{"id":10894,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/homilia-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-na-missa-crismal\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"homilia-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-na-missa-crismal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-na-missa-crismal\/","title":{"rendered":"Homilia do Cardeal Patriarca de Lisboa na Missa Crismal"},"content":{"rendered":"<p>O Sacerdote na Eucaristia <!--more--> 1. Neste Ano da Eucaristia, em Quinta-Feira Santa, dia que evoca, de modo particular, o sacerd\u00f3cio ministerial e a sua rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Ceia Pascal, reunidos em presbit\u00e9rio, proponho-me meditar, convosco, a nossa maneira de estar na Eucaristia, a que presidimos com e para o Povo Santo do Senhor. Pode servir-nos de ponto de partida a afirma\u00e7\u00e3o que Jesus faz de Si Mesmo, relendo o Profeta Isa\u00edas: \u201cO Esp\u00edrito do Senhor est\u00e1 sobre Mim, porque Ele Me ungiu\u201d. Jesus tem uma consci\u00eancia viva de que foi ungido pelo Pai, un\u00e7\u00e3o que interpreta como uma consagra\u00e7\u00e3o: \u201cO Pai consagrou-Me e enviou-Me ao mundo\u201d (Jo. 10,36). \u00c9 essa ac\u00e7\u00e3o de Deus n\u2019Ele que torna Jesus capaz de realizar a sua miss\u00e3o messi\u00e2nica. Para n\u00f3s, tudo come\u00e7ou a\u00ed, na un\u00e7\u00e3o sacerdotal que em n\u00f3s realizou o Esp\u00edrito Santo, raiz do nosso ser profundo, da nossa capacidade de exercer o sacerd\u00f3cio de Jesus Cristo, e da nossa rela\u00e7\u00e3o \u00fanica e peculiar com a Eucaristia. O gesto sacerdotal por excel\u00eancia de Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, sacrif\u00edcio de expia\u00e7\u00e3o e louvor em que Ele pr\u00f3prio \u00e9 a v\u00edtima, que oferece de forma cruenta, na Cruz, mas antecipa na Ceia Pascal, Ele quer realiz\u00e1-lo, at\u00e9 ao fim dos tempos, com o seu Povo e para o seu Povo. Para todos serem capazes de se unir a Ele nessa oferta, todos s\u00e3o ungidos pelo Esp\u00edrito, isto \u00e9, tornados capazes de oferecerem, com Cristo, o sacrif\u00edcio da reden\u00e7\u00e3o. Mas s\u00f3 o podem fazer tendo Cristo como Sacerdote, pois Ele ser\u00e1 sempre, at\u00e9 ao fim, o oferente e a oferta. E esta sua presen\u00e7a sacerdotal em cada assembleia do Povo de Deus que se re\u00fane para oferecer o sacrif\u00edcio da reden\u00e7\u00e3o, o Senhor quis exprimi-la e garanti-la atrav\u00e9s daqueles que ungiu especialmente para isso, tornando-os capazes de serem a presen\u00e7a de Cristo Sacerdote. Para al\u00e9m de sermos membros de um povo sacerdotal, capaz de se unir a Cristo na oferta sacrificial, n\u00f3s somos sacramentos de Jesus Cristo, tornando-O presente como Sacerdote que oferece. N\u00f3s somos chamados a ter com a Eucaristia a mesma rela\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo que, no seu amor infinito pelo Povo, se oferece ao Pai, e a segui-l\u2019O na atitude de dom pessoal e sem limites \u00e0 Igreja que servimos.  2. Come\u00e7o esta medita\u00e7\u00e3o referindo um texto do Papa, na Enc\u00edclica \u201cEcclesia de Eucharistia\u201d, particularmente significativo nesta P\u00e1scoa, especialmente exigente para esse grande sacerdote que \u00e9 Jo\u00e3o Paulo II. Depois de referir a \u201cmisteriosa contemporaneidade\u201d com a P\u00e1scoa de Jesus Cristo, que a Eucaristia nos proporciona, escreve: \u201cEste pensamento suscita em n\u00f3s sentimentos de grande e reconhecido enlevo. H\u00e1, no evento pascal e na Eucaristia que o actualiza ao longo dos s\u00e9culos, uma \u00abcapacidade\u00bb realmente imensa, na qual est\u00e1 contida a hist\u00f3ria inteira, enquanto destinat\u00e1ria da gra\u00e7a da reden\u00e7\u00e3o. Este enlevo deve invadir sempre a assembleia eclesial reunida para a celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica; mas, de maneira especial, deve inundar o ministro da Eucaristia, o qual, pela faculdade recebida na ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal, realiza a consagra\u00e7\u00e3o; \u00e9 ele, com o poder que lhe vem de Cristo, no Cen\u00e1culo, que pronuncia: \u00abIsto \u00e9 o meu Corpo que ser\u00e1 entregue por v\u00f3s\u00bb; \u00abeste \u00e9 o c\u00e1lice do meu Sangue, (\u2026) que ser\u00e1 derramado por v\u00f3s\u00bb. O sacerdote pronuncia estas palavras ou, antes, coloca a sua boca e a sua voz \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o d\u2019Aquele que as pronunciou no Cen\u00e1culo, e quis que fossem repetidas de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o por todos aqueles que, na Igreja, participam ministerialmente do seu sacerd\u00f3cio\u201d. Que entende o Santo Padre por enlevo? A palavra sugere encantamento, emo\u00e7\u00e3o amorosa, ades\u00e3o contemplativa do cora\u00e7\u00e3o. S\u00e3o as experi\u00eancias que saciam o cora\u00e7\u00e3o que, normalmente, provocam essa atitude de enlevo. Foi de enlevo a reac\u00e7\u00e3o dos Ap\u00f3stolos, no Tabor, aquando da transfigura\u00e7\u00e3o de Jesus: que bom \u00e9 estarmos aqui. A express\u00e3o sugere que a Eucaristia n\u00e3o \u00e9 algo que se fa\u00e7a, mas mist\u00e9rio de vida a que nos abandonamos, gerando uma plenitude contemplativa. O que \u00e9 que, na Eucaristia, pode provocar em n\u00f3s este enlevo? Antes de mais, a misteriosa contemporaneidade com a \u00daltima Ceia. Jesus est\u00e1 agora, em cada Eucaristia, a oferecer-se, envolvendo-nos e tornando-nos protagonistas desse gesto m\u00e1ximo da reden\u00e7\u00e3o. Na Eucaristia, ao oferecermos Jesus Cristo, quebramos v\u00e1rias fronteiras: a do homem e do divino, pois profundamente humanos, fazemos algo que s\u00f3 Deus pode fazer; a do pecado e da gra\u00e7a, pois sendo pecadores, realizamos o mais puro dos gestos do amor divino; a que separa o passado, do presente e do futuro, pois ao fazer mem\u00f3ria da P\u00e1scoa de h\u00e1 dois mil anos, realizamos no presente um acto que inaugura a eternidade. Mas, o motivo mais comovedor desse enlevo \u00e9 a nossa identifica\u00e7\u00e3o com Cristo na ac\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica, dizendo n\u00f3s e fazendo Ele o que s\u00f3 Ele pode fazer. Daqui brota uma exig\u00eancia de radicalidade no dom da nossa pr\u00f3pria vida. N\u00f3s dizemos realmente, \u201ceste \u00e9 o meu Corpo, tomai e comei\u201d; n\u00e3o oferecemos apenas a vida do Senhor, mas a nossa pr\u00f3pria vida, n\u00f3s que, desde o baptismo, j\u00e1 formamos, com Ele, um mesmo Corpo. O \u201cCorpo de Cristo\u201d, oferecido na Eucaristia, \u00e9 o Corpo ressuscitado do Senhor, que se tornou, atrav\u00e9s da f\u00e9 e do baptismo, corpo m\u00edstico de Cristo. Esta radicalidade de oferta seria imposs\u00edvel, se n\u00e3o a fiz\u00e9ssemos unidos a Jesus Cristo e em seu nome. Mas n\u2019Ele e com Ele, \u00e9 realmente oferta da nossa vida, na sua totalidade, tudo o que somos, temos e sabemos. A Eucaristia \u00e9 a fonte da santidade de vida do sacerdote, \u00e9 o sacramento da sua convers\u00e3o cont\u00ednua, a for\u00e7a da sua fidelidade. A espiritualidade sacerdotal \u00e9, inevitavelmente, uma espiritualidade eucar\u00edstica.  3. Na medida em que o sacerdote se deixa envolver por esse enlevo eucar\u00edstico, conduz toda a assembleia celebrante a esse encantamento do mist\u00e9rio e \u00e0 entrega generosa da vida. O presidente de uma assembleia eucar\u00edstica transforma um conjunto de pessoas que se congregaram, em assembleia oferente e em povo sacerdotal. \u00c9 isso presidir \u00e0 Eucaristia, n\u00e3o apenas porque se garante a efic\u00e1cia sacramental, pronunciando as palavras da consagra\u00e7\u00e3o, mas porque em tudo, un\u00e7\u00e3o, palavra e gestos, se vai conduzindo aquela assembleia para o \u00e2mago da celebra\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio. Como os antigos profetas sacerdotes, os sacerdotes de Cristo oferecem a Eucaristia numa profunda e comovida ora\u00e7\u00e3o. Na Eucaristia, o sacerdote \u00e9, fundamentalmente, um grande orante, com a f\u00e9 e a un\u00e7\u00e3o que toda a ora\u00e7\u00e3o exige. Reza, em nome de Cristo, ao Pai; reza com a Igreja e em nome da Igreja, povo crente, a Jesus Cristo; reza em seu pr\u00f3prio nome e em nome da assembleia a que preside, comovido com a dignidade e o privil\u00e9gio de presidir \u00e0 ac\u00e7\u00e3o sagrada: \u201cn\u00f3s vos damos gra\u00e7as porque nos admitistes \u00e0 vossa presen\u00e7a, para vos servir nestes santos mist\u00e9rios\u201d (Ora\u00e7\u00e3o Eucar\u00edstica II); ou \u201cn\u00e3o olheis aos nossos pecados, mas \u00e0 f\u00e9 da vossa Igreja\u201d (Ora\u00e7\u00e3o Eucar\u00edstica). E na medida em que o sacerdote que preside vai conduzindo a assembleia a uma verdadeira atitude eucar\u00edstica, arrasta a comunidade para a ora\u00e7\u00e3o e tem a alegria de sentir que toda a ora\u00e7\u00e3o do sacerdote \u00e9 sempre ora\u00e7\u00e3o da Igreja e com a Igreja. Esta densidade eucar\u00edstica de ora\u00e7\u00e3o prolonga-se, depois, na ora\u00e7\u00e3o do sacerdote, na Liturgia das Horas, na adora\u00e7\u00e3o, na medita\u00e7\u00e3o silenciosa, na celebra\u00e7\u00e3o dos outros sacramentos, na condu\u00e7\u00e3o do Povo de Deus nos caminhos de aprofundamento da f\u00e9 e de pr\u00e1tica da caridade. A Eucaristia abra\u00e7a a totalidade da vida do sacerdote. O mist\u00e9rio da Eucaristia transcende-nos, mergulhamos nele com humildade e confian\u00e7a, na expectativa da sua completa manifesta\u00e7\u00e3o. Mas este enlevo eucar\u00edstico est\u00e1 ao nosso alcance, desde que presidamos na humildade da f\u00e9, na confian\u00e7a da ora\u00e7\u00e3o, com a gratid\u00e3o ao Senhor de nos ter escolhido e consagrado para este minist\u00e9rio. Oxal\u00e1, nesta P\u00e1scoa, este enlevo inunde o nosso cora\u00e7\u00e3o a ponto de conduzirmos as nossas comunidades a esse mesmo enlevo, express\u00e3o da nossa comunh\u00e3o de amor com Cristo que, mais uma vez, quer celebrar a P\u00e1scoa connosco.  S\u00e9 Patriarcal, 24 de Mar\u00e7o de 2005  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Sacerdote na Eucaristia<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[108,199,237,246,275,294],"class_list":["post-10894","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-ano-da-eucaristia","tag-espiritualidade","tag-joao-paulo-ii","tag-liturgia","tag-pascoa","tag-sacramentos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10894","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10894"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10894\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10894"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10894"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10894"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}