{"id":11105,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/contributo-para-o-dialogo-ecumenico-e-inter-religioso\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"contributo-para-o-dialogo-ecumenico-e-inter-religioso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/contributo-para-o-dialogo-ecumenico-e-inter-religioso\/","title":{"rendered":"Contributo para o di\u00e1logo ecum\u00e9nico e inter-religioso"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 evidente que o contributo do longo pontificado de Jo\u00e3o Paulo II, quer para o di\u00e1logo ecum\u00e9nico (ou seja, o di\u00e1logo da Igreja cat\u00f3lica com outras confiss\u00f5es crist\u00e3s) \u2013 quer para o di\u00e1logo inter-religioso (di\u00e1logo do cristianismo com todas as grandes tradi\u00e7\u00f5es religiosas do mundo), n\u00e3o pode ser abordado de forma satisfa-t\u00f3ria num pequeno artigo. Quer pelo seu carisma pr\u00f3prio, quer pelo longo per\u00edodo em que ocupou a sede romana, quer pelo contexto hist\u00f3rico em que se enquadrou, \u00e9 de adivinhar que estas duas vertentes da atitude dialogante da Igreja, especialmente assumidas pelo pont\u00edfice, ter\u00e3o que ser riqu\u00edssimas. Limitar-me-ei, nestas curtas linhas, a recordar alguns elementos que me parecem mais salientes.  1. Di\u00e1logo ecum\u00e9nico O movimento ecum\u00e9nico foi, sem d\u00favida, uma das caracter\u00edsticas mais marcantes do cristianismo do s\u00e9c. XX. A Igreja cat\u00f3lica assumiu oficialmente esse movimento por ocasi\u00e3o do Conc\u00edlio do Vaticano II. Seguiram-se numerosas iniciativas, quer de pessoas, grupos ou Igrejas particulares, quer da pr\u00f3pria c\u00faria romana, sobretudo atrav\u00e9s de uma diver-sificada participa\u00e7\u00e3o em comiss\u00f5es mistas, para aprofundamento do di\u00e1logo com outras confiss\u00f5es crist\u00e3s. Jo\u00e3o XXIII e, sobretudo, Paulo VI, tinham j\u00e1 dado corpo a muitos sinais de promo\u00e7\u00e3o da unidade dos crist\u00e3os. Foi nesse mesmo esp\u00edrito que Jo\u00e3o Paulo II assumiu a sua tarefa de pastor universal da Igreja cat\u00f3lica, como manifestou explicitamente j\u00e1 na escolha do nome. Oriundo de um pa\u00eds marcadamente cat\u00f3lico, sempre impressionou pela sua atitude de franco e despreconceituado di\u00e1logo com outras Igrejas. Em realidade, porque a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria lhe ter\u00e1 ensinado onde reside o essencial e em que medida, perante os dif\u00edceis desafios lan\u00e7ados \u00e0 Igreja pelo mundo contempor\u00e2neo, se torna rid\u00edculo ou mesmo prejudicial prevalecer na desuni\u00e3o e no conflito. Em diversas interven\u00e7\u00f5es e iniciativas, manifestou, desde o in\u00edcio, o empenho em continuar no esp\u00edrito ecum\u00e9nico que animou o Vaticano II. A sua ac\u00e7\u00e3o tornou-se, contudo, mais determinante quando, em 1995, publicou a Enc\u00edclica Ut unum sint. De facto, o entusiasmo dos primeiros tempos do movimento ecum\u00e9nico, ao este se sentir confrontado com enormes dificuldades no dia-a-dia do caminho para a unidade, tinha-se esmorecido, levando muitos quase a desistir da esperan\u00e7a de algum dia poder vir a viver-se essa unidade. O documento pontif\u00edcio constituiu novo impulso, n\u00e3o s\u00f3 para o reatar do di\u00e1logo da Igreja cat\u00f3lica com outras Igrejas crist\u00e3s, como muitas vezes para reacender o di\u00e1logo entre elas mesmas. A preocupa\u00e7\u00e3o ecum\u00e9nica de Jo\u00e3o Paulo II tornou-se manifestamente central, sobretudo nos textos de prepara\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o do Jubileu do ano 2000. Na altura, afirmou claramente: \u201cNeste crep\u00fasculo do mil\u00e9nio, a Igreja deve dirigir-se com prece mais instante ao Esp\u00edrito Santo, implorando-Lhe a gra\u00e7a da unidade dos crist\u00e3os. Este \u00e9 um problema crucial para o testemunho evang\u00e9lico no mundo. Eis, portanto, uma das tarefas dos crist\u00e3os a caminho do ano 2000&#8230; A aproxima\u00e7\u00e3o do fim do segundo mil\u00e9nio incita todos a um exame de consci\u00eancia e a oportunas iniciativas ecum\u00e9nicas, de tal modo que possamos apresentar-nos ao Grande Jubileu, se n\u00e3o totalmente unidos, pelo menos muito mais perto de superar as divis\u00f5es do segundo mil\u00e9nio. Para tal, \u00e9 necess\u00e1rio \u2014 est\u00e1 \u00e0 vista de todos \u2014 um esfor\u00e7o enorme. Imp\u00f5e-se prosseguir com o di\u00e1logo ecum\u00e9nico, mas sobretudo empenhar-se mais na ora\u00e7\u00e3o ecu-m\u00e9nica.\u201d (Tertio Millennio Adveniente, 34). Mais tarde, recapitula: \u201cNo \u00e2mbito do programa do ano jubilar, tinha pedido que se desse uma aten\u00e7\u00e3o especial tamb\u00e9m \u00e0 dimens\u00e3o ecum\u00e9nica. Que ocasi\u00e3o mais prop\u00edcia poderia haver, para encorajar o caminho para a plena comunh\u00e3o, do que a celebra\u00e7\u00e3o comum do nascimento de Cristo?\u201d (Novo Millennio Ineunte 12, Cf.: Idem, 48). Entretanto, para al\u00e9m dos encontros entre especialistas e das grandes Assem-bleias Ecum\u00e9nicas Europeias (1989 e 1997), Jo\u00e3o Paulo II foi protagonista de in\u00fameros encontros pessoais com l\u00edderes de outras confiss\u00f5es, contribuindo fortemente para o estreitamento das rela\u00e7\u00f5es institucionais da Igreja cat\u00f3lica com elas. O seu papel foi, por isso, essencialmente o de um impulsionador positivo da aproxima\u00e7\u00e3o, a qual possa ajudar a superar significativas diferen\u00e7as que, por vezes, originam separa\u00e7\u00e3o. Da sua parte, sempre insistiu mais no que nos aproxima do que no que nos afasta; e sempre tentou mostrar que as diferen\u00e7as podem n\u00e3o ser fermento de desuni\u00e3o. Alguns documentos romanos que procuram chamar a aten\u00e7\u00e3o para elementos que ainda entravam a uni\u00e3o, no sentido de evitar a ilus\u00e3o de um caminho f\u00e1cil mas superficial, s\u00e3o documentos que n\u00e3o sa\u00edram directamente da pena de Jo\u00e3o Paulo II, mesmo que tenham sido por ele aprovados. O que demonstra, talvez, a sua firmeza em avan\u00e7ar, mesmo quando n\u00e3o pode ignorar as dificuldades. \u00c9 sabido que uma das dificuldades mais salientes, no momento actual do di\u00e1logo ecum\u00e9nico, se situa ao n\u00edvel das diferentes concep\u00e7\u00f5es de minist\u00e9rio, sobretudo do minist\u00e9rio \u00abordenado\u00bb e especialmente do minist\u00e9rio petrino. Nos \u00faltimos tempos, foi o pr\u00f3prio Jo\u00e3o Paulo II quem exortou as Igrejas \u2013 sobretudo a Igreja cat\u00f3lica \u2013 a aprofundar ou mesmo a repensar o papel desse minist\u00e9rio, a sua fundamenta\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica e as poss\u00edveis formas do seu exerc\u00edcio. Talvez esse apelo possa vir a ser assumido como voz prof\u00e9tica que, sendo levada a s\u00e9rio, venha a contribuir para um dos mais significativos passos na aproxima\u00e7\u00e3o vis\u00edvel das Igrejas crist\u00e3s, que h\u00e1 tantos s\u00e9culos sofrem com a desuni\u00e3o.   2. Di\u00e1logo inter-religioso Nos caminhos de di\u00e1logo do pontificado de Jo\u00e3o Paulo II, assume especial destaque o di\u00e1logo com outras religi\u00f5es, j\u00e1 evocado, como programa maior, em importantes textos do Conc\u00edlio do Vaticano II. O contexto cultural de globaliza\u00e7\u00e3o, assim como de duvidosas rela\u00e7\u00f5es entre determinadas comunidades religiosas e a viol\u00eancia, exigia-o e o Pont\u00edfice sobre ler esse sinal dos tempos, respondendo-lhe em perseverante fidelidade. No cerne das suas motiva\u00e7\u00f5es esteve a preocupa\u00e7\u00e3o pela paz no mundo, enquanto realiza\u00e7\u00e3o que entre n\u00f3s torne presente a \u00abpaz\u00bb, como fundamental dom de Deus \u00e0 Humanidade inteira. Nesse sentido, teve iniciativas in\u00e9ditas, quando convidou l\u00edderes de outras religi\u00f5es para jornadas conjuntas de ora\u00e7\u00e3o pela paz (as mais conhecidas s\u00e3o, sem d\u00favida, as de Assis, iniciadas j\u00e1 em 1986). Isso contribuiu, inegavelmente, para um testemunho vivo de que a verdadeira atitude religiosa \u00e9 uma atitude que conduz \u00e0 conviv\u00eancia entre os seres humanos e, por essa via, ao seio do verdadeiro Deus. \u00c9 evidente que, no relacionamento com outras tradi\u00e7\u00f5es religiosas, se levantam, quer \u00e0 teologia crist\u00e3 quer \u00e0 pr\u00e1tica quotidiana das comunidades, tantas oportunidades e desafios quantos problemas. Estes est\u00e3o ainda longe de vislumbrar uma solu\u00e7\u00e3o satisfat\u00f3ria, apesar da infla\u00e7\u00e3o de iniciativas e de publica\u00e7\u00f5es. Ao tom dialogante que marcou os encontros de Assis est\u00e1 longe de corresponder id\u00eantica atitude de acolhimento, por parte de muitas tradi\u00e7\u00f5es religiosas, em muitas partes do globo. No interior da Igreja cat\u00f3lica, as posi\u00e7\u00f5es v\u00e3o desde o extremo de um certo simplismo nivelador de todas as religi\u00f5es, com duvidosas releituras do significado da salva\u00e7\u00e3o realizada por Deus em Jesus Cristo, at\u00e9 ao extremo daqueles grupos eclesiais que pretendem fechar-se a qualquer aproxima\u00e7\u00e3o poss\u00edvel (como foi o caso dos que, h\u00e1 tempos e entre n\u00f3s, se manifestaram contra certas iniciativas do Santu\u00e1rio de F\u00e1tima). O percurso parece ainda longo, mas o impulso est\u00e1 dado. Este ser\u00e1, sem d\u00favida, um caminho a trilhar, no futuro pr\u00f3ximo da Igreja, sem enveredar por facilitismos ing\u00e9nuos nem por posi\u00e7\u00f5es endurecidas. Esse foi o programa explicitamente legado por Jo\u00e3o Paulo, cujas palavras ficam a ecoar: \u201cNesta perspectiva, coloca-se tamb\u00e9m o grande desafio do di\u00e1logo inter-religioso, no qual temos de continuar a empenhar-nos no novo s\u00e9culo, segundo a linha tra\u00e7ada pelo Conc\u00edlio Vaticano II. Nos anos de prepara\u00e7\u00e3o para o Grande Jubileu, a Igreja tentou, inclusive com encontros de not\u00e1vel relevo simb\u00f3lico, delinear uma rela\u00e7\u00e3o de abertura e di\u00e1logo com expoentes doutras religi\u00f5es&#8230; O di\u00e1logo deve continuar. Na condi\u00e7\u00e3o de um pluralismo cultural e religioso mais acentuado, como se prev\u00ea na sociedade do novo mil\u00e9nio, isso \u00e9 importante at\u00e9 para criar uma segura premissa de paz e afastar o espectro funesto das guerras de religi\u00e3o que j\u00e1 cobriram de sangue muitos per\u00edodos na hist\u00f3ria da humanidade. O nome do \u00fanico Deus deve tornar-se cada vez mais aquilo que \u00e9: um nome de paz, um imperativo de paz (Novo Millennio Ineunte, 55).  Jo\u00e3o Duque <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 evidente que o contributo do longo pontificado de Jo\u00e3o Paulo II, quer para o di\u00e1logo ecum\u00e9nico (ou seja, o di\u00e1logo da Igreja cat\u00f3lica com outras confiss\u00f5es crist\u00e3s) \u2013 quer para o di\u00e1logo inter-religioso (di\u00e1logo do cristianismo com todas as grandes tradi\u00e7\u00f5es religiosas do mundo), n\u00e3o pode ser abordado de forma satisfa-t\u00f3ria num pequeno artigo. 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