{"id":11558,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/bento-xvi-e-as-dinamicas-de-evangelizacao-na-europa\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"bento-xvi-e-as-dinamicas-de-evangelizacao-na-europa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/bento-xvi-e-as-dinamicas-de-evangelizacao-na-europa\/","title":{"rendered":"Bento XVI e as din\u00e2micas de evangeliza\u00e7\u00e3o na Europa"},"content":{"rendered":"<p>A escolha do nome Bento pelo cardeal Ratzinger foi geralmente interpretada como um sinal de prioridade da Igreja em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Europa. S. Bento \u00e9 padroeiro da Europa e o velho continente, outrora maci\u00e7amente crist\u00e3o, tem hoje vazias as suas igrejas. Da\u00ed o imperativo de re-evangelizar a Europa.  O continente europeu destaca-se pelo contraste da situa\u00e7\u00e3o actual com o passado de \u201ccristandade\u201d e de influ\u00eancia fort\u00edssima da Igreja na vida das pessoas e das institui\u00e7\u00f5es. No entanto, observa-se um recuo do catolicismo mesmo em regi\u00f5es de grande predomin\u00e2ncia da Igreja Cat\u00f3lica at\u00e9 h\u00e1 pouco, como a Am\u00e9rica Latina. Nos pr\u00f3prios Estados Unidos \u2013 onde a religi\u00e3o conta muito mais do que na Europa \u2013 o n\u00famero de cat\u00f3licos n\u00e3o est\u00e1 a aumentar, pelo contr\u00e1rio. Poder\u00e1 ent\u00e3o perguntar-se, e muita gente o tem feito nos \u00faltimos dias, se a Igreja e o mundo moderno est\u00e3o em fatal rota de colis\u00e3o.  Contradi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria \u00c9 verdade que houve, sobretudo a partir do iluminismo, um embate severo entre a Igreja e o pensamento moderno. Em boa parte, tal aconteceu porque, ao longo da hist\u00f3ria, a Igreja tomou posi\u00e7\u00f5es que, no fundo, nada tinham de crist\u00e3s \u2013 como assumir poder temporal ou aliar-se a regimes mon\u00e1rquicos n\u00e3o constitucionais. Em resposta, muitos intelectuais europeus elegeram a Igreja como inimigo a abater. O Conc\u00edlio Vaticano II ultrapassou em larga medida esse desencontro. E Jo\u00e3o Paulo II n\u00e3o se cansou de pedir perd\u00e3o por responsabilidades da Igreja.  Mas o essencial n\u00e3o est\u00e1 a\u00ed. H\u00e1 necessariamente, e sempre houve, uma contradi\u00e7\u00e3o entre a mensagem crist\u00e3 e o \u201cmundo\u201d. Cristo morreu numa cruz porque os homens n\u00e3o o aceitaram. O viver para os outros, que Jesus revelou como sendo a verdadeira face de Deus, n\u00e3o \u00e9 programa que as pessoas adoptem com naturalidade. O individualismo ego\u00edsta e o hedonismo s\u00e3o incompat\u00edveis com uma viv\u00eancia crist\u00e3. Sempre o foram \u2013 apenas hoje h\u00e1 mais quem actue como materialista pr\u00e1tico.  A \u201cditadura do relativismo\u201d, que Bento XVI denuncia, \u00e9 muito vis\u00edvel na Europa pela quantidade de gente que actualmente abrange. Na sua raiz, por\u00e9m, \u00e9 antiqu\u00edssima. Basta lembrar os sofistas da Gr\u00e9cia, a quem n\u00e3o interessava a verdade. Ou David Hume, no s\u00e9c. XVIII, que n\u00e3o via qualquer fundamento para a moral. O relativismo \u00e9tico de contempor\u00e2neos como R. Rorty n\u00e3o \u00e9 novidade \u2013 excepto no ter-se tornado filosofia de vida, ainda que impl\u00edcita, de muitos europeus. Os valores ditos crist\u00e3os tinham maior vig\u00eancia social na Europa do passado. Mas tal acontecia sobretudo por press\u00e3o sociol\u00f3gica, n\u00e3o por uma aut\u00eantica convers\u00e3o dos cora\u00e7\u00f5es. Hoje muito mais minorit\u00e1ria, a f\u00e9 tem condi\u00e7\u00f5es para ser mais aut\u00eantica: ningu\u00e9m \u00e9 pressionado a ser crist\u00e3o na Europa. \u00c9 uma escolha livre e pessoal. E isso \u00e9 bom.   F\u00e9 e \u201cmarketing\u201d Se o espalhar a f\u00e9 \u2013 o an\u00fancio da Boa Nova \u2013 fosse uma quest\u00e3o de \u201cmarketing\u201d, a escolha de Ratzinger para suceder a Jo\u00e3o Paulo II seria certamente errada. O novo Papa tem colada a si uma imagem, ou um \u201cclich\u00e9\u201d, de conservadorismo e intoler\u00e2ncia teol\u00f3gica que n\u00e3o ajuda na atrac\u00e7\u00e3o de eventuais crentes. A verdade, por\u00e9m, \u00e9 que \u2013 nesta perspectiva de \u201cmarketing\u201d \u2013 as mudan\u00e7as que muitos apontam como necess\u00e1rias para a Igreja (casamento de padres, ordena\u00e7\u00e3o de mulheres, moral sexual e familiar mais flex\u00edvel, etc.) n\u00e3o parecem ter obtido grande \u00eaxito na conquista de fi\u00e9is pelas confiss\u00f5es protestantes que as adoptaram. N\u00e3o digo que n\u00e3o seja desej\u00e1vel a\u00ed evolu\u00e7\u00e3o \u2013 aponto apenas um facto.  Mas n\u00e3o \u00e9 de \u201cmarketing\u201d que se trata. O problema \u00e9 de comunica\u00e7\u00e3o \u2013 comunicar a f\u00e9. O que envolve uma dimens\u00e3o intelectual e doutrin\u00e1ria, exigindo um di\u00e1logo com os descrentes. Descrentes em tudo, depois dos horrores da primeira metade do s\u00e9c. XX europeu e das desilus\u00f5es do progresso. Na Europa h\u00e1 muita gente que se apaixonou por ideologias aparentemente libertadoras e que, perante o fracasso dessas ideologias, vive num grande vazio de refer\u00eancias e valores. Para esses, a Igreja j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o inimigo, mas algo indiferente, irrelevante. H\u00e1 que torn\u00e1-la uma fonte de sentido para a vida. Bento XVI conhece bem tal situa\u00e7\u00e3o, que v\u00e1rias vezes analisou, e mostra ter capacidade e gosto para um confronto construtivo com agn\u00f3sticos e ateus. Jo\u00e3o Paulo II conseguiu progressos importantes no di\u00e1logo inter-religioso e no ecume-nismo (recorde-se o acordo de 1999 que p\u00f4s fim a quatro s\u00e9culos de querelas com os luteranos em torno da \u201cjustifica\u00e7\u00e3o pela f\u00e9). Atrevo-me a pensar que a novidade de Bento XVI ser\u00e1 o di\u00e1logo com os n\u00e3o religiosos. E a maioria dos europeus est\u00e1 hoje nessa categoria. No entanto, o dom da f\u00e9 \u00e9 muito mais de que uma moral ou uma doutrina. \u00c9 ades\u00e3o a uma pessoa, Cristo. E porque o Deus que Cristo revela \u00e9 amor, doa\u00e7\u00e3o de si, viver em fun\u00e7\u00e3o dos outros, a convers\u00e3o dos que est\u00e3o longe da Igreja depende, antes de mais, da nossa pr\u00f3pria convers\u00e3o. S\u00f3 a santidade da Igreja \u2013 Papa, bispos, padres e leigos \u2013 levar\u00e1 a que a luz da f\u00e9 ilumine um maior n\u00famero dos nossos irm\u00e3os europeus.  Francisco Sarsfield Cabral  (Director de Informa\u00e7\u00e3o da R\u00e1dio Renascen\u00e7a) <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A escolha do nome Bento pelo cardeal Ratzinger foi geralmente interpretada como um sinal de prioridade da Igreja em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Europa. S. Bento \u00e9 padroeiro da Europa e o velho continente, outrora maci\u00e7amente crist\u00e3o, tem hoje vazias as suas igrejas. Da\u00ed o imperativo de re-evangelizar a Europa. 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