{"id":1101,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/uma-constituicao-sem-deus\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"uma-constituicao-sem-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/uma-constituicao-sem-deus\/","title":{"rendered":"Uma Constitui\u00e7\u00e3o sem Deus?!&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Fernando Soares, Bispo da Igreja Lusitana (Comunh\u00e3o Anglicana) <!--more--> N\u00e3o me parece uma quest\u00e3o importante. Se nos lembrarmos de quanto no passado o nome de Deus foi usado para interesses \u00ednvios, de que foram v\u00edtimas milh\u00f5es de seres humanos. E isto aconteceu numa Europa em cujos contornos era imanente o car\u00e1cter crist\u00e3o das suas gentes e das suas institui\u00e7\u00f5es mais significativas. Era o tempo do conceito de \u201cna\u00e7\u00e3o crist\u00e3\u201d. Ainda, \u00e9 hoje evidente que aquelas na\u00e7\u00f5es (crist\u00e3s ou n\u00e3o) que referem explicitamente o nome de Deus na sua lei fundamental s\u00e3o as que mais se esquecem d\u2019Ele na sua pr\u00e1tica pol\u00edtica di\u00e1ria. O nome de Deus n\u00e3o deve ser misturado e manipulado ao arrepio de interesses pol\u00edticos. Muito mais importante do que inscrever o nome de Deus numa Constitui\u00e7\u00e3o \u00e9 que os representantes dos pa\u00edses que constituem a Uni\u00e3o Europeia se deixem tomar pela vis\u00e3o e preocupa\u00e7\u00e3o do Reino de Deus nas suas vidas e nas suas decis\u00f5es. O nome de Deus n\u00e3o \u00e9 um \u201cfetiche\u201d ou \u201camoleto\u201d para servir de \u201cimagem de marca\u201d de quem quer que seja. Jesus Cristo disse \u201cpelos frutos os conhecereis\u201d (S.Mat. 7,16) procurando dar-nos a indica\u00e7\u00e3o que s\u00e3o as \u201cboas ac\u00e7\u00f5es\u201d e n\u00e3o as \u201cboas declara\u00e7\u00f5es\u201d que fazem conhecidos a grandeza e o amor de Deus.  Nesse sentido, o que \u00e9 importante \u00e9 que se creia e se afirme a soberania de Deus no momento em que se procura reflectir e refazer o projecto pol\u00edtico, econ\u00f3mico, social e cultural da Europa; \u00e9 que se denuncie tudo o que impe\u00e7a o desenvolvimento da vida em toda a sua plenitude, como express\u00e3o da vontade de Deus; \u00e9 que se recuse o ego\u00edsmo e o individualismo, seja de pessoas ou na\u00e7\u00f5es, na constru\u00e7\u00e3o da \u201ccasa europeia\u201d, tendo em conta o bem comum, a comunh\u00e3o e a inter-rela\u00e7\u00e3o que Deus reclama para a constru\u00e7\u00e3o do Seu Reino entre os homens e as mulheres; \u00e9 que nunca se perca de vista a solidariedade para com os homens, as mulheres, os idosos os jovens, as crian\u00e7as e os imigrantes que subsistem em ambi\u00eancias de morte.  Mas, e a aus\u00eancia de uma refer\u00eancia \u00e0 heran\u00e7a religiosa crist\u00e3?  Todos sabemos como o cristianismo teve marca indel\u00e9vel no forjar da argamassa civilizacional dos povos da Europa que hoje somos. Porqu\u00ea, ent\u00e3o, a omiss\u00e3o da refer\u00eancia expl\u00edcita \u00e0 heran\u00e7a crist\u00e3 no pre\u00e2mbulo da nova Constitui\u00e7\u00e3o Europeia? O cuidado em n\u00e3o ferir sensibilidades de outras heran\u00e7as religiosas, como a judaica e a isl\u00e2mica? O desejo de inclu\u00ed-las numa s\u00f3 express\u00e3o \u201creligiosas\u201d e, portanto, de n\u00e3o querer real\u00e7ar-se uma qualquer? A vontade de fazer esquecer uma vis\u00e3o humanista da vida, centrada numa outra experi\u00eancia \u2013 de Jesus Cristo \u2013 bem diferente da que hoje vigora no \u201cpoliticamente correcto\u201d dos corredores de Bruxelas?  Mas a hist\u00f3ria \u00e9 o que \u00e9 e n\u00e3o o que porventura alguns desejam que tenha sido. Mesmo reconhecendo as significativas diverg\u00eancias religiosas de que a Europa foi palco, desde o s\u00e9culo XVI, creio que ningu\u00e9m por\u00e1 em causa a influ\u00eancia decisiva do cristianismo na constru\u00e7\u00e3o do continente Europeu. Basta olhar os monumentos espalhados pelos pa\u00edses que o comp\u00f5em, atentar na hist\u00f3ria das ideias que a\u00ed proliferaram, nas preocupa\u00e7\u00f5es de reis e outros governantes com a sua rela\u00e7\u00e3o com o Deus de Jesus Cristo, para se perceber que a ambi\u00eancia crist\u00e3 &#8211; seja como acto de f\u00e9, ou de cultura, de arte, de pensamento ou mesmo de ac\u00e7\u00e3o pura e simples \u2013 marcou um modo de ser e de estar, que nem mesmo o chamado s\u00e9culo das luzes foi capaz de apagar. Fica a interroga\u00e7\u00e3o: mas, porqu\u00ea a omiss\u00e3o? Ser\u00e1 que algu\u00e9m tem medo da heran\u00e7a crist\u00e3, ou do que ela pode ressuscitar em onda de esperan\u00e7a e de optimismo \u00e0 margem das institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que actualmente det\u00eam o protagonismo? N\u00e3o sou capaz de responder. A hist\u00f3ria n\u00e3o se apaga, e na dos homens as omiss\u00f5es proporcionam muitas vezes curiosidades n\u00e3o pensadas. \u00c9 o que espero, pois \u2013 quem sabe? \u2013, perante a tend\u00eancia actual na Europa de se querer esconder a vertente religiosa da vida, tal como o cristianismo a afirma, pode acontecer que o Esp\u00edrito Santo pregue a partida j\u00e1 conhecida: transforme a morte em que muitos vaticinam a f\u00e9 crist\u00e3, numa vida de for\u00e7a, que aceita a diversidade e apresta ao servi\u00e7o alegre aos que sofrem. A\u00ed, podemos estar certos, o nome de Deus inscrever-se-\u00e1 n\u00e3o na Constitui\u00e7\u00e3o, que muito poucos v\u00e3o ler, mas no cora\u00e7\u00e3o dos muitos que se deixar\u00e3o tomar por essa outra realidade da vida.  Vila Nova de Gaia, 22 de Junho de 2003 Fernando Soares, Bispo da Igreja Lusitana (Comunh\u00e3o Anglicana) <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernando Soares, Bispo da Igreja Lusitana (Comunh\u00e3o Anglicana)<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[154,203,261,314],"class_list":["post-1101","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-crianca","tag-europa","tag-missoes","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1101","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1101"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1101\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1101"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1101"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1101"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}