{"id":11563,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/um-olhar-para-a-africa-e-a-america-latina\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"um-olhar-para-a-africa-e-a-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/um-olhar-para-a-africa-e-a-america-latina\/","title":{"rendered":"Um olhar para a \u00c1frica e a Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"<p>A um Papa que \u2018veio de longe\u2019 (do Leste da Europa, do lado de l\u00e1 do Muro de Berlim e da cortina de ferro) diziam muitos que sucederia um Papa que viria do Sul (da \u00c1frica ou da Am\u00e9rica Latina). Veio um Papa da Alemanha ou, talvez melhor dito, de dentro dos muros do Vaticano. De facto, os des\u00edgnios do Esp\u00edrito Santo s\u00e3o mesmo insond\u00e1veis. Os que defendiam a elei\u00e7\u00e3o de um Papa de fora da Europa desejavam que o eurocentrismo que tem marcado o governo da Igreja cat\u00f3lica pudesse dar lugar a uma perspectiva mais universal. Se Jo\u00e3o Paulo II mudou a agenda dos grandes deste mundo, obrigando-os a olhar para a situa\u00e7\u00e3o que se vivia do outro lado do Muro, um Papa africano levaria o mundo a focar as suas preocupa\u00e7\u00f5es na realidade que se vive em \u00c1frica e o mesmo aconteceria em rela\u00e7\u00e3o ao continente latino-americano se fosse eleito um Papa da Am\u00e9rica Latina. Mas o Conclave elegeu Bento XVI e \u00e9 com ele a Pastor que a Igreja vai cumprir a sua Miss\u00e3o at\u00e9 quando Deus quiser.  Remadores contra a corrente Como Mission\u00e1rio, o meu cora\u00e7\u00e3o tem andado muito pelas periferias da Hist\u00f3ria, l\u00e1 onde parece que as pessoas contam pouco (s\u00e3o quase estat\u00edstica!), sendo atiradas para as margens, fazendo parte daqueles a quem o Prof. Adriano Moreira coloca no lote dos \u2018dispens\u00e1veis\u2019, porque parece que o mundo passa bem sem eles! Tive j\u00e1 a oportunidade de acompanhar compromissos de mission\u00e1rios em Angola, Cabo Verde, Mo\u00e7ambique, Guin\u00e9-Bissau, S. Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe, Congo-Brazzaville, Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, Zimbabwe&#8230; bem como nas montanhas ind\u00edgenas do M\u00e9xico (Huasteca Potosina e Chiapas) e nas regi\u00f5es mais problem\u00e1ticas do Brasil (Nordeste, periferias do Rio de Janeiro e de S. Paulo). Nestes momentos de encontro com pessoas e comunidades muito concretas, pude experimentar o palpitar da F\u00e9 de aut\u00eanticos remadores contra a corrente que, em muitos casos, esperam contra toda a esperan\u00e7a.  Um olhar para a \u00c1frica e Am\u00e9rica Latina A \u00c1frica e a Am\u00e9rica Latina, at\u00e9 agora tratadas como periferias do mundo ocidental e at\u00e9 da Igreja, t\u00eam muito a dar \u00e1 Igreja universal. T\u00eam comunidades muito jovens, est\u00e3o em franco crescimento num\u00e9rico, a maturidade das comunidades vai aumentando, h\u00e1 muitos voca\u00e7\u00f5es \u00e0 vida sacerdotal, religiosa e mission\u00e1ria, t\u00eam culturas marcadas pela alegria de viver e celebrar. Em suma, em \u00c1frica e na Am\u00e9rica Latina, viver \u00e9 uma festa e Deus nunca est\u00e1 ausente do quotidiano das pessoas. Em contrapartida, a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social \u00e9 muito inst\u00e1vel em boa parte dos pa\u00edses, h\u00e1 guerra e viol\u00eancia em muitas \u00e1reas destes continentes, os relat\u00f3rios da Amnistia Internacional e outras organiza\u00e7\u00f5es mostram muitas viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos, muitas pessoas vivem em extrema pobreza, a invas\u00e3o de novos movimentos religiosos est\u00e1 a crescer, o relacionamento entre as comunidades cat\u00f3licas e outras comunidades crist\u00e3s e religi\u00f5es nem sempre \u00e9 dialogante. S\u00e3o luzes e sombras que devem merecer uma preocupa\u00e7\u00e3o especial por parte de Bento XVI. Assim, o Papa devia continuar os esfor\u00e7os para a pacifica\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses marcados pela guerra e pela viol\u00eancia. Tem sido not\u00e1vel a interven\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica nestes contextos e, em muitas situa\u00e7\u00f5es, a Igreja \u00e9 a \u00fanica institui\u00e7\u00e3o que fica quando todos fazem as malas e fogem a correr em debandada. Muitos dos m\u00e1rtires conhecidos da Igreja nascem dos compromissos de fronteira em \u00c1frica e na Am\u00e9rica Latina. Na minha opini\u00e3o, o Papa devia continuar a investir, apoiando as Igrejas locais, na luta contra a corrup\u00e7\u00e3o instalada em muitos pa\u00edses. As popula\u00e7\u00f5es s\u00e3o espoliadas das suas riquezas e s\u00e3o condenadas a viver em condi\u00e7\u00f5es infra-humanas, enquanto alguns governantes e empres\u00e1rios se tornam senhores absolutos e incontest\u00e1veis do patrim\u00f3nio do povo. Parece-me igualmente importante, que seja apoiada a forma\u00e7\u00e3o dos futuros padres, religiosos(as) e agentes de pastoral. Regra geral, em pa\u00edses pobres, os Semin\u00e1rios e Casas de Forma\u00e7\u00e3o n\u00e3o t\u00eam meios humanos e t\u00e9cnicos suficientes para uma forma\u00e7\u00e3o humana integral. E a Igreja ressente-se. H\u00e1 que insistir muito no di\u00e1logo ecum\u00e9nico e inter-religioso. Para tal, \u00e9 necess\u00e1ria uma forma\u00e7\u00e3o s\u00f3lida e convic\u00e7\u00f5es profundas, aliadas a uma grande capacidade de di\u00e1logo. A pacifica\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es e a credibilidade da Igreja jogam-se muito aqui. Tamb\u00e9m no \u00e2mbito da solidariedade e da defesa dos direitos humanos, o ecumenismo e o di\u00e1logo inter-religioso t\u00eam uma palavra a dizer. A Igreja tem de estar do lado do mais pobres e ajud\u00e1-los a ter acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 sa\u00fade, a um m\u00ednimo de condi\u00e7\u00f5es de vida digna. Enquanto o mundo se dividir em duas partes (os que t\u00eam mais barriga que jantar e os que t\u00eam mais jantar do que barriga \u2013 como escreveu Amartya Sen, Nobel da Economia), h\u00e1 que investir na justi\u00e7a social, profundamente evang\u00e9lica.  A heran\u00e7a de Jo\u00e3o Paulo II Gostaria que Bento XVI desse continuidade a algumas apostas de Jo\u00e3o Paulo II, a quem presto homenagem: &#8211; Apostou no empenho pela justi\u00e7a, paz e direitos humanos. Disse que \u2018n\u00e3o h\u00e1 paz sem justi\u00e7a e n\u00e3o h\u00e1 justi\u00e7a sem perd\u00e3o\u2019. Para evitar o in\u00edcio da guerra no Iraque, lembrou que \u2018a guerra \u00e9 sempre uma derrota da humanidade\u2019. Em Angola, gritou no Huambo: \u2018Nunca mais a guerra, paz a Angola para sempre!\u2019. &#8211; Tentou unir as Religi\u00f5es pela Paz. O Encontro de Assis \u00e9, para o mundo inteiro, um s\u00edmbolo de comunh\u00e3o entre as grandes fam\u00edlias religiosas, unidas em ora\u00e7\u00e3o pela causa da Paz. A onda cresceu e multiplicaram-se as iniciativas que valorizaram o di\u00e1logo ecum\u00e9nico e inter-Religioso. &#8211; Jo\u00e3o Paulo II quis olhar os jovens como presente e futuro da Igreja. Disse que \u2018a Igreja s\u00f3 ser\u00e1 jovem quando os jovens forem Igreja\u2019 e foram milh\u00f5es os que participaram nas Jornadas Mundiais da Juventude que se realizaram j\u00e1 nos cinco continentes. &#8211; Ningu\u00e9m como Jo\u00e3o Paulo II soube lidar com os media ao servi\u00e7o do Evangelho. O modo como cobriram as suas viagem apost\u00f3licas e, no fim, a sua agonia e ex\u00e9quias, foi uma prova evidente de que a sua figura se tornou incontorn\u00e1vel para a agenda das televis\u00f5es, r\u00e1dios e imprensa. &#8211; No long\u00ednquo ano de 1978, o Cardeal Karol Wojtyla, confiou-se a Maria. Esta devo\u00e7\u00e3o f\u00ea-lo percorrer todos os grandes santu\u00e1rios marianos do mundo, alguns deles em terras de \u00c1frica e da Am\u00e9rica Latina.  Bento XVI tem uma pesada heran\u00e7a para gerir. Queira o Esp\u00edrito Santo que ele seja digno dela.  Tony Neves Mission\u00e1rio Espiritano <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A um Papa que \u2018veio de longe\u2019 (do Leste da Europa, do lado de l\u00e1 do Muro de Berlim e da cortina de ferro) diziam muitos que sucederia um Papa que viria do Sul (da \u00c1frica ou da Am\u00e9rica Latina). Veio um Papa da Alemanha ou, talvez melhor dito, de dentro dos muros do Vaticano. 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