{"id":106257,"date":"2018-05-26T00:52:30","date_gmt":"2018-05-25T23:52:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=106257"},"modified":"2018-05-28T17:40:40","modified_gmt":"2018-05-28T16:40:40","slug":"legalizacao-da-eutanasia-comigo-nao-contem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/legalizacao-da-eutanasia-comigo-nao-contem\/","title":{"rendered":"Legaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia? Comigo n\u00e3o contem!"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"font-weight: 400;\">Eug\u00e9nio Fonseca, presidente da C\u00e1ritas Portuguesa<\/span><\/em><!--more--><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na pr\u00f3xima semana, os deputados portugueses v\u00e3o decidir sobre a legaliza\u00e7\u00e3o, ou n\u00e3o, da pr\u00e1tica da eutan\u00e1sia no nosso pa\u00eds. A minha posi\u00e7\u00e3o est\u00e1 expressa no t\u00edtulo deste texto. Reconhe\u00e7o que n\u00e3o se trata de um tema f\u00e1cil. Por\u00e9m, sinto-me no dever de partilhar algumas raz\u00f5es da minha posi\u00e7\u00e3o. Declaro, desde j\u00e1, que o meu n\u00e3o \u00e0 eutan\u00e1sia em nada tem a ver com a minha op\u00e7\u00e3o religiosa. O sentido da dignidade da vida e da morte transcende religi\u00f5es, sistemas filos\u00f3ficos ou ideol\u00f3gicos. Sendo realidades radicadas no direito natural que, por serem intr\u00ednsecas \u00e0 exist\u00eancia humana, s\u00e3o intoc\u00e1veis.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ningu\u00e9m pediu para nascer. S\u00f3 por situa\u00e7\u00f5es err\u00f3neas, \u00e9 que a vida n\u00e3o resulta de um ato de amor. \u00c9, por isso, uma d\u00e1diva. Sei, contudo, que muitas vidas s\u00e3o fruto de atitudes hediondas, mas se a progenitora ou progenitor, bem como a crian\u00e7a nascida, forem envoltos em compreens\u00e3o e apoio amorosos poder\u00e3o superar muitos dos sofrimentos causados por um come\u00e7o monstruoso. H\u00e1 tamb\u00e9m muitos seres humanos que tendo nascido em consequ\u00eancia de uma rela\u00e7\u00e3o de amor, por circunst\u00e2ncias muito variadas e complexas, s\u00e3o frequentemente confrontados com a dor e o sofrimento. Para a dor, as ci\u00eancias m\u00e9dicas, felizmente, t\u00eam avan\u00e7ado muito na descoberta de solu\u00e7\u00f5es para a atenuar ou superar. Quanto ao sofrimento, o rem\u00e9dio mais eficaz \u00e9 a presen\u00e7a amiga de quem est\u00e1, ou se faz, pr\u00f3ximo, levando escuta, compreens\u00e3o, compaix\u00e3o (n\u00e3o comisera\u00e7\u00e3o, mas capacidade de sofrer com os outros), ternura, \u00e2nimo, procura de solu\u00e7\u00f5es. Quando as ang\u00fastias resultam de injusti\u00e7as estruturais, a supera\u00e7\u00e3o das mesmas est\u00e1 em medidas de governa\u00e7\u00e3o que garantam a defesa e o cumprimento dos direitos humanos fundamentais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Estas minhas convic\u00e7\u00f5es est\u00e3o alicer\u00e7adas, sobretudo, em experi\u00eancias vividas. Na \u00faltima d\u00e9cada, tive dois <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">annus horribilis<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Adoeci gravemente. A morte chegou a fazer-se anunciar. Foram muitos e exigentes os atos cl\u00ednicos a que fui submetido, com as inerentes dores f\u00edsicas. N\u00e3o me lembro da intensidade de alguma. Bastava dizer que sentia dor e aparecia o analg\u00e9sico adequado. O que recordo, com eterna gratid\u00e3o, \u00e9 a dedica\u00e7\u00e3o extremosa dos colaboradores do Hospital de S\u00e3o Bernardo; das auxiliares de a\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, de enfermeiras e enfermeiros que passaram noites \u00e0 minha cabeceira; das m\u00e9dicas e m\u00e9dicos que arriscaram tudo para me libertarem da morte e me alimentarem a esperan\u00e7a da cura. Devo a minha sobreviv\u00eancia a todos os que, nos servi\u00e7os de cirurgia, cuidados intensivos, urologia e oncologia me olharam e sorriram com ternura, me deram palavras encorajadoras. Recordo ainda, com igual gratid\u00e3o, a presen\u00e7a sofrida da fam\u00edlia, a visita reconfortante de muitos amigos e conhecidos, o monte de cartas de pessoas que, vivendo longe, n\u00e3o deixaram de se fazer presentes atrav\u00e9s daquelas missivas carregadas de afabilidades.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 verdade que tenho encontrado muitas pessoas que me t\u00eam dito algo do g\u00e9nero: \u201cPara ter esta vida seria melhor morrer; Assim, n\u00e3o vale a pena viver; Ando c\u00e1 a mais; Sinto que sou estorvo; J\u00e1 n\u00e3o aguento tanta dor\u2026\u201d. Estes s\u00e3o os que me falam da falta de trabalho, dos meses, e at\u00e9 anos, que est\u00e3o a aguardar por uma consulta ou interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica, que falam do abandono dos filhos que n\u00e3o os visitam em suas casas ou nos lares para onde os arrumaram; das despesas mais elementares que n\u00e3o conseguem suportar para viverem com o m\u00ednimo de dignidade; das suspei\u00e7\u00f5es infundadas e cal\u00fanias eutan\u00e1sicas. Enfim, os exclu\u00eddos, os explorados, os \u201cres\u00edduos\u201d, as \u201csobras\u201d, os descartados desta sociedade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Senhores deputados, os portugueses n\u00e3o vos deram mandato para legislarem sobre a eutan\u00e1sia. Em nenhum dos programas eleitorais dos vossos partidos, com exce\u00e7\u00e3o do PAN, foi inscrita esta proposta. N\u00e3o me parece, por isso, que tenham legitimidade democr\u00e1tica para tratar, no Parlamento, esta problem\u00e1tica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por favor, utilizem o mandato que vos foi dado para a cria\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas legislativas que gerem mais postos de trabalho e com dignidade; que tornem mais eficaz o Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade de modo a que todos tenham acesso a cuidados de sa\u00fade necess\u00e1rios e atempados; que a ningu\u00e9m falte uma habita\u00e7\u00e3o condigna; que se acabe com a pobreza em que vivem mais de dois milh\u00f5es de portugueses; aumente a corresponsabilidade cidad\u00e3, expressa no reconhecimento e valoriza\u00e7\u00e3o do voluntariado. Sei que tudo isto exigir\u00e1 mais de v\u00f3s do que levantarem-se de uma cadeira do hemiciclo para votarem a despenaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ficarei muito triste se vierdes a unir-vos por causa deste problema e nunca terdes sido capazes de responder a apelos de compromisso de regime para viabilizar solu\u00e7\u00f5es que tanto sofrimento t\u00eam causado a muitos concidad\u00e3os.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eug\u00e9nio Fonseca, presidente da C\u00e1ritas Portuguesa<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":88283,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[204],"class_list":["post-106257","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao","tag-eutanasia-bioetica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/106257","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=106257"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/106257\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/88283"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=106257"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=106257"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=106257"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}