{"id":10897,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/homilia-do-patriarca-de-lisboa-na-missa-da-ceia-do-senhor\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"homilia-do-patriarca-de-lisboa-na-missa-da-ceia-do-senhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-patriarca-de-lisboa-na-missa-da-ceia-do-senhor\/","title":{"rendered":"Homilia do Patriarca de Lisboa na Missa da Ceia do Senhor"},"content":{"rendered":"<p>D. Jos\u00e9 Policarpo esclarece sobre as condi\u00e7\u00f5es para poder comungar <!--more--> &#8220;O Mist\u00e9rio tr\u00eas vezes santo&#8221;   \t1. Esta solene liturgia da Ceia do Senhor, com que iniciamos o Tr\u00edduo Pascal, reveste-se de uma particular densidade, que lhe vem, em primeiro lugar, do facto de ser a \u201cmem\u00f3ria\u201d da Ceia Pascal. A Ceia Pascal significou a plenitude da encarna\u00e7\u00e3o do Verbo eterno de Deus, num acto de entrega ao Pai, que tem a pureza do amor intra-trinit\u00e1rio entre as Pessoas divinas, expresso agora na radicalidade humana da entrega da pr\u00f3pria vida. Naquela Ceia Pascal, Jesus Cristo, Filho de Deus feito Homem, deu a um gesto humano, a profundidade e a santidade do amor entre as Pessoas divinas. A oferta sacrificial de Cristo e o sacramento que a perpetua, est\u00e3o revestidos da santidade do amor divino. A Eucaristia \u00e9, realmente, o \u201cSant\u00edssimo Sacramento\u201d. \tA santidade da Eucaristia exprime-se, antes de mais, no facto de ela ser o sacramento do amor, e o amor-caridade \u00e9 o que de mais santo h\u00e1 em Deus, porque o Deus Santo \u00e9 o Deus que \u00e9 amor. S\u00e3o Jo\u00e3o introduz assim a narra\u00e7\u00e3o da Ceia: \u201cJesus sabendo que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, Ele, que amara os Seus que estavam no mundo, amou-os at\u00e9 ao fim\u201d, o que quer dizer que, \u201cna Eucaristia Jesus demonstra-nos um amor levado at\u00e9 ao extremo, um amor sem medida\u201d . \tNa Eucaristia, como sacramento da P\u00e1scoa, Jesus continua a amar-nos assim, envolvendo-nos no mist\u00e9rio trinit\u00e1rio do Deus amor; a\u00ed exprime-se para n\u00f3s homens o mist\u00e9rio eterno do amor das Pessoas divinas, pelos caminhos da encarna\u00e7\u00e3o. Express\u00e3o total do amor do Filho, pelo Pai, a Eucaristia \u00e9 tamb\u00e9m o sacramento da efus\u00e3o do Esp\u00edrito Santo sobre a Igreja que celebra. Jo\u00e3o Paulo II afirma na Enc\u00edclica \u201cEcclesia de Eucharistia\u201d: \u201cAtrav\u00e9s da comunh\u00e3o do seu Corpo e Sangue, Cristo comunica-nos tamb\u00e9m o seu Esp\u00edrito\u201d. E cita S. Efr\u00e9m: \u201cchamou o p\u00e3o seu Corpo vivo, encheu-o de Si pr\u00f3prio e do seu Esp\u00edrito. E aquele que o come com f\u00e9, come Fogo e Esp\u00edrito. Tomai e comei-o todos; e, com ele, comei o Esp\u00edrito Santo. De facto, \u00e9 verdadeiramente o Meu Corpo, e quem o come viver\u00e1 eternamente\u201d . \tA Eucaristia introduz a Igreja na comunh\u00e3o de amor pr\u00f3pria das Pessoas divinas. Ela \u00e9 a express\u00e3o m\u00e1xima da comunh\u00e3o, a \u201cEpifania da comunh\u00e3o\u201d, chama-lhe Jo\u00e3o Paulo II . Na Eucaristia, a Igreja experimenta, antecipadamente, a comunh\u00e3o perfeita e definitiva, na gl\u00f3ria. Ou\u00e7amos ainda o Santo Padre: \u201cA aclama\u00e7\u00e3o do povo depois da consagra\u00e7\u00e3o termina com as palavras \u00abVinde, Senhor Jesus\u00bb, justamente exprimindo a tens\u00e3o escatol\u00f3gica que caracteriza a celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica (cf. 1Cor. 11,26). A Eucaristia \u00e9 tens\u00e3o para a meta, antegozo da alegria plena prometida por Cristo (cf. Jo. 15,11); de certa forma, \u00e9 antecipa\u00e7\u00e3o do Para\u00edso, \u00abpenhor da futura gl\u00f3ria\u00bb. A Eucaristia \u00e9 celebrada na ardente expectativa de Algu\u00e9m, ou seja, \u00abenquanto esperamos a vinda gloriosa de Jesus Cristo nosso Salvador\u00bb\u201d . Na Eucaristia resplandece a santidade do trono de Deus e a adora\u00e7\u00e3o \u00e9 a atitude adequada e exigida \u00e0 nossa participa\u00e7\u00e3o em t\u00e3o grande mist\u00e9rio. \u00c9 por isso que logo no in\u00edcio da ora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica, a assembleia que celebra exclama: \u201cSanto, Santo, Santo, Senhor Deus do Universo. O C\u00e9u e a Terra proclamam a Vossa gl\u00f3ria. Hossana nas alturas\u201d, juntando a sua voz, num un\u00edssono de louvor, \u00e0 voz dos anjos e dos bem-aventurados. Porque na Eucaristia resplandece a santidade do Deus Alt\u00edssimo, o louvor da Igreja tem de estar em un\u00edssono com o louvor dos Santos, no C\u00e9u.  \t2. Que n\u00f3s, os mortais, ainda na nossa situa\u00e7\u00e3o de pecadores, possamos ter acesso a esta santidade do trono de Deus, \u00e9 dom de miseric\u00f3rdia. Pela santidade de que se reveste, a Eucaristia exige a pureza e a perfei\u00e7\u00e3o daqueles que a celebram. Na Eucaristia tudo deveria ser puro e perfeito.  \tJ\u00e1 na P\u00e1scoa do Antigo Testamento, t\u00e9nue s\u00edmbolo da P\u00e1scoa definitiva, o cordeiro pascal, verdadeiro \u201csacramento\u201d de comunh\u00e3o, deveria ser perfeito: \u201ctomareis um animal sem defeito\u201d (Ex. 12, 5). E o rito de lavar os p\u00e9s, antes da Ceia Pascal, simboliza essa exig\u00eancia de pureza, condi\u00e7\u00e3o para celebrar a P\u00e1scoa. O facto de ser Jesus a lavar os p\u00e9s dos disc\u00edpulos exprime a infinita caridade de que transborda o cora\u00e7\u00e3o de Cristo naquele momento. Mas o gesto em si mesmo \u00e9 um rito de purifica\u00e7\u00e3o. Jesus leva Pedro a aceitar que quem n\u00e3o se deixar lavar, \u201cn\u00e3o tomar\u00e1 parte com Ele\u201d, ou seja, n\u00e3o poder\u00e1 experimentar aquela comunh\u00e3o no amor divino, que a Ceia Pascal inaugura. E logo naquela primeira vez Jesus verifica com tristeza: \u201cV\u00f3s estais limpos, mas n\u00e3o todos\u201d (Jo.13, 10), lamento que o Senhor, ao longo dos s\u00e9culos, exprimiu tantas vezes em tantas celebra\u00e7\u00f5es da Eucaristia.  \t3. Porque todos somos pecadores, a santidade da Eucaristia continua a exigir \u00e0queles que se preparam para a celebrar, o rito da purifica\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 n\u00e3o se exprime na lavagem dos p\u00e9s, mas na gra\u00e7a do sacramento do perd\u00e3o. Entre o sacramento da reconcilia\u00e7\u00e3o e a Eucaristia h\u00e1 uma converg\u00eancia necess\u00e1ria, como escreve o Santo Padre: \u201cA Eucaristia e a Penit\u00eancia s\u00e3o dois sacramentos intimamente unidos. Se a Eucaristia torna presente o sacrif\u00edcio redentor da Cruz, perpetuando-o sacramentalmente, isso significa que dele deriva uma cont\u00ednua exig\u00eancia de convers\u00e3o, de resposta pessoal \u00e0 exorta\u00e7\u00e3o que S\u00e3o Paulo dirigia aos crist\u00e3os de Corinto: \u00abSuplicamo-vos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus\u00bb (2Cor. 5,20). Se, para al\u00e9m disso, o crist\u00e3o tem na consci\u00eancia o peso dum pecado grave, ent\u00e3o o itiner\u00e1rio da penit\u00eancia atrav\u00e9s do sacramento da reconcilia\u00e7\u00e3o torna-se caminho obrigat\u00f3rio para se abeirar e participar plenamente do sacrif\u00edcio eucar\u00edstico\u201d . \tO facto de a gra\u00e7a sacramental do perd\u00e3o nos tornar dignos de participar na Eucaristia, revela-nos a profundidade desse mesmo perd\u00e3o. \u00c9 muito mais que um acto de compreens\u00e3o de Deus a nosso respeito, como se nos dissesse: porque reconheceste o teu pecado, apesar de seres pecador, eu permito que te aproximes do trono santo de Deus. O perd\u00e3o significa \u201crecria\u00e7\u00e3o\u201d do cora\u00e7\u00e3o, a quem o Senhor restitui a pureza exigida pela santidade de Deus. O Deus Santo nunca poderia exprimir a sua bondade permitindo que cora\u00e7\u00f5es marcados pelo pecado se abeirassem, sequer, do seu trono santo. \tEsta exig\u00eancia de convers\u00e3o e de purifica\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o para poder participar, plenamente, na comunh\u00e3o eucar\u00edstica, \u00e9 a mais s\u00e9ria interpela\u00e7\u00e3o posta \u00e0 consci\u00eancia dos crist\u00e3os. A avalia\u00e7\u00e3o dessa pureza interior, que vulgarmente se designa por \u201cestado de gra\u00e7a\u201d, porque s\u00f3 pode ser fruto da ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, f\u00e1-la cada um na intimidade da sua consci\u00eancia. Isso sup\u00f5e, n\u00e3o apenas a no\u00e7\u00e3o da santidade da Eucaristia, mas a forma\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria consci\u00eancia na sua capacidade de discernir o que \u00e9 o pecado, ou seja, quais as atitudes livremente assumidas que interrompem a comunh\u00e3o de amor com Deus, e que deixam marcas negativas no cora\u00e7\u00e3o, que s\u00f3 a ac\u00e7\u00e3o de Deus pode recriar. Nesta forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia, conduzida pela confian\u00e7a no amor de Deus, h\u00e1 extremos a evitar: a atitude facilitante, em que se relativiza a gravidade do pecado, e a atitude escrupulosa, que leva a pessoa a n\u00e3o se aproximar da Eucaristia, mesmo quando nada de grave cortou, na sua vida, a comunh\u00e3o de confian\u00e7a com Deus. De qualquer modo \u00e9 a consci\u00eancia pessoal o juiz das exig\u00eancias da santidade da Eucaristia. Como ensina o Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, \u201caquele que tiver consci\u00eancia de um pecado grave, deve receber o sacramento da reconcilia\u00e7\u00e3o antes de se aproximar da comunh\u00e3o\u201d . Ali\u00e1s o sacramento da reconcilia\u00e7\u00e3o \u00e9 elemento importante na forma\u00e7\u00e3o progressiva da pr\u00f3pria consci\u00eancia. Na sua pr\u00e1tica pastoral e lit\u00fargica a Igreja sempre respeitou este santu\u00e1rio da consci\u00eancia.  \t4. Mas pode haver casos em que, devido \u00e0 mat\u00e9ria, a situa\u00e7\u00e3o de pecado \u00e9 p\u00fablica, tornando-se ent\u00e3o o acesso \u00e0 Eucaristia numa profana\u00e7\u00e3o p\u00fablica da santidade desse sacramento. Nesse caso compete \u00e0 Igreja defender, tamb\u00e9m publicamente, a santidade da Eucaristia, n\u00e3o admitindo \u00e0 comunh\u00e3o eucar\u00edstica aqueles que se mant\u00eam publicamente numa situa\u00e7\u00e3o moral, claramente definida nas normas morais, incompat\u00edvel com a santidade deste sacramento. Esta \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o delicada, a ser posta em pr\u00e1tica com grande caridade pastoral, pois n\u00e3o pode ser arma de arremesso contra ningu\u00e9m ou argumento para teses pastorais, mas motivada pela solicitude pastoral pelas pessoas visadas, que precisam de ser esclarecidas e interpeladas, e tamb\u00e9m pelo respeito por toda a comunidade eucar\u00edstica, que procura fielmente celebrar dignamente a Ceia do Senhor. \tO cultivar, na consci\u00eancia dos fi\u00e9is, o respeito pela exig\u00eancia da santidade da Eucaristia, deve ser feito na confian\u00e7a, n\u00e3o suscitando qualquer forma de medo de se aproximar deste \u201csant\u00edssimo sacramento\u201d, o que no passado aconteceu, com fortes correntes m\u00edsticas a inculcarem o \u201cmedo\u201d e a contribu\u00edrem para que a comunh\u00e3o eucar\u00edstica deixasse de ser alimento normal e simples para o nosso crescimento em santidade. Mas evitemos, igualmente, atitudes de compreens\u00e3o facilitante, sujeitando a Eucaristia \u00e0 vida das pessoas, e n\u00e3o a vida \u00e0s exig\u00eancias do car\u00e1cter sant\u00edssimo deste sacramento. A Eucaristia desafia e transcende mesmo aqueles que a administram pastoralmente. \tNa Liturgia desta tarde, ressalta, em sil\u00eancio recolhido, esta proximidade do Senhor que se nos d\u00e1, e esta santidade de todos os gestos de Deus.  S\u00e9 Patriarcal, 24 de Mar\u00e7o de 2005  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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