{"id":10818,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/a-pascoa-e-a-sua-manifestacao\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"a-pascoa-e-a-sua-manifestacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-pascoa-e-a-sua-manifestacao\/","title":{"rendered":"A P\u00e1scoa e a sua manifesta\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Homilia do Cardeal-Patriarca no Domingo de Ramos <!--more--> 1. Na Hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o, todos os acontecimentos salv\u00edficos, que assinalam a interven\u00e7\u00e3o de Deus em favor do seu Povo, s\u00e3o acompanhados da sua manifesta\u00e7\u00e3o, que revela como toda a ac\u00e7\u00e3o de Deus \u00e9 concretiza\u00e7\u00e3o do seu amor salv\u00edfico. \u00c9 dif\u00edcil ao povo deixar comover o cora\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o percebe o mist\u00e9rio de amor que as ac\u00e7\u00f5es concretas exprimem. \u00c9 por isso que os acontecimentos salv\u00edficos precisam de ser interpretados, para que sejam recebidos como interven\u00e7\u00e3o amorosa de Deus. Os factos e a interpreta\u00e7\u00e3o que lhes revela o sentido e os enquadra no des\u00edgnio salv\u00edfico de Deus, s\u00e3o constitutivos dos acontecimentos da Salva\u00e7\u00e3o. A palavra dos Profetas tem essa fun\u00e7\u00e3o de desvendar a insond\u00e1vel inten\u00e7\u00e3o divina. Toda a palavra prof\u00e9tica que constitui o Novo Testamento \u00e9 interpreta\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo, sobretudo da sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o, a mais radical express\u00e3o do amor de Deus pelos homens. Essa revela\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica \u00e9 continuada pela palavra da Igreja, ao longo dos tempos, levando os homens de cada gera\u00e7\u00e3o e de todas as latitudes e culturas, a sentirem-se amados e salvos por Deus, em Jesus Cristo. Por vezes s\u00e3o outros acontecimentos que desvelam a mensagem profunda do acontecimento central.  O mist\u00e9rio do nascimento de Jesus em Bel\u00e9m \u00e9 revelado pelo aparecimento do Anjo aos pastores e pela adora\u00e7\u00e3o dos Magos. A pr\u00f3pria Palavra revelada oferece-nos o acontecimento e a sua \u201cepifania\u201d, isto \u00e9, a sua manifesta\u00e7\u00e3o. Encontramos o mesmo ritmo revelador na liturgia deste primeiro Domingo da Paix\u00e3o: o sentido salv\u00edfico da morte de Cristo come\u00e7a a ser revelado por um outro acontecimento: a entrada messi\u00e2nica de Jesus em Jerusal\u00e9m, que nos d\u00e1 a chave principal da interpreta\u00e7\u00e3o salv\u00edfica da morte de Cristo e a situa no projecto salv\u00edfico de Deus: ela \u00e9 a plena realiza\u00e7\u00e3o da miss\u00e3o messi\u00e2nica de Jesus, como Ele a concebia, a miss\u00e3o do Servo sofredor, que oferece a vida para resgate da multid\u00e3o. A entrada triunfal de Jesus em Jerusal\u00e9m, aclamado como Messias-Rei, \u00e9 a \u201cepifania\u201d do Calv\u00e1rio. H\u00e1 uma converg\u00eancia de mensagem entre a aclama\u00e7\u00e3o daquela multid\u00e3o em festa: \u201cHossana ao Filho de David! Bendito o que vem em nome do Senhor. Hossana nas alturas\u201d, e a conclus\u00e3o da medita\u00e7\u00e3o sobre a Paix\u00e3o de Cristo, feita por Paulo na Carta aos Filipenses: \u201cE toda a l\u00edngua proclame que Jesus Cristo \u00e9 o Senhor\u201d (Fil. 2, 11).  2. A manifesta\u00e7\u00e3o do sentido salv\u00edfico da Paix\u00e3o de Cristo, atrav\u00e9s da entrada messi\u00e2nica de Jesus em Jerusal\u00e9m, abre-nos a uma perspectiva importante para a evangeliza\u00e7\u00e3o em todos os tempos e circunst\u00e2ncias: o an\u00fancio do sentido da morte de Jesus Cristo s\u00f3 \u00e9 captado de modo a comover os cora\u00e7\u00f5es, se se enquadrar num quadro cultural que o torne facilmente compreens\u00edvel. Para os habitantes de Jerusal\u00e9m, oprimidos pelo estrangeiro ocupante, o que agudizava as veleidades libertadoras e escatol\u00f3gicas, a expectativa messi\u00e2nica oferecia esse quadro cultural. O Messias era esperado como libertador e rei de Israel, que introduziria o Povo escolhido na fase definitiva do seu triunfo. Encenar uma entrada messi\u00e2nica em Jerusal\u00e9m, com um \u201cgui\u00e3o\u201d oferecido pelos an\u00fancios prof\u00e9ticos, era uma linguagem f\u00e1cil de entender. Mas esta cena mostra-nos tamb\u00e9m que o acontecimento revelador n\u00e3o se pode separar do acontecimento revelado. Aquela entrada triunfal n\u00e3o vale por si; \u00e9, antes, uma sugest\u00e3o do sentido da Paix\u00e3o de Cristo, o Messias segundo a tradi\u00e7\u00e3o do \u201cServo de Yahw\u00e9\u201d. E a passagem de um acontecimento ao outro tem a exig\u00eancia do acontecimento central, a morte de Cristo e a aceita\u00e7\u00e3o de um Messias sofredor, com a ren\u00fancia a todos os triunfalismos f\u00e1ceis e imediatos que isso significa. E esta passagem n\u00e3o era f\u00e1cil, como o veio a mostrar a atitude, n\u00e3o s\u00f3 daquela multid\u00e3o, mas dos pr\u00f3prios disc\u00edpulos de Jesus. Quem ficou prisioneiro daquela exalta\u00e7\u00e3o messi\u00e2nica, acabou por ver em Jesus o Messias-Rei, de cariz pol\u00edtico imediato, perspectiva messi\u00e2nica que Ele pr\u00f3prio tantas vezes rejeitou e que s\u00f3 agrava o esc\u00e2ndalo da sua morte humilhante. A hist\u00f3ria b\u00edblica ensina-nos que os acontecimentos se iluminam uns aos outros e que \u00e9 preciso captar qual \u00e9 o acontecimento central, para cuja compreens\u00e3o converge o sentido de todos os outros, mesmo os sofrimentos do homem e as atribula\u00e7\u00f5es da Hist\u00f3ria. E n\u00f3s sabemos que o acontecimento central para a liberta\u00e7\u00e3o da humanidade \u00e9, para todos os homens e em todos os tempos, a morte e a ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo. \u00c9 por isso que celebramos a P\u00e1scoa.  3. Que acontecimentos ou realidades humanas poder\u00e3o, no nosso contexto cultural, abrir as intelig\u00eancias e os cora\u00e7\u00f5es para o sentido humano e libertador da morte de Cristo? Toda a cultura, e tamb\u00e9m a actual, tem as suas recusas e oferece aberturas \u00e0 compreens\u00e3o desse mist\u00e9rio. Qualquer encena\u00e7\u00e3o actual do triunfo messi\u00e2nico de Jesus seria, certamente, insignificativa, embora as categorias b\u00edblicas sejam elemento integrador da nossa cultura ocidental. Que factos e dinamismos da nossa realidade actual poder\u00e3o ajudar a abrir os cora\u00e7\u00f5es ao mist\u00e9rio da morte de Cristo, permitindo perceber e exclamar que Ele \u00e9 verdadeiramente Senhor, manifesta\u00e7\u00e3o do amor de Deus por n\u00f3s? O primeiro sinal a sugerir o sentido da Palavra de Jesus, podemos encontr\u00e1-lo, sem d\u00favida e neste momento que passa, na pessoa de Jo\u00e3o Paulo II e na sua \u201cpaix\u00e3o\u201d, que vive com a alegria da entrega da pr\u00f3pria vida, numa unidade clara com todo o seu minist\u00e9rio e miss\u00e3o. Ele percebeu que contribui tanto para a evangeliza\u00e7\u00e3o e para a salva\u00e7\u00e3o do mundo, neste apagamento doloroso da sua vida, enfraquecida pela idade e pela doen\u00e7a, como nas suas viagens triunfais pelas cinco partes do mundo. Esta compreens\u00e3o da fecundidade apost\u00f3lica do sofrimento e do apagamento da vida, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel \u00e0 luz da P\u00e1scoa e abre-nos para a compreens\u00e3o da misteriosa fecundidade da morte de Cristo. Tamb\u00e9m por isso viveremos esta P\u00e1scoa numa comunh\u00e3o especial com o Santo Padre. Mas lancemos o nosso olhar para tantos exemplos de dom da pr\u00f3pria vida em favor de outros irm\u00e3os, marcados pelo sofrimento, pela doen\u00e7a, pela mis\u00e9ria ou atingidos por cat\u00e1strofes naturais. Em todas essas circunst\u00e2ncias continuam a agigantar-se exemplos de sacrif\u00edcio da pr\u00f3pria vida, para salvar os outros, factos que n\u00e3o podem ser isolados em si mesmos, em an\u00e1lises limitadas de circunst\u00e2ncia; \u00e9 preciso enquadr\u00e1-los na grandeza da humanidade, fecundada pela morte de Jesus Cristo. E se visit\u00e1ssemos os hospitais, onde se encontra concentrado o drama do sofrimento humano, ou os lares para idosos, onde a velhice e a doen\u00e7a s\u00e3o terra onde germina dificilmente a alegria? E as pris\u00f5es, onde ao desgaste da culpa se acrescenta a humilha\u00e7\u00e3o da pena e a perda da liberdade, alterando profundamente o horizonte da vida? E os desempregados, pais e m\u00e3es de fam\u00edlia, que perderam o direito \u00e0 dignidade de constru\u00edrem com o seu trabalho a felicidade da sua fam\u00edlia? E as v\u00edtimas inocentes de guerras, de terrorismos e conflitos, para cujos mecanismos e causas nada contribu\u00edram? Enquanto a sociedade, como um todo, passar ao lado, indiferente a todo esse sofrimento, centrada, apenas, no aumento de riquezas e comodidades, fazendo da perda do poder de compra o seu principal problema, dificilmente os cora\u00e7\u00f5es se abrir\u00e3o \u00e0 esperan\u00e7a libertadora de que a morte de Cristo \u00e9 sinal eficaz.  4. A narra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o do Senhor mostra-nos que nela se concentraram todos os desvios da humanidade; a trai\u00e7\u00e3o de um disc\u00edpulo e amigo, que O entrega a troco de dinheiro; a dispers\u00e3o assustada dos disc\u00edpulos, que na pr\u00e1tica, fogem e O abandonam; a mentira dos testemunhos, a ambiguidade dos objectivos, a perplexidade e fraqueza de quem julga, a crueldade abusiva na execu\u00e7\u00e3o da pena, n\u00e3o respeitando a dignidade do condenado. Olhemos o nosso mundo, n\u00e3o ignoremos as trai\u00e7\u00f5es e os que est\u00e3o dispostos a tudo por dinheiro, ou a indiferen\u00e7a dos amigos na hora da prova\u00e7\u00e3o, ou as incertezas da justi\u00e7a humana. Olhemos o nosso mundo de frente, porque tamb\u00e9m essas fraquezas fazem parte da sociedade que queremos transformar; olhemo-lo, n\u00e3o para condenar, mas para compreender, \u00e0 luz do drama humano, como continua a ser importante que um homem, Jesus Cristo, tenha suportado tudo isso, tenha oferecido e vencido tudo isso, no amor. E que a generosidade da sua morte continua a ser o maior testemunho do amor de Deus por n\u00f3s. E se alcan\u00e7armos, num mesmo olhar, todos os nossos irm\u00e3os que sofrem e a Ele, o nosso Irm\u00e3o sofredor, teremos aberto o nosso cora\u00e7\u00e3o \u00e0 luz da P\u00e1scoa, anunciando a morte do Senhor, proclamando a sua ressurrei\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que Ele venha.  S\u00e9 Patriarcal, 20 de Mar\u00e7o de 2005  \u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia do Cardeal-Patriarca no Domingo de Ramos<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[206,237,246,275],"class_list":["post-10818","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-familia","tag-joao-paulo-ii","tag-liturgia","tag-pascoa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10818","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10818"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10818\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10818"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10818"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10818"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}