{"id":106081,"date":"2018-05-23T15:02:03","date_gmt":"2018-05-23T14:02:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=106081"},"modified":"2018-05-29T10:19:34","modified_gmt":"2018-05-29T09:19:34","slug":"que-diz-quem-sofreu-sem-poder-pedir-a-eutanasia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/que-diz-quem-sofreu-sem-poder-pedir-a-eutanasia\/","title":{"rendered":"Que diz quem sofreu sem poder pedir a eutan\u00e1sia?"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Autor<\/a><\/em><!--more-->Escrevem-se muitas palavras s\u00e1bias que alertam sobre o retrocesso civilizacional que representa uma lei como a da eutan\u00e1sia. E muito do que li aborda a esfera da experi\u00eancia pessoal de quem faz voluntariado em hospitais com doentes em fase terminal, ou mesmo profissionais de medicina em cuidados paliativos. Os que est\u00e3o a favor da lei sabem o que \u00e9 melhor para quem pede a eutan\u00e1sia, mas pouco tenho visto sobre quem vive a dor na pele.<\/p>\n<p>Alison Davis \u00e9 uma mulher que \u00e0 nascen\u00e7a e durante a inf\u00e2ncia contraiu:<\/p>\n<ul>\n<li><em>espinha b\u00edfida<\/em>, uma anomalia cong\u00e9nita do sistema nervoso<\/li>\n<li><em>hidrocefalia<\/em>, uma doen\u00e7a onde o l\u00edquido cefalorraquiano acumula na cabe\u00e7a, fazendo aumentar a press\u00e3o intracraniana e incha\u00e7o do cr\u00e2nio;<\/li>\n<li><em>efisema pulmonar<\/em>, excessiva presen\u00e7a de ar nos interst\u00edcios dos pulm\u00f5es que tornam dif\u00edcil a respira\u00e7\u00e3o;<\/li>\n<li>e <em>osteoporose<\/em>, uma perda acelerada da massa \u00f3ssea.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Aos 18 anos os m\u00e9dicos dizem-lhe que tem pouco tempo de vida e tenta v\u00e1rias vezes suicidar-se. Aos 30 anos, a espinha colapsa e vive per\u00edodos de uma dor f\u00edsica insuport\u00e1vel. Durante 10 deseja morrer, e diz que se a eutan\u00e1sia fosse volunt\u00e1ria t\u00ea-la-ia pedido.<\/p>\n<p>Uma vez tomou uma <em>overdose<\/em> de comprimidos para as dores e cortou os pulsos. Bebeu uma garrafa inteira de Martini e deitou-se \u00e0 espera da morte. Como a sua porta estava sempre destrancada, uma amiga encontra-a e consegue lev\u00e1-la para o hospital. Os m\u00e9dicos salvam-na contra a sua vontade.<\/p>\n<p>Diz Alison num coment\u00e1rio publicado na \u201c<em>Disabilities Studies Quarterly<\/em>\u201d que <em>\u201dse a eutan\u00e1sia fosse legal, ent\u00e3o, eu teria sido morta e, assim, negada a oportunidade de redescobrir o meu valor humano<\/em>.<\/p>\n<p>O ponto de viragem acontece em 1995 numa viagem que faz \u00e0 \u00cdndia. L\u00e1 encontra-se com um grupo de crian\u00e7as com defici\u00eancias. Enquanto jogava com elas, come\u00e7am a chamar-lhe de \u201cmam\u00e3\u201d e repentinamente sente um ardor e vontade de as amar como se fossem filhos seus. Quando as deixou para voltar a Inglaterra disse para o seu assistente a tempo inteiro, Colin &#8211; <em>\u201dacho que quero viver.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Desde esse momento que funda uma institui\u00e7\u00e3o de caridade, a Enable (Working in India), para ajudar as centenas de crian\u00e7as com defici\u00eancias que encontrou na \u00cdndia. Diz ainda Alison que \u201c<em>a eutan\u00e1sia teria roubado os \u00faltimos 18 anos da minha vida, e teria roubado \u00e0s \u2018minhas\u2019 crian\u00e7as indianas um futuro para al\u00e9m de serem pedintes.\u201d<\/em><\/p>\n<h2>Dar voz ao que sofre<\/h2>\n<p>A hist\u00f3ria de Alison \u00e9 dura e comoveu-me. Ela encontrou um sentido humanit\u00e1rio para a sua vida que a eutan\u00e1sia lhe teria negado.<\/p>\n<p>Cada ser humano possui em si um des\u00edgnio de fazer coisas grandes. N\u00e3o precisa de sa\u00fade plena para ter o cora\u00e7\u00e3o do tamanho do mundo quando se dedica a aliviar o sofrimentos dos outros.<\/p>\n<p>Alison dizia que<\/p>\n<blockquote><p>\u201da verdadeira compaix\u00e3o est\u00e1 em lembrar os que sofrem de que o seu sofrimento n\u00e3o altera o seu valor humano infinito. (&#8230;) Aceitar os pedidos de uma eutan\u00e1sia \u2018volunt\u00e1ria\u2019 \u00e9 aceitar que a defici\u00eancia ou doen\u00e7a \u00e9 um destino pior do que a morte.<\/p>\n<p>As \u2018minhas\u2019 crian\u00e7as Indianas salvaram a minha vida, n\u00e3o apesar do seu sofrimento, mas por causa dele. Argumentar que as pessoas que sofrem t\u00eam vidas in\u00fateis \u00e9 voltar as costas \u00e0 maior aventura de aprendizagem que a vida pode oferecer.<\/p>\n<p>Dei-me conta que s\u00f3 atrav\u00e9s da ajuda \u00e0s pessoas que sofrem para que descubram a sua verdadeira, inerente dignidade e valor, \u00e9 que podemos, realmente, permitir que pessoas vulner\u00e1veis vivam com dignidade at\u00e9 que morram naturalmente.<\/p><\/blockquote>\n<p>Em 2013, com 58 anos, mais 40 do que seria esperado, Alison Davis deixou-nos, mas fa\u00e7o votos que a sua voz e experi\u00eancia continue a ressoar e inspirar, independentemente do resultado da vota\u00e7\u00e3o na Assembleia da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>Alison Davis, \u201cA Disabled Person&#8217;s Perspective on Euthanasia\u201d, Disability Studies Quarterly, Summer 2004, Volume 24, No. 3, Link: <a href=\"http:\/\/dsq-sds.org\/article\/view\/512\/689\">http:\/\/dsq-sds.org\/article\/view\/512\/689<\/a><\/p>\n<p>Sobre Alison Davis: <a href=\"https:\/\/www.telegraph.co.uk\/news\/obituaries\/medicine-obituaries\/10512019\/Alison-Davis-obituary.html\">https:\/\/www.telegraph.co.uk\/news\/obituaries\/medicine-obituaries\/10512019\/Alison-Davis-obituary.html<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o 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