{"id":111160,"date":"2018-07-24T11:37:00","date_gmt":"2018-07-24T10:37:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=111160"},"modified":"2018-07-24T11:38:33","modified_gmt":"2018-07-24T10:38:33","slug":"medo-e-rejeicao-dos-pobres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/medo-e-rejeicao-dos-pobres\/","title":{"rendered":"Medo e rejei\u00e7\u00e3o dos pobres"},"content":{"rendered":"<p><em>Jos\u00e9 Lu\u00eds Gon\u00e7alves<\/em><!--more--><\/p>\n<p>Existem realidades intang\u00edveis e silenciosas que nos escapam e que s\u00f3 come\u00e7am a ganhar contornos reais quando s\u00e3o nomeadas adquirindo, ent\u00e3o, exist\u00eancia real. Refletindo, pois, sobre a vaga de refugiados-migrantes mais recente e as rea\u00e7\u00f5es de rejei\u00e7\u00e3o com que certa opini\u00e3o p\u00fablica, discurso e pr\u00e1tica pol\u00edtica europeia a enfrentam, Adela Cortina, professora de \u00c9tica e Filosofia Pol\u00edtica da Universidade de Valencia, interrogava-se sobre se as sociedades europeias seriam, de facto, racistas, xen\u00f3fobas ou islamof\u00f3bicas. Rapidamente constata que, quando os estrangeiros s\u00e3o pessoas qualificadas, talentosas ou com recursos \u2013 exemplos dos futebolistas ou dos turistas ricos -, a rea\u00e7\u00e3o \u00e9 de hospitalidade e n\u00e3o de hostilidade. A avers\u00e3o aos refugiados n\u00e3o se prende, pois, com o seu pa\u00eds de origem, a sua religi\u00e3o ou cultura; o que verdadeiramente provoca a rejei\u00e7\u00e3o aos refugiados-migrantes \u00e9 o facto de n\u00e3o terem nada para oferecer em troca \u00e0s nossas popula\u00e7\u00f5es, o de serem pobres, o de constitu\u00edrem um fardo\u2026<\/p>\n<p>Sob esta perspetiva, a fil\u00f3sofa cunhou, h\u00e1 mais de 20 anos, a palavra \u201caporofobia\u201d. Este neologismo, constru\u00eddo a partir de duas palavras gregas (\u201caporo\u201d = pobre e \u201cfobia\u201d = medo\/temor), d\u00e1 t\u00edtulo ao seu livro \u201cAporofobia, el rechazo al pobre. Un desaf\u00edo para la democracia\u201d. A rejei\u00e7\u00e3o aos pobres n\u00e3o constitui um fen\u00f3meno recente, mas uma verdadeira patologia social que, quando aplicada \u00e0 realidade dos refugiados-migrantes, nos ajuda a avaliar sob uma luz nova as rea\u00e7\u00f5es nacional-populistas que proliferam por essa Europa fora. \u201cAporofobia\u201d significa, pois, medo e rejei\u00e7\u00e3o do pobre, do desvalido ou desamparado, das pessoas sem recursos que s\u00e3o todas aquelas que, na vida social, n\u00e3o contam para nada porque n\u00e3o conseguem jogar o jogo pol\u00edtico (ter voz efetiva), econ\u00f3mico (possuir bens de troca) ou cultural (afirmar positivamente a sua identidade) de ter algo para oferecer, condi\u00e7\u00e3o do seu reconhecimento como iguais, que se baseia na ideia de que algu\u00e9m tem valor quando tem algo para dar em troca numa rela\u00e7\u00e3o. E os pobres nada t\u00eam para oferecer, a n\u00e3o ser a sua condi\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel. No dizer da autora, \u201co que incomoda, primeiro nos imigrantes, e depois nos refugiados, n\u00e3o \u00e9 que sejam estrangeiros, mas que sejam pobres\u201d\u2026 H\u00e1 realidades invis\u00edveis e silenciosas que precisam, mais cedo ou mais tarde, de adquirir nome e de serem pronunciadas para se tornarem significativas e, assim, desmascararem uma constru\u00e7\u00e3o psicossocial inconsciente que se instala no viver coletivo.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise interdisciplinar acutilante que a autora realiza nesta obra pretende, por um lado, identificar as origens e as express\u00f5es de um sentimento profundamente arraigado que, convenientemente manipulado perante a opini\u00e3o p\u00fablica, se tornou &#8220;num problema pol\u00edtico e num desafio para a democracia&#8221;. Por outro lado, deseja que esta an\u00e1lise cr\u00edtica contribua para enfrentar a aporofobia humana (reafirmando-se o valor incondicional da dignidade de cada pessoa), democr\u00e1tica (atrav\u00e9s do combate \u00e0s desigualdades em nome da justi\u00e7a social) e social (evitando que o reconhecimento e estima social fiquem ref\u00e9ns das realiza\u00e7\u00f5es individuais) instaladas invisivelmente nas nossas sociedades. Em nome da dec\u00eancia, convida todos a um processo de transforma\u00e7\u00e3o que passa pela educa\u00e7\u00e3o para a compaix\u00e3o (<em>com passio<\/em> = sentir com, sentir visceralmente a dor do outro como minha) cultivando a sensibilidade e o olhar l\u00facido para praticar a hospitalidade radical de acolher o que cada pessoa \u00e9 na sua singularidade, independentemente da sua condi\u00e7\u00e3o, mesmo que esta pessoa n\u00e3o tenha nada para oferecer em troca a n\u00e3o ser a si mesma e ao seu desamparo. Na sua opini\u00e3o, &#8220;a rejei\u00e7\u00e3o dos pobres implica sempre uma atitude de superioridade e geralmente inclui a culpa da v\u00edtima.&#8221; Onde j\u00e1 ouvimos isto?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Lu\u00eds Gon\u00e7alves<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":92268,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-111160","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/111160","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=111160"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/111160\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/92268"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=111160"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=111160"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=111160"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}