{"id":11073,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/um-pai-afectuoso-e-inesquecivel\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"um-pai-afectuoso-e-inesquecivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/um-pai-afectuoso-e-inesquecivel\/","title":{"rendered":"Um pai afectuoso e inesquec\u00edvel"},"content":{"rendered":"<p>Homilia de D. Ant\u00f3nio Marto, na Eucaristia por Jo\u00e3o Paulo II <!--more--> Ontem, S\u00e1bado, dia 2 de Abril, \u00e0s 20 horas e 37 minutos, no termo da semana pascal da Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, Jo\u00e3o Paulo II entrou na casa do Pai, na Luz divina. H\u00e1 um ano tamb\u00e9m num S\u00e1bado, no dia 3 de Abril, o meu caro antecessor, D. Ant\u00f3nio Monteiro, partia para a mesma casa paterna. Quis a Provid\u00eancia que n\u00f3s hoje, na mesma celebra\u00e7\u00e3o, fa\u00e7amos mem\u00f3ria viva e grata junto do altar do Senhor destes dois pastores: do pastor universal da Igreja e do pastor local da Igreja de Viseu.  Despedimo-nos de Jo\u00e3o Paulo II como de um Pai na f\u00e9, um pai afectuoso e inesquec\u00edvel, depois de o termos acompanhado na sua agonia com a nossa ora\u00e7\u00e3o. Esta eucaristia, para al\u00e9m de ser express\u00e3o de sufr\u00e1gio, \u00e9 sobretudo ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as pelo dom maravilhoso deste Papa e por tudo o que ele foi para n\u00f3s e realizou por n\u00f3s. Os seus sofrimentos, a sua for\u00e7a na doen\u00e7a, a sua morte s\u00e3o como um \u00faltimo sinal do sentido que ele quis dar \u00e0 sua exist\u00eancia: uma uni\u00e3o profunda com Cristo, um amor \u00e0 vida e \u00e0 humanidade, uma f\u00e9 total na ressurrei\u00e7\u00e3o. As leituras que escut\u00e1mos projectam um raio de luz sobre o sentido desta despedida e sobre o caminho do seu minist\u00e9rio pastoral.  1. Um novo Mois\u00e9s, condutor do Povo de Deus  A passagem do livro do Deuteron\u00f3mio apresenta-nos a grande figura de Mois\u00e9s, chamado pelo Senhor a conduzir, atrav\u00e9s do deserto, o longo e dif\u00edcil caminho do povo de Israel, no qual empenhou toda a sua exist\u00eancia at\u00e9 \u00e0 morte. Tamb\u00e9m Jo\u00e3o Paulo II foi chamado a conduzir a Igreja de Jesus em tempos dif\u00edceis e de grandes transforma\u00e7\u00f5es, ao longo do \u00faltimo quartel do s\u00e9culo XX para a levar \u00e0 entrada no novo mil\u00e9nio. E f\u00ea-lo incutindo-lhe a coragem da f\u00e9 desde o in\u00edcio do seu pontificado, com aquela express\u00e3o forte, tantas vezes repetida, e inesquec\u00edvel: \u201cN\u00e3o tenhais medo! Abri , de par em par, as portas a Cristo! Ao seu poder salvador abri as fronteiras dos estados, os sistemas econ\u00f3micos e pol\u00edticos, os vastos campos da cultura, da civiliza\u00e7\u00e3o e do desenvolvimento. N\u00e3o tenhais medo! Cristo sabe o que est\u00e1 dentro do homem. S\u00f3 Ele o sabe!\u201d (22.10.1978). Foi de facto um novo Mois\u00e9s, como condutor e guia do Povo de Deus, indo sempre \u00e0 frente e abrindo caminhos novos. Como Mois\u00e9s foi um grande crente; de uma f\u00e9 s\u00f3lida, forte, convicta e contagiante, alimentada na sar\u00e7a ardente da contempla\u00e7\u00e3o e da ora\u00e7\u00e3o, da experi\u00eancia de Deus intensamente vivida. Manteve-se t\u00e3o firme \u201ccomo se visse o invis\u00edvel\u201d (Heb 11, 27). Manteve-se firme frente a todas as prova\u00e7\u00f5es e amea\u00e7as, porque tinha contemplado o mist\u00e9rio do Senhor glorioso. Esta \u00e9, a meu ver, o segredo da sua for\u00e7a e do seu minist\u00e9rio. Numa visita ao Brasil depois do atentado que sofreu, disse significativamente: \u201cTenho tr\u00eas anos de pontificado, os restantes s\u00e3o milagre&#8230;\u201d Daqui brotava a sua \u00e2nsia apost\u00f3lica de peregrinar pelo mundo, de fazer encontrar os homens com Cristo, de levar a todo o mundo a luz do Evangelho. Por isso, fez-se Peregrino da Esperan\u00e7a e da Paz. Recolheu no seu cora\u00e7\u00e3o as esperan\u00e7as, as ang\u00fastias, as l\u00e1grimas de um s\u00e9culo, sem perder a esperan\u00e7a de que \u201celas prepararam o terreno para uma nova primavera do esp\u00edrito humano\u201d de paz e liberdade. Peregrinou incansavelmente, aproveitando todas as ocasi\u00f5es para amar, encorajar, comprometer a todos nesta causa da paz. Visitou-nos tr\u00eas vezes. Pudemos viver juntos momentos fortes cujas imagens evocam uma esp\u00e9cie de cora\u00e7\u00e3o a cora\u00e7\u00e3o com ele. Era sua caracter\u00edstica falar \u201ccora\u00e7\u00e3o a cora\u00e7\u00e3o\u201d a cada um, particularmente aos jovens. Para eles, o Papa nos \u00faltimos tempos era como o av\u00f4 s\u00e1bio, afectuoso, compreensivo mas tamb\u00e9m exigente. Para o Papa, os jovens eram \u201cas sentinelas da manh\u00e3\u201d a quem confiou o cuidado pelo futuro de vida e esperan\u00e7a do s\u00e9culo XXI. Como Mois\u00e9s tamb\u00e9m o Papa Jo\u00e3o Paulo II podia dizer ao seu povo: \u201cRecorda, Israel, o caminho que o Senhor te fez percorrer\u201d (Deut 8, 2-3. 14-16). Foi verdadeiramente intenso o caminho que o Senhor fez percorrer \u00e0 Igreja, nestes 26 anos, sob a guia do seu Pastor universal. Basta pensar nas 104 viagens pastorais pelo mundo, nas 14 enc\u00edclicas, 15 exorta\u00e7\u00f5es apost\u00f3licas, 45 cartas apost\u00f3licas e nas celebra\u00e7\u00f5es do grande jubileu de 2000, que ofereceu \u00e0 Igreja. Como Mois\u00e9s, tamb\u00e9m o Papa, no termo da vida, foi chamado a subir ao monte, a s\u00f3s com o seu Senhor, para contemplar de longe a \u201cterra prometida\u201d:  a vasta China e a R\u00fassia, levando consigo o sonho de as visitar, deixando ao Senhor dispor os tempos e a alegria da colheita.  2. Um gigante da Hist\u00f3ria, da Igreja e da F\u00e9  A segunda leitura do Apocalipse convida-nos a contemplar a luta perene entre o bem e o mal, a vida e a morte, que atravessa a hist\u00f3ria da humanidade, a pr\u00f3pria Igreja, o cora\u00e7\u00e3o de cada homem e que h\u00e1-de ver a vit\u00f3ria final de Deus,  da sua Gra\u00e7a misericordiosa, em que participa Maria, M\u00e3e de Jesus. Tamb\u00e9m neste campo, o Papa Wojtila foi um  combatente, n\u00e3o com as armas deste mundo, mas com a for\u00e7a do Evangelho. Ficar\u00e1 na hist\u00f3ria como uma das duas ou tr\u00eas figuras religiosas, morais, culturais e pol\u00edticas que marcaram o s\u00e9culo XX.  Ergue-se, na verdade,  como um gigante da Hist\u00f3ria: lutou com todas as suas for\u00e7as contra tudo o que fere e impede a vida e a dignidade na hist\u00f3ria e nas sociedades, contra todos os totalitarismos. Foi o Papa dos direitos humanos, defensor da dignidade da vida humana desde a concep\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e0 morte, advogado dos pobres, promotor e art\u00edfice da Paz. \u201cA guerra \u00e9 sempre uma derrota da consci\u00eancia humana, uma derrota da humanidade\u201d \u2013 disse-o apaixonadamente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 guerra no Iraque.  Ergue-se como um gigante da Igreja: lutou contra tudo o que fere ou impede a vida espiritual e o esp\u00edrito de comunh\u00e3o. Foi o Papa do di\u00e1logo ecum\u00e9nico e inter-religioso, da liberdade religiosa, da purifica\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, do dinamismo da nova evangeliza\u00e7\u00e3o.  Ergue-se como um gigante da f\u00e9: a tempo e contra-tempo, afirmou que Jesus Cristo \u00e9 o caminho que conduz \u00e0 felicidade, ao cora\u00e7\u00e3o do Pai e ao encontro dos homens. E recusou que o homem se deixe cair na mediocridade da vida propondo a todos, com ousadia, \u201c a medida alta da santidade\u201d.  E, nesta causa da hist\u00f3ria humana, assumiu como \u201cadvogada nossa\u201d, Maria, M\u00e3e da Miseric\u00f3rdia, que assiste a humanidade que anseia por erguer-se.  E na enc\u00edclica sobre o Ros\u00e1rio prop\u00f4s-nos Maria como mestra de contempla\u00e7\u00e3o da beleza do rosto de Cristo.  3. Papa da Eucaristia  A passagem do Evangelho de Lucas narra o epis\u00f3dio sugestivo dos dois disc\u00edpulos de Ema\u00fas, um acontecimento vivido que se tornou \u201cevangelho\u201d, boa-nova. Fala-nos de uma tristeza e desilus\u00e3o que, pouco a pouco, se tornaram esperan\u00e7a e ardor, sede de uma palavra e alegria de um reconhecimento com a invoca\u00e7\u00e3o que brota do cora\u00e7\u00e3o: \u201cFica connosco, Senhor!\u201d \u00c9 a boa-nova de que a Igreja vive da Eucaristia, descobre nela a raz\u00e3o da sua vida, o fundamento da sua miss\u00e3o, a for\u00e7a do seu testemunho no mundo. Sabemos como esta narra\u00e7\u00e3o era t\u00e3o cara ao nosso Santo Padre. Tinha-a escolhido como \u00edcone para dar ritmo ao Ano da Eucaristia que constitui a s\u00edntese do seu pontificado. Terminemos pois com a sua \u00faltima ora\u00e7\u00e3o na manh\u00e3 de P\u00e1scoa, precisamente a partir desta invoca\u00e7\u00e3o:  1.Mane nobiscum,Domine!   Fica connosco,Senhor!(Cf.Lc24,29).  Com estas palavras, os disc\u00edpulos de Ema\u00fas convidaram o misterioso Viajante a ficar com eles ao cair da tarde daquele primeiro dia depois do s\u00e1bado no qual havia ocorrido o incr\u00edvel. Segundo a promessa, Cristo havia ressuscitado; mas eles ainda n\u00e3o sabiam. Contudo, as palavras do Viajante durante o caminho fizeram pouco a pouco arder seus cora\u00e7\u00f5es. Por isso convidaram-no: \u00abFica connosco\u00bb. Depois, sentados em torno \u00e0 mesa para a ceia, reconheceram-no \u201cao partir do p\u00e3o\u201d. E, de repente, ele desapareceu. Ante eles ficou o p\u00e3o partido, e em seu cora\u00e7\u00e3o a do\u00e7ura de suas palavras.   2. Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s, a Palavra e o P\u00e3o da Eucaristia, mist\u00e9rio e dom da P\u00e1scoa, permanecem nos s\u00e9culos como mem\u00f3ria perene da paix\u00e3o e ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo. Tamb\u00e9m n\u00f3s hoje, P\u00e1scoa da Ressurrei\u00e7\u00e3o, com todos os crist\u00e3os do mundo, repetimos: Jesus, crucificado e ressuscitado, fica connosco! Fica connosco, amigo fiel e apoio seguro da humanidade em caminho pelas sendas do tempo. Tu, Palavra viva do Pai, infundes confian\u00e7a e esperan\u00e7a a todos que buscam o sentido verdadeiro de sua exist\u00eancia. Tu, P\u00e3o da vida eterna, alimentas o homem faminto de verdade, de liberdade, de justi\u00e7a e de paz.   3. Fica connosco, Palavra viva do Pai, e ensina-nos palavras e gestos de paz: paz para a terra consagrada por teu sangue e cheia de sangue de tantas v\u00edtimas inocentes; paz para os Pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio e da \u00c1frica, onde tamb\u00e9m se segue derramando muito sangue; paz para toda a humanidade, sobre a qual h\u00e1 sempre o perigo de guerras fratricidas. Fica connosco, P\u00e3o da vida eterna, partido e distribu\u00eddo aos comensais: d\u00e1-nos tamb\u00e9m a n\u00f3s a for\u00e7a de uma solidariedade generosa com as multid\u00f5es que, ainda hoje, sofrem e morrem de mis\u00e9ria e de fome, dizimadas por epidemias mort\u00edferas ou arruinadas por enormes cat\u00e1strofes naturais. Pela for\u00e7a de tua Ressurrei\u00e7\u00e3o, que elas participem igualmente de uma vida nova.   4. Tamb\u00e9m n\u00f3s, homens e mulheres do terceiro mil\u00e9nio, temos necessidade de Ti, Senhor ressuscitado. Fica connosco agora e at\u00e9 o fim dos tempos. Faz que o progresso material dos povos nunca obscure\u00e7a os valores espirituais que s\u00e3o a alma de sua civiliza\u00e7\u00e3o. Ajuda-nos, rogamos-te, em nosso caminho. N\u00f3s cremos em Ti, em Ti esperamos, porque s\u00f3 Tu tens palavras de vida eterna (cf. Jo 6, 68). Mane nobiscum, Domine! Alleluia! <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia de D. 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