{"id":11592,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/presenca-de-bento-xvi-cardeal-joseph-ratzinger-no-porto\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"presenca-de-bento-xvi-cardeal-joseph-ratzinger-no-porto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/presenca-de-bento-xvi-cardeal-joseph-ratzinger-no-porto\/","title":{"rendered":"Presen\u00e7a de Bento XVI (Cardeal Joseph Ratzinger) no Porto"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Integradas nas Jornadas de Teologia do Centro Regional do Porto, da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa, [entre 5 e 7 de Mar\u00e7o de 2001], a visita ao Porto e a confer\u00eancia do Cardeal Ratzinger, constitu\u00edam, em si mesmas, um interesse e um apelo de participa\u00e7\u00e3o acrescidos para o evento. E, de facto, quanto ao n\u00famero de participantes, as expectativas foram largamente superadas. N\u00e3o diria tanto quanto ao conte\u00fado da exposi\u00e7\u00e3o, a meu ver, muito longa quanto \u00e0 g\u00e9nese da Europa, breve e incisiva na an\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o actual mas demasiado curta, apesar de sugestiva, quanto ao futuro. O tema da Confer\u00eancia &#8220;Europa: os seus fundamentos espirituais, ontem, hoje e amanh\u00e3&#8221;, de sabor b\u00edblico e jubilar, como antecipadamente a apresentou e ousadamente a interpretou o Bispo do Porto, situava-se perfeitamente no quadro global da reflex\u00e3o a que se propunham estas Jornadas: &#8220;O cristianismo no limiar dos novos tempos&#8221;. Mas vamos \u00e0 Confer\u00eancia. Como disse, muito longa quanto \u00e0 g\u00e9nese da Europa e dos seus fundamentos. Na tentativa de responder \u00e0 pergunta &#8220;Europa, que \u00e9 isso?&#8221;, o Prefeito da Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9, na peugada das posi\u00e7\u00f5es do Cardeal Glemp, no S\u00ednodo sobre a Europa, vai desenvolvendo a tese de que &#8220;a Europa \u00e9 um conceito que s\u00f3 secundariamente \u00e9 geogr\u00e1fico&#8221;. E insiste: &#8220;A Europa n\u00e3o \u00e9 nenhum continente geograficamente evidente, mas trata-se de um conceito cultural e hist\u00f3rico&#8221;.   A Europa ontem Somos depois conduzidos a um percurso, sobretudo hist\u00f3rico, mas tamb\u00e9m geogr\u00e1fico e necessariamente cultural, entre avan\u00e7os e recuos, em que o Conferencista detecta, desde logo, duas revolu\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas fundamentais, a saber: em primeiro lugar a substitui\u00e7\u00e3o do antigo continente mediterr\u00e2nico pelo continente do Sacrum Imperium, colocado mais a norte e no qual desde a \u00e9poca carol\u00edngea a Europa \u00e9 moldada como um mundo ocidental e latino; ao mesmo tempo, a perman\u00eancia da antiga Roma em Biz\u00e2ncio, com o seu alargamento para o mundo Eslavo&#8221;. Recordemos aqui, em jeito de par\u00eantesis, que na Convocat\u00f3ria para o Simp\u00f3sio dos Bispos Europeus, feita precisamente em F\u00e1tima, em13 de Maio de 1991, o Papa Jo\u00e3o Paulo II dizia ser necess\u00e1rio que as duas tradi\u00e7\u00f5es espirituais se encontrassem.  Segue-se, na an\u00e1lise, deste percurso hist\u00f3rico, a terceira reviravolta, cujo farol \u00e9 seguramente a &#8220;Revolu\u00e7\u00e3o Francesa&#8221;. Com ela a moldura do Sacrum Imperium desaba por completo. E, no plano das ideias, &#8220;a sacra fus\u00e3o entre a Hist\u00f3ria e a exist\u00eancia estatal foi abolida. As na\u00e7\u00f5es, identific\u00e1veis pela constru\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o comum lingu\u00edstico que as definia, surgem agora como as \u00fanicas e pr\u00f3prias senhoras da sua hist\u00f3ria e adquirem assim um estatuto que anteriormente n\u00e3o lhes pertencia&#8221;.  E, num pen\u00faltimo ponto de an\u00e1lise, ainda quanto ao &#8220;ontem&#8221;, o Conferencista refere-se \u00e0 universaliza\u00e7\u00e3o da cultura Europeia e da sua crise, com a abertura em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00c0m\u00e9rica e, em boa parte, \u00e0 \u00c1sia. O pr\u00f3prio renascimento do Isl\u00e3o evidencia, segundo o autor, a necessidade de fundamentos espirituais f\u00e9rteis e resistentes, numa Europa seduzida pela t\u00e9cnica e pelo bem estar. As grandes tradi\u00e7\u00f5es religiosas da \u00c1sia levantam-se como energias espirituais contra uma Europa que contesta os seus fundamentos religiosos e \u00e9ticos. Vazia por dentro, a Europa, atingida por uma crise de circula\u00e7\u00e3o vital, precisa agora de um &#8220;transplante&#8221;.  E assim chegamos aos problemas do presente e a alguns diagn\u00f3sticos quanto ao futuro. O Cardeal refere as diferentes posi\u00e7\u00f5es de Oswald Spengler e de Arnold Toynbee. O primeiro, presumindo de uma esp\u00e9cie de evolu\u00e7\u00e3o segundo a lei natural, prenuncia a morte da cultura europeia. O segundo, tentando adivinhar a crise, que identifica com o secularismo, julga ser ent\u00e3o poss\u00edvel percorrer o caminho da cura. A pergunta entre os dois permanece aberta, opina Ratzinger. E o nosso Conferencista esquadrinha, mais uma vez a resposta, nas ra\u00edzes hist\u00f3ricas, aludindo ao processo do laicismo, nos pa\u00edses latinos, e a um caminho diverso em ambiente germ\u00e2nico, que parece sugerir como adequado o modelo segundo o qual &#8220;uma Igreja n\u00e3o misturada com o Estado garante melhor os princ\u00edpios morais do conjunto, de tal modo que a promo\u00e7\u00e3o dos ideais democr\u00e1ticos se afigura como uma obriga\u00e7\u00e3o moral adequada \u00e0 f\u00e9&#8221;.  Retomando o fio da Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea, o Cardeal Ratzinger analisa tamb\u00e9m o fen\u00f3meno do socialismo, bifurcado em posi\u00e7\u00f5es opostas: uma totalit\u00e1ria (o comunismo) e outra democr\u00e1tica (o socialismo democr\u00e1tico), este mais pr\u00f3ximo da Doutrina Social da Igreja. Se este \u00faltimo at\u00e9 contribuiu para a forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia social, o primeiro (o comunismo) consuma a invers\u00e3o dos valores que constru\u00edram a Europa. E conclui: &#8220;A verdadeira cat\u00e1strofe que deixam para tr\u00e1s n\u00e3o \u00e9 de natureza econ\u00f3mica: ela consiste na devasta\u00e7\u00e3o dos esp\u00edritos, na destrui\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia moral&#8221;.  A Europa hoje Surge finalmente a pergunta: &#8220;Onde estamos hoje&#8221;? Como devemos continuar? Segundo os pais da constru\u00e7\u00e3o europeia, o caminho \u00e9 de regresso. E o fundamento deve ser procurado na heran\u00e7a crist\u00e3 do continente, moldado pelo cristianismo. E, para situar no concreto, a quest\u00e3o, o Cardeal analisa a Carta dos Direitos Fundamentais da Europa, aprovada a 14 de Outubro do ano 2000. O texto reflecte a consci\u00eancia de que a comunidade econ\u00f3mica dos estados europeus necessita tamb\u00e9m de um fundamento comum. A referida Carta, na parte que mais nos interessa, diz: &#8220;na consci\u00eancia das suas tradi\u00e7\u00f5es religioso-espirituais e morais, a Uni\u00e3o (Europeia) funda-se nos universais e indivis\u00edveis valores da pessoa humana, da liberdade, da igualdade e da solidariedade&#8221;. Registemos que &#8220;liberdade aut\u00eantica e solidariedade efectiva&#8221; foi tamb\u00e9m o mote da carta do Papa aos participantes do VIII Simp\u00f3sio dos Bispos Europeus. N\u00e3o h\u00e1 &#8211; anota o Cardeal Ratzinger &#8211; qualquer refer\u00eancia a Deus na referida Carta. E, um pouco mais adiante, observa que, embora isso at\u00e9 se compreenda, &#8220;uma coisa n\u00e3o devia faltar: o respeito por aquilo que para o outro \u00e9 sagrado e sobretudo o respeito pelo sagrado, por Deus, respeito esse muito razo\u00e1vel mesmo para aquele que n\u00e3o est\u00e1 preparado para acreditar em Deus&#8221;.  Num esfor\u00e7o cr\u00edtico de avalia\u00e7\u00e3o da Carta, Ratzinger, resume: &#8220;A coloca\u00e7\u00e3o por escrito do valor e da dignidade da pessoa, da liberdade, da igualdade e da solidariedade, juntamente com os axiomas da democracia e do Estado de Direito, engloba uma vis\u00e3o da pessoa humana, uma op\u00e7\u00e3o moral e uma ideia de Direito que n\u00e3o se compreendem de modo nenhum por si mesmas, mas que s\u00e3o na realidade factores fundamentais da identidade da Europa que t\u00eam de ser respeitados tamb\u00e9m nas suas consequ\u00eancias concretas e certamente s\u00f3 podem ser protegidos quando se cria uma nova e adequada consci\u00eancia moral&#8221;. De seguida, o cardeal refere-se brevemente a dois pontos onde se manifesta a identidade europeia: o primeiro: o matrim\u00f3nio e a fam\u00edlia; o segundo, a liberdade religiosa, de consci\u00eancia e de pensamento. Nada de novo relativamente \u00e0 conhecida doutrina do Magist\u00e9rio da Igreja. E muito pouco sobre o futuro.Segue-se a conclus\u00e3o: &#8220;a Europa para sobreviver precisa incontestavelmente de uma nova recep\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e humilde de si mesma, sendo que a multiculturalidade n\u00e3o pode subsistir sem constantes comuns e sem a afirma\u00e7\u00e3o do sagrado n\u00e3o se pode aguentar&#8221;.  A Europa amanh\u00e3? Sobre o futuro, apenas um aceno l\u00facido e humilde quanto ao caminho: &#8220;os crentes crist\u00e3os deveriam compreender-se como uma minoria criadora e assim contribuir para que a Europa ganhe novamente o melhor da sua heran\u00e7a e sirva toda a humanidade&#8221;. Mas se a hist\u00f3ria \u00e9 profecia, como testemunha a Escritura, seria leg\u00edtimo e saud\u00e1vel sonhar um pouco mais. \u00c9 um exerc\u00edcio e um compromisso que caber\u00e1 \u00e0 Igreja e a cada um de n\u00f3s, na constru\u00e7\u00e3o de uma Europa do esp\u00edrito, edificada sobre s\u00f3lidos princ\u00edpios morais. Uma Europa capaz de oferecer a cada um, aut\u00eanticos espa\u00e7os de liberdade, de solidariedade, de justi\u00e7a e de Paz. Este sonho transcende toda e qualquer fronteira. E permite-nos um olhar de esperan\u00e7a, que \u00e9 a nossa \u00e2ncora, a primeira e \u00fanica sa\u00edda para o futuro&#8221;. (Atrium, n.29 (2001) 33-37).  Bento XVI na Voz Portucalense Em Mar\u00e7o de 2001, o Cardeal Joseph Ratzinger veio ao Porto, a convite do ent\u00e3o Director Adjunto da Faculdade de Teologia da Universidade Cat\u00f3lica, Ant\u00f3nio Marto (que entretanto fora nomeado Bispo Auxiliar de Braga). O evento, mais not\u00e1vel do que o que comunica\u00e7\u00e3o social se deu conta, foi objecto de v\u00e1rias refer\u00eancia neste seman\u00e1rio.  Assim, no primeiro n\u00famero do ano de 2001, escrevia em primeira p\u00e1gina, com foto: &#8220;Cardeal Ratzinger vem ao Porto&#8221;, explicando que a finalidade era participar na Semana de Teologia. Pouco depois (24 de janeiro de 2001) dava-se conta da nomea\u00e7\u00e3o de dois novos cardeais portugueses (D. Jos\u00e9 Policarpo e D. Jos\u00e9 Saraiva Martins) e em 31 de Janeiro afirmava-se &#8220;Novos cardeais mudam lista de &#8216;pap\u00e1veis'&#8221;, salientando-se que Jo\u00e3o XXII foi eleito aos 77 anos. Em 21 de Fevereiro publicava-se um texto de Geraldo Coelho Dias, com o t\u00edtulo &#8220;A Liturgia, Paix\u00e3o do Cardeal Ratzinger&#8221;, em que se evidenciava o seu texto Introdu\u00e7\u00e3o ao esp\u00edrito da Liturgia. J\u00e1 na edi\u00e7\u00e3o de 28 de Fevereiro se afirmava: &#8220;Cardeal Ratzinger falar\u00e1 em portugu\u00eas&#8221;, e referia-se o tema da sua confer\u00eancia: &#8220;Europa: seus fundamentos espirituais, ontem, hoje e amanh\u00e3&#8221;. No dia 7 de Mar\u00e7o reportava-se a realiza\u00e7\u00e3o da confer\u00eancia com o t\u00edtulo &#8220;Os fundamentos espirituais da Europa: sua ra\u00edzes crist\u00e3s&#8221;. Escrev\u00edamos ent\u00e3o, al\u00e9m de um registo do acontecimento e de um resumo da confer\u00eancia, um Perfil para o Cardeal, que julgamos manter toda a actualidade (ver p\u00e1g. 2). V\u00e1rios peri\u00f3dicos registaram a sua presen\u00e7a, agora explorada pelos media, em conversa amena com pessoas da Igreja, com a simplicidade de quem coloca uma boina na cabe\u00e7a e conversa a passar por meios dos jardins ou visita as caves de vinho do Porto. Poucos souberam ent\u00e3o ler estes sinais. Preferiram permanecer com a ideia feita e falsa do homem sucessor do Santo Of\u00edcio, r\u00edgido, distante e dogm\u00e1tico. O que as pessoas inventam!  <i>Amaro Gon\u00e7alo<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Integradas nas Jornadas de Teologia do Centro Regional do Porto, da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa, [entre 5 e 7 de Mar\u00e7o de 2001], a visita ao Porto e a confer\u00eancia do Cardeal Ratzinger, constitu\u00edam, em si mesmas, um interesse e um apelo de participa\u00e7\u00e3o acrescidos para o evento. 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