{"id":10571,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/a-eucaristia-enquanto-simbolo\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"a-eucaristia-enquanto-simbolo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-eucaristia-enquanto-simbolo\/","title":{"rendered":"A Eucaristia enquanto s\u00edmbolo"},"content":{"rendered":"<p>O professor da Universidade Gregoriana, P. Rosato, especialista da teologia dos sacramentos fala da eucaristia como s\u00edmbolo: \u201cJesus fez do p\u00e3o e do vinho s\u00edmbolos reais do seu corpo e do seu sangue, que tinham de ser partidos\u2026 A ac\u00e7\u00e3o lit\u00fargica da Igreja faz com que o p\u00e3o e o vinho sejam s\u00edmbolos reais do corpo e do sangue de Jesus glorificado\u201d (Selecciones de Teolog\u00eda 41, n\u00ba 163 [2002] 223.233). Para que a vis\u00e3o da eucaristia como s\u00edmbolo n\u00e3o surpreenda, atenda aos conte\u00fados que mete na palavra s\u00edmbolo. A linguagem corrente v\u00ea-o como algo que pertence \u00e0 esfera do irreal, ao universo do fant\u00e1stico e po\u00e9tico, ou \u2018como se fosse verdade, embora n\u00e3o sendo realmente\u2019. Usa-se nas ci\u00eancias naturais, na matem\u00e1tica e na vida di\u00e1ria, mas em v\u00e3o e de forma abusiva, confundindo-o com qualquer sinal: as f\u00f3rmulas qu\u00edmicas ou matem\u00e1ticas, os sinais da circula\u00e7\u00e3o rodovi\u00e1ria, a camisola e o escudo de uma equipa de futebol\u2026 n\u00e3o t\u00eam o que \u00e9 pr\u00f3prio do s\u00edmbolo. Us\u00e1-lo para designar essas realidades \u00e9 degradar o simb\u00f3lico e esvaziar os seus conte\u00fados. Com esse sentido, n\u00e3o se pode dizer que a eucaristia \u00e9 s\u00edmbolo: s\u00f3 se pode, recuperando a sua genu\u00edna significa\u00e7\u00e3o. Vem de symbolon, contra-senha (de hospitalidade), compara\u00e7\u00e3o de duas realidades intrinsecamente relacionadas: a significante, imediatamente percept\u00edvel pelos sentidos, e a significada, invis\u00edvel; \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o que sugere o sentido oculto da realidade. Na antiguidade grega, s\u00edmbolo ligava-se a um eloquente costume: quando um h\u00f3spede se despedia do seu anfitri\u00e3o, como express\u00e3o de amizade permanente e em previs\u00e3o de futuros encontros quebrava um caco de argila, uma varinha, um anel ou outro objecto, ficando cada amigo com um fragmento. A re-uni\u00e3o (symbolon) dos dois peda\u00e7os e a restaura\u00e7\u00e3o da sua vincula\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria dava sentido ao reencontro: a renova\u00e7\u00e3o e o aprofundamento da antiga amizade. Um peda\u00e7o s\u00f3 tinha sentido enquanto era para o outro e se re-unia ao outro, suposto que n\u00e3o encaixava com mais nenhum. O s\u00edmbolo \u00e9 uma realidade (neve), que exprime uma realidade superior, sendo intrinsecamente apta a represent\u00e1-la (pureza), porque remete para ela sem passar pela via da demonstra\u00e7\u00e3o e pelo rigor dos racioc\u00ednios. Em rigor, n\u00e3o se deve confundir com mero sinal. Este \u00e9 uma imagem que de modo convencional remete para uma realidade extr\u00ednseca, sem rela\u00e7\u00e3o de conte\u00fado com ela, como o sem\u00e1foro: n\u00e3o tem sentido em si pr\u00f3prio, mas s\u00f3 por conven\u00e7\u00e3o. O s\u00edmbolo tem sentido por si pr\u00f3prio. Nem se op\u00f5e a real: acrescenta mais significado ao real. Para haver s\u00edmbolo, tem de haver uma realidade, que significa outra. Quando se falava da Eucaristia e dos sacramentos como sinais de comunica\u00e7\u00e3o da gra\u00e7a, no fundo havia a inten\u00e7\u00e3o de exprimir os conte\u00fados que hoje inclu\u00edmos no s\u00edmbolo. Vai-se impondo esta rica ideia de s\u00edmbolo, tamb\u00e9m aplicada ao aprofunda-mento do mist\u00e9rio da eucaristia. \u00c0 luz dessa ideia, o p\u00e3o e o vinho eucar\u00edsticos adquirem outra for\u00e7a significante e outro alcance espiritual. Consagrados pelas palavras de Jesus, tornaram-se simb\u00f3licos, adquiriram um valor novo. Para a f\u00e9, s\u00f3 alcan\u00e7am a totalidade de sentido quando juntos e unidos ao corpo e sangue de Jesus como alimento salv\u00edfico e como entrega aos outros por amor: j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o p\u00e3o e vinho ordin\u00e1rios; converteram-se na pessoa de Jesus. Isso \u00e9 assim, porque o p\u00e3o, alimento b\u00e1sico e universal do ser humano, tem capacidade intr\u00ednseca para remeter, no contexto da f\u00e9, para um alimento divino; e porque o vinho, associado ao sangue derramado, tem capacidade intr\u00ednseca para significar o amor pelos outros at\u00e9 \u00e0 morte. Com a ac\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica de partir e repartir o p\u00e3o, Jesus realizava o mesmo gesto dos gregos ao partirem um caco de argila: significava que esse peda\u00e7o de p\u00e3o, bem como a pessoa que o comia, s\u00f3 tinham sentido enquanto unidos a Jesus. Este \u00fanico p\u00e3o, partido e repartido entre v\u00e1rias pessoas numa refei\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, une os que o comem, participando todos da mesma fonte de vida. E cada peda\u00e7o do p\u00e3o partido s\u00f3 tem sentido enquanto unido a todas as outras partes do p\u00e3o inteiro, Jesus: os disc\u00edpulos, no acto de o irem repartindo v\u00e3o simbolizando a ac\u00e7\u00e3o da entrega de si pr\u00f3prios aos outros. Comer significa assimilar um alimento cuja subst\u00e2ncia passa a fazer parte integrante do ser do comensal. Analo-gamente, o ser eucar\u00edstico de Jesus como dom de vida destina-se a ser incorporado na vida do comungante. Mas, enquanto o alimento f\u00edsico tende a transformar-se na subst\u00e2ncia da pessoa que come, comer o p\u00e3o eucar\u00edstico visa transformar o comensal na vida daquele que \u00e9 comido, Jesus. A refei\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica simboliza a real uni\u00e3o de fraternidade e amizade entre os comensais crentes e o Cristo. E por ser dom, gera comunh\u00e3o e pede acolhimento. Aquele que vai \u00e0 comunh\u00e3o aceita o desafio de fazer da vida, tal como Jesus, um dom para os irm\u00e3os. \u201cEste c\u00e1lice \u00e9 a nova alian\u00e7a selada com o meu sangue\u201d: alude simbolicamente ao mist\u00e9rio pascal de Jesus, como dom de vida aos disc\u00edpulos, denotando tamb\u00e9m o seu amor leal at\u00e9 \u00e0 morte. Bebido, simboliza a assimila\u00e7\u00e3o da oferta total da sua vida por amor.  \u00c9 precisamente quando entendidos como s\u00edmbolos que o p\u00e3o e o vinho fazem experimentar \u00e0 f\u00e9 a presen\u00e7a real de Jesus: presen\u00e7a real, sobretudo na medida em que \u00e9 realizadora: torna Jesus presente na vida humana, dando-lhe o toque de vida definitiva. A f\u00e9, a palavra e o Esp\u00edrito permitem ver uma nova e superior realidade nestes elementos significantes: realmente presente est\u00e1 o Senhor. N\u00e3o descobrir a liga\u00e7\u00e3o da eucaristia ao compromisso social \u00e9 esvazi\u00e1-la de sentido. \u00c9 muito por isso que os jovens deixam de \u2018ir \u00e0 missa\u2019: n\u00e3o percebem o que v\u00e3o l\u00e1 fazer e o que ela vem fazer \u00e0 vida. Na realidade, celebrar a Eucaristia sup\u00f5e acreditar que a vida de Jesus Cristo, sintetizada e simbolizada no p\u00e3o e no vinho consagrados, d\u00e1 a todas as tarefas humanizantes a dimens\u00e3o do reino de Deus. Ela tem de fazer efeito, tem de \u2018cumprir\u2019 a defini\u00e7\u00e3o de s\u00edmbolo. Se a considerar s\u00edmbolo\/sacramento, cada comungante une-se e re-une-se a Jesus, procurando dar corpo ao seu projecto de amizade universal. Se ela n\u00e3o une os seres humanos entre si e com o Ser divino, n\u00e3o passa de um rito a mais: n\u00e3o faz nem produz sentido.  Armindo dos Santos Vaz Professor da Faculdade de Teologia\/UCP<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O professor da Universidade Gregoriana, P. 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