{"id":10665,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/etica-nas-empresas-mobiliza-consciencias-para-o-bem-comum\/"},"modified":"2018-03-06T14:10:02","modified_gmt":"2018-03-06T14:10:02","slug":"etica-nas-empresas-mobiliza-consciencias-para-o-bem-comum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/etica-nas-empresas-mobiliza-consciencias-para-o-bem-comum\/","title":{"rendered":"\u00c9tica nas empresas mobiliza consci\u00eancias para o bem comum"},"content":{"rendered":"<p>As rela\u00e7\u00f5es inter-pessoais no mundo laboral e as perspectivas de lucro na actual economia de mercado pressup\u00f5em, cada vez mais, princ\u00edpios de orienta\u00e7\u00e3o s\u00f3lidos, capazes de garantir a felicidade de todos e de cada um. A Doutrina Social da Igreja, a este respeito, surge como revolucion\u00e1ria. Concretizar os seus ditames, ainda que motivados em contextos hist\u00f3ricos espec\u00edficos, \u00e9 actualizar a mensagem do Evangelho e interpretar os sinais dos tempos com uma mentalidade esclarecida. Associa\u00e7\u00f5es nacionais e internacionais s\u00e3o disso testemunho no nosso tempo. A ideia nasceu em 1951, em Roma. Encontrando-se entre a multid\u00e3o na Pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro, por ocasi\u00e3o do Ano Santo, o engenheiro portugu\u00eas Hor\u00e1cio de Moura travou conhecimento com o Secret\u00e1rio da UCID italiana (uni\u00e3o crist\u00e3 de dirigentes). De regresso a Portugal, empenhou-se em concretizar a pastoral dos empres\u00e1rios, com o apoio do ent\u00e3o jovem capel\u00e3o do Carmelo, assistente da JOC e da LOC (Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica), padre Jo\u00e3o Evangelista.  Actualmente com 81 anos, o Pe. Jo\u00e3o Evangelista pertence \u00e0 diocese de Coimbra e recorda que foi colega dos bispos madeirenses D. Teodoro Faria e D. Maur\u00edlio Gouveia, em Roma, onde \u00abfiz estudos sociais na Universidade Gregoriana. Trabalhei na Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica. Fui professor do ISET (Instituto Superior de Estudos Teol\u00f3gicos de Coimbra) e da Universidade Cat\u00f3lica, em Lisboa, onde introduzi a cadeira de \u00c9tica Empresarial\u00bb.  Em entrevista ao Jornal da Madeira deu a conhecer o interesse e os objectivos da Associa\u00e7\u00e3o Crist\u00e3 de Empres\u00e1rios e Gestores (ACEGE), com grande notoriedade no nosso pa\u00eds e apostada em praticar os conte\u00fados da Doutrina Social da Igreja.   <i>Jornal da Madeira \u2014 Que motivos presidem a uma associa\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica de entidades patronais ou empres\u00e1rios?  Pe. Jo\u00e3o Evangelista \u2014<\/i> O motivo principal \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o dos empres\u00e1rios dentro dos par\u00e2metros da \u00e9tica, da Doutrina Social da Igreja.  As enc\u00edclicas sociais constituem um tema obrigat\u00f3rio, um verdadeiro manual de conduta para reuni\u00f5es e encontros, para quest\u00f5es cadentes do trabalho, da fiscalidade, por exemplo. Desde o in\u00edcio, a nossa ac\u00e7\u00e3o apostou em congressos e actividades que centravam a sua aten\u00e7\u00e3o nos problemas do trabalho e das car\u00eancias sociais. Com o 25 de Abril, as coisas mudaram. Tivemos dificuldade em superar certas situa\u00e7\u00f5es, predominavam os ideiais marxistas, os revolucionarismos baratos e a luta de classes n\u00e3o eram favor\u00e1veis e a Igreja n\u00e3o queria comprometer-se com os chamados ricos. Nessa altura, s\u00f3 t\u00ednhamos contactos internacionais.  Mais recentemente, mud\u00e1mos o nome para ACEGE \u2014 Associa\u00e7\u00e3o Crist\u00e3 de Empres\u00e1rios e Gestores \u2014 numa esp\u00e9cie de \u201cmarketing\u201d, mas os princ\u00edpios continuam a ser os mesmos.  Ali\u00e1s, D. Ant\u00f3nio Marcelino, ent\u00e3o bispo do Apostolado dos Leigos, sugeriu-nos a necessidade de arranjar outra roupagem, de modo a alargar o leque de participa\u00e7\u00f5es. E assim continuamos. Hoje, a ACEGE \u00e9 uma refer\u00eancia de alto n\u00edvel no panorama social e econ\u00f3mico do nosso pa\u00eds.   <i>JM \u2014 Que resposta tem a Doutrina Social, por exemplo, para as quest\u00f5es do emprego, para as crises da economia? H\u00e1 influ\u00eancias concretas?  JE \u2014<\/i> Uma das grandes iniciativas da ACEGE \u00e9 a relaiza\u00e7\u00e3o de congressos. E, por aqui, j\u00e1 se pode avaliar a import\u00e2ncia em seguir a Doutrina Social da Igreja e o grau de influ\u00eancia que exerce nas empresas. O \u00faltimo congresso, com a participa\u00e7\u00e3o de mais de mil empres\u00e1rios, foi sobre a \u00e9tica empresarial. Uma an\u00e1lise concreta sobre a necessidade de se introduzirem nas empresas preocupa\u00e7\u00f5es de fundo, com car\u00e1cter s\u00f3lido, como a imagem de uma empresa honesta, respons\u00e1vel, com vista ao bem-estar de todos os seus agentes e da comunidade em geral. Esta consci\u00eancia n\u00e3o pode faltar.  Mas a maior preocupa\u00e7\u00e3o, neste momento, incide sobre os problemas da cidadania.  Temos, neste campo, a revista \u201cNova Cidadania\u201d ligada \u00e0 ACEGE. Uma esp\u00e9cie de cord\u00e3o umbilical, de conselho consultivo, com o apoio de peritos, que contribui grandemente para exist\u00eancia da Associa\u00e7\u00e3o. A \u201cNova Cidadania\u201d tem na sua direc\u00e7\u00e3o o Professor Jo\u00e3o Carlos Espada e o Professor M\u00e1rio Pinto, entre outros reputados especialistas na mat\u00e9ria.  As nossas preocupa\u00e7\u00f5es v\u00e3o no sentido de proporcionar bom relacionamento entre todos os intervenientes em quest\u00f5es do c\u00f3digo do trabalho e legisla\u00e7\u00e3o laboral, em geral. Para o m\u00eas de Outubro, prev\u00ea-se a aprova\u00e7\u00e3o do C\u00f3digo para os empres\u00e1rios.   <i>JM \u2014 Mas o problema do emprego n\u00e3o passa s\u00f3 pelos decisores pol\u00edticos, \u00e9 essa consci\u00eancia que tem de ser posta em pr\u00e1tica?  JE \u2014<\/i> Com certeza. As coisas agora n\u00e3o se resolvem s\u00f3 assim. Estou a preparar um trabalho sobre a pobreza e descubro coisas interessantes. No fundo, estamos mergulhados nesta no\u00e7\u00e3o de globalidade que \u00e9 real, mas quase que s\u00f3 a entendemos como oportunidade para os neg\u00f3cios. Ora, a globaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m para o mundo da cultura, da religi\u00e3o, em todos os dom\u00ednios da vida humana. O mundo de hoje est\u00e1 a acordar para uma realidade de complementaridades fundamentais.  Vejamos, a verdade hoje n\u00e3o est\u00e1 nas ideologias separadas, est\u00e1 nas s\u00ednteses, em saber fazer as s\u00ednteses das direitas e das esquerdas. A verdade n\u00e3o est\u00e1 num lado s\u00f3, uma sem a outra n\u00e3o sobrevive. \u00c9 preciso entender o que une as duas realidades que lutam logicamente em direc\u00e7\u00f5es opostas, mas que, no fundo, na sua profundidade, se aproximam.  Creio que as decis\u00f5es pol\u00edticas ou a pol\u00edtica se est\u00e3o a meter muito na luta contra a pobreza. Isto \u00e9 um campo que sempre foi da Igreja e que fala, antes de mais, \u00e0s consci\u00eancias. Fica-se espantado com esta ideia da guerra contra a pobreza, da luta antipobreza porque, de facto, \u00e9 um problema social de primeira evid\u00eancia.  Mas come\u00e7amos a perceber que n\u00e3o h\u00e1 nenhum problema concreto do emprego, do trabalho, etc., que dependa s\u00f3 de uma decis\u00e3o pol\u00edtica; \u00e9, sobretudo, uma quest\u00e3o cultural muito grave. Veja-se o que sucedeu ao chamado sal\u00e1rio m\u00ednimo garantido, que, a par dos benef\u00edcios devidos, criou outros v\u00edcios e ilus\u00f5es.   <b>Pobreza n\u00e3o se resolve com esmolas<\/b> A Doutrina Social, na sequ\u00eancia da caridade da Igreja, promove uma mentalidade de acordo com o realismo presente. Durante s\u00e9culos, resolv\u00edamos os problemas dos pobres com esmolas. Mas o problema das esmolas est\u00e1 em causa nesta altura. Se fizermos uma an\u00e1lise mais aprofundada sobre isto, de acordo com as interpreta\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas de Calvino e de Lutero, reconhecemos que esta mentalidade da esmola surgiu com o da salva\u00e7\u00e3o pela f\u00e9: \u00abs\u00f3 Deus salva, s\u00f3 a f\u00e9 salva\u00bb. Muitas ila\u00e7\u00f5es se foram tirando da\u00ed e uma delas \u00e9 que se os pobres eram os amaldi\u00e7oados, os desamparados de Deus que os n\u00e3o queria salvar. Havia, entretanto, a sensa\u00e7\u00e3o de que essa gente, por esse caminho, n\u00e3o encontrava a salva\u00e7\u00e3o. Era preciso encontrar os caminhos do trabalho, porque havia tamb\u00e9m muitos pobres falsos e mentirosos e que resultavam de uma certa pregui\u00e7a em assumir compromissos ou responsabilidades.  O nosso realismo tem de partir da\u00ed. Temos de saber o que \u00e9 a pessoa humana, temos de perceber que as pessoas procuram todas, \u00e0 sua maneira, o seu bem-estar, o seu maior benef\u00edcio poss\u00edvel, e n\u00e3o podemos apresentar-lhes uma doutrina totalmente pura, angelical ou despida destes interesses. O ser humano exige que se fa\u00e7a uma s\u00edntese. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pregar \u00e0 alma que se resolvem os problemas do ser e da pessoa.   <i>JM \u2014 O que acha da afirma\u00e7\u00e3o que a \u201cIgreja n\u00e3o se deve meter na pol\u00edtica\u201d? Simples preconceito?  JE \u2014<\/i> Essa frase \u00e9 s\u00e1bia apenas quando se trata de pol\u00edtica partid\u00e1ria, de luta pelo seu grupo. No geral, a pol\u00edtica compromete-se nas solu\u00e7\u00f5es concretas e todas as solu\u00e7\u00f5es t\u00eam as suas imperfei\u00e7\u00f5es. Os crist\u00e3os n\u00e3o podem, de maneira alguma, comprometer-se nessas solu\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias, porque, na sua percep\u00e7\u00e3o, pode haver aperfei\u00e7oamentos constantes. Os crist\u00e3os devem empenhar-se, sim, numa vis\u00e3o do mundo que envolva as realidades temporais, englobando tamb\u00e9m as pol\u00edticas, mas para as ajudar a resolver e a aperfei\u00e7oar as solu\u00e7\u00f5es que forem encontrando, como ainda h\u00e1 pouco aconteceu com o congresso sobre a \u00e9tica empresarial.  O congresso n\u00e3o foi para ensinar o \u201cabc\u201d \u00e0s pessoas, mas lev\u00e1-las a reflectir e a introduzir nas suas empresas preocupa\u00e7\u00f5es que antes n\u00e3o tinham.   <i>JM \u2014 O lucro prejudica o esp\u00edrito de equipa empresarial e a solidariedade?  JE \u2014<\/i> N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel dizer a uma pessoa fiel a Deus e \u00e0 Igreja que o lucro n\u00e3o deve existir. O lucro \u00e9 uma realidade t\u00e3o natural e ligada a todas as actividades humanas, que cada um de n\u00f3s procura tirar proveito da sua actividade, para que se obtenham bons resultados. Se as pessoas t\u00eam uma actividade econ\u00f3mica, o lucro \u00e9 uma resolu\u00e7\u00e3o boa, \u00e9 o sucesso dessa actividade. Se trabalham e n\u00e3o t\u00eam lucro, ent\u00e3o o melhor \u00e9 n\u00e3o fazer nada. Se trabalhamos para fazer o bem e n\u00e3o conseguimos esse benef\u00edcio, era melhor mudarmos de of\u00edcio, n\u00e3o \u00e9? Por outro lado, n\u00e3o se pode confundir esta pr\u00e1tica saud\u00e1vel do lucro com o capitalismo. Penso que isso j\u00e1 est\u00e1 muito ultrapassado. O capitalismo, como ideologia n\u00e3o existe, como tantas outras que ficaram pelo caminho. Hoje, estamos numa fase de maior consciencializa\u00e7\u00e3o.   <i>JM \u2014 Em suma, a Doutrina Social da Igreja \u00e9 sempre actual e promissora dos projectos humanos.  JE \u2014<\/i> \u00c9 isso. Considero as grandes enc\u00edclicas sociais como cartilhas fecund\u00edssimas de vitalidade. S\u00e3o pioneiras nos temas. As coisas que nelas est\u00e3o tratadas foram reflectidas com a autoridade de quem sabe do assunto.  O que se passa, muitas vezes, \u00e9 que falta este \u201carejamento\u201d, esta mentalidade. E \u00e9 preciso p\u00f4r tudo isso em pr\u00e1tica. Os crist\u00e3os e toda a gente em geral deviam estar mais atentos a esta doutrina e arejar esses textos precisos, escondidos eventualmente na prateleiras. \u00c9 preciso met\u00ea-los na vida, traz\u00ea-los de novo \u00e0 leitura dos acontecimentos.  Assim, sem d\u00favida, se justifica a exist\u00eancia de uma Associa\u00e7\u00e3o Crist\u00e3 de Empres\u00e1rios.  \u00c9 preciso deixar-se guiar por essas orienta\u00e7\u00f5es s\u00e1bias que h\u00e1 mais de um s\u00e9culo sugerem o bem comum como provid\u00eancia \u00fanica para se evitarem os conflitos, as crises ou a falta de desenvolvimento social.  Tudo isto tamb\u00e9m pressup\u00f5e uma viv\u00eancia aut\u00eantica do espiritual. O esquema mais grave e a grande preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 a perda do sentido sagrado na nossa sociedade. Confundem-se espiritualismos com espiritualidade. Promovem-se grandes actividades, mas n\u00e3o somos capazes de transmitir o sentido do sagrado. As pessoas precisam de aprender a rezar, a falar com Deus e a viver na fonte das \u00e1guas vivas. Se as pessoas v\u00e3o \u00e0s igrejas e encontram uma certa superficialidade, cada um a falar para o seu lado, a\u00ed tudo se torna mais dif\u00edcil. Esquecemo-nos, n\u00f3s os crist\u00e3os, de que somos apenas tabuletas para indicar o caminho de Deus e do c\u00e9u. As pessoas, se n\u00e3o descobrem isso, n\u00e3o descobrem nada. Se n\u00e3o conseguimos transmitir esta primeira exig\u00eancia interior, praticamente n\u00e3o prestamos grandes servi\u00e7os.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As rela\u00e7\u00f5es inter-pessoais no mundo laboral e as perspectivas de lucro na actual economia de mercado pressup\u00f5em, cada vez mais, princ\u00edpios de orienta\u00e7\u00e3o s\u00f3lidos, capazes de garantir a felicidade de todos e de cada um. A Doutrina Social da Igreja, a este respeito, surge como revolucion\u00e1ria. 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