{"id":10585,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/presidente-do-episcopado-brasileiro-contra-reducao-da-vida-humana-a-objecto\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"presidente-do-episcopado-brasileiro-contra-reducao-da-vida-humana-a-objecto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/presidente-do-episcopado-brasileiro-contra-reducao-da-vida-humana-a-objecto\/","title":{"rendered":"Presidente do Episcopado brasileiro contra redu\u00e7\u00e3o da vida humana a objecto"},"content":{"rendered":"<p>A Confer\u00eancia Nacional de Bispos do Brasil (CNBB) continua a mostrar a sua preocupa\u00e7\u00e3o sobre temas importantes de aspectos de Bio\u00e9tica implicados no \u201cProjecto de Lei de Biosseguran\u00e7a\u201d, recentemente aprovado pelo Congresso brasileiro. \u201cLamento que, no Brasil, tenha chegado o momento em que, at\u00e9 no plano legislativo, a vida humana \u00e9 reduzida a objeto ou a mercadoria\u201d, afirma o Cardeal Geraldo Majella Agnelo, presidente da CNBB, nesta entrevista difundida pelo organismo episcopal.  <i>CNBB &#8211; A postura da Igreja muda a partir da aprova\u00e7\u00e3o da Lei de Biosseguran\u00e7a? D. Geraldo Majella Agnelo &#8211;<\/i> N\u00e3o muda a compreens\u00e3o que a Igreja tem da dignidade da vida humana em todos os est\u00e1gios de seu desenvolvimento, desde os momentos iniciais, no ventre materno, at\u00e9 os momentos finais da aventura terrena. A vida humana tem um valor sagrado, ela \u00e9 inviol\u00e1vel. Quando se abre uma excep\u00e7\u00e3o a esta regra, a vida humana passa a ser considerada um bem do qual se pode dispor, passa a ser tratada de acordo com a utilidade que tem, podendo ser negociada, ferida, destru\u00edda, segundo os interesses dominantes.  Aprovar uma lei que fere a vida, permitindo o uso de embri\u00f5es para retirar deles as c\u00e9lulas-tronco n\u00e3o somente ter\u00e1 como consequ\u00eancia a destrui\u00e7\u00e3o de uma grande quantidade de vidas humanas no seu est\u00e1gio inicial, quando \u00e9 mais indefesa e vulner\u00e1vel, mas cria uma mentalidade que se difunde e penetra no quotidiano: todos aprender\u00e3o que se pode destruir uma vida sempre que isto traga alguma vantagem. A civiliza\u00e7\u00e3o ocidental nasceu exactamente do respeito pela vida como um bem sagrado, indispon\u00edvel ao poder do ser humano. N\u00e3o somente as crian\u00e7as que nasciam com defeitos f\u00edsicos eram preservadas, mas eram tratadas como sinal misterioso da presen\u00e7a divina que interpela atrav\u00e9s daquela criatura. Isto mudou as tradi\u00e7\u00f5es do mundo pag\u00e3o, que mesmo nas regi\u00f5es mais desenvolvidas, como a antiga Gr\u00e9cia, matavam essas crian\u00e7as.  Acumulou-se, ao longo dos s\u00e9culos, uma riqueza de experi\u00eancia de acolhimento, de amor, de respeito \u00e0 vida de grande valor. Lembro neste momento as cartas de Emanuel Mounier sobre o sofrimento, em que fala de como ele tratava a sua menina nascida com grave defici\u00eancia f\u00edsica, colocando-a na cabeceira da mesa quando recebia h\u00f3spedes em sua casa, sinal que nenhuma defici\u00eancia diminui a dignidade de uma pessoa. Lamento que, no Brasil, tenha chegado o momento em que, at\u00e9 no plano legislativo, a vida humana \u00e9 reduzida a objecto ou a mercadoria.  <i>CNBB<\/i> O que \u00e9 que os pol\u00edticos crist\u00e3os devem fazer no momento? GMA &#8211;<\/i> Os pol\u00edticos crist\u00e3os devem saber dar as raz\u00f5es das suas op\u00e7\u00f5es, de modo a que n\u00e3o se diga que uma op\u00e7\u00e3o nasce da raz\u00e3o e outra nasce da f\u00e9. Esta \u00e9 uma impostura para n\u00e3o enfrentar os argumentos e n\u00e3o se submeter ao di\u00e1logo racional.  Quem afirma que os crist\u00e3os s\u00e3o contr\u00e1rios ao progresso da ci\u00eancia, anti-modernos e coisas semelhantes, n\u00e3o est\u00e1 querendo dialogar, assume uma posi\u00e7\u00e3o arrogante, tentando desqualificar o interlocutor.  Vale a pena continuar o debate porque n\u00e3o terminou ainda o caminho legislativo atrav\u00e9s do qual uma proposta se torna efectivamente lei.  <i>CNBB &#8211; No plen\u00e1rio da c\u00e2mara estavam pessoas deficientes refor\u00e7ando o lobby para a vota\u00e7\u00e3o da Lei de Biosseguran\u00e7a. Esta promessa de cura ou esta expectativa n\u00e3o seria uma ilus\u00e3o que pode desembocar em decep\u00e7\u00f5es? GMA &#8211;<\/i> O debate a respeito das c\u00e9lulas-tronco foi conduzido no plano emocional, envolvendo pessoas doentes que, justamente, se apegam a qualquer esperan\u00e7a de cura. Por desinforma\u00e7\u00e3o ou por interesses n\u00e3o revelados, curas obtidas em decorr\u00eancia do uso de c\u00e9lulas- tronco adultas foram atribu\u00eddas a c\u00e9lulas embrion\u00e1rias humanas. \u00c9 o caso do editorial de um dos jornais de maior circula\u00e7\u00e3o nacional, que afirmava: \u201cos deputados certamente ser\u00e3o sens\u00edveis aos argumentos a favor da autoriza\u00e7\u00e3o das pesquisas com c\u00e9lulas-tronco embrion\u00e1rias, que se tornam particularmente convincentes (&#8230;) como  no caso do menino italiano que foi curado de uma forma grave de anemia\u201d. A cientista Alice Teixeria Ferreira, Professora de Biof\u00edsica na UNIFESP (\u00e1rea de Biologia Celular \u2013 Sinaliza\u00e7\u00e3o Celular), a esse respeito afirmou: \u201ccabe aqui referir que a not\u00edcia dispon\u00edvel no meio m\u00e9dico especializado \u00e9 no sentido de que a anemia, designada por \u2018anemia de Fanconi\u2019 vem sendo tratada, desde 2001, pelo Dr Pasquini, com c\u00e9lulas-tronco de cord\u00e3o umbilical, que s\u00e3o c\u00e9lulas-tronco adultas. N\u00e3o se conhece qualquer relato cient\u00edfico de cura com c\u00e9lulas-tronco embrion\u00e1rias humanas\u201d. A cientista acima citada, no entanto, depois de oferecer dados de revistas cient\u00edficas como \u201cSciences\u201d vol 303 de 12 de mar\u00e7o de 2004 e \u201cNature\u201d, vol. 430, de 19 de agosto de 2004, conclui: \u201cDe tudo isso, pode-se afirmar que n\u00e3o correspondem \u00e0 realidade as afirma\u00e7\u00f5es relativas \u00e0 exist\u00eancia de curas, ou mesmo perspectiva ou esperan\u00e7a de cura com base em evid\u00eancia cient\u00edfica, a partir da utiliza\u00e7\u00e3o de c\u00e9lulas-tronco embrion\u00e1rias humanas. Ao contr\u00e1rio, \u201cos estudos dispon\u00edveis demonstram claramente que a implanta\u00e7\u00e3o de c\u00e9lulas-tronco embrion\u00e1rias humanas geram teratomas, ou seja, tumores, podendo levar \u00e0 morte. (&#8230;)  <i>CNBB &#8211; A Constitui\u00e7\u00e3o Brasileira garante no artigo 5o a \u201cinviolabilidade do direito \u00e0 vida\u201d. N\u00e3o lhe parece inconstitucional a Lei de Biosseguran\u00e7a quando legitima o uso de embri\u00f5es? GMA &#8211;<\/i> Provavelmente o Supremo dever\u00e1 manifestar-se a esse respeito. Na realidade, a evid\u00eancia de que no zigoto, isto \u00e9, num \u00f3vulo fecundado j\u00e1 est\u00e3o presentes todas as informa\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas que presidir\u00e3o ao desenvolvimento daquele indiv\u00edduo, que a raz\u00e3o humana pode reconhecer, sem necessidade de recorrer \u00e0 f\u00e9, s\u00f3 pode ser rejeitada, por alguma raz\u00e3o, n\u00e3o totalmente explicitada.  Os embri\u00f5es humanos n\u00e3o s\u00e3o apenas material biol\u00f3gico, como alguns pretendem, um grumo de c\u00e9lulas, um objecto que, devidamente aproveitado, passa a ter utilidade social e valor comercial.  <i>CNBB -Segundo afirma\u00e7\u00f5es de alguns pol\u00edticos, os assuntos da biosseguran\u00e7a n\u00e3o eram da compet\u00eancia da Igreja. Se \u00e9 de interesse de toda a sociedade, n\u00e3o o \u00e9 tamb\u00e9m da Igreja? GMA &#8211;<\/i> \u00c9 uma tenta\u00e7\u00e3o de todas as bandeiras pol\u00edticas economizar di\u00e1logo, rejeitando interlocutores. Trata-se de uma pr\u00e1tica autorit\u00e1ria, conhecida durante o regime militar, que n\u00e3o reconhece a cidadania e direitos iguais a todos os brasileiros. N\u00f3s acreditamos que a sociedade moderna \u00e9 pluralista e que \u00e9 indispens\u00e1vel o respeito m\u00fatuo e muito di\u00e1logo para construir uma conviv\u00eancia verdadeiramente democr\u00e1tica.  <i>CNBB &#8211; A Igreja \u00e9 contra a pesquisa em c\u00e9lulas-tronco? GMA &#8211;<\/i> N\u00e3o devemos confundir o \u201cvale tudo\u201d de certos debates alimentados pela emo\u00e7\u00e3o ou pelo preconceito da realidade: a Igreja tem grande estima pela pesquisa cient\u00edfica e aguarda com muita esperan\u00e7a as contribui\u00e7\u00f5es que dela poder\u00e3o vir para aliviar sofrimentos e melhorar a qualidade de vida de muitas pessoas.  Nesse sentido, s\u00e3o bem vindas as pesquisas com c\u00e9lulas-tronco adultas (incluindo as c\u00e9lulas-tronco do cord\u00e3o umbilical e da placenta), sendo j\u00e1 muitos os artigos cient\u00edficos que comprovam experi\u00eancias de curas, e o Brasil est\u00e1 muito adiantado em tais pesquisas, que devem ser incentivadas pois apontam para efectivos e expressivos benef\u00edcios para a popula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o s\u00e3o poucos, no entanto, os exemplos de pesquisas cujos resultados tiveram uma utiliza\u00e7\u00e3o negativa. Basta lembrar a descoberta da energia at\u00f3mica e a trag\u00e9dia que provocou em Nagasaki e em Hiroshima.  \u00c9 necess\u00e1ria muita cautela quando estamos diante de terrenos n\u00e3o suficientemente explorados e, mais ainda, quando est\u00e1 em jogo a possibilidade de ferir a dignidade humana, com graves repercuss\u00f5es na forma\u00e7\u00e3o da mentalidade, especialmente das novas gera\u00e7\u00f5es. \u00c9 inadmiss\u00edvel eliminar um ser humano para aproveitar-se do seu corpo ou de parte dele, o que ocorre com a utiliza\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas-tronco embrion\u00e1rias humanas, mesmo que a finalidade seja procurar curas para algumas doen\u00e7as.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Confer\u00eancia Nacional de Bispos do Brasil (CNBB) continua a mostrar a sua preocupa\u00e7\u00e3o sobre temas importantes de aspectos de Bio\u00e9tica implicados no \u201cProjecto de Lei de Biosseguran\u00e7a\u201d, recentemente aprovado pelo Congresso brasileiro. 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