{"id":11495,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/transpor-a-mensagem-biblica-para-o-plano-pastoral\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"transpor-a-mensagem-biblica-para-o-plano-pastoral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/transpor-a-mensagem-biblica-para-o-plano-pastoral\/","title":{"rendered":"Transpor a mensagem b\u00edblica para o plano pastoral"},"content":{"rendered":"<p>Entrevista a D. Anacleto Oliveira <!--more--> Anacleto Cordeiro Gon\u00e7alves Oliveira, 62 anos, sacerdote da Diocese de Leiria-F\u00e1tima (natural da freguesia de Cortes, nos arredores de Leiria), professor de Sagrada Escritura em v\u00e1rias escolas, incluindo o Semin\u00e1rio Diocesano, membro da administra\u00e7\u00e3o do Santu\u00e1rio de F\u00e1tima, foi nomeado Bispo Auxiliar de Lisboa em 4 de Fevereiro de 2005, juntamente com D. Carlos Azevedo. A sua ordena\u00e7\u00e3o est\u00e1 marcada para o domingo, dia 24 de Abril, \u00e0s 16h30 no Santu\u00e1rio de F\u00e1tima, sendo ordenante o Bispo da Diocese, D. Serafim de Sousa Ferreira e Silva, juntamente com D. Albino Cleto, de Leiria e D. Manuel Pelino, de Santar\u00e9m. Aqui apresentamos algumas das suas reflex\u00f5es sobre temas da Igreja e do mundo actual.  Servir e Igreja 1. Foi recentemente eleito Bispo Auxiliar de Lisboa, com o t\u00edtulo Aquae Flaviae. Claro que j\u00e1 sabia da nomea\u00e7\u00e3o. Mas a pergunta imp\u00f5e-se: como recebeu a not\u00edcia, ou melhor, como se situa perante este &#8220;acontecimento&#8221;, que sinais l\u00ea nele?  A quest\u00e3o da nomea\u00e7\u00e3o s\u00f3 me foi posta quatro dias antes da sua publica\u00e7\u00e3o. At\u00e9 ent\u00e3o de nada sabia. E as pessoas que sabiam tiveram o cuidado, como era seu dever, de guardar, pelo menos em rela\u00e7\u00e3o a mim, o &#8220;segredo pontif\u00edcio&#8221; exigido nestas circunst\u00e2ncias. Fui portanto apanhado de surpresa. E, claro, a primeira reac\u00e7\u00e3o foi de perplexidade. Acabei por aceitar, levado pelo \u00fanico objectivo com que, desde h\u00e1 muitos anos, tenho procurado orientar a minha vida: servir a Igreja. De resto, o medo que ainda sinto, consciente das minhas limita\u00e7\u00f5es, s\u00f3 me tem ajudado a procurar no Senhor a coragem e a luz que apenas Ele me pode dar para a miss\u00e3o a que me chama. Possa eu manter-me sempre nesse caminho.   2. O seu t\u00edtulo, ao contr\u00e1rio de outros, \u00e9 de uma antiga diocese portuguesa. Que sentido tem esse dado?   N\u00e3o sei. N\u00e3o fui eu que escolhi o t\u00edtulo. De qualquer modo, o meu caso est\u00e1 longe de ser o \u00fanico. Basta ver, por exemplo, que tr\u00eas dos quatro bispos auxiliares de Lisboa s\u00e3o titulares de antigas dioceses portuguesas. Mas sem qualquer implica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica, a n\u00e3o ser a n\u00edvel sentimental. Talvez, quem sabe, v\u00e1 um dia at\u00e9 Chaves, para usufruir dos poderes terap\u00eauticos das suas reconhecidas \u00e1guas termais.   3. A sua forma\u00e7\u00e3o especializada situa-se na \u00e1rea da Sagrada Escritura: como entende que esse facto pode ser produtivo para a miss\u00e3o episcopal?   Espero que me seja muito \u00fatil, j\u00e1 que \u00e9 da Sagrada Escritura, como Palavra de Deus, que vive a Igreja. E n\u00e3o apenas no campo do ensino; tamb\u00e9m a n\u00edvel celebrativo e de governo, isto \u00e9, em todas as actividades de um bispo, \u00e9 fundamental o contributo da Palavra inspirada. Tenho por isso a inten\u00e7\u00e3o de continuar a dedicar algum do meu tempo ao estudo b\u00edblico. Talvez com a diferen\u00e7a de me ter de concentrar numa componente da exegese que habitualmente \u00e9 deixada mais ao cuidado da teologia sistem\u00e1tica e pr\u00e1tica: a de transpor a mensagem b\u00edblica do seu long\u00ednquo contexto original para os tempos de hoje. O que ali\u00e1s j\u00e1 tenho procurado fazer sobretudo em ac\u00e7\u00f5es de car\u00e1cter mais especificamente pastoral.  Uma diocese de grande dimens\u00e3o  4. Vai exercer a miss\u00e3o de Auxiliar de Lisboa, Bispado certamente, mas tamb\u00e9m Patriarcado. Que expectativas lhe surgem perante este dado?   At\u00e9 ao momento nenhumas. Tanto quanto eu sei, Lisboa conta com quatro bispos auxiliares, n\u00e3o por ser Patriarcado, mas acima de tudo por causa das suas condi\u00e7\u00f5es e dimens\u00f5es territoriais e populacionais.   5. Que sectores eclesiais se lhe afiguram mais prementes e mais consent\u00e2neos com as suas pr\u00f3prias caracter\u00edsticas pessoais?   Primeiro, estou ainda muito longe de conhecer a Igreja de Lisboa, para poder dizer quais os seus sectores mais prementes. Depois, serei um simples Bispo Auxiliar do Senhor Patriarca. Isto \u00e9, para j\u00e1 terei apenas que me inserir naquilo que j\u00e1 est\u00e1 certamente programado e em vias de realiza\u00e7\u00e3o. E se \u00e9 verdade que me sinto mais \u00e0 vontade em sectores que t\u00eam a ver com o ensino e a celebra\u00e7\u00e3o da f\u00e9, terei sempre de estar dispon\u00edvel e me preparar para tudo aquilo em que for necess\u00e1rio o meu contributo. Tenho pois muito a aprender, especialmente com os colegas no espiscopado e os sacerdotes, di\u00e1conos e leigos com quem irei trabalhar mais de perto. Uma disponibilidade que de resto desejo manter, por me parecer essencial em toda a pastoral. T\u00e3o simples como na medicina: n\u00e3o se pode passar uma receita ou ordenar um tratamento, sem antes se diagnosticar a doen\u00e7a.   6. Vai ser ordenado em F\u00e1tima. \u00c9 um facto, mas tamb\u00e9m pode incluir alguns sentidos. Como interpreta esse &#8220;sinal do tempo&#8221;?   Escolhi F\u00e1tima em primeiro lugar por motivos log\u00edsticos: dificilmente encontraria um espa\u00e7o religioso t\u00e3o prop\u00edcio para uma celebra\u00e7\u00e3o em que todos tenham lugar e possam participar c\u00f3moda e activamente como o recinto da Cova da Iria. Se o tempo n\u00e3o permitir, teremos a Bas\u00edlica que continua a ser uma das igrejas maiores da diocese. A isto junta-se o facto de F\u00e1tima ser um dos lugares onde, desde h\u00e1 v\u00e1rios anos, tenho exercido mais actividades, nomeadamente de car\u00e1cter pastoral. Finalmente, desde crian\u00e7a sinto-me preso a F\u00e1tima, como espa\u00e7o particularmente adequado para o encontro com Deus: foi mesmo l\u00e1, nas peregrina\u00e7\u00f5es a que a minha m\u00e3e me levava, que fui sentindo em mim o chamamento para o sacerd\u00f3cio. Outras raz\u00f5es n\u00e3o tenho.   Uma ac\u00e7\u00e3o para a Igreja em Portugal 7. Que problemas mais prementes e que perspectivas para a Igreja em Portugal?   Na minha maneira de ver, a Igreja em Portugal est\u00e1 a passar por uma fase bastante complexa no j\u00e1 secular processo de seculariza\u00e7\u00e3o que se tem feito sentir sobretudo nos pa\u00edses da Europa. Por um lado \u00e9 not\u00f3ria a sua presen\u00e7a na sociedade ao n\u00edvel de institui\u00e7\u00f5es e estruturas sociais e culturais. Nesse campo, pode dizer-se que vivemos num pa\u00eds crist\u00e3o, nalguns lugares mesmo muito pr\u00f3ximo do regime de cristandade. Por outro lado, e agora a n\u00edvel pessoal, \u00e9 ineg\u00e1vel o decr\u00e9scimo acentuado da pr\u00e1tica religiosa: n\u00e3o apenas na observ\u00e2ncia do preceito dominical, que continuo a considerar fundamental na vida de um crist\u00e3o, mas tamb\u00e9m e consequentemente nas ideias e h\u00e1bitos de vida. Nesse campo, ningu\u00e9m diria que vivemos num pa\u00eds com mais de 80% de cat\u00f3licos. Que fazer? Penso que, entre outras coisas, se tem de apostar muito na qualidade: na forma\u00e7\u00e3o, a todos os n\u00edveis, de crist\u00e3os que sejam verdadeiros evangelizadores, sobretudo pela pr\u00e1tica de vida. O que ali\u00e1s, me parece, j\u00e1 est\u00e1 a ser feito, e com resultados positivos.   Jo\u00e3o Paulo II: contributo para a unidade e a paz  8. Jo\u00e3o Paulo II est\u00e1 muito ligado ao Santu\u00e1rio de F\u00e1tima, e neste momento encontra-se numa fase dif\u00edcil da sua vida. Como v\u00ea a ac\u00e7\u00e3o do Papa ao longo dos 26 anos de pontificado e que novos horizontes se podem abrir \u00e0 Igreja na sequ\u00eancia do seu minist\u00e9rio?   S\u00f3 no futuro nos poderemos aperceber da verdadeira dimens\u00e3o do pontificado de Jo\u00e3o Paulo II. Como de resto sempre aconteceu com as grandes figuras da hist\u00f3ria: personalidades que, pelo que fizeram e deixaram, continuaram a agir muito para al\u00e9m do tempo da sua exist\u00eancia terrena. Para n\u00f3s, o caso mais extremo \u00e9 o de Jesus Cristo. Isto, \u00e9 claro, n\u00e3o nos impede de pelo menos tentarmos avaliar a ac\u00e7\u00e3o deste Papa. Muitos dos seus efeitos est\u00e3o \u00e0 vista: ao n\u00edvel interno, por exemplo, o que tem feito, at\u00e9 atrav\u00e9s da sua doen\u00e7a, pela conserva\u00e7\u00e3o da identidade e unidade da Igreja; no campo externo, o seu corajoso e persistente contributo para a paz e o di\u00e1logo entre confiss\u00f5es crist\u00e3s, religi\u00f5es e culturas. S\u00e3o, a meu ver, caminhos irrevers\u00edveis para a Igreja.   9. Como interpreta a viragem pol\u00edtica que se verificou nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es em Portugal? Que novas linhas de ac\u00e7\u00e3o aconselharia aos governantes?   A viragem, pelas raz\u00f5es de todos conhecidas, era de esperar. \u00c9 ali\u00e1s normal em qualquer democracia. Como n\u00e3o sou pol\u00edtico, em vez de linhas de ac\u00e7\u00e3o, prefiro falar de princ\u00edpios pelos quais se deve orientar toda a governa\u00e7\u00e3o. Para j\u00e1 ocorrem-me dois: verdade e compet\u00eancia. Que haja pelo menos um esfor\u00e7o nesse sentido.   10. Uma mensagem para a Igreja em Portugal&#8230; Que, tanto no seu conjunto como a n\u00edvel de cada um dos seus membros, tenha consci\u00eancia da sua miss\u00e3o sacerdotal e a procure realizar. Isto \u00e9, que viva, n\u00e3o de si nem para si, mas de Deus e para os outros. O que exige o esp\u00edrito e a pr\u00e1tica de um servi\u00e7o generoso e total&#8230; a exemplo e com a gra\u00e7a de Jesus Cristo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista a D. 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