{"id":12100,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/homilia-do-bispo-do-porto-na-missa-do-corpo-de-deus\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"homilia-do-bispo-do-porto-na-missa-do-corpo-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-do-porto-na-missa-do-corpo-de-deus\/","title":{"rendered":"Homilia do Bispo do Porto na Missa do Corpo de Deus"},"content":{"rendered":"<p>A Igreja celebra os principais acontecimentos da Hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o, centrada em Cristo, atrav\u00e9s de um calend\u00e1rio devidamente sistematizado e normalmente segundo um crit\u00e9rio cronol\u00f3gico hierarquizado.  E n\u00e3o deixa de real\u00e7ar acontecimentos e mist\u00e9rios que n\u00e3o pertencem a um lugar ou tempo determinado, mas abrangem, qualificam ou inspiram todo o tempo e calend\u00e1rio lit\u00fargico. \u00c9 o que acontece com a Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, pelo seu lugar e import\u00e2ncia na Igreja Universal, nas Igrejas particulares, institui\u00e7\u00f5es ou templos que o tempo consagrou. E a hist\u00f3ria da Igreja em Portugal estabeleceu tais rela\u00e7\u00f5es com esta devo\u00e7\u00e3o e pr\u00e1ticas relacionadas que para n\u00f3s a designa\u00e7\u00e3o \u201cSant\u00edssimo Corpo e Sangue de Cristo\u201d traz \u00e0 mem\u00f3ria colectiva e suficientemente longa outras denomina\u00e7\u00f5es j\u00e1 consagradas: Festa do Corpus Christi, festa do Corpo de Deus&#8230;  Quando por isso o saudoso Papa Jo\u00e3o Paulo II veio ao nosso encontro com sugest\u00f5es pastorais para o terceiro mil\u00e9nio, com a Carta Enc\u00edclica \u201cEcclesia de Eucharistia\u201d (Quinta-feira Santa de 2003), com a Carta Apost\u00f3lica \u201cMane nobiscum Domine\u201d (7 de Outubro de 2004) e com o convite para celebrarmos o Ano da Eucaristia entre Outubro de 2004 e Outubro de 2005 (para n\u00f3s ser\u00e1 encerrado em 30 de Outubro), encontrou-nos em \u00e1vida receptividade e fortaleceu-nos com a solicitude de novas motiva\u00e7\u00f5es: O Congresso Eucar\u00edstico Internacional no M\u00e9xico (no in\u00edcio do Ano Eucar\u00edstico) e a Assembleia Ordin\u00e1ria do S\u00ednodo dos Bispos, no pr\u00f3ximo m\u00eas de Outubro, que vai ocupar-se do seguinte tema: \u201cA Eucaristia fonte e \u00e1pice da vida e da miss\u00e3o da Igreja\u201d. Pelo meio acontecer\u00e1 a Jornada Mundial da Juventude, em Col\u00f3nia. Tinha a promessa da presen\u00e7a de Jo\u00e3o Paulo II. Est\u00e1 prometida j\u00e1 a presen\u00e7a de Bento XVI.  No termo da viagem-peregrina\u00e7\u00e3o-prova\u00e7\u00e3o no deserto, Mois\u00e9s falou ao povo de Deus a quem pediu essencialmente que n\u00e3o perdesse a mem\u00f3ria da protec\u00e7\u00e3o de Deus: \u201cRecorda-te de todo o caminho&#8230; Atribulou-te e fez-te passar fome&#8230; mas deu-te a comer o man\u00e1 que n\u00e3o conhecias&#8230; para te fazer compreender que o homem n\u00e3o vive s\u00f3 de p\u00e3o&#8230; N\u00e3o te esque\u00e7as do Senhor teu Deus&#8230; Foi Ele quem, da rocha dura, fez nascer \u00e1gua para ti e, no deserto, te deu a comer o man\u00e1, que teus pais n\u00e3o tinham conhecido\u201d (Deut. 8, 2-16).  \u00c0 dist\u00e2ncia no tempo e na interpreta\u00e7\u00e3o aut\u00eantica da revela\u00e7\u00e3o divina progressiva, a Igreja ensina: \u201cA Missa \u00e9, ao mesmo tempo e inseparavelmente, o memorial sacrificial em que se perpetua o sacrif\u00edcio da cruz e o banquete sagrado da comunh\u00e3o do corpo e sangue do Senhor\u201d (Catec. da Igreja Cat\u00f3lica, 1382. cf. Ecc. de Euc. n\u00ba 12).  O man\u00e1 do deserto foi dom de Deus para n\u00e3o esquecer, para recordar. A Eucaristia \u00e9 o dom por excel\u00eancia que Cristo nos deixou: da Sua Pessoa na humanidade sagrada, e tamb\u00e9m da sua obra de salva\u00e7\u00e3o. O sacrif\u00edcio de Cristo na cruz aplica aos homens de hoje \u201ca reconcilia\u00e7\u00e3o obtida de uma vez para sempre para a humanidade de todos os tempos\u201d (Ecc. de Euc. n\u00ba 12). \u201cO sacrif\u00edcio de Cristo e o sacrif\u00edcio da Eucaristia s\u00e3o um \u00fanico sacrif\u00edcio\u201d (Cat. 1367). Mas a P\u00e1scoa de Cristo inclui paix\u00e3o, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o. Estando vivo e ressuscitado, Cristo torna-se, \u00e9, \u201cp\u00e3o da vida\u201d (Jo. 6,35.48), \u201cp\u00e3o vivo\u201d (Jo. 6,51) na Eucaristia. Este p\u00e3o vivo na Eucaristia chama-se presen\u00e7a real por excel\u00eancia (\u00e9 substancial, e por esta presen\u00e7a torna-se presente Cristo completo, Deus e homem\u201d (Paulo VI, Myst. Fidei). Ele disse: \u201cAssim como o Pai, que vive, Me enviou e Eu vivo pelo Pai, assim tamb\u00e9m o que Me come viver\u00e1 por Mim\u201d (Jo. 6,57). Sendo sacrif\u00edcio (de uma vez para sempre), a Eucaristia \u00e9 tamb\u00e9m banquete permanente, isto \u00e9, sempre dispon\u00edvel: \u201cEm verdade, em verdade vos digo: Se n\u00e3o comerdes a carne do Filho do Homem e n\u00e3o beberdes o seu sangue, n\u00e3o tereis a vida em v\u00f3s\u201d (Jo. 6,53). E perante a perplexidade dos disc\u00edpulos, resistentes \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o destas palavras, Cristo insistia: \u201cA minha carne \u00e9, em verdade, uma comida, e o meu sangue \u00e9, em verdade, uma bebida\u201d (Jo. 6,55).  Quando ap\u00f3s a consagra\u00e7\u00e3o o Celebrante proclama \u201cmist\u00e9rio da f\u00e9\u201d, os crentes respondem \u201cAnunciamos, Senhor, a vossa morte, proclamamos a vossa ressurrei\u00e7\u00e3o\u201d. Esta f\u00e9 que as gera\u00e7\u00f5es crist\u00e3s viveram ao longo dos s\u00e9culo \u00e9 a f\u00e9 que continuamos a proclamar como mist\u00e9rio em que acreditamos e do qual damos testemunho expl\u00edcito. \u00c9 o Amen da f\u00e9 que pronunciamos e vivemos quando comungamos o Corpo do Senhor \u201centregue\u201d por n\u00f3s, e o Sangue do Senhor \u201cderramado\u201d por n\u00f3s.  Quando terminamos a aclama\u00e7\u00e3o da f\u00e9 ap\u00f3s a Consagra\u00e7\u00e3o, acrescentamos este pedido: \u201cVinde, Senhor Jesus\u201d, o qual significa a \u201ctens\u00e3o escatol\u00f3gica\u201d da celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica. Quem se alimenta de Cristo na Eucaristia recebe na terra a vida divina, como prim\u00edcia da vida futura em plenitude. E \u00e9 nesta vida recebida (comungada) na Eucaristia que est\u00e1 o segredo da ressurrei\u00e7\u00e3o futura: \u201cQuem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e Eu ressuscit\u00e1-lo-ei no \u00faltimo dia\u201d (Jo. 6,54). Assim, \u201ca tens\u00e3o escatol\u00f3gica suscitada pela Eucaristia exprime e consolida a comunh\u00e3o com a Igreja celeste\u201d (Ec. de Eucharistia, n\u00ba 19), o que responsabiliza os fi\u00e9is neste mundo perante a p\u00e1tria celeste, ao mesmo tempo que faz depender a bem-aventuran\u00e7a celeste dos gestos de fraternidade, caridade, humildade, esp\u00edrito de servi\u00e7o e compromisso para os que participam na Eucaristia.  Compreende-se que a doutrina desenvolvida ao longo dos documentos eucar\u00edsticos do Papa Jo\u00e3o Paulo II possa ser sintetizada atrav\u00e9s de alguns enunciados emblem\u00e1ticos: A Igreja vive da Eucaristia, porque Cristo disse: \u201cEu estarei sempre convosco, at\u00e9 o fim do mundo\u201d (Mt. 28,20). Na Eucaristia Cristo est\u00e1 \u201ccom uma intensidade sem par\u201d. Sacramento por excel\u00eancia do mist\u00e9rio pascal, a Eucaristia est\u00e1 no centro da vida eclesial, \u00e9 a fonte e centro de toda a vida crist\u00e3.  Se os Ap\u00f3stolos, os Doze, estiveram com Cristo na \u00faltima Ceia, e aceitaram comer e beber o Corpo e o Sangue do Senhor, entraram pela primeira vez em comunh\u00e3o sacramental com Ele. E \u00e9 desta comunh\u00e3o sacramental que desde ent\u00e3o e at\u00e9 ao fim dos s\u00e9culos a Igreja \u00e9 edificada: \u201cFazei isto em mem\u00f3ria de mim\u201d (cf. Lc. 22,19). E \u201ca incorpora\u00e7\u00e3o em Cristo, realizada pelo Baptismo, renova-se e consolida-se continuamente atrav\u00e9s da participa\u00e7\u00e3o no sacrif\u00edcio eucar\u00edstico, sobretudo na sua forma plena que \u00e9 a comunh\u00e3o sacramental\u201d (Ec. de Euc. n\u00ba 22).  De vez em quando \u00e9 necess\u00e1rio recordar, como Mois\u00e9s no deserto e como Cristo no Cen\u00e1culo, que \u201co culto prestado \u00e0 Eucaristia fora da Missa&#8230; est\u00e1 ligado intimamente com a celebra\u00e7\u00e3o do sacrif\u00edcio eucar\u00edstico\u201d (Ec. de Euc. 25). Esta \u201cpresen\u00e7a real\u201d de Cristo destina-se \u00e0 comunh\u00e3o, sacramental e espiritual, e os fi\u00e9is aprofundaram e desenvolveram ao longo do tempo a devo\u00e7\u00e3o e a pr\u00e1tica da piedade eucar\u00edstica em adora\u00e7\u00e3o a Jesus sacramentado, escondido no Sacr\u00e1rio ou exposto solenemente ou em prociss\u00e3o pelas ruas, cultivando intimamente \u201ca arte da ora\u00e7\u00e3o\u201d.  A Eucaristia e a Penit\u00eancia (a Reconcilia\u00e7\u00e3o) est\u00e3o intimamente unidas. H\u00e1 certamente devotos do sacrif\u00edcio-sacramento da Eucaristia que n\u00e3o comungam, apesar da f\u00e9, pela relut\u00e2ncia em se sujeitarem \u00e0 confiss\u00e3o e reconcilia\u00e7\u00e3o sacramental. Entraram numa esp\u00e9cie de devo\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica habitual e sem mais exig\u00eancia. E h\u00e1 os que, embora devotos e eucaristicamente piedosos, n\u00e3o comungam por causa da disciplina da Igreja e das normas que afectam situa\u00e7\u00f5es irregulares. E no entanto, a Igreja \u00e9 comunh\u00e3o, vive da Eucaristia que \u201ccria comunh\u00e3o e educa para a comunh\u00e3o\u201d (Ec. de Euc. n\u00ba 40). \u201cN\u00e3o \u00e9 o c\u00e1lice de b\u00ean\u00e7\u00e3o que aben\u00e7oamos a comunh\u00e3o com o Sangue de Cristo? N\u00e3o \u00e9 o p\u00e3o que partimos a comunh\u00e3o com o Corpo de Cristo? &#8230; H\u00e1 um s\u00f3 p\u00e3o&#8230; formamos um s\u00f3 corpo\u201d (1 Cor. 10,16-17). No mist\u00e9rio eucar\u00edstico, Jesus edifica a Igreja como comunh\u00e3o. A Eucaristia manifesta esta comunh\u00e3o.  O contexto em que se integra a realidade da comunh\u00e3o \u00e9 o mesmo do apelo \u00e0 comunh\u00e3o, da comunh\u00e3o plena e da comunh\u00e3o poss\u00edvel embora imperfeita, mas \u00e9 tamb\u00e9m o problema da tens\u00e3o gradual no tempo e nas situa\u00e7\u00f5es concretas, e sobretudo o problema da tens\u00e3o escatol\u00f3gica que acentua a pertin\u00eancia da nossa comum exclama\u00e7\u00e3o contemplativa: Mist\u00e9rio da F\u00e9!   Mist\u00e9rio da f\u00e9, a Eucaristia \u00e9 tamb\u00e9m mist\u00e9rio da luz; e come\u00e7a por ser mist\u00e9rio da luz. Quando Cristo se lhe referia de modo ainda inicial e os Ap\u00f3stolos pareciam desistir de entender, Pedro assume-se como porta-voz da f\u00e9 dos outros Ap\u00f3stolos e da Igreja de todos os tempos: \u201cSenhor, para quem havemos n\u00f3s de ir? Tu tens palavras de vida eterna\u201d (Jo. 6,68). E aos disc\u00edpulos de Ema\u00fas, sentados \u00e0 mesa com o Senhor ressuscitado, abriram-se os olhos da intelig\u00eancia pelo sinal da \u201cfrac\u00e7\u00e3o do p\u00e3o\u201d.  E quando descobriram que eram protagonistas da Eucaristia que Jesus celebrava na sua presen\u00e7a, depois de O comungarem, partiram para a miss\u00e3o de O anunciar mais fortemente no interior da Igreja, e de transmitir a consci\u00eancia de que Cristo \u00e9 \u201csinal e instrumento\u201d n\u00e3o s\u00f3 da uni\u00e3o com Deus mas tamb\u00e9m da unidade de todo o g\u00e9nero humano\u201d (L.G. 1). Por esta universalidade, o crist\u00e3o que participa na Eucaristia deve transformar-se em promotor de comunh\u00e3o, de paz, de solidariedade, ao servi\u00e7o dedicado daqueles que precisam, porque o Senhor morreu por todos, ressuscitou para todos, e ficou connosco na Eucaristia, isto \u00e9, ficou para se dar a todos na Eucaristia. Que assim seja!  Porto, Igreja da Sant\u00edssima Trindade, 26 de Maio de 2005 D. Armindo Lopes Coelho, Bispo do Porto <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Igreja celebra os principais acontecimentos da Hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o, centrada em Cristo, atrav\u00e9s de um calend\u00e1rio devidamente sistematizado e normalmente segundo um crit\u00e9rio cronol\u00f3gico hierarquizado. 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