{"id":10541,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/um-feminismo-catolico\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"um-feminismo-catolico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/um-feminismo-catolico\/","title":{"rendered":"Um feminismo cat\u00f3lico"},"content":{"rendered":"<p>As Na\u00e7\u00f5es Unidas celebram, desde 28 de Fevereiro at\u00e9 11 de Mar\u00e7o, o d\u00e9cimo anivers\u00e1rio da Confer\u00eancia de Pequim sobre a mulher. Fazem-no mediante uma sess\u00e3o especial, com o t\u00edtulo \u201cPequim+10\u201d.  Recentemente, a vers\u00e3o inglesa de \u201cL\u2019Osservatore Romano\u201d publicava alguns artigos explicando a posi\u00e7\u00e3o da Igreja sobre a mulher. Na edi\u00e7\u00e3o de 5 de Janeiro, Mary Ann Glendon, presidente da Academia Pontif\u00edcia para as Ci\u00eancias Sociais e professora de Direito em Harvard, abordava o tema da discrimina\u00e7\u00e3o feminina.  Observava a articulista que, em 18 de Dezembro de 2004, se comemoraram 25 anos da \u201cConven\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre a elimina\u00e7\u00e3o de todas as formas de discrimina\u00e7\u00e3o contra a Mulher\u201d (CEDAW, nas siglas inglesas).  Reflectindo sobre o acontecimento, Glendon reconhecia o contributo das Na\u00e7\u00f5es Unidas ao proclamar a dignidade e igualdade das mulheres, a come\u00e7ar pela Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos de 1948.  No entanto, acrescentava que a aplica\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio da igualdade na so-ciedade e no direito levantou dif\u00edceis desafios.  Glendon anotava que Eleanor Roosevelt, que presidiu \u00e0 comiss\u00e3o que redigiu a declara\u00e7\u00e3o de 1948, defendia a igualdade de oportunidades para as mulheres.  \u00abMas sustentava com igual firmeza que havia certas \u00e1reas, como o cuidado dos filhos e o servi\u00e7o militar, onde deveria atender-se \u00e0 diferen\u00e7a entre os sexos\u00bb.  Assim, Roosevelt afirmava, lado a lado com a doutrina cat\u00f3lica, que o lar familiar \u00e9 onde \u00abhomens e mulheres vivem como homens e mulheres e se complementam mutuamente\u00bb. Glendon advertia que quando se redigiu o esquema da CEDAW predominava uma outra vis\u00e3o das mulheres.  O documento estava marcado pelo feminismo e por atitudes negativas face aos homens, o matrim\u00f3nio e a maternidade. Por isso, escrevia, \u00abcont\u00e9m algumas quest\u00f5es problem\u00e1ticas\u00bb.  <i>Proibir o Dia da M\u00e3e<\/i> Entre os elementos negativos da conven\u00e7\u00e3o de 1979 h\u00e1 fragmentos que foram interpretados de modo a desencorajar a especial protec\u00e7\u00e3o \u00e0s m\u00e3es. Al\u00e9m disso, o texto favorece a promo\u00e7\u00e3o da igualdade de uma forma que cria graves tens\u00f5es com outros direitos b\u00e1sicos, como a liberdade de express\u00e3o e de cren\u00e7a.  O comit\u00e9 constitu\u00eddo para supervisionar o cumprimento da CEDAW seguiu esta mesma linha. Critica, por exemplo, os pa\u00edses que n\u00e3o proporcionam acesso livre ao aborto e condena que se celebre o Dia da M\u00e3e\u2026 Entretanto, a maioria das mulheres abandonou este \u00abfeminismo antiquado\u00bb, afirmava Glendon, no mencionado artigo.  As mulheres, mesmo defendendo activamente a campanha pela igualdade, sentem-se agora alheias \u00e0s atitudes anti-homens e anti-fam\u00edlia em voga na primeira gera\u00e7\u00e3o do feminismo. A doutrina cat\u00f3lica tem muito que oferecer \u00e0s mulheres que buscam um aut\u00eantico feminismo, sustentava Glendon. A enc\u00edclica de Jo\u00e3o Paulo II \u201cLaborem exercens\u201d afirma a import\u00e2ncia da fam\u00edlia e a necessidade de as mulheres progredirem nos seus locais de trabalho, sem terem que sacrificar o seu papel de m\u00e3es. Noutros escritos, o Papa pediu uma mudan\u00e7a de atitudes da sociedade, para que as mulheres possam usar todos os seus talentos, tamb\u00e9m em casa. Isto n\u00e3o deveria ser surpresa para ningu\u00e9m, acrescentava Glendon.  Os Evangelhos revelam como Jesus rompe radicalmente com as tradi\u00e7\u00f5es do seu tempo, confraternizando com as mulheres e confiando-lhes alguns dos seus ensinamentos.  E o cristianismo, mediante a promo\u00e7\u00e3o da monogamia e da indissolubilidade do matrim\u00f3nio, \u00abfez provavelmente mais que qualquer outra for\u00e7a na hist\u00f3ria para libertar as mulheres dos costumes que negavam a sua dignidade\u00bb, escrevia.  <i>Feminismo cat\u00f3lico<\/i> O tema do papel dos homens e mulheres na sociedade foi objecto de um outro artigo de Janne Haaland Matlary, tamb\u00e9m em \u201cL\u2019Os-servatore Romano\u201d.  A professora do Departamento de Ci\u00eancias Pol\u00edticas da Universidade de Oslo teve como pano de fundo das suas reflex\u00f5es a carta da Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9 de 31 de Julho de 2004, sobre a \u201cColabora\u00e7\u00e3o de homens e mulheres na Igreja e no Mundo\u201d. Aquela carta \u2014 dizia a professora norueguesa \u2014 mant\u00e9m que a diferen\u00e7a entre os sexos ultrapassa o mero n\u00edvel biol\u00f3gico, pois que abarca os n\u00edveis psicol\u00f3gicos e ontol\u00f3gicos.  Desta forma, a antropologia cat\u00f3lica evita o erro do reducionismo biol\u00f3gico, que limita as mulheres a um papel de criadoras de crian\u00e7as.  Tamb\u00e9m p\u00f5e de lado o erro de adoptar uma vis\u00e3o baseada em factores sociais, que reduz as diferen\u00e7as entre os sexos a uma \u00abconstru\u00e7\u00e3o social\u00bb. Matlary resumia o que ela considera o quadro de um \u201cfeminismo cat\u00f3lico\u201d contido no texto da congrega\u00e7\u00e3o vaticana.  A carta procura, sobretudo, p\u00f4r o foco na rela\u00e7\u00e3o entre os sexos baseando-a na imita\u00e7\u00e3o de Cristo, mediante o dom de si mesmo e o servi\u00e7o aos outros. O ideal do dar-se tem especial relev\u00e2ncia para as mulheres, que atrav\u00e9s da maternidade geram e criam os filhos. Sobre o tema do trabalho e vida familiar, Mat-lary explicava que a carta d\u00e1 maior prioridade \u00e0 fam\u00edlia. Por isso, n\u00e3o basta aprovar leis que assegurem a igualdade \u00e0s mulheres no seu posto de trabalho. \u00abPermite-se \u00e0s mulheres que imitem os homens\u00bb, observava Matlary. \u00abMas as mulheres n\u00e3o conseguiram pol\u00edticas que tenham realmente em conta a maternidade e reflictam o facto de as mulheres, se s\u00e3o fi\u00e9is ao ideal crist\u00e3o de servi\u00e7o, trabalharem e exercitarem a sua lideran\u00e7a de uma forma diferente da dos homens\u00bb.  <i>Mudar as atitudes<\/i> A carta do Vaticano insiste na import\u00e2ncia de mudar as atitudes para obter uma forma correcta de coopera\u00e7\u00e3o entre homens e mulheres.  Matlary afirmava que as actuais atitudes se op\u00f5em muito frequentemente \u00e0 vida familiar, tal como \u00e0s mulheres que desejam dedicar-se aos seus lares. O feminismo concentrou-se numa vis\u00e3o individualista dos direitos, reduzindo radicalmente a import\u00e2ncia da fam\u00edlia como unidade.  Neste individualismo baseado em direitos, a fam\u00edlia e o papel da mulher nela desempenhado pela mulher n\u00e3o contam para nada, escreve Matlary.  No seu lugar, o que se torna importante \u00e9 que as mulheres tenham pelo menos 50% de todos os postos p\u00fablicos da sociedade. A partir desta perspectiva, a vida familiar obstaculiza as mulheres que desenvolvem os seus talentos; e ter filhos \u00e9 um peso\u2026 Esta atitude come\u00e7ou a mudar nalguns pa\u00edses, dando-se j\u00e1 maior \u00eanfase no apoio \u00e0s mulheres, para que possam conseguir o equil\u00edbrio entre trabalho e fam\u00edlia, observa Matlary. No entanto, acrescentava que, normal e erradamente, se d\u00e1 maior prioridade \u00e0 igualdade das mulheres no posto de trabalho que na fam\u00edlia. A perspectiva cat\u00f3lica oferece uma vis\u00e3o alternativa. Considera o trabalho como um servi\u00e7o aos outros e n\u00e3o como uma forma de procurar poder. Na vida familiar, defende a complementa-ridade de homens e mulheres, o que significa dar suficiente valor ao papel da mulher-m\u00e3e junto dos filhos pequenos. E o Estado, em vez de assegurar apenas direitos individuais, tem a obriga\u00e7\u00e3o de apoiar a fam\u00edlia e a maternidade, uma vez que a fam\u00edlia \u00e9 a pedra-base da sociedade. Um feminismo cat\u00f3lico \u2014 continua Matlary \u2014 deve ter como princ\u00edpio b\u00e1sico a convic\u00e7\u00e3o de que a fam\u00edlia est\u00e1 em primeiro lugar na ordem da import\u00e2ncia pessoal e social. Combinar isto com uma concep\u00e7\u00e3o do trabalho como um dar-se a si mesmo num servi\u00e7o permitir\u00e1 que se d\u00ea ao papel da mulher na fam\u00edlia a import\u00e2ncia que merece. Acrescentava que aceitar e viver estes princ\u00edpios, e compreender que \u00abeste \u00e9 o tipo de poder de que falou Nosso Senhor\u00bb, \u00e9 o desafio que enfrentam os cat\u00f3licos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As Na\u00e7\u00f5es Unidas celebram, desde 28 de Fevereiro at\u00e9 11 de Mar\u00e7o, o d\u00e9cimo anivers\u00e1rio da Confer\u00eancia de Pequim sobre a mulher. Fazem-no mediante uma sess\u00e3o especial, com o t\u00edtulo \u201cPequim+10\u201d. Recentemente, a vers\u00e3o inglesa de \u201cL\u2019Osservatore Romano\u201d publicava alguns artigos explicando a posi\u00e7\u00e3o da Igreja sobre a mulher. 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