{"id":12067,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/a-mulher-na-igreja-catolica\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"a-mulher-na-igreja-catolica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-mulher-na-igreja-catolica\/","title":{"rendered":"A Mulher na Igreja Cat\u00f3lica"},"content":{"rendered":"<p>1 &#8211; Qualquer reflex\u00e3o sobre o feminino na Igreja \u00e9 sempre uma quest\u00e3o situada no tempo e no espa\u00e7o. Sendo a mensagem crist\u00e3 dirigida a toda a gente e a todas as \u00e9pocas, no \u00e2mago da experi\u00eancia humana, \u00e9 a\u00ed que se confrontam as quest\u00f5es concretas da viv\u00eancia da Boa-Nova e das condi\u00e7\u00f5es objectivas para a sua transmiss\u00e3o em Igreja, ou seja o velho problema da Evangeli-za\u00e7\u00e3o (nova ou n\u00e3o, conforme os gostos&#8230;) No in\u00edcio deste sec. XXI, num tempo de acelerada globaliza\u00e7\u00e3o, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 pois homog\u00e9nea nem no Mundo, nem na Igreja, incluindo a Igreja portuguesa. As quest\u00f5es do \u201cG\u00e9nero\u201d (feminino ou masculino) s\u00e3o ent\u00e3o (apenas?) umas entre outras que desafiam a compreens\u00e3o da F\u00e9 e a organiza\u00e7\u00e3o da Igreja em ordem a ser eficaz na sua tarefa evangelizadora. N\u00e3o podem por isso ser ignoradas ou tomadas menos a s\u00e9rio do que quaisquer outras, sob pena de omiss\u00e3o grave.  N\u00e3o se trata de importar um feminismo societ\u00e1rio das sociedades desenvolvidas do ocidente, tipo vers\u00e3o agressiva feminista \u2013 cat\u00f3lica, como simplisticamente alguns sectores eclesiais e eclesi\u00e1sticos parecem julgar ter acontecido.  Pelo contr\u00e1rio, o problema \u00e9 bem mais s\u00e9rio e necessita de ser reflectido para al\u00e9m das paix\u00f5es emocionais que se revelam nos debates a favor ou contra a maior participa\u00e7\u00e3o feminina na Igreja e, particularmente, a disputa sobre a sexualidade e \/ou a necessidade de as mulheres poderem vir a desempenhar minist\u00e9rios ordenados que hoje lhes s\u00e3o vedados. A quest\u00e3o do papel da mulher na Igreja, aqui e agora, \u00e9 a mais viva express\u00e3o da incultura\u00e7\u00e3o da F\u00e9 na experi\u00eancia de vida dos crentes, homens e mulheres que partilham \u201cas alegrias e as esperan\u00e7as, as tristezas e as ang\u00fastias dos disc\u00edpulos de Cristo. (&#8230;) (experi\u00eancia) intimamente solid\u00e1ria do g\u00e9nero humano e da sua hist\u00f3ria\u201d (G. S. \u2013 Vat. II). Importa pois tomar a s\u00e9rio esta experi\u00eancia humana que hoje estamos a viver.  Como no poema de Sophia, \u201cVemos, Ouvimos e Lemos, n\u00e3o podemos ignorar&#8230;\u201d a realidade que perpassa a nossa vida de portugueses, europeus, mulheres e homens inseridos num pa\u00eds, numa cidade, numa Igreja que assumiu historicamente uma postura face \u00e0 mulher pouco conforme com a refer\u00eancia a Jesus Cristo e muito devedora dos enquadramentos hist\u00f3ricos e modelos ideol\u00f3gicos em que nasceu, se estruturou e que muitas vezes insiste em perpetuar como se fossem essas as \u00fanicas formas poss\u00edveis de se organizar! 2 &#8211; De onde vimos pois, para podermos olhar criticamente o passado e projectarmos o futuro de uma forma mais evang\u00e9lica? Sabemos onde acabam os modelos hist\u00f3ricos ligados \u00e0 experi\u00eancia de uma F\u00e9 incarnada e onde sopra o apelo do Esp\u00edrito que impele a novos caminhos ainda inexplorados? Qual ser\u00e1 amanh\u00e3 o lugar das mulheres na Igreja?  O papel da mulher \u00e9 sempre indisso-ci\u00e1vel do seu estatuto sociol\u00f3gico em qualquer sociedade e organiza\u00e7\u00e3o, e no caso vertente, na nossa Igreja. Compreender os enquadramentos hist\u00f3ricos a as vicissitudes do passado \u00e9 dotarmo-nos de ferramentas para projectarmos o futuro. O estatuto da mulher na sociedade judaica no tempo de Jesus (como em outras sociedades tradicionais que hoje perduram), era determinado pela fam\u00edlia como lugar claramente definido em termos sociais e sexuais.  A fam\u00edlia \u00e9 sempre o centro \u2013 a mulher \u00e9 identificada com a videira fecunda&#8230; ou como a est\u00e9ril, um estigma social desvalori-zante. O papel da mulher \u00e9 assegurar a reprodu\u00e7\u00e3o, educar os filhos e manter a casa atrav\u00e9s dos trabalhos dom\u00e9sticos. N\u00e3o se pede mais nada \u00e0s mulheres do que se submetam ao poder de uma sociedade fortemente patriarcal. Os exemplos abundam no Antigo Testamento!  Mas este estatuto feminino sofre ainda de uma ambiguidade metaf\u00f3rica inicial desde o G\u00e9nesis: Eva \u00e9 a primeira mulher, auxiliar igual de Ad\u00e3o, mas tamb\u00e9m \u00e9 apresentada como a tentadora pela qual o mal veio ao mundo, segundo o relato do mito b\u00edblico da origem. A\u00ed est\u00e1 um primeiro modelo de desvaloriza\u00e7\u00e3o feminina produzido pelo discurso masculino da culpa e do mal. A evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3ria de Incultura\u00e7\u00e3o do cristianismo nas culturas locais, do Imp\u00e9rio Romano \u00e0 Idade M\u00e9dia, at\u00e9 ao s\u00e9culo XX, foi acentuando a submiss\u00e3o ao modelo patriarcal presente na maioria das sociedades o que contradiz em absoluto a mensagem crist\u00e3, mas \u00e9 produto do estatuto de menoridade feminina vigente nas sociedades com as quais o cristianismo, doutrina libertadora, muitas vezes pactuou acriticamente. Ora Jesus Cristo tinha uma compreens\u00e3o distinta da mulher. Os Evangelhos, particularmente em Lucas, mostram-nos Algu\u00e9m que fala com elas assumindo-as como pessoas na sua integralidade e esse contacto \u00e9 transformador, leva \u00e0 convers\u00e3o. Recuperar esta forma de Jesus se encontrar com as mulheres \u00e9 o desafio que o s\u00e9culo XXI, no Ocidente, nos coloca, a todos homens e mulheres, dentro e fora da Igreja. 3 &#8211; Na Igreja primitiva, as mulheres eram chamadas ao servi\u00e7o do Diaconado e certamente orientavam as celebra\u00e7\u00f5es das Igrejas dom\u00e9sticas onde se inseriam. Hoje nada disso \u00e9 poss\u00edvel! As mulheres fazem m\u00faltiplos servi\u00e7os, mas n\u00e3o s\u00e3o reconhecidos como minist\u00e9rios e o mais das vezes s\u00e3o meramente supletivos da falta de padres. A quest\u00e3o dos Minist\u00e9rios ordenados, mais do que uma reivindica\u00e7\u00e3o de igualdade de g\u00e9nero \u00e9 uma necessidade de servi\u00e7o \u00e0 comunidade eclesial. Se a Igreja Cat\u00f3lica continuar a recusar o acesso ao Presbiterado aos casados, homens ou\/e mulheres, o exerc\u00edcio do minist\u00e9rio aos chamados incorrectamente ex-padres, vai um dia encontrar-se na infeliz situa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ter quem presida \u00e0 Eucaristia. Se as mulheres parassem por um dia o seu labor di\u00e1rio na sociedade e na Igreja, o pa\u00eds e o mundo paralisavam. A economia portuguesa assenta, em grande parte, no trabalho das mulheres e a vida familiar de cada pessoa tamb\u00e9m. As Igrejas n\u00e3o teriam o ch\u00e3o limpo, as flores no lugar, as h\u00f3stias n\u00e3o seriam fabricadas pelas freiras nem os paramentos bordados, mas sobretudo a catequese dos mais novos e os servi\u00e7os de apoio social das par\u00f3quias falhavam. As celebra\u00e7\u00f5es da Palavra sem padre deixariam de existir em muitos lugares, a distribui\u00e7\u00e3o da comunh\u00e3o aos doentes igualmente. A Confer\u00eancia Episcopal reuniria na mesma, mas n\u00e3o teria quem lhes fizesse a comida, em F\u00e1tima, nem as secret\u00e1rias para lhes passarem os textos a computador. As aulas da Faculdade de Teologia funcionariam pois s\u00f3 h\u00e1 uma mulher na direc\u00e7\u00e3o e a\u00ed as professoras s\u00e3o muito poucas, mas a secretaria da Universidade Cat\u00f3lica faria fechar as Faculdades, sem ningu\u00e9m para processar vencimentos ou passar diplomas. As escolas cat\u00f3licas ficavam tamb\u00e9m paralisadas. Ora como se v\u00ea pelos exemplos dados, as mulheres s\u00e3o essenciais para fazerem funcionar esse corpo que \u00e9 a Igreja. O que \u00e9 estranho \u00e9 que se lhes pe\u00e7a quase s\u00f3 trabalho bra\u00e7al e quase nenhum intelectual&#8230; desperdi\u00e7ando muitos dos carismas com que o Criador as dotou! 4- O desastroso discurso eclesi\u00e1stico sobre o papel da mulher, marcado pela sexualidade (virgens consagradas ou m\u00e3es) e pela carga hist\u00f3rica de submiss\u00e3o da mulher, ainda que lhe reconhe\u00e7a dignidade (ex. JPII &#8211; in Mulliers Dignitatem) recusa ver uma realidade que s\u00f3 n\u00e3o v\u00ea quem n\u00e3o quer mesmo olhar: as mulheres s\u00e3o gente, s\u00e3o pessoas, dotadas al\u00e9m da fun\u00e7\u00e3o reprodutora e de um enorme cora\u00e7\u00e3o, com muitos outros atributos tais como&#8230; c\u00e9rebro! A menos que as fa\u00e7am justamente \u201cperder a cabe\u00e7a\u201d pelas in\u00fameras hist\u00f3rias de discrimina\u00e7\u00e3o e menoridade a que habitualmente t\u00eam estado sujeitas. \u00c9 altura de come\u00e7ar a mudar e colocar os carismas e talentos do g\u00e9nero feminino ao servi\u00e7o de toda a comunidade eclesial. O progresso social resultante da situa\u00e7\u00e3o da escolariza\u00e7\u00e3o maci\u00e7a das mulheres, no Ocidente, torna-as parceiras tamb\u00e9m em termos intelectuais, dos homens e esta realidade deve-se reflectir n\u00e3o s\u00f3 na sociedade como na Igreja e na sua organiza\u00e7\u00e3o interna. Caso este desafio n\u00e3o seja tomado a s\u00e9rio, corremos o risco de marginalizar e de perder o contacto com a metade feminina da humanidade, o que seria um pecado grave!  M\u00aa Alfreda Ferreira da Fonseca<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1 &#8211; Qualquer reflex\u00e3o sobre o feminino na Igreja \u00e9 sempre uma quest\u00e3o situada no tempo e no espa\u00e7o. 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