{"id":104937,"date":"2018-05-11T10:01:04","date_gmt":"2018-05-11T09:01:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=104937"},"modified":"2018-05-11T10:01:04","modified_gmt":"2018-05-11T09:01:04","slug":"fatima-santuario-plural-construido-com-cada-peregrino-marca-sociedade-em-transformacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/fatima-santuario-plural-construido-com-cada-peregrino-marca-sociedade-em-transformacao\/","title":{"rendered":"F\u00e1tima: Santu\u00e1rio plural constru\u00eddo com cada peregrino marca sociedade em transforma\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>F\u00e1tima \u00e9 um acontecimento plural na sociedade portuguesa que tem conseguido acompanhar as transforma\u00e7\u00f5es sociais e religiosas, fruto do contributo pessoal de cada peregrino, que permite ao espa\u00e7o n\u00e3o se esgotar na estrutura mas abrir o fen\u00f3meno a todos, quer tenham maior ou menor inscri\u00e7\u00e3o na ecclesiosfera. Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA o antrop\u00f3logo Alfredo Teixeira analisa a complexidade e avan\u00e7a os desafios que F\u00e1tima enfrenta dentro das mudan\u00e7as globais.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por L\u00edgia Silveira<\/em><\/p>\n<p><em><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-104939 alignleft\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/alfredo_teixeira_fatima-300x194.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"194\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/alfredo_teixeira_fatima-300x194.jpg 300w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/alfredo_teixeira_fatima-768x498.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/alfredo_teixeira_fatima-1024x664.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/alfredo_teixeira_fatima-1080x700.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/alfredo_teixeira_fatima.jpg 1225w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>AE &#8211; F\u00e1tima p\u00f3s-Papa Francisco e F\u00e1tima p\u00f3s-celebra\u00e7\u00e3o do centen\u00e1rio s\u00e3o dois acontecimentos que se cruzam para pensarmos em F\u00e1tima nos dias de hoje?<\/em><\/p>\n<p><em>AT \u2013<\/em> O centen\u00e1rio em si, como acontecimento, n\u00e3o pode desligar-se da presen\u00e7a do Papa porque esse foi, claramente, o ponto culminante de um contexto festivo e de celebra\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria do pr\u00f3prio santu\u00e1rio.\u00a0 A presen\u00e7a do Papa Francisco ficar\u00e1 muito vinculada a este centen\u00e1rio.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se podemos j\u00e1 falar de um p\u00f3s-centen\u00e1rio. N\u00e3o temos ainda a capacidade de perceber o que o centen\u00e1rio, enquanto acontecimento, pode ter introduzido naquilo que ser\u00e3o as din\u00e2micas e pr\u00e1ticas do Santu\u00e1rio no futuro. Sabemos que o centen\u00e1rio foi o acontecimento que remodelou alguns aspetos da presen\u00e7a de F\u00e1tima no imagin\u00e1rio e na perce\u00e7\u00e3o social que se tem do Santu\u00e1rio.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Tais como?<\/em><\/p>\n<p><em>AT \u2013<\/em> Parece-me claro que este centen\u00e1rio sublinhou a dimens\u00e3o de forte inscri\u00e7\u00e3o do fen\u00f3meno F\u00e1tima na sociedade portuguesa, em termos culturais. O Santu\u00e1rio criou alguns \u201cprodutos institucionais\u201d que n\u00e3o estavam t\u00e3o presentes naquilo que era a sua forma mais tradicional.<\/p>\n<p>Uma agenda cultural, uma programa\u00e7\u00e3o musical vast\u00edssima com a presen\u00e7a de muitos compositores e int\u00e9rpretes de \u00e2mbito nacional e internacional. O Santu\u00e1rio afirmou-se como uma institui\u00e7\u00e3o relevante na sociedade portuguesa muito para al\u00e9m do que possam ser as pr\u00e1ticas dos crentes em torno de F\u00e1tima, que continuar\u00e3o a ser o capital simb\u00f3lico mais importante do Santu\u00e1rio.<\/p>\n<p>Creio que podemos afirmar que o pr\u00f3prio centen\u00e1rio trouxe algo de diferente na forma como o Santu\u00e1rio se posiciona na sociedade portuguesa. N\u00e3o sabemos ainda que altera\u00e7\u00f5es pode provocar na rece\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio centen\u00e1rio nos anos vindouros.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Para al\u00e9m da \u00e1rea cultural, h\u00e1 um esfor\u00e7o na \u00e1rea acad\u00e9mica, como mostraram os congressos teol\u00f3gicos. Apesar disso fala-se ainda de uma reserva intelectual sobre o fen\u00f3meno F\u00e1tima. A seu ver, justifica-se?<\/em><\/p>\n<p><em>AT \u2013<\/em> H\u00e1 sinais, mas estamos numa situa\u00e7\u00e3o diferente de algumas d\u00e9cadas atr\u00e1s. O interesse cient\u00edfico acompanha F\u00e1tima mas distribuiu-se desigualmente. Se h\u00e1 algumas disciplinas que se confrontaram sempre com F\u00e1tima, a Hist\u00f3ria do s\u00e9culo XX \u00e9 um exemplo disso, n\u00e3o deixa de existir um amplo sil\u00eancio noutras \u00e1reas. Se observarmos o que \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica ou antropol\u00f3gica sobre F\u00e1tima n\u00e3o deixa de haver uma certa dist\u00e2ncia entre aquilo que \u00e9 a relev\u00e2ncia do fen\u00f3meno na sociedade portuguesa e o interesse que desperta por parte de disciplinas de ci\u00eancias sociais. Parece-me claro que h\u00e1 algum desajuste.<\/p>\n<p>Essencialmente d\u00e1-se por conhecido algo que verdadeiramente n\u00e3o o \u00e9. Porventura, F\u00e1tima est\u00e1 de tal maneira entranhado na biografia das pessoas, que quase, por defeito, se parte com a ideia de que se trata de um fen\u00f3meno conhecido. Isso afasta a investiga\u00e7\u00e3o, talvez por considerarem n\u00e3o ser f\u00e1cil justificar a relev\u00e2ncia do estudo de F\u00e1tima, porque h\u00e1 um pressuposto, a meu ver errado, de que o fen\u00f3meno seria suficientemente conhecido.<\/p>\n<p>H\u00e1 muita coisa que acontece em F\u00e1tima; muitas pr\u00e1ticas, sobretudo a pluralidade de significados que pode ter para as pessoas, \u00e9 um mapa que ainda n\u00e3o conhecemos.<\/p>\n<p>Este interesse pelo pr\u00f3prio Santu\u00e1rio de chamar a si as academias e abrir a esse estudo, n\u00e3o \u00e9 novo, mas diria que a partir deste centen\u00e1rio talvez haja novas condi\u00e7\u00f5es para alargar esse interesse.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O facto de o Papa Francisco ter estado em F\u00e1tima e ter recolocado o culto mariano n\u00e3o como uma devo\u00e7\u00e3o a uma santinha, mas ter indicado Maria como a mestra espiritual, poder\u00e1 ajudar a recolocar F\u00e1tima?<\/em><\/p>\n<p><em>AT \u2013<\/em> Tenho ainda pouco a dizer sobre esse ponto de vista porque n\u00e3o sei que reflexos esse discurso teve nas perce\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas de F\u00e1tima.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Fala do ponto de vista da sociedade ou da Igreja?<\/em><\/p>\n<p><em>AT \u2013<\/em> Da Igreja tamb\u00e9m. Achei que o momento da presen\u00e7a do Papa foi vivido, essencialmente, como presen\u00e7a. N\u00e3o me parece que o seu discurso tenha tido uma rece\u00e7\u00e3o muito clara, isso foi evidente nos media. O discurso em si teve poucos coment\u00e1rios, foi recebido de forma pouco aprofundada. A sua presen\u00e7a sim, o seu gesto.<\/p>\n<p>Estou ainda a perceber que impacto isso pode ter, primeiro, na forma como se construa uma l\u00f3gica pastoral em rela\u00e7\u00e3o a F\u00e1tima, sobretudo em rela\u00e7\u00e3o a F\u00e1tima e as outras dimens\u00f5es do catolicismo na sociedade portuguesa. Um discurso ou homilia feito por um Papa n\u00e3o tem, obviamente, um impacto direto nas pr\u00e1ticas dos peregrinos. H\u00e1 um conjunto de media\u00e7\u00f5es que passam pelos pr\u00f3prios contextos de origem dos peregrinos que n\u00e3o permitem essa rela\u00e7\u00e3o direta.<\/p>\n<p>Eu diria que o discurso do papa Francisco foi corajoso, desse ponto de vista, teve uma dimens\u00e3o prof\u00e9tica e introduz uma leitura cr\u00edtica de alguns comportamentos relativos \u00e0s pr\u00e1ticas devocionais.<\/p>\n<p>Mas F\u00e1tima \u00e9 muitas coisas. A sua plasticidade tem-se adequado a todos os momentos da sociedade portuguesa. Quem lia F\u00e1tima no discurso do Estado Novo, como um suporte para emblematizar a identidade nacional, acharia que quando nos tornamos numa sociedade democr\u00e1tica e plural, F\u00e1tima poderia sofrer com essa conota\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>F\u00e1tima foi-se articulando com os diversos momentos da sociedade portuguesa na medida em que est\u00e1 inscrita de forma plural nas identidades de muitos portugueses, os portugueses v\u00e3o fazendo coisas diferentes com essas mem\u00f3rias e pr\u00e1ticas. Ter a capacidade de ver de forma linear a rela\u00e7\u00e3o entre um discurso e uma pluralidade de pr\u00e1ticas, parece-me dif\u00edcil.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Falta uma reflex\u00e3o por parte da hierarquia da Igreja para propor algumas dimens\u00f5es que o Papa Francisco tenha deixado, mesmo sobre o papel de F\u00e1tima no catolicismo portugu\u00eas?<\/em><\/p>\n<p><em>AT \u2013<\/em> N\u00e3o sei se \u00e9 na hierarquia que falta essa reflex\u00e3o. Diria que falta ter uma consci\u00eancia mais clara da centralidade que F\u00e1tima tem no pr\u00f3prio catolicismo portugu\u00eas, j\u00e1 n\u00e3o falo em termos gerais na sociedade portuguesa.<\/p>\n<p>No estudo \u00abIdentidades religiosas em Portugal: representa\u00e7\u00f5es, valores e pr\u00e1ticas\u00bb, em 2011\/2012, observamos que o n\u00famero de frequ\u00eancias ou visitas a F\u00e1tima estava estritamente dependente do grau de perten\u00e7a dos cat\u00f3licos. Desde o cat\u00f3lico com uma maior inscri\u00e7\u00e3o na comunidade cat\u00f3lica ou o militante, at\u00e9 ao mais afastado, o cat\u00f3lico nominal &#8211; com uma fraca perten\u00e7a e inser\u00e7\u00e3o nas comunidades-, entre um extremo e outro, o que percebemos \u00e9 um decl\u00ednio quase geom\u00e9trico do n\u00famero dos que mais vezes v\u00e3o a F\u00e1tima.<\/p>\n<p>Isto parece ser um ind\u00edcio pouco significante, mas d\u00e1 conta da centralidade que F\u00e1tima tem nas pr\u00e1ticas cat\u00f3licas em geral. Isto n\u00e3o passa apenas pelas pr\u00e1ticas de peregrina\u00e7\u00e3o. H\u00e1 muitos dinamismos cat\u00f3licos que, aproveitando a centralidade geogr\u00e1fica, fazem de F\u00e1tima um grande polo do catolicismo em Portugal.<\/p>\n<p>Se do ponto de vista das pr\u00e1ticas isto se torna evidente, na l\u00f3gica da organiza\u00e7\u00e3o pastoral da Igreja n\u00e3o h\u00e1 uma incorpora\u00e7\u00e3o desta evid\u00eancia. Tamb\u00e9m porque a natureza da Igreja \u00e9 a sua constitui\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de Igrejas diocesanas e comunidades locais, esse \u00e9 o dinamismo essencial. Mas tendo em conta as pr\u00e1ticas das pessoas hoje, as pr\u00e1ticas do territ\u00f3rio, as pr\u00e1ticas que definem a sua condi\u00e7\u00e3o de mobilidade, h\u00e1 que pensar a identidade cat\u00f3lica noutras escalas.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 N\u00e3o estamos a saber acolher aqueles que procuram F\u00e1tima como primeiro local de inquieta\u00e7\u00e3o espiritual?<\/em><\/p>\n<p><em>AT \u2013<\/em> Eu diria que n\u00e3o h\u00e1 uma suficiente liga\u00e7\u00e3o entre todas estas dimens\u00f5es. O visitante de F\u00e1tima que, sendo muito perif\u00e9rico na sua inscri\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o cat\u00f3lico, \u00e9 algu\u00e9m numa demanda espiritual de alguma coisa que o preencha, at\u00e9 \u00e0 presen\u00e7a em F\u00e1tima de forma muito regular de pessoas com responsabilidade eclesiais e que ali se re\u00fanem\u2026. Esta pluralidade de situa\u00e7\u00f5es, penso, n\u00e3o t\u00eam liga\u00e7\u00e3o suficiente porque, talvez, F\u00e1tima &#8211; embora seja central do ponto de vista das pr\u00e1ticas dos crentes &#8211; n\u00e3o tem uma centralidade quando se pensa o pa\u00eds numa l\u00f3gica pastoral mais integrada.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O jornalista Jos\u00e9 Milhazes, referia h\u00e1 alguns meses, que a mensagem de F\u00e1tima n\u00e3o \u00e9 plenamente divulgada. O Frei Bento Domingues afirmava que Portugal devia fazer de F\u00e1tima o altar da mensagem de F\u00e1tima. <\/em><\/p>\n<p><em>AT \u2013<\/em> Esta relev\u00e2ncia que F\u00e1tima pode ter na articula\u00e7\u00e3o das diferentes dimens\u00f5es da experi\u00eancia eclesial n\u00e3o pode ser, a meu ver, uma desertifica\u00e7\u00e3o de todas as outras dimens\u00f5es de integra\u00e7\u00e3o e acolhimento eclesial dentro da eclesioesfera cat\u00f3lica. Refiro-me a uma capacidade de articula\u00e7\u00e3o e n\u00e3o de um modelo de centraliza\u00e7\u00e3o que esvazia, fazendo de F\u00e1tima a grande diocese nacional, ou a grande par\u00f3quia. Isso n\u00e3o seria uma proposta muito feliz.<\/p>\n<p>Mas a capacidade de fazer de F\u00e1tima algo que est\u00e1 no mapa das preocupa\u00e7\u00f5es pastorais, mesmo de uma par\u00f3quia ou diocese, e que o possam fazer de maneira integrada, tendo em conta a capacidade de atra\u00e7\u00e3o que F\u00e1tima tem, isso parecer-me-ia uma l\u00f3gica de a\u00e7\u00e3o pastoral eficaz.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 F\u00e1tima \u00e9 um local interclassista. Isso ajuda a explicar o fen\u00f3meno?<\/em><\/p>\n<p><em>AT \u2013<\/em> Nenhum fen\u00f3meno se torna massificado se n\u00e3o reunir a diversidade demogr\u00e1fica do pa\u00eds. Os espa\u00e7os rurais e urbanos, as classes mais letradas e menos letradas, os que est\u00e3o melhor e pior do ponto de vista socioecon\u00f3mico. Tamb\u00e9m a partir destas diferen\u00e7as as pessoas olhar\u00e3o e praticar\u00e3o F\u00e1tima de forma diferente. Mas a plasticidade, o facto de ser muitas coisas, permite que pessoas de origens muito diferentes encontrem ali qualquer coisa. F\u00e1tima \u00e9, de longe, o contexto mais plural que podemos encontrar em Portugal.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Regressando \u00e0s palavras do Papa Francisco, ele n\u00e3o esqueceu, em F\u00e1tima, os pobres, os marginalizados e esquecidos. De que forma o Santu\u00e1rio dever estar atento mas tamb\u00e9m que prote\u00e7\u00e3o procuram os mais fr\u00e1geis naquele local?<\/em><\/p>\n<p><em>AT \u2013<\/em> F\u00e1tima encontra-se com as pessoas a partir da sua situa\u00e7\u00e3o. A fragilidade das pessoas poder\u00e1 ser de ordem espiritual, relacionando-se com as suas experi\u00eancias pessoais. Sabemos que as sociedades de hoje, de m\u00faltiplas modernidades onde \u00e9 dif\u00edcil viver, onde as pessoas sofrem o impacto no seu quotidiano de uma complexidade muito grande, mesmo estando em muitos casos em situa\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas est\u00e1veis e confort\u00e1veis. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m um grande n\u00famero de pessoas que vive vulnerabilidades v\u00e1rias e, claramente, F\u00e1tima tem uma forte rela\u00e7\u00e3o com as diferentes experi\u00eancias de vulnerabilidade.<\/p>\n<p>Num c\u00e9lebre livro do Frei Bento Domingues \u00abA religi\u00e3o dos portugueses\u00bb, o autor fala de F\u00e1tima como um grande cais, associando a uma experi\u00eancia da partida dos barcos no Cais de Alc\u00e2ntara, em Lisboa, para o Ultramar e essa experi\u00eancia de despedida, intensa e emocional de separa\u00e7\u00e3o, \u00e9 transportada para F\u00e1tima como esse lugar onde as pessoas choram, onde colocam a sua fragilidade.<\/p>\n<p>Se alguma capacidade extraordin\u00e1ria tem F\u00e1tima \u00e9 a de ser esse lugar onde as pessoas podem chorar coletivamente, onde as pessoas podem viver a sua vulnerabilidade de uma forma intensa e junto com os outros.<\/p>\n<p>Nesta perspetiva, F\u00e1tima \u00e9 incompar\u00e1vel porque n\u00e3o encontramos um lugar onde esteja t\u00e3o intensamente presente esta experi\u00eancia de levar connosco a nossa fragilidade e a\u00ed vivermos junto com os outros. O caminho pode ser uma experi\u00eancia solit\u00e1ria, mas na experi\u00eancia no Santu\u00e1rio adensam-se as hist\u00f3rias e encontram-se percursos de vida muito diversos. Essa capacidade que F\u00e1tima tem ganha impacto nas pessoas que ali chegam com maior vulnerabilidade, que vivem em certas periferias, seja mais econ\u00f3micas ou periferias existenciais.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O fen\u00f3meno de conjunto sobrep\u00f5e-se \u00e0 experi\u00eancia pessoal?<\/em><\/p>\n<p><em>AT \u2013<\/em> Penso que se articulam numa dupla dimens\u00e3o. Uma caracter\u00edstica dos fen\u00f3menos religiosos que apresentam mais vitalidade hoje s\u00e3o os que abrem espa\u00e7o ao indiv\u00edduo na sua singularidade articulando-se com uma experi\u00eancia forte de comunh\u00e3o.<\/p>\n<p>Embora de natureza diferente, a vitalidade de Taiz\u00e9 depende disso. \u00c9 um espa\u00e7o de peregrina\u00e7\u00e3o com outras caracter\u00edsticas, mas esta dimens\u00e3o de abertura a um n\u00edvel individual, onde a pessoa com a sua liberdade e a sua hist\u00f3ria se pode dizer e ao mesmo tempo se pode encontrar com uma hist\u00f3ria coletiva; no caso de Taiz\u00e9, com essa marca intercultural e global, s\u00e3o duas dimens\u00f5es que n\u00e3o est\u00e3o em tens\u00e3o ou contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 A internacionaliza\u00e7\u00e3o do Santu\u00e1rio de F\u00e1tima, muito pela presen\u00e7a dos Papas desde Paulo VI, tem recolocado o santu\u00e1rio e a mensagem de F\u00e1tima no mundo?<\/em><\/p>\n<p><em>AT \u2013<\/em> A liga\u00e7\u00e3o a Roma e \u00e0 figura dos Papas, neste contexto, \u00e9 um dos meios decisivos na constru\u00e7\u00e3o da F\u00e1tima global. F\u00e1tima acompanha as transforma\u00e7\u00f5es das identidades nas sociedades complexas. As identidades n\u00e3o se definem hoje apenas na escala local. Isso \u00e9 evidente nas gera\u00e7\u00f5es mais novas que, quando se pensam como pessoas no mundo, n\u00e3o se pensam apenas como pessoas numa escala local, mas pensam-se numa escala de fluxo e rela\u00e7\u00f5es que tem j\u00e1 esse registo global.<\/p>\n<p>O que acontece \u00e9 que F\u00e1tima vai acompanhar este tr\u00e2nsito cultural. Costumo falar de F\u00e1tima como um fen\u00f3meno de destradicionaliza\u00e7\u00e3o da sociedade portuguesa. Portugal permaneceu com indicadores de tradicionalidade religiosa at\u00e9 bastante tarde. T\u00ednhamos uma religiosidade, em meados do s\u00e9culo XX, fortemente marcada por pr\u00e1ticas tradicionais, ligadas \u00e0 religi\u00e3o comunit\u00e1ria: a romaria local, regional, a economia do simb\u00f3lico que havia em torno do santo patrono de um lugar. Tudo isto permaneceu com muita for\u00e7a na sociedade at\u00e9 bastante tarde.<\/p>\n<p>Quando a sociedade come\u00e7a a sofrer o influxo de outras din\u00e2micas, de moderniza\u00e7\u00e3o, urbaniza\u00e7\u00e3o, industrializa\u00e7\u00e3o, o fluxo de novos comportamentos e ideias que surgem com a migra\u00e7\u00e3o\u2026 tudo isto foi exigindo que os imagin\u00e1rios religiosos e as pr\u00e1ticas das pessoas encontrassem outros suportes.<\/p>\n<p>A meu ver, a import\u00e2ncia de F\u00e1tima vai fortalecer-se ao acompanhar este tr\u00e2nsito. Nos anos 60, com a forte migra\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os rurais para os urbanos e para a faixa litoral do pa\u00eds, em muitos casos, esse tr\u00e2nsito foi acompanhado de uma certa desestrutura\u00e7\u00e3o religiosa.<\/p>\n<p>As pessoas que nos anos 60 se deslocaram para as zonas perif\u00e9ricas ou periurbanas em Lisboa chegaram a Santa Apol\u00f3nia de comboio e n\u00e3o encontraram aqui o Deus da sua terra. Foi necess\u00e1rio encontrar outros lugares simb\u00f3licos que acompanhassem o processo de reindentifica\u00e7\u00e3o num outro contexto. F\u00e1tima ofereceu isso. E pela import\u00e2ncia de F\u00e1tima na emigra\u00e7\u00e3o nas comunidades portugueses, conseguimos perceber essa dimens\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio da religiosidade tradicional, sedent\u00e1ria, amarrada aos lugares, F\u00e1tima tinha esta capacidade de ser port\u00e1til. Quase como uma montra que mostra Nossa Senhoras de todos os tamanhos, metaforicamente, mostra a portabilidade de F\u00e1tima.<\/p>\n<p>Esta F\u00e1tima global acompanha a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade. O que torna F\u00e1tima, por um lado, um fen\u00f3meno religioso que apresenta estas caracter\u00edsticas de vitalidade, e por outro, esta capacidade de n\u00e3o sofrer a eros\u00e3o que outras formas de identidade religiosa sofrem \u2013 ao contr\u00e1rio daqueles n\u00fameros que estamos habituados a ver sobre a pr\u00e1tica dominical cat\u00f3lica onde, desde os anos 60, vamos assistindo a uma certa eros\u00e3o, n\u00e3o encontramos o mesmo nas visitas a F\u00e1tima. F\u00e1tima tem acompanhado estas transforma\u00e7\u00f5es societais fundamentais e isso torna-a complexa e com capacidade de acompanhar a mudan\u00e7a.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 N\u00e3o podemos esquecer a canoniza\u00e7\u00e3o dos Pastorinhos que aconteceu na celebra\u00e7\u00e3o do centen\u00e1rio. Que contributo tem esta canoniza\u00e7\u00e3o para reposicionar o fen\u00f3meno de F\u00e1tima?<\/em><\/p>\n<p><em>AT \u2013<\/em> Esse acontecimento n\u00e3o representa para o peregrino uma novidade. \u00c9 um reconhecimento da Igreja, mas para a consci\u00eancia do peregrino essa rela\u00e7\u00e3o com os Pastorinhos como figura de uma inf\u00e2ncia santificada j\u00e1 estava incorporada.<\/p>\n<p>Refor\u00e7a dentro da institui\u00e7\u00e3o Igreja o lugar de F\u00e1tima, mas n\u00e3o penso que modifique substancialmente a rela\u00e7\u00e3o que o peregrino tem com F\u00e1tima. Eu diria que essa santidade j\u00e1 est\u00e1 incorporada na compreens\u00e3o que ele faz de F\u00e1tima. \u00c9 mais uma confirma\u00e7\u00e3o do que \u00e9 vivido pelo peregrino do que um acontecimento novo.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O olhar da Igreja para as crian\u00e7as n\u00e3o muda por causa da canoniza\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p><em>AT \u2013<\/em> Muda desde o in\u00edcio do fen\u00f3meno de F\u00e1tima. \u00c9 uma das singularidades, embora n\u00e3o seja de facto \u00fanico. \u00c9 um aspeto que n\u00e3o pode ser desligado da sua singularidade, esta ideia de que as crian\u00e7as t\u00eam, na pr\u00f3pria experi\u00eancia crist\u00e3, uma palavra a dizer, que podem ser testemunhas de algo. Assinala-se, novamente, a dimens\u00e3o fortemente inclusiva do acontecimento crist\u00e3o e que tem um particular testemunho em F\u00e1tima.<\/p>\n<p>\u00c9 intergeracional, interclassista. Estando com todos, nas margens e no centro, \u00e9 um local que se torna um espa\u00e7o de grande converg\u00eancia.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Como perceber o aumento da procura das rel\u00edquias dos Pastorinhos nesta transforma\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas devocionais de que fala?<\/em><\/p>\n<p><em>AT \u2013<\/em> A materialidade do sagrado \u00e9 algo que faz parte estrutural da viv\u00eancia religiosa. Em todos os fen\u00f3menos religiosos os antrop\u00f3logos d\u00e3o muita import\u00e2ncia a essas dimens\u00f5es.<\/p>\n<p>Uma sociedade que fez um percurso de escolariza\u00e7\u00e3o, o acesso alargado a uma literacia, mais alargada a uma cultura, por vezes conduz a um olhar para a religi\u00e3o que menoriza essa dimens\u00e3o do sens\u00edvel na experi\u00eancia religiosa. Quando as pessoas t\u00eam a possibilidade de viver isso a partir dessa dimens\u00e3o, quando as institui\u00e7\u00f5es religiosas e os espa\u00e7os de acolhimento n\u00e3o censuram, as pessoas tendem a valorizar.<\/p>\n<p>O que \u00e9 pr\u00f3prio da experi\u00eancia religiosa \u00e9 a capacidade simb\u00f3lica de, naquilo que est\u00e1 mais pr\u00f3ximo, ver uma janela para uma transcend\u00eancia que ultrapassa aquela media\u00e7\u00e3o. Mas aquela media\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria. No comportamento religioso a procura de media\u00e7\u00f5es, de proximidade, s\u00e3o instrumentos que permitem abrir a experi\u00eancia para algo que esteja para al\u00e9m do pr\u00f3prio objeto, e isso \u00e9 t\u00e3o estrutural que penso nunca foi dispensado verdadeiramente em F\u00e1tima.<\/p>\n<p>O facto de haver esta consagra\u00e7\u00e3o dos Pastorinhos e do seu lugar como exemplo de santidade na Igreja vai favorecer esta reaproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 dimens\u00e3o mais material do religioso.<\/p>\n<p>Se observarmos as pr\u00e1ticas das pessoas, n\u00e3o tanto no recinto do santu\u00e1rio, mas na zona da hist\u00f3ria dos Pastorinhos, as pr\u00e1ticas mostram a procura em tocar as coisas, aproximar-se. O toque quase curativo, terap\u00eautico, \u00e9 algo de muito estrutural na experi\u00eancia religiosa. Estar\u00e1, em muitos casos, em tens\u00e3o com aspetos do cristianismo, mas o cristianismo incorporou-se historicamente nas nossas sociedades criando compromissos com estas dimens\u00f5es de um religioso mais naturalista mas que, julgo, nunca foi verdadeiramente dispensado e que em F\u00e1tima sempre esteve presente, mais ou menos valorizado pelas estrat\u00e9gias do Santu\u00e1rio.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O fen\u00f3meno F\u00e1tima explica-se tamb\u00e9m nos caminhos at\u00e9 ao Santu\u00e1rio?<\/em><\/p>\n<p><em>AT \u2013<\/em> Penso que mais neste momento. Uma das diferen\u00e7as que podemos encontrar sobre as pr\u00e1ticas em torno de F\u00e1tima, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, tem a ver com essa valoriza\u00e7\u00e3o do caminho, da experi\u00eancia da peregrina\u00e7\u00e3o como um caminho, de acolhimento em lugares.<\/p>\n<p>Assistimos a um crescimento da pr\u00e1tica deste caminho n\u00e3o s\u00f3 como via penitencial, mas de descoberta de si, de frui\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio meio. S\u00e3o t\u00f3picos que a peregrina\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea tem vindo a incorporar. Isso \u00e9 mais evidente em peregrina\u00e7\u00f5es que foram fortemente secularizadas como \u00e9 o caso de Santiago de Compostela. Mas estes elementos passam pela constru\u00e7\u00e3o de uma m\u00edstica do pr\u00f3prio caminho. \u00c9 algo que est\u00e1 neste momento a ser desenvolvido em algumas sensibilidades peregrinas no contexto de F\u00e1tima.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O pr\u00f3prio caminho que leva a F\u00e1tima mostra a transversalidade de F\u00e1tima extra Igreja cat\u00f3lica\u2026<\/em><\/p>\n<p><em>AT \u2013<\/em> Conhecemos ainda mal o impacto de F\u00e1tima noutras identidades religiosas. Em Portugal temos uma escassa presen\u00e7a de minorias religiosas. H\u00e1 uma maioria cat\u00f3lica muito enraizada culturalmente. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil fazer uma avalia\u00e7\u00e3o desse processo.<\/p>\n<p>Sabemos, no entanto, que internacionalmente tem crescido a atividade inter-religiosa em alguns santu\u00e1rios crist\u00e3os, budistas, hindus. A ideia de que um lugar sagrado pode ser um lugar de encontro para experi\u00eancias espirituais que se enra\u00edzam em tradi\u00e7\u00f5es religiosas diferentes \u00e9 algo que nos \u00faltimos anos se tem afirmado.<\/p>\n<p>F\u00e1tima ainda \u00e9 um espa\u00e7o pouco conhecido sobre esse ponto de vista. N\u00e3o podemos perder de vista que algumas sensibilidades dentro do espa\u00e7o cat\u00f3lico resistem bastante a essa apropria\u00e7\u00e3o de F\u00e1tima por parte de outras tradi\u00e7\u00f5es religiosas. Essa dimens\u00e3o mais ecum\u00e9nica ou inter-religiosa \u00e9 uma dimens\u00e3o que n\u00e3o dialoga bem com algumas sensibilidades cat\u00f3licas em torno de F\u00e1tima.<\/p>\n<p>Mas tendo em conta a capacidade pl\u00e1stica de F\u00e1tima, de acompanhar todas as grandes transforma\u00e7\u00f5es que a nossa contemporaneidade vai conhecendo, n\u00e3o tenho d\u00favidas de que &#8211; sendo essa claramente uma das transforma\u00e7\u00f5es a acontecer a n\u00edvel internacional &#8211; a dimens\u00e3o global pode vir a aprofundar-se no futuro, n\u00e3o s\u00f3 dentro de uma tradi\u00e7\u00e3o religiosa mas como espa\u00e7os de comunica\u00e7\u00e3o entre tradi\u00e7\u00f5es religiosas diversas.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Pensemos numa viragem de F\u00e1tima a Oriente. O bispo em\u00e9rito de Hong Kong, o cardeal John Tong, vem presidir \u00e0 peregrina\u00e7\u00e3o de maio. Que desafios se abrem ao Santu\u00e1rio e \u00e0 sua mensagem com este mundo oriental?<\/em><\/p>\n<p><em>AT \u2013<\/em> O cristianismo hoje vive um certo incremento, em particular, a Igreja Cat\u00f3lica, encontra outra geografia que n\u00e3o a tradicional. H\u00e1 v\u00e1rios espa\u00e7os onde temos comunidades com vitalidade, que, em todo o caso, a capacidade de encontrar lugares simb\u00f3licos, lugares que permitam fortalecer essas identidades, n\u00e3o \u00e9 de facto um caminho f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Nesse caminho global que neste momento caracteriza F\u00e1tima, facilmente um grande santu\u00e1rio, fortemente articulado com alguns aspetos centrais com a espiritualidade cat\u00f3lica, a devo\u00e7\u00e3o mariana, pode facilmente, num contexto em que as pessoas vivem globalmente em rela\u00e7\u00e3o a outras geografias do catolicismo contempor\u00e2neo, tornar-se uma pe\u00e7a muito importante. Esse tem sido, tanto quanto sei, um dos terrenos fortes de desenvolvimento das peregrina\u00e7\u00f5es internacionais em F\u00e1tima.<\/p>\n<p>Mas temos de saber interpretar este fen\u00f3meno segundo as pr\u00e1ticas de mobilidade em termos gerais no nosso planeta. Boa parte da mobilidade tur\u00edstica tem como origem o oriente. Estes povos est\u00e3o a incorporar no seu quotidiano e projetos de vida com muito mais facilidade o objetivo da desloca\u00e7\u00e3o, o conhecimento de outros lugares. E \u00e9 natural fazer das nossas desloca\u00e7\u00f5es multifuncionais: quando nos deslocamos \u00e9 para mais do que uma coisa.<\/p>\n<p>O que acontece, nessas circunst\u00e2ncias, \u00e9 que as pessoas associam a visita a F\u00e1tima. \u00c9 interessante perceber este lugar como um que n\u00e3o se dispensa na constru\u00e7\u00e3o da viagem, na constru\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio imagin\u00e1rio da viagem, que \u00e9 algo essencial na cultura contempor\u00e2nea. Uma reflex\u00e3o a fazer s\u00e3o as transa\u00e7\u00f5es que hoje se estabelecem entre a pr\u00e1tica tur\u00edstica e de peregrina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 uns anos v\u00edamos isto como uma degenera\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica de peregrina\u00e7\u00e3o, mas parece-me ser uma observa\u00e7\u00e3o pouco pertinente e pouco eficaz. Temos de compreender o que \u00e9 a natureza da desloca\u00e7\u00e3o hoje, que recursos envolve. Uma desloca\u00e7\u00e3o da Coreia a F\u00e1tima envolve recursos que vai mobilizar servi\u00e7os com, em muitos casos, m\u00faltiplas ofertas. A pr\u00e1tica da peregrina\u00e7\u00e3o hoje tem de ser pensada nesta l\u00f3gica.<\/p>\n<p>Fazer uma pastoral do turismo implica, nos nossos dias, ter a consci\u00eancia de que as pr\u00e1ticas tur\u00edsticas das pessoas se podem associar a pr\u00e1ticas de peregrina\u00e7\u00e3o e estas se podem relacionar com pr\u00e1ticas tur\u00edsticas. As pessoas n\u00e3o s\u00e3o outras, s\u00e3o as mesmas que fazem uma coisa e outra. Enquanto o fazem, poderiam merecer o cuidado das Igrejas, pensando nelas como crist\u00e3os que est\u00e3o nesse contexto de mobilidade e podem ser acolhidas e integradas em contextos diferentes, n\u00e3o apenas num contexto de santu\u00e1rio.<\/p>\n<p>As que visitam F\u00e1tima, visitam depois outros locais, fazem um circuito e, porventura, para al\u00e9m de F\u00e1tima, n\u00e3o encontrar\u00e3o um acolhimento crist\u00e3o em qualquer outro lugar. Esta articula\u00e7\u00e3o parece-se importante do ponto de vista pastoral.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Podemos perceber uma procura semelhante \u00e0 que aconteceu h\u00e1 100 anos com os cidad\u00e3os de Leste?<\/em><\/p>\n<p><em>AT \u2013<\/em> Pode haver alguma compara\u00e7\u00e3o, porque encontramos tamb\u00e9m a Oriente um cristianismo de resist\u00eancia. H\u00e1 a possibilidade de ancorar a sua identidade num lugar que d\u00e1 essa liberdade. Pode haver uma similitude, mesmo em contextos diferentes, porque mesmo a Oriente encontramos contextos de liberdade religiosa bastante distintos.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 F\u00e1tima \u00e9 esse lugar que se tem adaptado aos novos tempos. Como atualizar o apelo primeiro da ora\u00e7\u00e3o, penit\u00eancia e convers\u00e3o? <\/em><\/p>\n<p><em>AT \u2013<\/em> Estou convicto de que a atualiza\u00e7\u00e3o acontece mais pela via das pr\u00e1ticas dos peregrinos do que por via de uma estrat\u00e9gia do santu\u00e1rio. Aquilo que tem tornado, a meu ver, o santu\u00e1rio como esse lugar de forte capacidade de resposta \u00e0 mudan\u00e7a relaciona-se com o facto de, embora seja um santu\u00e1rio com uma estrutura eclesi\u00e1stica e de integra\u00e7\u00e3o eclesial, com uma l\u00f3gica cat\u00f3lica na sua organiza\u00e7\u00e3o, permanece como um espa\u00e7o muito aberto \u00e0s pessoas na sua individualidade, na sua biografia pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Quando em contextos diversos falo sobre F\u00e1tima, contextos em que depois as pessoas tomam a palavra, acontece percebermos que o seu discurso \u00e9 imediatamente uma biografia. Toda a gente tem uma qualquer hist\u00f3ria sobre F\u00e1tima. \u00c9 isso que d\u00e1 a vitalidade e a capacidade de acompanhar a vida. Na medida em que a estrutura se abre claramente a essa complexidade, n\u00e3o tem como a pol\u00edtica a compacta\u00e7\u00e3o e redu\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia, um perfil \u00fanico, com uma forte vigil\u00e2ncia sobre o que deve ou n\u00e3o ser um peregrino, sobre o que pode ele encontrar em F\u00e1tima, na medida em que uma estrutura se abre dessa maneira \u00e0 vida das pessoas, o que vai acontecer \u00e9 que as pessoas constroem um santu\u00e1rio.<\/p>\n<p>Uma das coisas que acho interessante perceber em F\u00e1tima \u00e9 que o santu\u00e1rio s\u00f3 em parte \u00e9 constru\u00eddo pela pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o. Grande parte da sua constru\u00e7\u00e3o, do que n\u00f3s chamamos o santu\u00e1rio de F\u00e1tima, \u00e9 feita pelos pr\u00f3prios peregrinos com as suas hist\u00f3rias, com o que transportam nas suas ora\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas. Essa vida \u00e9 que constr\u00f3i o santu\u00e1rio. Se este santu\u00e1rio tivesse um perfil de organiza\u00e7\u00e3o diferente, que reduzisse a capacidade de acolher esta diversidade, passaria a ter dificuldades em acompanhar estas transforma\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O pr\u00f3ximo centen\u00e1rio ter\u00e1 de ser constru\u00eddo dessa forma? <\/em><\/p>\n<p><em>AT \u2013<\/em> N\u00e3o tenho a capacidade de dizer se o santu\u00e1rio vai continuar a ser isto. Como cientista social, tenho de dizer que h\u00e1 santu\u00e1rios que morreram. Que tiveram uma enorme vitalidade durante muito tempo &#8211; at\u00e9 na hist\u00f3ria portuguesa: pensemos, por exemplo, no santu\u00e1rio da Nazar\u00e9 que teve uma import\u00e2ncia regional num per\u00edodo hist\u00f3rico alargado.<\/p>\n<p>Os santu\u00e1rios t\u00eam a sua hist\u00f3ria e vida e alguns morrem. N\u00e3o vou fazer o exerc\u00edcio de progn\u00f3stico sobre os pr\u00f3ximos 100 anos. Parece-me claro, na medida em que F\u00e1tima mantiver esta capacidade de se abrir \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio peregrino, de ser um santu\u00e1rio constru\u00eddo em parte pelo peregrino, que ter\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de futuro, porque lhe dar\u00e1 uma capacidade de ir incorporando no pr\u00f3prio santu\u00e1rio as transforma\u00e7\u00f5es que acompanham a vida das pessoas.<\/p>\n<p>Talvez o aspeto que se possa vir a tornar mais dif\u00edcil para experi\u00eancia do santu\u00e1rio, em especial como experi\u00eancia de identifica\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, poder\u00e1 ser perceber-se a partir da identidade religiosa do peregrino que se emancipa de qualquer regime de perten\u00e7a. Isso tem acontecido, apesar de n\u00e3o estarmos ainda em condi\u00e7\u00f5es de perceber que consequ\u00eancia pode haver e o que o n\u00edvel de frequ\u00eancia pode vir a revelar.<\/p>\n<p>Encontramos essa tend\u00eancia nalguns lugares de peregrina\u00e7\u00e3o no mundo, no fundo, a possibilidade de algu\u00e9m viver a sua identidade religiosa j\u00e1 n\u00e3o a partir do que \u00e9 tradicional &#8211; que \u00e9 a inscri\u00e7\u00e3o numa comunidade e a sua viv\u00eancia religiosa a partir de uma perten\u00e7a -, passarmos a ter uma viv\u00eancia religiosa que tem como escala o longo curso da sua vida, onde alguns momentos fortes do ponto de vista religioso, como uma peregrina\u00e7\u00e3o, v\u00e3o ser os grandes articuladores dessa identidade, mas num forte distanciamento a outras din\u00e2micas comunit\u00e1rias.<\/p>\n<p>Embora se encontre em F\u00e1tima, percebemos ainda uma forte articula\u00e7\u00e3o com os dinamismos mais estruturais do catolicismo na sociedade portuguesa. Mas se se aprofundar esta tend\u00eancia, diria que ficar\u00e1 muito dif\u00edcil o estabelecimento de qualquer correla\u00e7\u00e3o entre a din\u00e2mica de F\u00e1tima e as outras l\u00f3gicas pastorais da Igreja Cat\u00f3lica. A rela\u00e7\u00e3o com F\u00e1tima autonomiza-se na identidade dos peregrinos.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 \u00c9 um quadro que se estende para al\u00e9m daquilo que o padre Tolentino Mendon\u00e7a reflete sobre a crise do ser e a crise do pertencer\u2026<\/em><\/p>\n<p><em>AT \u2013<\/em> \u00c9 uma concretiza\u00e7\u00e3o. A dimens\u00e3o da cren\u00e7a que pode atualizar-se na visita peri\u00f3dica ao santu\u00e1rio n\u00e3o se articula com uma dimens\u00e3o de perten\u00e7a. Esta possibilidade de uma disjun\u00e7\u00e3o entre crer e pertencer, um fen\u00f3meno que analisamos na sociologia da religi\u00e3o desde os anos 80 do s\u00e9culo XX, \u00e9 uma transforma\u00e7\u00e3o de m\u00e9dio curso nas nossas sociedades. Em rela\u00e7\u00e3o ao santu\u00e1rio pode ter esta consequ\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>F\u00e1tima \u00e9 um acontecimento plural na sociedade portuguesa que tem conseguido acompanhar as transforma\u00e7\u00f5es sociais e religiosas, fruto do contributo pessoal de cada peregrino, que permite ao espa\u00e7o n\u00e3o se esgotar na estrutura mas abrir o fen\u00f3meno a todos, quer tenham maior ou menor inscri\u00e7\u00e3o na ecclesiosfera. 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