{"id":10631,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/perdao-da-divida-pode-evitar-o-estrangulamento-financeiro-dos-paises-pobres\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"perdao-da-divida-pode-evitar-o-estrangulamento-financeiro-dos-paises-pobres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/perdao-da-divida-pode-evitar-o-estrangulamento-financeiro-dos-paises-pobres\/","title":{"rendered":"Perd\u00e3o da d\u00edvida pode evitar o estrangulamento financeiro dos pa\u00edses pobres"},"content":{"rendered":"<p>Os pa\u00edses ricos parecem, finalmente, interessar-se pela situa\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses pobres e em particular por \u00c1frica, o continente que tem ficado \u00e0 margem do progresso econ\u00f3mico e social. Surgiram recentemente estudos (como o de Jeffrey Sachs, a pedido da ONU) e propostas concretas que permitem alguma esperan\u00e7a. N\u00e3o demasiada, por\u00e9m: a experi\u00eancia mostra que h\u00e1 muita ret\u00f3rica nestes gestos em favor dos subdesenvolvidos, nem sempre seguida de ac\u00e7\u00f5es concretas. E, sobretudo, importa ter consci\u00eancia de que a ajuda, s\u00f3 por si, pouco adianta, excepto em casos de emerg\u00eancia. Para sa\u00edrem do subdesenvolvimento as na\u00e7\u00f5es pobres devem contar, antes de mais, consigo pr\u00f3prias. Por exemplo, precisam de governos decentes, que n\u00e3o sejam corruptos e n\u00e3o explorem os respectivos povos em seu proveito particular. A corrup\u00e7\u00e3o deu m\u00e1 imagem \u00e0 ajuda ao desenvolvimento, que tem vindo a cair. De facto, boa parte dessa ajuda perdeu-se nas m\u00e3os de gente sem escr\u00fapulos. Mas h\u00e1 formas de ajuda eficazes. A mais importante, a meu ver, \u00e9 abrir o mercado dos ricos \u00e0s importa\u00e7\u00f5es provenientes dos pa\u00edses pobres, contrariando proteccionismos (e sabe-se como sindicatos e patr\u00f5es se unem quando se trata de impedir a concorr\u00eancia dos pa\u00edses pobres). Ali\u00e1s, abrir o mercado \u00e9, em rigor, ajuda ao pr\u00f3prio pa\u00eds que a concretiza, embora possa ferir interesses sectoriais. Mas h\u00e1 outras modalidades de ajuda, que o G8 (o grupo dos oito pa\u00edses mais poderosos do mundo) dever\u00e1 analisar em Julho. O perd\u00e3o da d\u00edvida \u00e9 um ponto a reter. Fala-se, at\u00e9, de um perd\u00e3o a 100 por cento aos pa\u00edses africanos mais endividados. Desde que usado com crit\u00e9rio, caso a caso, e n\u00e3o induza a ideia de que a m\u00e1 gest\u00e3o do dinheiro compensa, o perd\u00e3o da d\u00edvida pode evitar o estrangulamento financeiro de que agora s\u00e3o v\u00edtimas v\u00e1rios pa\u00edses. J\u00e1 me parece menos vi\u00e1vel a proposta francesa de uma sobretaxa incidindo em gastos como viagens a\u00e9reas (inspirada na c\u00e9lebre \u00abtaxa Tobin\u00bb) para financiar a ajuda ao desenvolvimento. H\u00e1, todavia, uma \u00e1rea onde a ajuda faz todo o sentido: a sa\u00fade e as condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias das popula\u00e7\u00f5es. Em \u00c1frica, a necessidade desse aux\u00edlio \u00e9 gritante \u2013 e n\u00e3o s\u00f3 por causa da sida, que dizima povos inteiros. A ind\u00fastria farmac\u00eautica insiste nas patentes, que encarecem os medicamentos. Insiste com raz\u00e3o: a investiga\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento de uma nova droga m\u00e9dica demoram por vezes d\u00e9cadas. Nenhuma empresa se abalan\u00e7ar\u00e1 a tal se n\u00e3o tiver a perspectiva de vir a ganhar algum dinheiro com esse investimento. Mas os pa\u00edses ricos podem e devem financiar mais generosamente a distribui\u00e7\u00e3o nos pa\u00edses pobres de medicamentos patenteados. J\u00e1 se deram passos neste sentido e seria bom avan\u00e7ar mais, pois o primeiro e fundamental recurso de qualquer pa\u00eds \u2013 e, por maioria de raz\u00e3o, dos pa\u00edses pobres \u2013 est\u00e1 nas pessoas. O mais importante, por\u00e9m, \u00e9 a atitude perante a pobreza e o subdesenvolvimento. H\u00e1 40 anos, com a descoloniza\u00e7\u00e3o e o forte crescimento econ\u00f3mico nas na\u00e7\u00f5es adiantadas, predominava o optimismo. Julgava-se que a mis\u00e9ria em breve seria vencida. N\u00e3o foi, nem sequer nos pa\u00edses mais ricos. A decep\u00e7\u00e3o, a que se somou o fracasso do colectivismo como meio de desenvolvimento econ\u00f3mico, conduziu a um alheamento face \u00e0 pobreza. Esta passou a ser encarada com fatalismo: sempre existir\u00e1, nada h\u00e1 a fazer. Pelo contr\u00e1rio, a verdade \u00e9 que h\u00e1, como mostram as vit\u00f3rias sobre a fome na China e na \u00cdndia. O problema \u00e9 mais complexo do que se julgava h\u00e1 d\u00e9cadas, sem d\u00favida. Mas est\u00e1 a\u00ed mais uma raz\u00e3o para se estudar a quest\u00e3o do subdesenvolvimento e da ajuda, em vez de nos desinteressarmos dela. Ora o tema parece estar de novo na agenda dos pol\u00edticos e tamb\u00e9m dos meios acad\u00e9micos. Esta nova atitude \u00e9 uma boa not\u00edcia.  <i>Francisco Sarsfield Cabral, Al\u00e9m-Mar, n\u00ba 535<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os pa\u00edses ricos parecem, finalmente, interessar-se pela situa\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses pobres e em particular por \u00c1frica, o continente que tem ficado \u00e0 margem do progresso econ\u00f3mico e social. Surgiram recentemente estudos (como o de Jeffrey Sachs, a pedido da ONU) e propostas concretas que permitem alguma esperan\u00e7a. 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