{"id":11109,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/o-mundo-lugar-etico\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"o-mundo-lugar-etico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-mundo-lugar-etico\/","title":{"rendered":"O mundo, lugar \u00e9tico"},"content":{"rendered":"<p>No registo que a Hist\u00f3ria h\u00e1-de fazer de Jo\u00e3o Paulo II e do seu longo pontificado, figurar\u00e1 em lugar de destaque a determina\u00e7\u00e3o com que prolongou o seu intenso olhar crente sobre a agenda das rela\u00e7\u00f5es internacionais. Se os seus antecessores abriram o caminho para uma presen\u00e7a forte da Igreja no processo de humaniza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es internacionais, Jo\u00e3o Paulo II marcou a sua ac\u00e7\u00e3o por uma aspira\u00e7\u00e3o \u00e0 moraliza\u00e7\u00e3o desse universo de rela\u00e7\u00f5es. A liberdade, a paz, o di\u00e1logo e o perd\u00e3o constitu\u00edram os eixos desta aposta na moraliza\u00e7\u00e3o da vida internacional. Em primeiro lugar, a liberdade. O bispo Wojtyla encarna uma incind\u00edvel liga\u00e7\u00e3o entre cristianismo e rep\u00fadio do totalitarismo agn\u00f3stico. \u00c9 em nome da f\u00e9 \u2013 e n\u00e3o seduzido pelo credo liberal moderno \u2013 que, j\u00e1 Papa, d\u00e1 continuidade ao confronto sem tr\u00e9guas contra a Estado aniquilador das liberdades. Jo\u00e3o Paulo II est\u00e1 pois reconhecidamente no centro da derrocada do imp\u00e9rio sovi\u00e9tico. O ocidente aplaude-o mas \u00e9 um louvor equ\u00edvoco: o Papa n\u00e3o se move por nenhum outro fasc\u00ednio doutrinal sen\u00e3o o da centralidade da refer\u00eancia ao que entende ser a verdade de Deus. Em segundo lugar, a paz. Teimosia idealista, dir\u00e3o os c\u00ednicos. Enganam-se: \u00e9 ainda e sempre em nome de uma f\u00e9 ordenadora do social que Jo\u00e3o Paulo II insta as na\u00e7\u00f5es a travarem a deriva da solu\u00e7\u00e3o b\u00e9lica das suas controv\u00e9rsias, caminho em que o Papa v\u00ea uma express\u00e3o \u00faltima de uma cultura materialista e sem densidade humana. Mas mais: Jo\u00e3o Paulo II n\u00e3o abdica de percorrer os caminhos das guerras an\u00f3nimas e fratricidas dos anos noventa, e de animar a\u00ed o esfor\u00e7o de comunidades cat\u00f3licas (como a Comunidade de Santo Eg\u00eddio) e de igrejas locais (a timorense, por exemplo) no restabelecimento dos la\u00e7os de sociabilidade. O di\u00e1logo, em terceiro lugar. Assis \u00e9 porventura o \u00edcone maior do pontificado de Jo\u00e3o Paulo II. No di\u00e1logo inter-religioso (entrecortado por anacronismos graves como o c\u00e9lebre Domine Jesus), e no ecumenismo de banda larga que Assis anuncia, o Papa faz reconhecer a necessidade de uma abertura que parta da firmeza de fundamentos de cada interlocutor e que n\u00e3o pretenda resultar na sua descaracteriza\u00e7\u00e3o. O combate por um ethos mundial, de que as igrejas ser\u00e3o suporte, \u00e9 para Jo\u00e3o Paulo II a miss\u00e3o central que um homem de Deus pode\/deve desempenhar na arena internacional. E o di\u00e1logo ecum\u00e9nico n\u00e3o teve para ele outro sentido sen\u00e3o esse. O perd\u00e3o, enfim. O Papa afasta-se dos c\u00e2nones da realpolitik para dar protagonismo ao pedido de perd\u00e3o e \u00e0 d\u00e1diva de perd\u00e3o. \u00c9 a subvers\u00e3o total da \u201cmoral normal\u201d. O perd\u00e3o dado a Ali Agka como o perd\u00e3o pedido aos judeus s\u00e3o acima de tudo gestos que quebram a espiral da intoler\u00e2ncia e da viol\u00eancia. E \u00e9 nesse registo de moralidade de alta intensidade que Jo\u00e3o Paulo II associa intimamente perd\u00e3o a solidariedade como valores-guia das rela\u00e7\u00f5es internacionais. O perd\u00e3o da d\u00edvida dos pa\u00edses mais pobres prolonga a den\u00fancia das estruturas de pecado que geram essa d\u00edvida impar\u00e1vel. \u00c9 porque s\u00e3o deixados em roda livre, sem balizas morais, que os organismos e as pol\u00edticas de com\u00e9rcio ou de finan\u00e7as internacionais se convertem em devoradores impiedosos do Sul do Mundo. O perd\u00e3o e a solidariedade s\u00e3o os ant\u00eddotos e as pol\u00edticas p\u00fablicas ser\u00e3o as media\u00e7\u00f5es fr\u00e1geis desses ant\u00eddotos. N\u00e3o sei o que a Hist\u00f3ria dir\u00e1 de Jo\u00e3o Paulo II. Mas sei o que o mundo deve \u00e0 sua sabedoria para l\u00e1 do conhecimento e ao seu amor para l\u00e1, muito para l\u00e1, de si pr\u00f3prio.  Jos\u00e9 Manuel Pureza <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No registo que a Hist\u00f3ria h\u00e1-de fazer de Jo\u00e3o Paulo II e do seu longo pontificado, figurar\u00e1 em lugar de destaque a determina\u00e7\u00e3o com que prolongou o seu intenso olhar crente sobre a agenda das rela\u00e7\u00f5es internacionais. 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