{"id":11800,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/manifestacoes-da-religiosidade-estao-em-mutacao\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"manifestacoes-da-religiosidade-estao-em-mutacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/manifestacoes-da-religiosidade-estao-em-mutacao\/","title":{"rendered":"Manifesta\u00e7\u00f5es da religiosidade est\u00e3o em muta\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Os dados sobre as festas e devo\u00e7\u00f5es em Portugal n\u00e3o t\u00eam sido objecto da abordagem cient\u00edfica sistem\u00e1tica que se exigiria. Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA, o soci\u00f3logo Marinho Antunes fala dos estudos efectuados e do caminho que falta percorrer <!--more--> <i>Para ler e pensar as festas e devo\u00e7\u00f5es em Portugal \u00e9 imprescind\u00edvel olhar para o conjunto de dados provenientes de tr\u00eas estudos: uma sondagem no Continente sobre a religiosidade dos portugueses &#8211; 3 e 4 de Julho de 1999, Centro de Estudos e Sondagens de Opini\u00e3o da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa; um inqu\u00e9rito exaustivo \u00e0s par\u00f3quias portuguesas, elaborado para o Centro de Estudos Sociais e Pastorais da Universidade Cat\u00f3lica; uma sondagem do Centro de Estudos e Sondagens de Opini\u00e3o da UCP, para o P\u00fablico, RTP e RDP, nos dias 29 e 30 de Abril de 2000, em todo o Continente. Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA, o soci\u00f3logo Marinho Antunes fala dos estudos efectuados e do caminho que falta percorrer.  Ag\u00eancia ECCLESIA \u2013 A abordagem cient\u00edfica \u00e0s realidades do \u201ccatolicismo popular\u201d tem sido menosprezada? Marinho Antunes \u2013 <\/i> A impress\u00e3o que eu tenho \u00e9 que ela aparece a reboque de circunst\u00e2ncias: porque \u00e9 o m\u00eas de Maio, porque s\u00e3o as Festas populares, etc. Tem havido, portanto, um tratamento que n\u00e3o \u00e9 muito sistem\u00e1tico e isso, evidentemente, limita muito o alcance das pr\u00f3prias conclus\u00f5es dos estudos que t\u00eam sido feitos. N\u00f3s n\u00e3o temos tido, at\u00e9 agora a capacidade de articular todas as coisas. Apesar de tudo, um trabalho onde se procurou fazer um pouco isso foi o publicado por M\u00e1rio Lages (M\u00e1rio Lages, \u201cA religiosidade popular portuguesa na segunda metade do s\u00e9c. XX\u201d, in: M. Braga da Cruz \/ N. Correia Guedes, coord., \u201cA Igreja e a cultura contempor\u00e2nea em Portugal\u201d, Lisboa: UCP 2000, 379-436.). Quanto ao resto, a ideia que eu tenho \u00e9 que s\u00e3o trabalhos muito pontuais, at\u00e9 porque n\u00e3o tem havido muita capacidade nem oportunidade para integrar os dados e ir mais longe.  <i>AE \u2013 Qual \u00e9 a vantagem dos estudos j\u00e1 realizados?  MA \u2013 <\/i>A grande vantagem em rela\u00e7\u00e3o a trabalhos anteriores \u00e9 que, apesar de tudo, se utiliza um m\u00e9todo das ci\u00eancias sociais. V\u00e1rios dos estudos est\u00e3o muito centrados em experi\u00eancias concretas da Religiosidade Popular &#8211; uma festa aqui, uma devo\u00e7\u00e3o ali&#8230; -, mesmo por pessoas que n\u00e3o t\u00eam grande prepara\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, tentando descrever o que v\u00eaem ou mesmo construir uma grande apologia. J\u00e1 vivemos tempos em que a acentua\u00e7\u00e3o era feita em sentido contr\u00e1rio, num certo esp\u00edrito dominante que via a Religiosidade Popular como algo inferior, que tinha de ser mudada e combatida. Hoje j\u00e1 n\u00e3o temos esta posi\u00e7\u00e3o, mas as abordagens cient\u00edficas n\u00e3o est\u00e3o preocupadas em saber se a Religiosidade Popular \u00e9 uma coisa boa ou m\u00e1, tenta antes compreender o fen\u00f3meno, numa abordagem objectiva \u2013 na medida que este m\u00e9todo de aplica\u00e7\u00e3o de question\u00e1rios a uma amostra significativa pode dar.  <i>AE \u2013 \u00c0 vista desarmada percebe-se, por exemplo, que a sensibilidade religiosa dos portugueses \u00e9 marcadamente mariana. Os dados sociogr\u00e1ficos conhecidos confirmam esta intui\u00e7\u00e3o? MA <\/i>\u2013 Sim, os resultados confirmam-no plenamente.  <i>AE \u2013 Como \u00e9 que os question\u00e1rios podem ajudar a perceber as motiva\u00e7\u00f5es que levam as pessoas a fazer gestos como peregrina\u00e7\u00f5es ou promessas? MA <\/i>\u2013 Neste caso, dadas as circunst\u00e2ncias, at\u00e9 acab\u00e1mos por utilizar um m\u00e9todo que enriquecia em extens\u00e3o as pessoas abrangidas, porque \u00e0s vezes se perde uma vis\u00e3o de conjunto do pa\u00eds e temos de ter instrumentos deste g\u00e9nero. A este n\u00edvel, quando procuramos as motiva\u00e7\u00f5es das pessoas, notamos que este instrumento \u00e9, de facto, limitado, e ficamos com vontade de aprofundar estas quest\u00f5es atrav\u00e9s de entrevistas. Penso que, nesta mat\u00e9ria, isso \u00e9 indispens\u00e1vel fazer-se um dia.  <i>AE \u2013 O fen\u00f3meno das peregrina\u00e7\u00f5es est\u00e1 a ganhar uma nova import\u00e2ncia? MA <\/i>\u2013 H\u00e1 um dado curioso de que os estudos d\u00e3o conta: o revigoramento e renova\u00e7\u00e3o desta pr\u00e1tica que, durante muitos anos, at\u00e9 parecia estar em decl\u00ednio. Hoje vemos sinais de expans\u00e3o nas peregrina\u00e7\u00f5es, um fen\u00f3meno que tem de ser tratado com muito cuidado. No fundo, cabe l\u00e1 muita coisa, porque h\u00e1 muitas maneiras de as pessoas peregrinarem: mistura-se a peregrina\u00e7\u00e3o e o turismo, surgiu a categoria interm\u00e9dia de turismo religioso que est\u00e1 em expans\u00e3o.  Importa ver os limites destas situa\u00e7\u00f5es e perceber em que condi\u00e7\u00f5es \u00e9 que isto aparece, onde e com quem. O que j\u00e1 temos \u00e9 um conjunto complexo de comportamentos e de quest\u00f5es, de factores que interv\u00eam num fen\u00f3meno muito interessante. As peregrina\u00e7\u00f5es, em parte, cobrem uma \u00e1rea de pessoas que se aproximam dos lugares de peregrina\u00e7\u00e3o que v\u00e3o muito al\u00e9m do que era aquilo pensado: a peregrina\u00e7\u00e3o era vista como algo exclusivo dos mais praticantes, mas n\u00e3o \u00e9, as fronteiras destes fen\u00f3menos s\u00e3o muito mais vastas.  <i>AE \u2013 Falta olhar com mais aten\u00e7\u00e3o para esse campo? MA <\/i>&#8211; S\u00f3 a peregrina\u00e7\u00e3o individual, por exemplo, merecia um estudo mais apro-fundado, dado que est\u00e1 pouco explorada: a t\u00edtulo pessoal ou num pequeno grupo, s\u00e3o cada vez mais os que se fazem \u00e0 estrada e desaparecem por dias ou semanas&#8230; Eu penso que h\u00e1 aqui qualquer coisa de radical, \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201cdesporto\u201d mais ou menos religioso. As pessoas resolvem de repente fazer uma coisa extraordin\u00e1ria, que deve provocar um choque de muita adrenalina, e fazem coisas que a um olhar mais racional surpreendem. Esta figura do peregrino \u00e9, ali\u00e1s, compat\u00edvel com a reconfigura\u00e7\u00e3o do campo religioso e dos comportamentos religiosos que aparecem em v\u00e1rios estudos.  <i>AE \u2013 O caso de F\u00e1tima \u00e9 um bar\u00f3metro da Religiosidade no nosso pa\u00eds? MA <\/i>\u2013 No caso do Santu\u00e1rio de F\u00e1tima \u00e9 vis\u00edvel a rela\u00e7\u00e3o entre estas novas formas de que falei e o que s\u00e3o os \u201cn\u00facleos duros\u201d \u2013 o que \u00e9 propriamente o Santu\u00e1rio; os elementos pastorais propriamente ditos, como a Liturgia; o esfor\u00e7o de canalizar e trazer os peregrinos n\u00e3o s\u00f3 aos lugares, mas \u00e0 mensagem e aos comportamentos dela derivantes. Para os \u201cgestores\u201d do Santu\u00e1rio de F\u00e1tima esta \u00e9 uma quest\u00e3o importante e eu j\u00e1 conversei com eles sobre isso. Todos t\u00eam uma clara no\u00e7\u00e3o de que est\u00e3o permanentemente perante uma grande variedade de procuras e t\u00eam de se ir adaptando. H\u00e1 necessidade de se oferecer um espa\u00e7o bastante aberto e penso que em F\u00e1tima se tem encontrado um certo equil\u00edbrio, de maneira que as pessoas l\u00e1 encontram o seu espa\u00e7o, mesmo em situa\u00e7\u00f5es muito diferentes. Uns entram de uma maneira, outros de maneira diferente, at\u00e9 se v\u00eaem algumas pessoas \u201cesquisitas\u201d, mas l\u00e1 est\u00e3o e, dentro de certos limites, ningu\u00e9m as importuna. Esta \u00e9 uma forma muito p\u00f3s-moderna de aproxima\u00e7\u00e3o ao religioso e este \u00e9 um fen\u00f3meno que vai ter express\u00f5es novas. Com certeza que vamos encontrar outro tipo de pessoas a caminhar pelas ruas, a peregrinar. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os dados sobre as festas e devo\u00e7\u00f5es em Portugal n\u00e3o t\u00eam sido objecto da abordagem cient\u00edfica sistem\u00e1tica que se exigiria. 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