{"id":111590,"date":"2018-07-27T16:08:57","date_gmt":"2018-07-27T15:08:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=111590"},"modified":"2018-07-27T16:08:57","modified_gmt":"2018-07-27T15:08:57","slug":"uma-biblioteca-e-um-lugar-onde-se-guarda-a-memoria-e-onde-pulsa-o-desejo-de-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/uma-biblioteca-e-um-lugar-onde-se-guarda-a-memoria-e-onde-pulsa-o-desejo-de-futuro\/","title":{"rendered":"\u201cUma biblioteca \u00e9 um lugar onde se guarda a mem\u00f3ria e onde pulsa o desejo de futuro\u201d"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p><em>D. Jos\u00e9 Tolentino fala sobre Arquivo Secreto do Vaticano e a Biblioteca Apost\u00f3lica, a relev\u00e2ncia que pode ter no Pontificado do Papa Francisco e das \u00abconverg\u00eancias\u00bb que pretende promover num cargo onde vai come\u00e7ar por aprender e depois encontrar \u00abum fio condutor\u00bb que fa\u00e7a justi\u00e7a \u00e0 sua \u00abriqueza extraordin\u00e1ria\u00bb<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Paulo Rocha <\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/D.JoseTolentinoMendon\u00e7a.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-111458 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/D.JoseTolentinoMendon\u00e7a-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/D.JoseTolentinoMendon\u00e7a-300x200.jpg 300w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/D.JoseTolentinoMendon\u00e7a-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/D.JoseTolentinoMendon\u00e7a-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/D.JoseTolentinoMendon\u00e7a-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/D.JoseTolentinoMendon\u00e7a.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Ag\u00eancia Ecclesia (AE) \u2013 A partir do in\u00edcio de setembro D. Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a vai guardar e coordenar todo o dinamismo em torno da Biblioteca do Vaticano, a mais antiga do mundo. Gostaria de iniciar esta conversa com uma considera\u00e7\u00e3o feita por um professor desta casa (Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa &#8211; UCP), Mendo Castro Henriques: \u00abA mais antiga biblioteca do mundo \u00e9 entregue a algu\u00e9m com rara capacidade de pensar o futuro\u00bb. \u00c9 o que est\u00e1 em causa no trabalho nesta Biblioteca?<\/em><\/p>\n<p><em>D.\u00a0<\/em>Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a (DJTM) \u2013 Uma biblioteca, que \u00e9 um grande reposit\u00f3rio da mem\u00f3ria da Igreja, dos Papas, do cristianismo e da Humanidade (porque na biblioteca est\u00e3o documentos que testemunham as culturas do Ocidente, do Oriente, tesouros da identidade dos povos que se conservaram atrav\u00e9s dos s\u00e9culos), \u00e9 um esp\u00f3lio que representa a mem\u00f3ria dos homens mas, ao mesmo tempo, h\u00e1 ali uma for\u00e7a de futuro como n\u00f3s dizemos, das ra\u00edzes.<\/p>\n<p>As ra\u00edzes n\u00e3o s\u00e3o o passado da \u00e1rvore, s\u00e3o a garantia da sua vitalidade. Por isso o Arquivo e a Biblioteca Apost\u00f3lica s\u00e3o uma garantia da vitalidade e do futuro da pr\u00f3pria Igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Estar\u00e1 a\u00ed o desafio de dar vitalidade a algo que muitas vezes \u00e9 tido por estar fechado a sete chaves, conservando p\u00f3 sobre v\u00e1rios volumes?<\/em><\/p>\n<p>DJTM &#8211; A realidade n\u00e3o \u00e9 bem assim! No ano passado aconteceram dezenas de empr\u00e9stimos a n\u00edvel mundial de obras e tesouros do arquivo e da biblioteca. H\u00e1 uma pol\u00edtica de empr\u00e9stimos e de presen\u00e7a que abre as portas do arquivo e da biblioteca ao mundo inteiro.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais de dois mil investigadores creditados junto do Arquivo e da Biblioteca que, ao mais alto n\u00edvel, fazem as suas investiga\u00e7\u00f5es. De secreto tem pouco!<\/p>\n<p>Secreto quer dizer privado. \u00c9 um arquivo que pertence \u00e0 Igreja, mas claramente penso que \u00e9 \u00a0necess\u00e1rio retirar essa parte ficcional de um arquivo que esconde segredos inacess\u00edveis. Tem os segredos que normalmente qualquer arquivo guarda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 \u00c9 um servi\u00e7o que inicia em setembro, que presta \u00e0 Igreja, na cultura?<\/em><\/p>\n<p>DJTM \u2013 Uma biblioteca \u00e9 um lugar de cultura, de pensamento, de di\u00e1logos, de encontros, \u00e9 uma fronteira da ci\u00eancia, onde se guarda a mem\u00f3ria mas tamb\u00e9m onde pulsa o desejo de futuro. Uma biblioteca \u00e9 a possibilidade de fazer coisas, de estabelecer novos nexos e de dar uma nova vida aos textos.<\/p>\n<p>Os textos n\u00e3o t\u00eam apenas uma vida. T\u00eam aquele momento em que foram escritos, mas t\u00eam muitas possibilidades escondidas em si.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Todas as vezes que s\u00e3o lidos t\u00eam uma vida nova.<\/em><\/p>\n<p>DJTM \u2013 Todas as vezes que s\u00e3o lidos, mostrados, recontextualizados\u2026 s\u00e3o possibilidades novas que se abrem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Por isso o professor Mendo Castro Henrique dizia que o D. Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a \u00e9 algu\u00e9m que tem a capacidade de projetar o futuro, olhando assim a Biblioteca.<\/em><\/p>\n<p>DJTM \u2013 Eu terei sempre essa preocupa\u00e7\u00e3o. Por um lado, penso que cabe ao bibliotec\u00e1rio zelar pela integralidade daquele tesouro e fazer tudo para que ele passe nas melhores condi\u00e7\u00f5es \u00e0s gera\u00e7\u00f5es futuras; ao mesmo tempo, coloc\u00e1-lo a falar para o presente, dando uma nova oportunidade \u00e0queles textos, permitindo novos encontros que sejam uma sementeira de di\u00e1logos, da constru\u00e7\u00e3o da paz, que \u00e9 no fundo aquilo que est\u00e1 por detr\u00e1s da finalidade da cultura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O projeto \u00e9 aprender<\/strong><\/p>\n<p><em>AE \u2013 N\u00e3o acredito que tenha projetos definidos para concretizar, mas ter\u00e1 projetos sonhados nesse sentido?<\/em><\/p>\n<p>DJTM \u2013 Eu tenho projetos definidos. O projeto \u00e9 aprender. Quando se chega a um lugar e a um lugar que n\u00e3o se conhece, o que se tem de fazer \u00e9 aprender com as pessoas que l\u00e1 est\u00e3o, ouvir, conhecer, perceber o que se faz, valorizar. E \u00e9 nessa atitude que eu vou para este lugar e esta miss\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois, pouco a pouco, com as pessoas que l\u00e1 est\u00e3o, tentar encontrar um fio condutor que fa\u00e7a justi\u00e7a \u00e0quela riqueza extraordin\u00e1ria que \u00e9 uma biblioteca.<\/p>\n<p>Estamos a ter esta conversa tamb\u00e9m numa biblioteca e penso que se percebe o significado. \u00c9 a consolida\u00e7\u00e3o da sabedoria de \u00e9pocas, de gera\u00e7\u00f5es, o sonho, as esperan\u00e7as. Tudo est\u00e1 aqui transcrito nestas obras.<\/p>\n<p>Quando visitou a Biblioteca Apost\u00f3lica, o Papa Paulo VI disse uma frase muito bela: \u00abA biblioteca \u00e9 o lugar onde sentimos ressoar os passos de Cristo pela hist\u00f3ria da humanidade\u00bb. Essa fidelidade \u00e0 hist\u00f3ria da humanidade, uma humanidade que Deus ama, que o Arquivo e a Biblioteca testemunham.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Que desafio constitui esse di\u00e1logo cultural feito atrav\u00e9s dos livros de uma Biblioteca que guarda esse reposit\u00f3rio da hist\u00f3ria do cristianismo?<\/em><\/p>\n<p>DJTM \u2013 \u00c9 uma responsabilidade muito grande uma biblioteca com esta qualidade. Porque nos ajuda a ser exigentes connosco pr\u00f3prios e com o nosso tempo e a dar eleva\u00e7\u00e3o ao debate p\u00fablico, a dar profundidade, a dar uma largueza diferente \u00e0s nossas preocupa\u00e7\u00f5es que muitas vezes s\u00e3o as mais imediatistas, da agenda, do que se tem de resolver. Uma biblioteca serve para dar profundidade ao nosso olhar, pensamento, para rasgar novos horizontes, para complexificar o que muitas vezes \u00e9 reduzido de forma simplista. E, nesse sentido, \u00e9 um contributo enorme para a cultura e civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Contributo tamb\u00e9m para o prop\u00f3sito renovador que o Papa Francisco tem tentado passar a todos aqueles que com ele colaboram?<\/em><\/p>\n<p>DJTM \u2013 A reforma assenta num mergulho nas ra\u00edzes, numa profundidade de olhar que permite analisar a hist\u00f3ria sem ficar preso \u00e0quilo que \u00e9 o mais imediato ou o mais previs\u00edvel. Os grandes profetas inspiram-se n\u00e3o apenas numa leitura dos sinais dos tempos, mas tamb\u00e9m procuram inspira\u00e7\u00e3o nas grandes figuras do pensamento, nesse capital de inquieta\u00e7\u00e3o e de sede que habitou, antes de n\u00f3s, o cora\u00e7\u00e3o dos homens. Por isso, uma reforma nunca parte do nada, mas coloca-se sempre numa tradi\u00e7\u00e3o, em continuidade com uma for\u00e7a, um vigor que vem detr\u00e1s.<\/p>\n<p>No cristianismo sempre foi assim: sempre que a Igreja pensou em reforma, foi sempre redescobrindo as suas pr\u00f3prias origens e o essencial da experi\u00eancia que ela realiza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 A mensagem que escreveu logo ap\u00f3s a nomea\u00e7\u00e3o do Papa Francisco refere que atrav\u00e9s da cultura, das bibliotecas, \u00e9 poss\u00edvel fomentar essa cultura do encontro que o Papa tanto promove. De que forma?<\/em><\/p>\n<p>DJTM \u2013 Numa biblioteca est\u00e3o livros muito diferentes. Est\u00e3o os pontos de vista diversos. Uma Biblioteca \u00e9 um laborat\u00f3rio da diversidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Mesmo a do Vaticano?<\/em><\/p>\n<p>DJTM \u2013 Todas as bibliotecas! E a Biblioteca Apost\u00f3lica n\u00e3o deixa de ser uma Biblioteca. Tem o testemunho dos m\u00e1rtires, tem as grandes obras dos Papas, cada um com o seu carisma, porque o Esp\u00edrito Santo \u00e9 m\u00faltiplo. \u00c9 uno e ao mesmo tempo \u00e9 m\u00faltiplo. O sentido da comunh\u00e3o n\u00e3o elimina a beleza da diversidade que se complementa evangelicamente. Uma biblioteca \u00e9 o lugar onde essa atmosfera de comunh\u00e3o na diversidade se respira.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Acredita que na Biblioteca Apost\u00f3lica vai encontrando a diversidade da experi\u00eancia do cristianismo ao longo da hist\u00f3ria? Muitas vezes olhamos para o Vaticano a partir do significado centralizador. Teremos, numa Biblioteca, o seu contr\u00e1rio?<\/em><\/p>\n<p>DJTM \u2013 A biblioteca testemunha aquilo que o cristianismo \u00e9, como experi\u00eancia fundamental, e o que tem sido historicamente. Isso claramente \u00e9 de uma beleza muito grande porque, enquanto realidade espiritual, sobrenatural, a Igreja \u00e9 conduzida pelo Espirito e o Espirito tem fantasia, n\u00e3o nos deixa fixados numa \u00fanica forma, mas \u00e9 polif\u00f3nico, manifesta-se atrav\u00e9s de vozes e de profetismos diferentes.<\/p>\n<p>Uma Biblioteca do cristianismo tem de fazer justi\u00e7a \u00e0 diversidade que est\u00e1 no ADN da pr\u00f3pria experi\u00eancia crist\u00e3.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Cultura e o desejo de encontro na Igreja Cat\u00f3lica<\/strong><\/p>\n<p><em>AE \u2013 Como vai acompanhando, e acredito que de forma muito pr\u00f3xima, a continuidade dessa diversidade, nomeadamente a que acontece com o di\u00e1logo cultural que o Conselho Pontif\u00edcio para a Cultura promove?<\/em><\/p>\n<p>DJTM \u2013 O Pontif\u00edcio Conselho tem, nestes anos, elaborado um conjunto extraordin\u00e1rio de iniciativas que mostram esse desejo, muito grande, de encontro. Saliento uma, que se realizou em Portugal, o \u00c1trio dos Gentios, onde se coloca em di\u00e1logo crentes e n\u00e3o crentes, sobre temas que dizem respeito a todos. A vida n\u00e3o \u00e9 monop\u00f3lio de ningu\u00e9m e todos podemos escutarmo-nos com grande ganho, uns aos outros.<\/p>\n<p>O Conselho Pontif\u00edcio para a Cultura tem sido uma esp\u00e9cie de antena, de sonda, de campo aberto para o di\u00e1logo e encontro, e isso tem sido, certamente, muito enriquecedor para a hist\u00f3ria da Igreja contempor\u00e2nea. A Igreja ganha muito em ouvir, em conversar amigavelmente sobre os temas, em despertar o encontro, possibilit\u00e1-lo, convoc\u00e1-lo, porque essa \u00e9, de facto, a sua miss\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Temos de sentir uma sedu\u00e7\u00e3o pelo ponto de vista diferente<\/strong><\/p>\n<p><em>AE \u2013 J\u00e1 voltaremos a esse trabalho do Conselho Pontif\u00edcio para a Cultura, mas gostava de lhe falar sobre a vontade de dialogar, que marca o ser percurso biogr\u00e1fico\u2026 \u00c9 isso que faz com que crie pontes, em diversos \u00e2mbitos culturais, com diferentes personalidades?<\/em><\/p>\n<p>DJTM \u2013 Penso que um crist\u00e3o tem de ter uma paix\u00e3o pelas pessoas, pelos seres humanos. Verdadeiramente n\u00e3o h\u00e1 duas pessoas iguais. N\u00e3o temos de ter medo da diferen\u00e7a, mas temos de sentir uma sedu\u00e7\u00e3o pelo ponto de vista diferente, pelo que olha o mundo a partir de outro humor, outro olhar, de outro conhecimento, porque ganhamos sempre com o encontro, com o conhecimento.<\/p>\n<p>H\u00e1 que vencer as l\u00f3gicas de capelinha e abrir-se, no fundo, ao que \u00e9 mais belo, \u00e0 possibilidade de caminharmos juntos, atrav\u00e9s da Hist\u00f3ria, e de encontrarmos sentido n\u00e3o naquilo que nos afasta e separa, mas no que nos une que \u00e9 sempre o mais forte. Todo o ser humano \u00e9 imagem e semelhan\u00e7a de Deus. \u00c9 uma obra sagrada e, em cada ser humano, Deus reverbera a sua voz de maneira original e irrepet\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Mesmo sem pronunciar a palavra, acha que ainda permanece alguma atitude pros\u00e9lita, em muitos desses encontros por parte de atores da Igreja cat\u00f3lica?<\/em><\/p>\n<p>DJTM \u2013 Penso que \u00e9 algo de parte a parte. Tanto h\u00e1 muitas vezes uma timidez em fomentar o di\u00e1logo por parte da Igreja e um receio; como muitas vezes, das pessoas que est\u00e3o fora, h\u00e1 um preconceito e uma timidez em rela\u00e7\u00e3o ao que pode ser um di\u00e1logo com a eclesialidade.<\/p>\n<p>H\u00e1 que desmontar medos, receios e fazer experi\u00eancia.<\/p>\n<p>N\u00e3o importa que dimens\u00f5es tenham as experi\u00eancias: pode ser pequena, no encontro entre pessoas, de uma fam\u00edlia, num encontro entre criadores e colegas de trabalho; pode ter uma dimens\u00e3o grande entre institui\u00e7\u00f5es. O que importa \u00e9 estabelecer essa cultura do encontro como repete incessantemente o Papa Francisco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 E \u00e9 essa a sua experi\u00eancia de duas \u00a0d\u00e9cadas, em Lisboa, ap\u00f3s o doutoramento?<\/em><\/p>\n<p>DJTM \u2013 S\u00e3o 20 anos de trabalho na Universidade, na Pastoral da Cultura, na Capela do Rato, na cultura portuguesa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Com avalia\u00e7\u00e3o muito positiva?<\/em><\/p>\n<p>DJTM \u2013 Muito positiva para mim! \u00c9 o que eu sou. N\u00e3o consigo imaginar a minha vida sem estes 20 anos. Costumo dizer &#8211; a frase n\u00e3o \u00e9 minha, eu adoto-a &#8211; \u00abeu sou uma obra dos outros\u00bb.<\/p>\n<p>Olhando para estes 20 anos, n\u00e3o s\u00f3 porque me procurei dar mas porque n\u00f3s crescemos com as pessoas que conhecemos, aquilo que muda a nossa vida verdadeiramente s\u00e3o os encontros que temos. A multiplica\u00e7\u00e3o da vida que damos aos outros, a aposta que fazemos numa rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a e de amizade \u00e9 sempre fecunda. Pelo menos, em mim, deixa um perfume inapag\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 A pr\u00f3pria vida sacerdotal, o percurso de um sacerdote tem de se desinstalar de algum modo, ir al\u00e9m de uma experi\u00eancia absorvente da paroquialidade? \u00c9 necess\u00e1rio dar outros passos?<\/em><\/p>\n<p>DJTM \u2013 Eu dou o meu testemunho. Devo falar por mim, porque somos diferentes e os nossos pontos de partida s\u00e3o diferentes e n\u00e3o conhe\u00e7o todas as realidades. Gosto de falar de mim.<\/p>\n<p>Para a minha espiritualidade tem sido muito importante o que recebo dos outros, crentes e at\u00e9 dos n\u00e3o crentes que me ensinam muito sobre Deus. H\u00e1 agn\u00f3sticos que me ensinam muito sobre Deus porque me colocam as perguntas e eu tomo-as como uma possibilidade de caminho e at\u00e9 de ora\u00e7\u00e3o para mim.<\/p>\n<p>Uma espiritualidade que tenha uma intransig\u00eancia em ficar fechada num determinado c\u00edrculo, acaba por ficar mais pobre, porque Cristo desafia-nos muito a sermos Igreja em sa\u00edda, Ele envia os disc\u00edpulos v\u00e1rias vezes em miss\u00e3o e \u00e9 no envio, neste mandato do encontro, que podemos encontrar p\u00e1ginas inesperadas do Evangelho. H\u00e1 p\u00e1ginas inesperadas do Evangelho que est\u00e3o \u00e0 nossa espera. S\u00f3 nessa surpresa dos encontros n\u00f3s podemos capt\u00e1-la.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Com a mesma ortodoxia que t\u00eam outras?<\/em><\/p>\n<p>DJTM \u2013 Com a mesma ortodoxia! Porque n\u00e3o temos de ter fantasmas. O cristianismo \u00e9 uma experi\u00eancia essencial. \u00c9 uma verdade. Mas n\u00e3o \u00e9 uma verdade que me coloca contra os outros. \u00c9 uma verdade que me abre radicalmente aos outros. A verdade do cristianismo \u00e9 a hospitalidade. <strong>N\u00e3o \u00e9 uma fronteira vigiada policialmente<\/strong>. Por isso, n\u00e3o h\u00e1 que ter medo do encontro porque o amor \u00e9 a grande ortodoxia. A caridade, a hospitalidade do outro, \u00e9 a grande ortodoxia crist\u00e3.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Recentemente, no Encontro Internacional das Equipas de Nossa Senhora, D. Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a falava na necessidade de, a partir do que desafia o papa Francisco, abandonar uma moral fria e de escrit\u00f3rio.<\/em><\/p>\n<p>DJTM \u2013 O Papa desafia-nos muito a isso, a termos, de facto, uma moral que tenha em conta as pessoas, o servi\u00e7o \u00e0s pessoas, \u00e0 vida, \u00e0 vida fr\u00e1gil, \u00e0 vida nua. E que seja uma \u00e9tica atravessada pela experi\u00eancia de Jesus, do Evangelho. Essa nunca pode ser apenas uma moral de escrit\u00f3rio. Tem de ser um caminho palmilhado. Tem de ser aquela estrada que o pai do Filho Pr\u00f3digo, o Pai Misericordioso faz, tomando ele a iniciativa de abra\u00e7ar aquele filho e reintroduzi-lo na festa da comunh\u00e3o. Essa \u00e9 a grande moral crist\u00e3.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Di\u00e1logo cultural na c\u00fapulas vaticanas<\/strong><\/p>\n<p><em>AE \u2013 Regressemos ao setor da Cultura, no Vaticano. Pedia-lhe uma opini\u00e3o sobre a lideran\u00e7a deste setor que acontece no Vaticano com o cardeal Gianfranco Ravasi. S\u00e3o grandes passos que v\u00e3o sendo dados nessa atitude de di\u00e1logo que encontrou agora um grande entusiasmo com o Papa Francisco?<\/em><\/p>\n<p>DJTM \u2013 \u00c9 preciso dizer que no s\u00e9culo XX, desde que foi criado, o Conselho Pontif\u00edcio para a Cultura teve sempre grandes figuras que o conduziram de uma forma muito inspirada. Mas, nestes \u00faltimos anos, a lideran\u00e7a do cardeal Ravasi tem brilhado de facto pela criatividade, pela consist\u00eancia das propostas, pela profundidade da sabedoria que \u00e9 colocada em ato, pela capacidade de gerar encontros e de fazer not\u00edcia positiva com acontecimentos que unem toda a gente em torno do essencial. Isso deve-se muito \u00e0 intelig\u00eancia e ao esp\u00edrito pastoral incans\u00e1vel, ao amor \u00e0 Igreja, \u00e0 cultura que tem o cardeal Gianfranco Ravasi.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 \u00c9 tamb\u00e9m um homem da B\u00edblia, tal como D. Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a. Sente sintonia de projetos, de pensamentos, de atitudes com o cardeal Ravasi?<\/em><\/p>\n<p>DJTM \u2013 Eu considero o cardeal Ravasi um dos grandes mestres do catolicismo contempor\u00e2neo e, sem d\u00favida, que lhe devo muito.<\/p>\n<p>Comecei por conhec\u00ea-lo por biblista, e admir\u00e1-lo, e mesmo na minha tese de doutoramento cito-o abundantemente, porque aprendi muito com ele. A arte de ler os textos, a hermen\u00eautica b\u00edblica em di\u00e1logo com a cultura, e o conv\u00edvio que tive o privil\u00e9gio de ter com ele nestes anos a partir do Conselho Pontif\u00edcio para a Cultura e a amizade que se tem cimentado faz-me perceber que a proximidade com esta grande figura do catolicismo e da cultura representa na minha vida um dom inestim\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 \u00c9 uma amizade e uma colabora\u00e7\u00e3o que ser\u00e1 ainda mais estreita, a partir de setembro?<\/em><\/p>\n<p>DJTM \u2013 Certamente, porque uma biblioteca \u00e9 um espa\u00e7o de cultura. Tudo o que for um trabalho de converg\u00eancia, com o Pontif\u00edcio Conselho para a Cultura e os outros \u00f3rg\u00e3os da C\u00faria Romana, porque o Arquivo e a Biblioteca existem para servir, esse esp\u00edrito de converg\u00eancia estar\u00e1 sempre como atitude fundamental.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Dois servidores, dois polos de di\u00e1logo que est\u00e3o no Vaticano, tendo a cultura como ambiente fundamental para esse di\u00e1logo?<\/em><\/p>\n<p>DJTM \u2013 N\u00e3o ser\u00e3o os \u00fanicos porque esse \u00e9 o espirito comum da Santa S\u00e9 e isso \u00e9 importante para as pessoas. Muitas vezes desconhecem-se os nomes, as figuras, n\u00e3o se tem a perce\u00e7\u00e3o do maravilhoso servi\u00e7o que a Santa S\u00e9 e a C\u00faria Romana prestam.<\/p>\n<p>Eu pr\u00f3prio tive essa experi\u00eancia, agora na prega\u00e7\u00e3o dos Exerc\u00edcios Espirituais \u00e0 C\u00faria Romana e ao Papa. Uma coisa que me impressionou muito foi a qualidade daquelas pessoas, qualidade tamb\u00e9m orante: v\u00ea-los de joelhos, \u00a0poder escut\u00e1-los, quer na delicadeza humana, quer na sabedoria do seu discurso e da avalia\u00e7\u00e3o que fazem das coisas, faz-nos perceber que \u00e9 um servi\u00e7o de grande qualidade \u00e0 Igreja e que o povo de Deus tamb\u00e9m ganha em conhecer e acompanhar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Na altura, e ap\u00f3s ter pregado o retiro, disse que o seu n\u00famero do casaco era dos \u00faltimos\u2026 <\/em><\/p>\n<p>DJTM &#8211; Naturalmente, era mesmo assim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 E afinal, tornou-se um n\u00famero muito pr\u00f3ximo.<\/em><\/p>\n<p>DJTM \u2013 Isso n\u00e3o tem import\u00e2ncia nenhuma, \u00e9 s\u00f3 o lugar onde colocamos o casaco. N\u00f3s nascemos e morremos sem casacos, veja s\u00f3 que import\u00e2ncia isso tem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Poder colaborar de perto com o Papa Francisco \u00e9 um privil\u00e9gio<\/strong><\/p>\n<p><em>AE \u2013 Entusiasma-o este desafio do Papa Francisco para trabalhar no Vaticano?<\/em><\/p>\n<p>DJTM \u2013 Poder colaborar de perto com o Papa Francisco \u00e9 um privil\u00e9gio muito grande para mim e \u00e9 uma palavra de ordem que eu, na obedi\u00eancia e na fidelidade \u00e0 Igreja, senti-me no dever de acolher com as minhas limita\u00e7\u00f5es e imperfei\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 N\u00e3o hesitou na resposta?<\/em><\/p>\n<p>DJTM \u2013 Rezei a resposta, naturalmente! Porque tem de ser uma resposta em consci\u00eancia e em liberdade. Fundamentalmente n\u00e3o houve uma hesita\u00e7\u00e3o, houve um discernimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Ser\u00e1 natural que este seja um passo para outros que se possam dar no Vaticano. Encara-os como?<\/em><\/p>\n<p>DJTM \u2013 Eu darei todos os passos entre a minha casa e a biblioteca. Esses ser\u00e3o os meus passos. E s\u00e3o esses que eu quero pensar bem e fazer o melhor poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Os que vierem a Deus pertencem, como se costuma dizer.<\/em><\/p>\n<p>DJTM \u2013 Estamos nas m\u00e3os de Deus. O aqui e o agora s\u00e3o o grande lugar onde Deus nos fala!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":5,"featured_media":111458,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-111590","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/111590","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=111590"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/111590\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/111458"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=111590"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=111590"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=111590"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}