalabrini fazer constar dos estatutos da Sociedade um duplo objectivo: \u00abcooperar para manter viva nos italianos emigrados a f\u00e9 cat\u00f3lica e o amor \u00e0 p\u00e1tria\u00bb e de \u00ab prestar sempre assist\u00eancia aos italianos de outras confiss\u00f5es\u00bb. Contra a vontade do Prof. Toniolo, Scalabrini, talvez influenciado pela experi\u00eancia pluri\u00e9tnica e plurireligiosa da Sociedade S. Rafael alem\u00e3, reconhece, em pleno s\u00e9c. XIX, que a humanidade \u00e9 uma s\u00f3 e que todos s\u00e3o filhos de Deus, antecipando-se, cerca de um s\u00e9culo, ao reconhecimento conciliar da liberdade religiosa e do respeito pelas diversas confiss\u00f5es e religi\u00f5es, lan\u00e7ando as ra\u00edzes de uma experi\u00eancia ecum\u00e9nica incarnada.  3.5. O di\u00e1logo com o mundo  Outro aspecto relevante diz respeito ao facto de Scalabrini ter procurado comprometer com os objectivos da Sociedade de S. Rafael os homens da cultura e os expoentes das ci\u00eancias econ\u00f3micas e sociais do tempo, nomeadamente o Prof. Toniolo, que se veio a revelar seu \u00edntimo colaborador. Para Scalabrini, era fundamental conquistar para esta causa as for\u00e7as vivas, as elites intelectuais, o movimento sindical e a classe pol\u00edtica porque o fen\u00f3meno migrat\u00f3rio era uma realidade nacional e internacional impar\u00e1vel. Para Scalabrini era claro que n\u00e3o existiam duas sociedades distintas: apenas existia uma \u00fanica \u201cterra\u201d, sujeita a um profundo processo de transforma\u00e7\u00e3o social, que importava congregar com o \u00fanico objectivo de defender intransigentemente a dignidade da pessoa humana do emigrante.  Podemos afirmar que com Jo\u00e3o Batista Scalabrini o di\u00e1logo Igreja-Mundo conheceu um momento elevado e frut\u00edfero, nem sempre compreendido. Sendo certo que muitas destas intui\u00e7\u00f5es de Scalabrini foram de dif\u00edcil concretiza\u00e7\u00e3o por causas diversas, nomeadamente por falta de meios humanos e econ\u00f3micos, podemos afirmar que com Scalabrini nasceu, em Piacenza, o Movimento de Leigos Scalabrinianos.  4. A MET\u00c1FORA DA TERRA Retomando a met\u00e1fora da terra, atr\u00e1s mencionada, podemos afirmar que Scalabrini: a) colheu a experi\u00eancia das sementes j\u00e1 lan\u00e7adas \u00e0 terra a partir da an\u00e1lise da realidade dos emigrantes e do movimento social, ent\u00e3o, organizado noutras regi\u00f5es de It\u00e1lia e da Europa;  b) imprimiu o seu cunho pessoal a este movimento social, refor\u00e7ando as ra\u00edzes mas respeitando a semente; tal aconteceu quando procurou, a todo o custo, manter a milit\u00e2ncia social em prol dos emigrantes plural e n\u00e3o confessional; c) fertilizou a terra criando as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para que esta fosse trabalhada de modo que a opini\u00e3o p\u00fablica, o mundo acad\u00e9mico e associativo, a sociedade civil, a classe pol\u00edtica e a pr\u00f3pria Igreja fossem sens\u00edveis \u00e0s novas problem\u00e1ticas geradas pelo fen\u00f3meno migrat\u00f3rio, estabelecendo uma plataforma de di\u00e1logo entre a sociedade civil e a Igreja; d) fomentou o servi\u00e7o em rede, permitindo o acompanhamento social, moral, religioso e sanit\u00e1rio dos emigrantes nas diversas etapas da sua viagem, numa linha de corrente solid\u00e1ria e fraterna qual seiva comum a toda a ra\u00edz que, na terra, alimenta e suporta a planta; e) conferiu uma dignidade nova e irrevers\u00edvel ao servi\u00e7o aos migrantes, elevando-o a um patamar superior \u2013 o da defesa inalien\u00e1vel da dignidade da pessoa humana na sua totalidade \u2013 desenvolvendo as ra\u00edzes do movimento laical e legitimando a sua autonomia ao servi\u00e7o do mundo; f) reconheceu nos leigos o seu papel de mediadores de comunh\u00e3o ao servi\u00e7o dos migrantes, estabelecendo pontes entre a Igreja de partida e a Igreja de acolhimento porque s\u00e3o a mesma Igreja cuja ra\u00edz \u00e9 Jesus Cristo; g) procurou, ancorado em Jesus Cristo, a videira da qual brotam os ramos (Jo 15, 5), cuidar deles incentivando os leigos a uma milit\u00e2ncia social radicada na profundidade da ora\u00e7\u00e3o, centrada em Jesus Cristo, e, s\u00f3 assim, autenticamente incarnada na hist\u00f3ria humana. Em Scalabrini \u00e9 total a simbiose entre ora\u00e7\u00e3o e ac\u00e7\u00e3o, o seu grande testamento espiritual aos Mission\u00e1rios e aos Leigos de ontem e de hoje, o grande desafio de n\u00e3o ceder \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de privilegiar uma dimens\u00e3o em detrimento da outra. Scalabrini tinha uma convic\u00e7\u00e3o profunda &#8211; \u00absem mim nada podeis fazer. Se algu\u00e9m n\u00e3o permanece em mim \u00e9 lan\u00e7ado fora e seca\u00bb (Jo 15, 5-6).  5. SCALABRINI FECUNDOU AS RA\u00cdZES DUMA NOVA TERRA  Ontem como hoje, o ser humano parte em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida ou, como frequentemente acontece, \u00e9 for\u00e7ado a partir por motivos de guerra, de fome, de epidemias ou de falta de trabalho. A Europa de 1800 viu partir milhares de filhos em busca de p\u00e3o para as Am\u00e9ricas e para o Brasil. Hoje, a Europa ocidental e central v\u00ea-se confrontada com a chegada de grandes fluxos migrat\u00f3rios das popula\u00e7\u00f5es de \u00c1frica e da Europa Oriental que v\u00eam \u00e0 procura do p\u00e3o e do trabalho que as suas terras de origem lhes negam.  Hoje, a Europa a \u00abvinte e cinco\u00bb est\u00e1 a transformar-se numa fortaleza impenetr\u00e1vel que nega ao ser humano, sobretudo estrangeiro, o direito ao p\u00e3o e ao trabalho. Scalabrini legou-nos, caros amigos, uma responsabilidade imensa: a de sermos servidores dos migrantes que cruzam mares e ares. Fecundou as ra\u00edzes duma nova terra, foi profeta dos tempos novos que vivemos. Hoje, as esta\u00e7\u00f5es e os portos de embarque transformaram-se em aeroportos mas os desafios s\u00e3o os mesmos: como conseguir o acordo da sociedade civil, dos Estados, dos legisladores, dos movimentos c\u00edvicos e at\u00e9 das igrejas locais para que os imigrantes sejam dignamente acolhidos e integrados? Como manter viva, nos nossos grupos, no nosso Movimento, a \u00abespiritualidade incarnada\u00bb, a grande arma de Scalabrini para enfrentar as dificuldades? Como ser fiel ao carisma inicial da rela\u00e7\u00e3o de autonomia e colabora\u00e7\u00e3o m\u00fatua relativamente aos Mission\u00e1rios de S. Carlos? Como evitar que o nosso Movimento de Leigos se transforme numa elite? Como comprometer neste projecto os pr\u00f3prios migrantes j\u00e1 integrados?  H\u00e1 uma s\u00f3 terra, n\u00e3o o esque\u00e7amos, mas possui muitas e diversas ra\u00edzes!  <i>Albertino Silva<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I Congresso Mundial do Movimento dos Leigos Scalabrinianos<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[101,104,122,144,168,187,189,199,203,206,285,297,305,312,314],"class_list":["post-12215","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-africa","tag-america","tag-brasil","tag-concilio-vaticano-ii","tag-diocese-da-guarda","tag-diocese-do-porto","tag-direitos-humanos","tag-espiritualidade","tag-europa","tag-familia","tag-patrimonio","tag-santa-se","tag-scalabrinianos","tag-snec","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12215","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12215"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12215\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12215"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12215"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12215"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}