{"id":11540,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/escravo-de-todos\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"escravo-de-todos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/escravo-de-todos\/","title":{"rendered":"\u00abEscravo de Todos\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Mensagem e lema escolhidos por D. Anacleto de Oliveira, bispo auxiliar de Lisboa, para o minist\u00e9rio episcopal  <!--more--> l. Receio que estas palavras, que escolhi para lema do meu minist\u00e9rio episcopal, possam ser, para alguns, estranhas, sen\u00e3o mesmo chocantes. N\u00e3o &#8216; um escravo precisamente aquele que est\u00e1 privado dos bens mais fundamentais para a dignidade da pessoa humana, como s\u00e3o a liberdade e, com ela, o direito de propriedade? E para mais com a agravante de ser ilimitado 0 n\u00famero daqueles aos quais se pertence. \u00c9 por isso imprescind\u00edvel que o lema seja visto no seu contexto original, o de Mc 10, 35-45: Aproximaram-se dele Tiago e Jo\u00e3o, os filhos de Zebedeu, e disseram-lhe: \u00abMestre, queremos que nos fa\u00e7as o que te pedimos.\u00bb Ele disse-lhes: \u00abQue quereis que vos fa\u00e7a?\u00bb Eles disseram: \u00abConcede-nos que nos sentemos um \u00e0 tua direita e outro \u00e0 tua esquerda na tua gl\u00f3ria.\u00bb Mas Jesus disse-lhes: \u00abN\u00e3o sabeis o que pedis. Podeis beber o c\u00e1lice que Eu vou beber e ser baptizados com o baptismo com que Eu sou baptizado?\u00bb Eles disseram: \u00abPodemos.\u00bb Jesus disse-lhes: \u00abBebereis o c\u00e1lice que eu bebo e sereis baptizados com o baptismo com que Eu sou baptizado; mas sentar-se \u00e0 minha direita ou \u00e0 minha esquerda n\u00e3o pertence a mim conced\u00ea-lo; \u00e9 para aqueles para os quais est\u00e1 preparado. \u00bb Tendo ouvido isto, os outros dez come\u00e7aram a indignar-se contra Tiago e Jo\u00e3o. Depois de os chamar, diz-lhes Jesus: \u00abSabeis como aqueles que se julgam chefes das na\u00e7\u00f5es dominam sobre elas e como os grandes t\u00eam poder sobre elas. Mas entre v\u00f3s n\u00e3o \u00e9 assim: quem quiser tornar-se grande entre v\u00f3s, ser\u00e1 vosso servo, e quem entre v\u00f3s quiser ser o primeiro, ser\u00e1 escravo de todos. Porque tamb\u00e9m o Filho do Homem n\u00e3o veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos.\u00bb 2. Servo \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o do grego &#8220;di\u00e1konos&#8221;, de que prov\u00e9m di\u00e1cono, um termo por\u00e9m, na origem, com um uso muito mais alargado do que tem hoje entre n\u00f3s. Genericamente, di\u00e1cono era aquele que fazia de mediador entre duas ou mais pessoas: a que o chama e envia e aquela(s) a quem \u00e9 enviado. Uma miss\u00e3o s\u00f3 realiz\u00e1vel mediante uma total sujei\u00e7\u00e3o: em primeiro lugar e acima de tudo \u00e0 pessoa que envia, de tal modo que ela se torna presente e actuante no seu enviado; sujei\u00e7\u00e3o, por isso mesmo, tamb\u00e9m \u00e0quilo que tem de transmitir, para que chegue sem perdas nem deturpa\u00e7\u00f5es ao seu destino; sujei\u00e7\u00e3o finalmente aos destinat\u00e1rios da diaconia, sobretudo se o que recebem \u00e9 para seu bem. Com escravo (&#8220;doulos&#8221; em grego) apenas se explicita e acentua a total depend\u00eancia j\u00e1 inerente \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de di\u00e1cono. Para Jesus, a condi\u00e7\u00e3o identificativa da comunidade dos seus disc\u00edpulos. Deles exige uma total sujei\u00e7\u00e3o, que \u00e9 tanto maior quanto mais elevada for a autoridade que exercem; uma sujei\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas aos restantes disc\u00edpulos, mas sem limites de destinat\u00e1rios. Porqu\u00ea? 3. Como mostra o final da passagem b\u00edblica, o pr\u00f3prio Jesus define a sua condi\u00e7\u00e3o e miss\u00e3o messi\u00e2nica em termos de diaconia. E tamb\u00e9m ela na tr\u00edplice rela\u00e7\u00e3o de total depend\u00eancia, no seu caso associada j\u00e1 ao t\u00edtulo de Filho do Homem. Na origem e acep\u00e7\u00e3o mais comum, Filho do Homem era um simples ser humano. Mas, a partir da vis\u00e3o de Dan 7,13, passou tamb\u00e9m a significar na tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica aquele que vem com as nuvens do C\u00e9u, isto \u00e9, de Deus (Mc 14,62). Algu\u00e9m, portanto, de origem e condi\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo divina e humana: Aquele em quem Deus mais se une aos homens, para, mais do que ningu\u00e9m, unir os homens a Deus. Uma miss\u00e3o que Jesus realizou enquanto n\u00e3o veio para ser servido, mas para servir. A Deus e aos homens. A Deus a quem, qual Filho muito amado, tratava por Abba, um termo expressivo da m\u00e1xima intimidade e depend\u00eancia, no fundo a mesma do di\u00e1cono. Aos homens, na medida em que, sendo de condi\u00e7\u00e3o divina, se esvaziou a si mesmo, tomando a condi\u00e7\u00e3o de escravo (Fil 2,6-7); a condi\u00e7\u00e3o em que foi provado em tudo como n\u00f3s, excepto no pecado (Heb 4,15), para dele nos libertar: de um modo decisivo pela morte na cruz. Foi ent\u00e3o que Ele, em completa obedi\u00eancia ao Pai, lhe entregou o seu Esp\u00edrito, a fonte da sua vida (Lc 23,46; Jo 19,30). N\u00e3o por\u00e9m, sem antes lhe pedir perd\u00e3o para os que o matavam (Lc 23,34). E neles para toda a humanidade. Foi em resgate por todos que Ele deu a vida. Porque a deu como justo pelos injustos (1 Ped 3,18). Transformando assim a maior injusti\u00e7a no acto da maior justi\u00e7a, da m\u00e1xima uni\u00e3o a Deus e aos homens. Para os conduzir para Deus, num amor sem medidas, aquele de que s\u00f3 Deus \u00e9 capaz. E por isso Deus o exaltou e lhe deu o nome que est\u00e1 acima de todo 0 nome: o de Senhor (Fil 2,9.11). Isto \u00e9, foi na morte que Jesus tamb\u00e9m mais encarnou o objecto da sua miss\u00e3o: o Evangelho do Reino. Ao vencer a morte e tudo o que a ela conduz, tornou-se definitivamente parte integrante do Reino de Deus. E, como tal, conte\u00fado do Evangelho. Mas sem deixar a condi\u00e7\u00e3o de servo e escravo. Mostrando as m\u00e3os e o lado de Crucificado \u00e9 que Ele, o Ressuscitado, apareceu aos seus, lhes transmitiu a paz, a que nasce do perd\u00e3o, e os constituiu enviados seus, mensageiros do perd\u00e3o para sempre obtido na cruz (Jo 20,19-23). 4. Foi dele que assim nasceu e assim vive a sua Igreja: pela f\u00e9 de cada um. A f\u00e9 que \u00e9 obedi\u00eancia, isto \u00e9, entrega livre e total a quem se entregou todo por n\u00f3s; a f\u00e9, pela qual Ele toma posse de mim e me transforma, de tal modo que j\u00e1 n\u00e3o sou que vivo, mas \u00e9 Cristo que vive em mim (Gal 2,20); a f\u00e9 que, nascendo do amor, actua pelo amor (Gal 5,6), o seu amor em mim e de mim aos outros, a todos os outros. Neste contexto \u00e9 perfeitamente compreens\u00edvel o que Jesus exige dos seus: serem di\u00e1conos uns dos outros e escravos de todos. Ou Paulo com a exorta\u00e7\u00e3o: Fazei-vos escravos uns dos outros (Gal 5,13). Escravos por\u00e9m, sem qualquer perda de liberdade e de propriedade. Pelo contr\u00e1rio: Foi para a liberdade que Cristo nos libertou (Gal 5,1), a liberdade dos que amam \u00e0 dimens\u00e3o do seu amor. E a esses podem aplicar-se estas outras palavras de Paulo: Tudo \u00e9 vosso: Paulo, Apolo, Cefas, o mundo, a vida, a morte, o presente, ou o futuro. Tudo \u00e9 vosso. Mas v\u00f3s sois de Cristo e Cristo \u00e9 de Deus (1 Cor 3,21-23). 5. \u00c9 pois nesta condi\u00e7\u00e3o que a Igreja adquire a sua identidade e realiza a sua miss\u00e3o. E isto em todas as \u00e1reas da sua vida, como ali\u00e1s nos v\u00e3o mostrar as leituras b\u00edblicas da presente celebra\u00e7\u00e3o:  A de Act 6,1-7 fala-nos da evangeliza\u00e7\u00e3o: da Palavra que crescia em latitude. Um sucesso que se devia tanto \u00e0 prega\u00e7\u00e3o dos Ap\u00f3stolos como \u00e0 caridade dos que tinham sido investidos na tarefa de socorrer as vi\u00favas. N\u00e3o \u00e9 por acaso que, no original grego, \u00e0s duas actividades se chama diaconia. \u00c9 que ambas resultam da mesma entrega total ao Evangelho: uma entrega provocada pelo pr\u00f3prio conte\u00fado do Evangelho, isto \u00e9, a oferta da vida feita por Cristo para a salva\u00e7\u00e3o de todos; e uma entrega, por isso, em que o Evangelho \u00e9 encarnado nas vidas daqueles que a ele se entregam: na total dedica\u00e7\u00e3o ao seu an\u00fancio por parte dos Ap\u00f3stolos e na generosa dedica\u00e7\u00e3o aos mais desfavorecidos da parte dos que servem \u00e0s mesas. Da\u00ed e for\u00e7a convincente e salv\u00edfica da evangeliza\u00e7\u00e3o, ainda hoje. Na 1 Ped 2,4-9 s\u00e3o real\u00e7ados a origem e os efeitos da uni\u00e3o entre os crist\u00e3os, as pedras vivas do templo do Senhor. \u00c9 espiritual o edif\u00edcio que formam, porque animado pelo Esp\u00edrito que deles se apodera e leva cada um a entregar-se ao servi\u00e7o dos outros, a dar de gra\u00e7a o que de gra\u00e7a recebe. Da\u00ed a forte coes\u00e3o de diferen\u00e7as entre eles. Uma unidade que exige sacrif\u00edcios. Uns no interior da Igreja, outros provenientes de fora: entre os crist\u00e3os, a ren\u00fancia ao que partilham; de fora, a marginaliza\u00e7\u00e3o da parte de n\u00e3o crentes, devida ao abandono pelos crist\u00e3os de pr\u00e1ticas contr\u00e1rias \u00e0 sua f\u00e9. Mas s\u00e3o exactamente esses os sacrif\u00edcios que agradam a Deus, porque feitos em total ades\u00e3o de f\u00e9 a Cristo. A f\u00e9 pela qual Ele passa a actuar naqueles que a Ele se confiam &#8211; como pedra tornada viva e vivificante pela total entrega a Deus e aos homens, incluindo aqueles que o rejeitam. Por isso \u00e9 que os sofrimentos a que tantas vezes somos sujeitos por fidelidade \u00e0s convic\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas crist\u00e3s acabam por nos fortalecer na f\u00e9, na esperan\u00e7a e no amor, e nos levam a participar mais vivamente do sacerd\u00f3cio de Cristo: como testemunhas da sua salva\u00e7\u00e3o, que se revela ao vivo em n\u00f3s&#8230; se a Ele nos mantivermos unidos. \u00c9 dessa uni\u00e3o que Ele nos fala em Jo 14,1-12. Mas agora mais na perspectiva da celebra\u00e7\u00e3o da f\u00e9. As suas palavras s\u00e3o ditas na \u00faltima Ceia, que tem a sua mem\u00f3ria na Eucaristia. \u00c9 nela que, ainda neste mundo, se entra com mais intensidade na morada que o Ressuscitado nos preparou com o seu regresso \u00e0 casa do Pai. Um regresso que Ele realizou como escravo. A lavagem dos p\u00e9s era obrigat\u00f3ria s\u00f3 para escravos e a crucifix\u00e3o era uma pena reservada a escravos ou pessoas degradadas a essa condi\u00e7\u00e3o. Um acto de escravo sem d\u00favida, mas de modo algum escravizante. Pelo contr\u00e1rio: foi o acto mais livre e libertador, porque express\u00e3o de amor, o que atinge o grau m\u00e1ximo no dom da vida por aqueles que se ama. Foi assim que Ele se tornou presente entre n\u00f3s como o caminho, a verdade e a vida: o caminho que nos conduz \u00e0 mesma entrega da vida; a verdade do Pai que no Filho nos liberta e capacita para o mesmo amor; a vida em que, nesse amor, triunfamos definitivamente sobre o pecado e a morte. Raz\u00f5es de subejo para a Ele nos confiarmos pela f\u00e9: para que, em n\u00f3s, continue a fazer as obras do Pai &#8211; no amor que nos une, nomeadamente nesta Eucaristia. 6. A tentativa dos filhos de Zebedeu de subirem ao topo da gl\u00f3ria e do poder, a todo o pre\u00e7o, at\u00e9 da pr\u00f3pria vida, n\u00e3o foi a \u00faltima na hist\u00f3ria do cristianismo. Com os custos a que o Evangelho j\u00e1 alude: a destrui\u00e7\u00e3o da unidade entre os crist\u00e3os; a adop\u00e7\u00e3o de crit\u00e9rios e h\u00e1bitos mundanos e a consequente perda da identidade, credibilidade e poder interventivo da igreja; e sobretudo a instrumentaliza\u00e7\u00e3o e at\u00e9 manipula\u00e7\u00e3o de Deus e do sagrado para proveito pr\u00f3prio, o pecado da idolatria. Contra tais tenta\u00e7\u00f5es e pecados, n\u00e3o encontro meio algum que n\u00e3o passe pela ora\u00e7\u00e3o. A aut\u00eantica: a que, nascendo do reconhecimento- dos nossos limites e fragilidades de criaturas, consiste na entrega de f\u00e9 ao Deus detentor da vida e Senhor da hist\u00f3ria, o Deus que, para isso, em Jesus Cristo desceu ao nosso n\u00edvel, encarnou as nossas fraquezas, para fazer delas o dom da vida&#8230; e nessas condi\u00e7\u00f5es nos conquistar para a ora\u00e7\u00e3o, nos ensinar a rezar. Essa a ora\u00e7\u00e3o a que todos somos convidados nesta celebra\u00e7\u00e3o. Aquela em que na prostra\u00e7\u00e3o assumo a atitude do escravo que reconhece a dist\u00e2ncia que o separa do seu Senhor e a Ele se confia para acolher a sua gra\u00e7a e se deixar transformar pelo seu poder. A ora\u00e7\u00e3o que, para isso, necessita do apoio e intercess\u00e3o de tantos que, para serem santos, se fizeram escravos: como Pedro e Paulo, escravos de Cristo, ou Maria que, ao oferecer-se como eservava do Senhor, se tornou a M\u00e3e do Filho do Alt\u00edssimo. Que assim o Esp\u00edrito do Senhor, pela ora\u00e7\u00e3o ordenante e a imposi\u00e7\u00e3o das m\u00e3os, penetre em mim&#8230; para fazer de mim escravo de todos. D. Anacleto de Oliveira <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mensagem e lema escolhidos por D. 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