{"id":116732,"date":"2018-10-15T11:55:03","date_gmt":"2018-10-15T10:55:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=116732"},"modified":"2018-10-15T17:31:58","modified_gmt":"2018-10-15T16:31:58","slug":"dos-bloqueios-de-um-processo-a-exemplaridade-de-santo-oscar-romeno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/dos-bloqueios-de-um-processo-a-exemplaridade-de-santo-oscar-romeno\/","title":{"rendered":"Dos bloqueios de um processo \u00e0 exemplaridade de Santo \u00d3scar Romeno"},"content":{"rendered":"<p><em>Jos\u00e9 Eduardo Borges de Pinho<\/em><!--more--><\/p>\n<p>1. Naquela tarde de 24 de Mar\u00e7o de 1980, a not\u00edcia do assassinato de D. \u00d3scar Romero em plena celebra\u00e7\u00e3o da eucaristia caiu nas reda\u00e7\u00f5es dos meios de comunica\u00e7\u00e3o social como um acontecimento que era receado, mas que se esperava nunca viesse a suceder. A Junta militar em El Salvador e os c\u00e9lebres \u201cesquadr\u00f5es da morte\u201d tinham de calar a voz inc\u00f3moda de algu\u00e9m que, tamb\u00e9m atrav\u00e9s da r\u00e1dio da sua diocese, denunciava as injusti\u00e7as, a opress\u00e3o, as viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos fundamentais. Trabalhando ent\u00e3o na R\u00e1dio Renascen\u00e7a, nessa altura com a tarefa de coordenar um espa\u00e7o informativo eclesial, a not\u00edcia, recebida com alguma emo\u00e7\u00e3o, mereceu aten\u00e7\u00e3o particular. Para quem acompanhava a vida da Igreja, eram bem conhecidas a coer\u00eancia e a coragem do arcebispo salvadorenho no an\u00fancio do Evangelho e na consequente defesa da justi\u00e7a para com os mais pobres e da dignidade da pessoa humana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2. Uns bons anos depois, encontrei ocasionalmente um alto respons\u00e1vel pelos processos de canoniza\u00e7\u00e3o em Roma. Depois de uma ampla conversa sobre v\u00e1rios outros assuntos, perguntei-lhe diretamente porqu\u00ea o processo de canoniza\u00e7\u00e3o de D. \u00d3scar Romero, afinal com indicativos t\u00e3o claros aos olhos comuns, n\u00e3o avan\u00e7ava, em contraste com outros casos conhecidos. A resposta recebida, entre \u201cmeias\u201d palavras e alguns sil\u00eancios, confirmou-me inequivocamente que for\u00e7as ideol\u00f3gicas, tanto na C\u00faria Romana (excluo os Papas) como em El Salvador, bloqueavam o andamento deste processo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3. Desde ent\u00e3o \u2013 e isto \u00e9 um aparte que vai para al\u00e9m de \u00d3scar Romero \u2013 cresceu em mim a convic\u00e7\u00e3o de que nos processos de canoniza\u00e7\u00e3o h\u00e1 aspectos que necessitam de ser revistos e aprofundados. Desde logo, o discernimento eclesial que, indiscutivelmente, precisa de ser feito pode ser mais c\u00e9lere, mais coerente, teol\u00f3gica e eclesialmente mais transparente. Ponto de partida e ponto de refer\u00eancia fundamentais, decisivos mesmo, n\u00e3o podem deixar de ser as express\u00f5es a n\u00edvel local\/regional do <em>sensus fidei fidelium <\/em>(o sentido da f\u00e9 dos crentes) e os indicativos que da\u00ed v\u00eam para o discernimento dos sinais da presen\u00e7a de Deus e seus frutos na vida de uma pessoa nos contextos e circunst\u00e2ncias singulares da sua exist\u00eancia. Al\u00e9m disso, e entre outras coisas que ser\u00e1 indispens\u00e1vel rever, est\u00e1 o percurso e a finaliza\u00e7\u00e3o destes processos: o reconhecimento eclesial tem de assentar na confian\u00e7a de que Esp\u00edrito Santo acompanha a Igreja nesse discernimento, relativizando assim a expectativa de que aconte\u00e7am sinais miraculosos por interven\u00e7\u00e3o pontual de Deus (algo que n\u00e3o pode deixar de questionar a ideia crist\u00e3 de Deus e os pr\u00f3prios indicativos do Evangelho).<\/p>\n<p>Dentro dos limites que persistem, \u00e9 m\u00e9rito do Papa Francisco, tendo conhecido mais proximamente a pessoa, o contexto existencial de vida e o sentido prof\u00e9tico do agir crente e pastoral do arcebispo salvadorenho, ter dado o impulso decisivo em ordem \u00e0 canoniza\u00e7\u00e3o que ontem ocorreu. A proclama\u00e7\u00e3o da santidade de D. \u00d3scar Romero \u00e9 o reconhecimento, por parte da Igreja, de que nesta hist\u00f3ria de vida, marcada por circunst\u00e2ncias de mart\u00edrio, h\u00e1 consist\u00eancia e exemplaridade \u00e0 luz do Evangelho que merecem a aten\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os a n\u00edvel universal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>4. Que resulta, ent\u00e3o, como interpela\u00e7\u00e3o a partir deste acontecimento? V\u00e1rias coisas, das quais destaco tr\u00eas.<\/p>\n<p>a) Ressalto, em primeiro lugar, a exemplifica\u00e7\u00e3o concreta de como a exist\u00eancia crist\u00e3, vivida com coer\u00eancia na busca de fidelidade ao Evangelho, ser\u00e1 sempre uma \u201cexist\u00eancia sob a cruz\u201d (isto \u00e9, sujeita a dificuldades, contradi\u00e7\u00f5es, rejei\u00e7\u00f5es) e, \u00e0s vezes mesmo, uma \u201cexist\u00eancia crucificada\u201d at\u00e9 \u00e0 morte (continua a haver diversas formas de mart\u00edrio). Nunca ser\u00e1 demais lembrar isso num mundo em que, por vezes, parece prevalecer, tanto nas pessoas como nas institui\u00e7\u00f5es, um \u201ccristianismo adocicado\u201d, mais marcado por crit\u00e9rios de \u201chonrarias humanas\u201d e \u201cconveni\u00eancias quotidianas\u201d do que pelos crit\u00e9rios de Deus, e, assim, um cristianismo sem capacidade prof\u00e9tica para discernir e reconhecer o que vai mal (tanto na Igreja como na sociedade). O Papa sublinhou ontem que os novos santos, \u201cem diferentes contextos, traduziram na vida a Palavra de hoje: sem tibieza, nem c\u00e1lculos, com o ardor de arriscar e deixar tudo\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>b) A vida e morte de D. \u00d3scar Romero traz consigo, por outro lado e talvez de maneira eminente, a pergunta pela autenticidade que reconhecemos \u00e0 coer\u00eancia pr\u00e1tica da vida crist\u00e3 inserida em contextos sociopol\u00edticos concretos. Nos seus 85 anos, completados h\u00e1 cinco dias, o insuspeito Gisbert Greshake expressou no livro \u201cMaria-Ecclesia\u201d (2014, 636 p\u00e1ginas, no seu pr\u00f3prio dizer o \u00faltimo livro que escreveria) a sua perplexidade perante o facto de que a Igreja se apressava, por vezes, a condenar (verdadeiras ou pretensas) heresias teol\u00f3gico-doutrinais, mas deixava sem palavras condenat\u00f3rias ou at\u00e9 mesmo de excomunh\u00e3o regimes e pessoas claramente opressores e injustos, atentat\u00f3rios da elementar dignidade humana. Bem sei que aqui t\u00eam de ser considerados realisticamente tamb\u00e9m aspectos conjunturais que salvaguardem as pessoas e comunidades crist\u00e3s que vivem nessas situa\u00e7\u00f5es (ontem como hoje). Mas que a pergunta merece resposta, pelo menos como corretivo de uma pretensa \u201dortodoxia te\u00f3rica\u201d que esquece a \u201cortodoxia pr\u00e1tica\u201d (da vida), n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida nenhuma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>c) A vida de D. \u00d3scar Romero \u2013 certamente marcada tamb\u00e9m pelos limites e falhas que toda a exist\u00eancia humana tem \u2013 lembra, por fim, que a op\u00e7\u00e3o da Igreja pelos pobres e injusti\u00e7ados n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o secund\u00e1ria ou relativa, mas toca no cerne da identidade crist\u00e3, do seguimento de Jesus, do verdadeiro sentido da miss\u00e3o da Igreja no mundo. Podemos sentir-nos insignificantes perante a grandeza da tarefa. Podemos ter dificuldade em tirar todas as consequ\u00eancias das palavras que proferimos. Podemos sentir-nos limitados por contextos sociais, econ\u00f3micos e pol\u00edticos, por exig\u00eancias pr\u00e1ticas familiares ou outras. N\u00e3o podemos, todavia, desistir da busca de sermos o mais poss\u00edvel fi\u00e9is ao Evangelho de Jesus. E n\u00e3o podemos ficar indiferentes (muito menos disfar\u00e7ar ignor\u00e2ncia) perante a interpela\u00e7\u00e3o que resulta para a nossa situa\u00e7\u00e3o de testemunhos de vida como estes. \u201cO problema \u2013 lembrou ontem o Papa Francisco \u2013 est\u00e1 do nosso lado: o muito que temos e o muito que ambicionamos sufocam-nos o cora\u00e7\u00e3o e tornam-nos incapazes de amar\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Eduardo Borges de Pinho<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":116733,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[470],"class_list":["post-116732","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao","tag-oscar-romero"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/116732","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=116732"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/116732\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/116733"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=116732"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=116732"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=116732"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}