{"id":11657,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/nao-extingais-a-alegria-da-vossa-juventude\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"nao-extingais-a-alegria-da-vossa-juventude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/nao-extingais-a-alegria-da-vossa-juventude\/","title":{"rendered":"\u00abN\u00e3o extingais a alegria da vossa juventude\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Homilia de D. Armindo Lopes Coelho na B\u00ean\u00e7\u00e3o das Pastas <!--more--> \u201cNa verdade, Cristo morreu uma s\u00f3 vez pelos nossos pecados para nos conduzir a Deus. Morreu segundo a carne, mas voltou \u00e0 vida pelo Esp\u00edrito\u201d (1 Ped. 3,18). Este enunciado cont\u00e9m, como tese, a base essencial do Cristianismo e da Igreja. Base essencial e fundamento da f\u00e9 crist\u00e3. N\u00e3o \u00e9 normal mas aceita-se que uma pessoa d\u00ea a vida pelo seu semelhante, independentemente do motivo. Que algu\u00e9m d\u00ea a vida, morrendo uma s\u00f3 vez, pelos pecados (para obter e alcan\u00e7ar o perd\u00e3o dos pecados) de toda a humanidade, de todos os pecadores e pecadoras, j\u00e1 deve merecer questionamento porque pertence \u00e0 \u00e1rea do mist\u00e9rio. E s\u00f3 com f\u00e9 se pode permanecer nessa \u00e1rea do mist\u00e9rio. E que algu\u00e9m, tendo morrido, volte \u00e0 vida pelo Esp\u00edrito, triunfe sobre a morte e ressuscite, tamb\u00e9m n\u00e3o se pode explicar naturalmente nem se pode aceitar sen\u00e3o por raz\u00f5es de f\u00e9, que nasce e assenta no testemunho de outrem. E no entanto, \u00e9 S. Paulo que fala aos crist\u00e3os, de ontem e de hoje, nos termos seguintes: \u201cSe Cristo n\u00e3o ressuscitou, \u00e9 v\u00e3 a nossa prega\u00e7\u00e3o e v\u00e3 a nossa f\u00e9&#8230; Se a nossa esperan\u00e7a em Cristo \u00e9 somente para esta vida, n\u00f3s somos os mais infelizes de todos os homens (1 Cor. 15,14 e 19).  Mas a esperan\u00e7a de que falamos tem uma dupla dimens\u00e3o, ou melhor, a dimens\u00e3o terrena de dinamismo e sentido escatol\u00f3gico para se prolongar pela eternidade. A mesma Carta de Pedro que fala da morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo diz aos crist\u00e3os que estejam \u201cprontos sempre a responder, a quem quer que seja, sobre a raz\u00e3o da sua esperan\u00e7a\u201d (1 Ped. 3,15). Sabemos que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Com a data de 28 de Junho de 2003 o Papa Jo\u00e3o Paulo II, na sequ\u00eancia de um S\u00ednodo dos Bispos sobre a Europa, publicava uma Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica sobre a Europa e a Esperan\u00e7a. Depois de falar de um ofuscamento da Esperan\u00e7a, como consta da crise da mem\u00f3ria e heran\u00e7a crist\u00e3, do agnosticismo pr\u00e1tico e do indiferentismo religioso, do secularismo e do medo de enfrentar o futuro, da fragmenta\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia, do enfraquecimento progressivo da solidariedade e da tentativa de fazer prevalecer uma antropologia sem Deus e sem Cristo, referia-se \u00e0 nostalgia da esperan\u00e7a e tamb\u00e9m aos sinais positivos da esperan\u00e7a que n\u00e3o pode faltar. Os homens n\u00e3o podem viver sem esperan\u00e7a, afirma categoricamente: \u201c \u00c9 preciso voltar a Cristo, fonte de  toda a esperan\u00e7a; \u00e9 a nossa esperan\u00e7a, porque Ele, o Verbo eterno de Deus que est\u00e1 sempre no seio do Pai, amou-nos at\u00e9 ao ponto de assumir em tudo, excepto no pecado, a nossa natureza humana tornando-se participante da nossa vida, para nos salvar. No contexto do pluralismo \u00e9tico e religioso actual &#8230; \u00e9 preciso confessar e propor de novo a verdade de Cristo como \u00fanico Mediador entre Deus e os homens e \u00fanico Redentor do mundo\u201d (Eccl. in Europa, 18 ss). H\u00e1 conceitos e sentimentos, aspira\u00e7\u00f5es e ideais que aparecem e desfilam na pantalha do tempo ao sabor de circunst\u00e2ncias que surgem e se repetem como sinais e express\u00f5es de modas que despontam e desaparecem para regressarem de novo. A esperan\u00e7a, termo e conceito, est\u00e1 inclu\u00edda na moda do nosso tempo, e n\u00e3o \u00e9 por raz\u00f5es \u00f3ptimas. Na \u00e1rea da Igreja prepar\u00e1mos o s\u00e9culo XXI, in\u00edcio do III mil\u00e9nio da era crist\u00e3, sob o signo da esperan\u00e7a. Acontecimentos muito graves abalaram a nossa esperan\u00e7a, a esperan\u00e7a da Igreja que se incrementava e a esperan\u00e7a da sociedade civil que de h\u00e1 muito estava afectada. Seguiram-se tempos comuns de medo, de inseguran\u00e7a, de preocupa\u00e7\u00e3o pelo futuro, este futuro que parecia negativamente assinalado. A n\u00edvel interno (nacional) n\u00e3o evit\u00e1mos um certo des\u00e2nimo, que chegou a ser apelidado de depress\u00e3o colectiva, certamente n\u00e3o generalizada mas classificada como tal. H\u00e1 muitos fazedores de opini\u00e3o com \u201ccarisma\u201d para catalogar e qualificar pessoas, movimentos e inten\u00e7\u00f5es&#8230; Fomos convidados e estimulados a recuperar a esperan\u00e7a, que tem um sentido gen\u00e9rico e neutro, mas \u00e9 esta neutralidade gen\u00e9rica que lhe afecta o conte\u00fado e a torna porventura dispens\u00e1vel ou, pelo menos, menos necess\u00e1ria. Ora, na I Carta de S. Pedro, aqui glosada, a esperan\u00e7a \u00e9 identificada com Cristo (entenda-se a esperan\u00e7a dos crist\u00e3os, identificada com Cristo que morreu por todos para ser esperan\u00e7a para todos).  O Evangelista S. Jo\u00e3o ajuda-nos a compreender melhor esta doutrina quando alarga o quadro e cen\u00e1rio das realidades concretas, do nosso tempo e do nosso mundo, a partir das palavras de Cristo aos disc\u00edpulos. Cristo prometia enviar-nos o Esp\u00edrito Santo para, ao retirar-se, n\u00e3o nos deixar \u00f3rf\u00e3os: \u201cSe Me amardes, guardareis os meus mandamentos. E Eu pedirei ao Pai, que vos dar\u00e1 outro Defensor, para estar sempre convosco: o Esp\u00edrito da verdade, que o mundo n\u00e3o pode receber, porque n\u00e3o O v\u00ea nem O conhece, mas que v\u00f3s conheceis, porque habita convosco e est\u00e1 em v\u00f3s\u201d (Jo. 14,15-17). Aqui reside o problema: O conhecimento de Cristo como Deus, o amor a Cristo, a guarda e pr\u00e1tica dos mandamentos, a consci\u00eancia da presen\u00e7a do Esp\u00edrito, em cada pessoa e na Igreja como comunidade e institui\u00e7\u00e3o de pessoas. \u201cSe Me amardes, guardareis os meus mandamentos\u201d: O Cardeal Ratzinger, na Missa que antecedeu o Conclave que o elegeu Papa (Bento XVI), explicou e elucidou estes problemas que nos envolvem e, at\u00e9 certo ponto, nos imobilizam e paralisam. O Senhor disse-nos: \u201cN\u00e3o vos chamo servos&#8230; chamo-vos amigos\u201d (Jo. 15,15). Ora, entre amigos n\u00e3o h\u00e1 segredos: Cristo revela-nos o Pai, o rosto e o cora\u00e7\u00e3o, a loucura do amor que O levou \u00e0 cruz por n\u00f3s. Por outro lado, a amizade \u00e9 comunh\u00e3o das vontades: Idem velle, idem nolle. \u201cV\u00f3s sois meus amigos, se fazeis o que vos mando\u201d (Jo. 15,14) (18 de Abril de 2005); \u201cSe Me amardes, guardareis os meus mandamentos\u201d (Jo. 14,15); \u201cse algu\u00e9m aceita os meus mandamentos e os cumpre, esse realmente Me ama\u201d (Jo. 14,21). Se o conceito de esperan\u00e7a est\u00e1 sujeito a reparos e a interpreta\u00e7\u00f5es n\u00e3o un\u00edvocas, o conceito de amor labora na mais ampla equivocidade, a ponto de poder revestir acep\u00e7\u00f5es antag\u00f3nicas. Falar do amor de Deus, do amor a Cristo ou do amor fraterno \u00e0 luz do Evangelho pode hoje assumir o sentido de realidade ultrapassada, de aliena\u00e7\u00e3o, de fantasia do irreal, de express\u00e3o n\u00e3o-cultural ou anti-cultural. Porque o agnosticismo da moda, o relativismo como dogma e o indiferentismo religioso aspiram a prescindir de Deus e dos seus mandamentos, relegando a Igreja para o cat\u00e1logo das coisas in\u00fateis e para a margem da sociedade que se assume e prossegue com as suas op\u00e7\u00f5es manipuladas e as exclus\u00f5es previstas. Se \u00e9 a Igreja que est\u00e1 em causa ou em crise \u00e9 a f\u00e9 em Cristo e o seguimento de Cristo que enquadram o problema religioso da nossa Europa e do mundo ocidental. S\u00e3o bem conhecidos os apelos do Papa Jo\u00e3o Paulo II logo no in\u00edcio do seu Pontificado em 1978: \u201cN\u00e3o tenhais medo; abri, escancarai as portas a Cristo\u201d. Repetia este apelo, no passado dia 24 de Abril, o Papa Bento XVI, lembrando que o seu antecessor se dirigia a todos os homens, mas sobretudo aos jovens. E interrogava-nos a todos sobre o eventual medo de deixarmos Cristo entrar totalmente em n\u00f3s: N\u00e3o teremos medo de que, entrando em n\u00f3s, Cristo leve algo da nossa vida? N\u00e3o teremos medo de renunciar \u00e0quilo que nos permite uma vida bela? Teremos medo de perder a liberdade?  Meus caros jovens estudantes: A Igreja a que pertencemos e que aqui nos re\u00fane para fazer festa neste Ano da Eucaristia \u00e9 uma Igreja que tem futuro porque, al\u00e9m do mais, tem e guarda mem\u00f3ria do passado, e particularmente das origens. E os acontecimentos e sentimentos das origens s\u00e3o normativos para o presente e para o futuro. E s\u00e3o a prova da sua actualidade e autenticidade, enquanto Igreja que n\u00e3o \u00e9 do mundo mas est\u00e1 no mundo, enviada ao mundo, n\u00e3o para condenar mas para salvar o mundo. Como Cristo. Os Actos dos Ap\u00f3stolos s\u00e3o a hist\u00f3ria das origens. Falam-nos da prega\u00e7\u00e3o e testemunho dos Ap\u00f3stolos sobre Cristo e o Esp\u00edrito. Falam-nos de multid\u00f5es que come\u00e7aram a acreditar, aderindo aos ensinamentos dos Ap\u00f3stolos e aceitando a miss\u00e3o e a liturgia dos Ap\u00f3stolos que lhes impunham as m\u00e3os para receberem o Esp\u00edrito Santo, e maravilhavam-se com os prod\u00edgios que a Igreja realizava. E houve muita alegria nas cidades onde o Cristianismo chegou e onde o Esp\u00edrito Santo actuou para transforma\u00e7\u00e3o interior das pessoas. Procurai viver e enfrentar as situa\u00e7\u00f5es mais problem\u00e1ticas do presente, com esperan\u00e7a no futuro da vossa fam\u00edlia, da vossa profiss\u00e3o, da nossa sociedade. N\u00e3o extingais a alegria da vossa juventude, mas procurai atingir os vossos ideais na Universidade e no mundo com o optimismo que resulta da f\u00e9 crist\u00e3, vivida com firmeza e tamb\u00e9m com toler\u00e2ncia, com sentimentos de fraternidade, com prop\u00f3sitos de servi\u00e7o e de colabora\u00e7\u00e3o para uma sociedade mais pr\u00f3spera e mais justa, que reencontre a alegria de viver, com esperan\u00e7a e em paz.  Porto, 1 de Maio de 2005 D. Armindo Lopes Coelho, Bispo do Porto <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia de D. 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