{"id":12068,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/o-rosto-feminino-da-igreja\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"o-rosto-feminino-da-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-rosto-feminino-da-igreja\/","title":{"rendered":"O rosto feminino da Igreja"},"content":{"rendered":"<p>Jesus d\u00e1 a Deus o nome de Pai. Mas Deus tem outro nome que percorre toda a profecia do Antigo Testamento e encontra ecos no Novo Testamento: esposo. O povo eleito \u00e9 a esposa, capaz de uma infidelidade assimilada \u00e0 idolatria. Mas o amor do esposo divino \u00e9 inalter\u00e1vel: \u201cDesposar-te-ei para sempre, desposar-te-ei&#8230; com amor e miseric\u00f3rdia. Desposar-te-ei com fidelidade e tu conhecer\u00e1s o Senhor.\u201d (Os 2,21-22). Toda a grande profecia \u00e9 atravessada por este tema dos esponsais sagrados entre Deus e o seu povo: \u201cCom efeito, o teu criador \u00e9 que \u00e9 o teu esposo, o seu nome \u00e9 Senhor do universo. O teu redentor \u00e9 o Santo de Israel, chama-se Deus de toda a terra. O Senhor chamou-te novamente como a uma mulher abandonada e angustiada. Na verdade, como se pode repudiar a esposa da juventude? \u00c9 o teu Deus quem o diz. Por um curto momento Eu te abandonei, mas, com grande amor, volto a unir-me contigo. Num acesso de ira, e por um instante, escondi de ti a minha face, mas Eu tenho por ti um amor eterno\u201d (Is 54,5-8; cf. Jr 31,3-4, Ez 16,8).  O tema dos esponsais continua no NT. A\u00ed o esposo \u00e9 aquele que Deus \u201cenviou ao mundo\u201d (Jo 3,17), mais precisamente o seu Filho. Em Jo\u00e3o, o primeiro dos sinais de Jesus acontece durante uma festa de n\u00fapcias: as bodas de Can\u00e1. Jesus \u00e9 expl\u00edcito em atribuir-se o t\u00edtulo de esposo: \u201cPodem os convidados estar tristes quando o esposo est\u00e1 com eles?\u201d (Mt 9,15; cf. Mc 2,19-20 e Lc 5,34-35) A par\u00e1bola das virgens loucas fala da chegada do esposo, o pr\u00f3prio Jesus (Mt 25,1-13). \u00c9 tamb\u00e9m assim que Jo\u00e3o Baptista, no quarto Evangelho, fala de Jesus: \u201cEu n\u00e3o sou o Messias&#8230; O esposo \u00e9 aquele a quem pertence a esposa; mas o amigo do esposo, que est\u00e1 ao seu lado e o escuta, sente muita alegria com a voz do esposo\u201d (Jo 3,28-29). Noutra par\u00e1bola, de novo Jesus fala das n\u00fapcias do filho do rei: \u201cO Reino do C\u00e9u \u00e9 compar\u00e1vel a um rei que preparou um banquete nupcial para o seu filho\u201d (Mt 22,2).  Paulo est\u00e1 na continuidade directa deste tema e v\u00ea a Igreja e os crist\u00e3os desposados com Cristo: \u201cSinto por v\u00f3s um ci\u00fame semelhante ao ci\u00fame de Deus, pois vos desposei com um \u00fanico esposo, Cristo, a quem devo apresentar-vos como virgem pura\u201d (2 Co 11,2). A esposa \u00e9 doravante a Igreja: \u201cMaridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para a santificar, purificando-a no banho da \u00e1gua, pela palavra. Ele quis apresent\u00e1-la espl\u00eandida, como Igreja sem mancha nem ruga, nem coisa alguma semelhante, mas santa e imaculada\u201d (Ef 5,25-27). A Igreja \u00e9 a Esposa ataviada do Cordeiro, a nova Jerusal\u00e9m que desce do c\u00e9u, de junto de Deus (cf. Ap 19,7; 21,10), e, um pouco antes, a mulher que d\u00e1 \u00e0 luz, coroada de estrelas, constituindo \u201cum grande sinal no c\u00e9u\u201d (Ap 12,1-2). Para muitos n\u00e3o \u00e9 estranha esta caracter\u00edstica de o povo\/Igreja ser esposa de Deus, mas falta que se tirem desta feminilidade todas as consequ\u00eancias. Frente a Deus, seja ele o grande Deus transcendente do Antigo Testamento, seja o Verbo incarnado, Jesus Cristo, a Igreja e, por extens\u00e3o \u2013 uma vez que o g\u00e9nero humano est\u00e1 ordenado ao baptismo, porta de entrada da Igreja \u2013, toda a humanidade, \u00e9 do g\u00e9nero feminino. A uni\u00e3o com Deus \u00e9 uma uni\u00e3o esponsal. A espiri-tualidade corrobora esta caracter\u00edstica. Para o tempo da uni\u00e3o, fala-se de \u201cm\u00edstica nupcial\u201d, na qual as mulheres, no decorrer dos s\u00e9culos, chegaram a alturas inexced\u00edveis. E o cume da vida m\u00edstica \u00e9 o nascimento espiritual do Verbo na alma, esse sublime fruto da uni\u00e3o esponsal com Deus, que nos faz nascer a n\u00f3s pr\u00f3prios em Deus. Grandes m\u00edsticos falam deste nascimento. Mestre Eckhart faz dele o centro da sua doutrina espiritual, mas ele \u00e9 j\u00e1 um tema recorrente nos Padres da Igreja, tanto orientais como ocidentais.1  O grande Angelus Silesius chega a dizer: \u201cA obra de predilec\u00e7\u00e3o de Deus, que tanto lhe importa, \u00e9 poder engendrar seu Filho em ti\u201d. N\u00e3o s\u00f3 a Virgem Maria e S. Jos\u00e9 s\u00e3o representados com o Menino nos bra\u00e7os. Entre outros santos, Sto. Ant\u00f3nio tem, tamb\u00e9m ele, o Menino nos bra\u00e7os, fabuloso penhor da entrada no Reino. Jesus disse: \u201cSe n\u00e3o voltardes a ser como as criancinhas n\u00e3o podereis entrar no Reino do C\u00e9u\u201d (Mt 18,3). Mas se n\u00e3o se for como uma mulher, n\u00e3o nos poderemos instalar nele. A maternidade, logo a feminilidade, \u00e9 uma chave do Reino. Toda a l\u00f3gica do Reino, que \u00e9 a l\u00f3gica de Deus, \u00e9 uma esp\u00e9cie de l\u00f3gica do \u201cquem ganha, perde\u201d. Deus exige que sejamos como crian\u00e7as a fim de fazer de n\u00f3s suas esposas, isto \u00e9, mulheres. Jesus abole a religi\u00e3o dos pais (\u201ca ningu\u00e9m chamareis Pai\u201d (Mt 23,9) substituindo \u00e0 autoridade patriarcal a autoridade do \u00fanico Pai: Deus. Perante esse Pai, todos somos potencialmente m\u00e3es, isto \u00e9, esposas, isto \u00e9, mulheres.  Discutindo recentemente esta intui\u00e7\u00e3o com um te\u00f3logo com altas responsabilidades na Igreja, ele imediatamente apreendeu uma das consequ\u00eancias maiores desta realidade incontest\u00e1vel: \u201cAo passo que os antigos gn\u00f3sticos queriam que o feminino se masculinizasse para se tornar admiss\u00edvel, no cristianismo todos temos, de alguma forma, que passar a ser mulher\u201d. Assim \u00e9. Da\u00ed a subida import\u00e2ncia de Maria na Igreja, a perfei\u00e7\u00e3o do humano em Deus. Maria e o seu \u201csim\u201d incondicional e imaculado abre a Deus o espa\u00e7o da salva\u00e7\u00e3o no qual acontece o divino-humano (a incarna\u00e7\u00e3o e, como sua extens\u00e3o no aqui e agora da Igreja, tamb\u00e9m, a diviniza\u00e7\u00e3o). Maria \u00e9 a humanidade redimida (a Imaculada), a Igreja na sua origem, a perfei\u00e7\u00e3o dada \u00e0 partida e prometida a cada um de n\u00f3s como ponto de chegada das grandes caminhadas espirituais. Esta liga\u00e7\u00e3o \u00edntima entre o mariano e o eclesial foi reconhecida desde os Padres da Igreja, mas incessantemente volta a oferecer-se \u00e0 nossa reflex\u00e3o. Hans Urs von Balthasar distingue o princ\u00edpio feminino da Igreja no seu todo e o princ\u00edpio petrino do minist\u00e9rio exclusivamente masculino.2  O reconhecimento da feminilidade do humano perante Deus, no m\u00e1ximo do seu cumprimento enquanto humano, n\u00e3o me parece que de alguma forma possa fundamentar dentro da Igreja a exclus\u00e3o da mulher seja de que actividade ou miss\u00e3o for, antes pelo contr\u00e1rio. Mas \u00e0 reflex\u00e3o que enla\u00e7a a mario-logia e a eclesiologia, haver\u00e1 que juntar os dados da teologia espiritual, pois o que se passa com a Igreja no seu todo, e que se passou j\u00e1 em Maria, pode acontecer de novo em cada crist\u00e3o, se este deixar que o Esp\u00edrito abra nele esse espa\u00e7o marial e esponsal no qual Deus acontece. O espa\u00e7o do feminino por fim vitorioso: \u201cO Todo-Poderoso fez em mim maravilhas. Santo \u00e9 o seu nome\u201d (Lc 1,49).  Maria Armanda Saint-Maurice  &#8212;&#8211;  <I>1 Cf. meu artigo \u201cCristifica\u00e7\u00e3o e \u2018maria-niza\u00e7\u00e3o\u2019: breves considera\u00e7\u00f5es sobre a maternidade divina\u201d, in Praxis (2004) 65-78. 2 Cf. o artigo \u201cA catolicidade da Igreja\u201d no livro na minha tradu\u00e7\u00e3o recente: J. Ratzinger \/H. U. von Balthasar, Maria, primeira Igreja, Gr\u00e1fica de Coimbra, 2005.<\/I><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jesus d\u00e1 a Deus o nome de Pai. Mas Deus tem outro nome que percorre toda a profecia do Antigo Testamento e encontra ecos no Novo Testamento: esposo. O povo eleito \u00e9 a esposa, capaz de uma infidelidade assimilada \u00e0 idolatria. 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