{"id":10898,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/homilia-do-patriarca-de-lisboa-na-celebracao-da-paixao\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"homilia-do-patriarca-de-lisboa-na-celebracao-da-paixao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-patriarca-de-lisboa-na-celebracao-da-paixao\/","title":{"rendered":"Homilia do Patriarca de Lisboa na Celebra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>\u201cAnunciamos, Senhor, a Vossa Morte\u201d  \t1. Em cada celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica, logo a seguir \u00e0 consagra\u00e7\u00e3o do p\u00e3o e do vinho, que se transformam no Corpo e Sangue do Senhor, a assembleia que celebra exclama: \u201canunciamos, Senhor a Vossa morte\u201d (Ora\u00e7\u00e3o Eucar\u00edstica), afirmando a rela\u00e7\u00e3o entre a Eucaristia e a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Neste Ano da Eucaristia, neste dia em que a Igreja n\u00e3o celebra a Eucaristia, e se prostra em adora\u00e7\u00e3o da Cruz, meditemos neste mist\u00e9rio insond\u00e1vel da nossa f\u00e9, a rela\u00e7\u00e3o insepar\u00e1vel entre o altar e a cruz. Ali\u00e1s, na Liturgia da Igreja, o crucifixo \u00e9 o \u00fanico sinal n\u00e3o eucar\u00edstico que ocupa, obrigatoriamente, um lugar central na celebra\u00e7\u00e3o. \tNa simb\u00f3lica eucar\u00edstica, devido \u00e0 import\u00e2ncia do s\u00edmbolo do banquete como sinal sacramental, relacionamos a Eucaristia mais com a \u00daltima Ceia, onde ela \u00e9 institu\u00edda, do que com o Calv\u00e1rio. Mas porque a Ceia antecipa o sacrif\u00edcio da Cruz, como entrega da vida humana de Jesus para nossa reden\u00e7\u00e3o, a Eucaristia \u00e9 o sacramento que torna presente na Igreja, tanto a \u00daltima Ceia, como o Calv\u00e1rio. Diz a Enc\u00edclica \u201cEcclesia de Eucharistia\u201d: \u201cA Missa torna presente o sacrif\u00edcio da Cruz; n\u00e3o \u00e9 mais um, nem o multiplica. O que se repete \u00e9 a celebra\u00e7\u00e3o memorial, a \u00abexposi\u00e7\u00e3o memorial\u00bb, de modo que o \u00fanico e definitivo sacrif\u00edcio redentor de Cristo se actualiza incessantemente no tempo. Portanto, a natureza sacrificial do mist\u00e9rio eucar\u00edstico n\u00e3o pode ser entendida como algo isolado, independente da Cruz ou com uma refer\u00eancia apenas indirecta ao sacrif\u00edcio do Calv\u00e1rio\u201d . \tA Eucaristia torna-nos protagonistas do drama do Calv\u00e1rio. As palavras do Senhor, este p\u00e3o \u00e9 o Meu corpo entregue por v\u00f3s, ou que \u00e9 para v\u00f3s, como diz Paulo, s\u00e3o realmente concretizadas de forma cruenta, na morte de Cristo. Elas tornam-se vivas em n\u00f3s quando comungamos o p\u00e3o eucar\u00edstico, recebendo em n\u00f3s esse Corpo do Senhor que Ele entregou por n\u00f3s. \u00c9 como se uma multid\u00e3o de amigos, crentes e fi\u00e9is, estivessem com Maria aos p\u00e9s da Cruz e recebessem, com ela, no seu rega\u00e7o, o corpo do Senhor, morto por causa de n\u00f3s. Na intensidade do nosso cora\u00e7\u00e3o, a Eucaristia pode ganhar a densidade dram\u00e1tica do sacrif\u00edcio da Cruz. Citemos, ainda, a Enc\u00edclica do Santo Padre Jo\u00e3o Paulo II: \u201cEm virtude da sua \u00edntima rela\u00e7\u00e3o com o sacrif\u00edcio do G\u00f3lgota, a Eucaristia \u00e9 sacrif\u00edcio em sentido pr\u00f3prio, e n\u00e3o apenas em sentido gen\u00e9rico como se se tratasse simplesmente da oferta de Cristo aos fi\u00e9is para seu alimento espiritual\u201d .  \t2. Devido a este realismo sacrificial da Eucaristia, nela a Igreja participa nos sentimentos mais profundos de Jesus Cristo, no momento da sua morte. E o principal \u00e9 o seu amor a Deus, seu Pai, na intimidade do amor trinit\u00e1rio. O Senhor tinha afirmado, referindo-se \u00e0 sua morte: Se o Pai me ama, \u00e9 porque Eu Lhe dou a minha vida, para voltar a receb\u00ea-la d\u2019Ele (cf. Jo. 10,17). E aos fariseus Ele diz: \u201cQuando levantardes o Filho do Homem, ent\u00e3o sabereis que Eu Sou e que n\u00e3o fa\u00e7o nada por mim mesmo, mas falo como o Pai Me ensinou\u201d (Jo. 8,28). Jesus revela-nos a Sua consci\u00eancia \u00edntima: a morte na Cruz \u00e9 um acto de amor ao Pai, \u00e9 a mais radical express\u00e3o, na sua humanidade, do seu amor trinit\u00e1rio, como Verbo eterno de Deus. O Senhor convida-nos a partilhar essa intimidade de amor, tanto celebrando a Eucaristia, como adorando a sua Cruz. Tamb\u00e9m a adora\u00e7\u00e3o da Cruz nos introduz nessa insond\u00e1vel comunh\u00e3o de amor, onde continuaremos a ser redimidos. \tDa Eucaristia, enquanto sacramento da Cruz, brota o dinamismo fundamental da nossa f\u00e9: a atrac\u00e7\u00e3o de Deus. Foi o pr\u00f3prio Jesus quem o disse: \u201cningu\u00e9m pode vir a mim se o Pai, que me enviou, n\u00e3o o atrair\u201d (Jo. 6,44). Mas essa atrac\u00e7\u00e3o de Deus Pai, que nos levar\u00e1 a Jesus e \u00e0 comunh\u00e3o com Ele, sentimo-la contemplando a Cruz do Senhor ou vivendo-a na Eucaristia, \u201ce Eu, elevado da terra, atrairei todos a Mim\u201d (Jo. 12,32). \tEstas palavras de Jesus s\u00e3o uma refer\u00eancia clara \u00e0 sua crucifix\u00e3o. Noutra altura Ele disse: \u201cComo Mois\u00e9s levantou a serpente no deserto, assim o Filho do Homem tem de ser levantado, para que todo aquele que acreditar tenha a vida eterna\u201d (Jo. 3,14). Jesus confirma que aquela serpente de bronze levantada por Mois\u00e9s no acampamento e que livrava da mordedura das serpentes aqueles que a contemplassem, anunciava a sua eleva\u00e7\u00e3o na Cruz. A serpente tinha sido o s\u00edmbolo do tentador, na queda original dos nossos primeiros pais. A verdadeira mordedura da serpente \u00e9 o pecado. Quem contemplar a Cruz de Cristo, sente-se atra\u00eddo por Deus e liberta-se da mordedura da serpente. Ali\u00e1s, estava anunciado que o descendente da mulher lhe esmagaria a cabe\u00e7a. Maria, a nova Eva, corporiza a anunciada inimizade entre a mulher e a serpente, e o seu descendente, o \u201cfruto bendito do seu ventre\u201d, lhe esmagar\u00e1 a cabe\u00e7a. A luta entre a serpente e a humanidade, entre o dem\u00f3nio e Deus, trava-se na Cruz e quem sai vitoriosa \u00e9 a humanidade redimida, que volta a deixar-se atrair por Deus. O drama do Calv\u00e1rio \u00e9 grande demais, ali se jogou o nosso destino, \u00e9 inevit\u00e1vel e necess\u00e1rio que continuemos a ser protagonistas desse drama.  \t3. E somo-lo em cada Eucaristia que celebramos. O pr\u00f3prio Senhor fez uma aproxima\u00e7\u00e3o entre a sua morte e a Ceia, referindo-se \u00e0 morte como sendo o c\u00e1lice que tinha de beber. Ouvimos h\u00e1 pouco, na narra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o, Jesus dizer a Pedro: \u201cN\u00e3o hei-de beber o c\u00e1lice que o Pai meu deu?\u201d (Jo. 18,11). O Senhor sabe que a sua morte tem a ver com a celebra\u00e7\u00e3o pascal, assume-se como o Cordeiro sem mancha do sacrif\u00edcio e entrega-se \u00e0 morte como quem bebe a ta\u00e7a da Ceia Pascal; Ele sabe que aquela ta\u00e7a \u00e9 o c\u00e1lice do seu sangue derramado por todos n\u00f3s. Porque somos protagonistas do mesmo drama e comensais da mesma Ceia, somos chamados a beber do mesmo c\u00e1lice. Jesus tinha-o anunciado a Tiago e Jo\u00e3o, filhos de Zebedeu: \u201cPodeis beber o c\u00e1lice que Eu vou beber?\u201d. E \u00e0 sua resposta afirmativa, porventura inconsciente, Jesus confirma: \u201cSim, v\u00f3s bebereis do meu c\u00e1lice\u201d (Mt. 20,22-23). \tEsta \u00e9 a experi\u00eancia de cada Eucaristia, que n\u00f3s descobrimos, sempre de novo, contemplando o Senhor na sua Cruz: Ele distribui-nos o seu c\u00e1lice, que cont\u00e9m a sua morte oferecida por amor e diz-nos: tomai e bebei dele v\u00f3s todos, porque \u00e9 o c\u00e1lice do Meu sangue. E \u00e9 dif\u00edcil beber o sangue de Cristo derramado por amor, sem oferecermos o nosso pr\u00f3prio sangue, oferecido por amor. A Eucaristia e a Cruz s\u00e3o a den\u00fancia de todas as sabedorias deste mundo, que apresentam a vida como uma experi\u00eancia agrad\u00e1vel, a sorver rapidamente. A\u00ed, toma-se a vida na sua exig\u00eancia mais profunda, e na dramaticidade fundamental, em que a alegria \u00e9 uma promessa que brota, quase sempre, da densidade do sofrimento oferecido por amor. \u00c0s diversas sabedorias do nosso tempo, que apresentam vis\u00f5es facilitantes da vida e da felicidade, a \u00fanica resposta continua a ser a sabedoria da Cruz, como j\u00e1 escrevia Paulo aos Cor\u00edntios: frente \u00e0s diversas sabedorias, ele prega um Cristo crucificado, esc\u00e2ndalo para os judeus e loucura para os pag\u00e3os, mas para os que foram chamados, Ele \u00e9 pot\u00eancia de Deus e sabedoria de Deus (cf. 1Cor. 1,23-24). Por isso o Ap\u00f3stolo confessa aos Cor\u00edntios: \u201cN\u00e3o, entre v\u00f3s, n\u00e3o quis saber nada sen\u00e3o Jesus Cristo e Cristo crucificado\u201d (1Cor. 2,2).  \t4. Contemplemos e adoremos a Cruz do Senhor. Ela \u00e9, hoje, na Liturgia, um sacramento de \u201cpresen\u00e7a real\u201d da Paix\u00e3o de Cristo, o c\u00e1lice do seu sangue que Ele pr\u00f3prio bebeu e que amanh\u00e3, partilhando connosco a sua ressurrei\u00e7\u00e3o, voltar\u00e1 a estender-nos, dizendo: tomai e bebei v\u00f3s tamb\u00e9m. Preparemos na adora\u00e7\u00e3o da Cruz a maneira nova de celebrar a Eucaristia, nesta P\u00e1scoa. Adorando a Cruz do Senhor, ganhar\u00e1 realismo a tal vis\u00e3o silenciosa e densa da nossa vida, que se juntar\u00e1 ao sangue do c\u00e1lice de Cristo. Na Cruz, do lado trespassado do Senhor morto, S\u00e3o Jo\u00e3o viu sair sangue e \u00e1gua; do olhar sereno de Maria, a M\u00e3e dolorosa, brota a serenidade da esperan\u00e7a. A luz da P\u00e1scoa que, na nossa f\u00e9, nos revela como protagonistas da nossa reden\u00e7\u00e3o, brilha j\u00e1, com a densidade do sofrimento, daquele Calv\u00e1rio silencioso onde tudo foi consumado.  S\u00e9 Patriarcal, 25 de Mar\u00e7o de 2005  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cAnunciamos, Senhor, a Vossa Morte\u201d 1. Em cada celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica, logo a seguir \u00e0 consagra\u00e7\u00e3o do p\u00e3o e do vinho, que se transformam no Corpo e Sangue do Senhor, a assembleia que celebra exclama: \u201canunciamos, Senhor a Vossa morte\u201d (Ora\u00e7\u00e3o Eucar\u00edstica), afirmando a rela\u00e7\u00e3o entre a Eucaristia e a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. 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