{"id":10307,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/o-nascimento-do-comunhao-e-libertacao\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"o-nascimento-do-comunhao-e-libertacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-nascimento-do-comunhao-e-libertacao\/","title":{"rendered":"O nascimento do Comunh\u00e3o e Liberta\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Subindo aqueles degraus do Berchet&#8230; <!--more--> D. Luigi Giussani, falecido na madrugada desta ter\u00e7a-feira aos 82 anos, narra num livro-entrevista realizado por Robi Ronza como se processou o nascimento do movimento eclesial \u201cComunh\u00e3o Eclesial\u201d. \u201cPor volta da segunda metade dos anos 50, a sociedade italiana parecia em pleno equil\u00edbrio e em plena continuidade com toda a aventura hist\u00f3rica e cultura anteriores. Ainda havia uma mentalidade que eu n\u00e3o sentia que fosse absolutamente oposta \u00e0quele ambiente e \u00e0quele contexto familiar no qual eu crescera, trinta anos antes. Mas era um falso equil\u00edbrio, sustentado apenas pelo respeito formal a leis e h\u00e1bitos nos quais n\u00e3o se acreditava mais e que, portanto, logo seriam deixados de lado. Era, pois, um equil\u00edbrio meramente formal: e isso ficava claro pelo seu resultado no \u00e2mbito educativo.  Uma sociedade realmente em equil\u00edbrio encontra na generosa disposi\u00e7\u00e3o ao engajamento, por parte dos seus jovens, a primeira medida e a primeira confirma\u00e7\u00e3o da sua for\u00e7a vital. Pelo contr\u00e1rio, na It\u00e1lia dos anos 50 a grande maioria deles continuava fechada no modesto per\u00edmetro das pequenas esperan\u00e7as e modestos projectos &#8211; individuais quanto ao seu \u00e2mbito e burgueses quanto \u00e0 sua formula\u00e7\u00e3o.   Muitas das pessoas mais activas e mais interessadas no mundo em que viviam envolviam-se com a arte, com a m\u00fasica e, especialmente, com o jazz. Era uma tentativa &#8211; inconsciente, na maioria das vezes &#8211; de sair da sociedade na qual se vivia, seja para fugir dela, seja para buscar, do lado de fora, alguma chave interpretativa. Na mesma linha e com as mesmas esperan\u00e7as, surgiriam, em seguida, fen\u00f3menos como o \u201cmundo beat\u201d e, depois, os \u201chippies\u201d.  O que, ent\u00e3o, parecia mais s\u00e9rio era (em algumas poucas pessoas) o envolvimento ideol\u00f3gico-pol\u00edtico, que, no entanto, carregava dentro de si o conformismo partid\u00e1rio, tornando-se, ent\u00e3o, formal em sua tem\u00e1tica e em suas ideias-for\u00e7a: falava-se muito da Resist\u00eancia, mas agora sem o brilho e a capacidade de sacrif\u00edcio inerentes \u00e0 actividade dos que militavam na Resist\u00eancia. O apelo a ela n\u00e3o passava de uma bandeira a ser agitada para proteger ou para justificar com palavras a pr\u00f3pria afirma\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria e pol\u00edtica, no sentido mais restrito do termo.   Al\u00e9m do interesse pelos aspectos menos conformistas da cultura americana e do apelo \u00e0 luta antifascista, um terceiro elemento &#8211; tamb\u00e9m ele muito formal &#8211; de co\u00e1gulo e de relativa mobiliza\u00e7\u00e3o era o princ\u00edpio da liberdade de consci\u00eancia, do qual derivava um corol\u00e1rio (muito influente no n\u00edvel da escola) segundo o qual os jovens n\u00e3o podiam mais ser meros degustadores dos conte\u00fados culturais da tradi\u00e7\u00e3o (da tradi\u00e7\u00e3o em geral, e n\u00e3o somente do seu componente crist\u00e3o), mas deviam entrar em contacto com todos os tipos de express\u00e3o e de pensamento, para assim poder chegar \u00e0 verdade de um modo documentado e imparcial. Era o que esperavam &#8211; ou, pelo menos, afirmavam esperar &#8211; os defensores dessa pedagogia de cepa tipicamente ilumin\u00edstico-liberal.   Eu era, ent\u00e3o, professor no Semin\u00e1rio de Venegono; ensinava teologia dogm\u00e1tica nos cursos seminar\u00edsticos e teologia na Faculdade; nem pensava nas grandes mudan\u00e7as que em breve ocorreriam. Tudo come\u00e7ou com um pequeno epis\u00f3dio, que acabou mudando a minha vida: enquanto me dirigia para o litoral adri\u00e1tico, para um per\u00edodo de f\u00e9rias, durante a viagem de trem comecei a conversar casualmente com alguns estudantes, que ignoravam completamente a Igreja. E sendo obrigado &#8211; por lealdade, por bom esp\u00edrito &#8211; a atribuir a essa ignor\u00e2ncia a avers\u00e3o e a indiferen\u00e7a manifestadas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja, pensei, ent\u00e3o, que me devia dedicar \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o de uma presen\u00e7a crist\u00e3 no ambiente estudantil.  Para isso, pedi (e obtive) dos meus superiores a licen\u00e7a para deixar Venegono e ir para Mil\u00e3o; e ali fui designado para ensinar religi\u00e3o no col\u00e9gio \u201cG. Berchet\u201d. Desde os primeiros dias nesse novo cargo, a intui\u00e7\u00e3o inicial que eu tivera no comboio a respeito da ignor\u00e2ncia dos estudantes s\u00f3 veio, infelizmente, a se confirmar.  Eu abordava os pouqu\u00edssimos estudantes que portavam o distintivo da Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica ou dos Escuteiros e os interpelava, nos corredores, enquanto sub\u00edamos a escada: \u201cMas voc\u00eas acreditam mesmo em Cristo?\u201d. Eles olhavam surpresos; n\u00e3o encontrei um s\u00f3 que me tivesse respondido \u201csim\u201d com a espontaneidade caracter\u00edstica de quem tem dentro de si uma verdadeira raiz de f\u00e9. E uma outra pergunta que eu fazia a todos, naqueles primeiros tempos, era: \u201cNa sua opini\u00e3o, o Cristianismo e a Igreja est\u00e3o presentes na escola, t\u00eam uma incid\u00eancia dentro da escola?\u201d. A resposta era quase sempre feita de susto ou cercada de um sorriso ir\u00f3nico.  Isso ocorria quando, segundo a opini\u00e3o comum, a Igreja ainda tinha uma forte presen\u00e7a na sociedade italiana; e tinha, mesmo, mas s\u00f3 como resultado de um passado que ainda n\u00e3o tinha sido subvertido pelo ataque que, com todas as evid\u00eancias, vinha sendo preparado naquelas oficinas de homens novos, de sociedade nova, que s\u00e3o a escola e a universidade. Ficou claro, para mim, que uma tradi\u00e7\u00e3o &#8211; ou, em geral, uma experi\u00eancia humana &#8211; n\u00e3o pode desafiar a hist\u00f3ria, n\u00e3o pode subsistir no tempo, a n\u00e3o ser que consiga se expressar e se comunicar de um jeito revestido de dignidade cultural.   A Igreja, naqueles anos, era sim uma presen\u00e7a ainda s\u00f3lida na sociedade, gra\u00e7as ao seu passado, mas o seu peso e a sua solidez estavam alicer\u00e7adas sobre dois pilares: de um lado, a participa\u00e7\u00e3o em massa no culto cat\u00f3lico, devida geralmente a uma for\u00e7a inercial; e, do outro &#8211; paradoxalmente &#8211; num poder estritamente pol\u00edtico, al\u00e9m de tudo muito mal utilizado de um ponto de vista eclesial. Tanto \u00e9 verdade que a Igreja e aqueles organismos partid\u00e1rios, que eram a sua face pol\u00edtica, davam mostras de n\u00e3o perceber a import\u00e2ncia da criatividade cultural e do problema educacional. Tudo se resumia ao esfor\u00e7o para incrementar o n\u00famero dos inscritos nas associa\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas oficiais. O conte\u00fado de vida dessas associa\u00e7\u00f5es reduzia-se (exclu\u00eddos alguns momentos de entusiasmo) ao mais puro moralismo: toda a vibrante complexidade da experi\u00eancia crist\u00e3 reduzia-se, nesses ambientes, \u00e0 observ\u00e2ncia estrita de alguns poucos mandamentos (na pr\u00e1tica, nem todo o Dec\u00e1logo era observado com igual determina\u00e7\u00e3o).   A \u00fanica eclos\u00e3o cultural era o entusiasmo cultivado e provocado pelos aspectos cerimoniais e pelos momentos de massa da vida eclesial. Essas manifesta\u00e7\u00f5es corriam o risco de se tornar gestos superficiais, sem valor educativo. N\u00e3o eram o resultado de uma educa\u00e7\u00e3o, e por isso de um desenvolvimento cr\u00edtico; portanto, a personalidade dos que delas participavam continuava desorientada, extraviada. Presumia-se que o resto j\u00e1 tinha sido feito. Eram gestos culturais, sem d\u00favida, porque pertence \u00e0 ess\u00eancia da Igreja a \u201csacramentalidade\u201d da sua natureza; a sacramentalidade conta com o \u201csinal\u201d como um dos seus factores fundamentais; e tais gestos de massa eram, certamente, um sinal; todavia &#8211; como j\u00e1 disse &#8211; n\u00e3o havia a consci\u00eancia das suas motiva\u00e7\u00f5es; as consci\u00eancias daqueles a quem esses gestos eram propostos como instrumento educativo fundamental ficavam, assim, flutuando na nebulosidade, sempre mais desorientadas.   No campo da cultura laica estava em curso, naqueles anos, um processo de radicaliza\u00e7\u00e3o que encontrava na Universidade de Pisa &#8211; para citar s\u00f3 um exemplo &#8211; um dos seus principais pontos de apoio. Isso redundava numa intoler\u00e2ncia e numa agressividade cada vez mais gratuitas em rela\u00e7\u00e3o a qualquer ideia crist\u00e3; sobretudo, por\u00e9m, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 presen\u00e7a crist\u00e3. Desde ent\u00e3o, estava claro para mim que a intellighenzjia laica estava de olho nas c\u00e1tedras escolares mais significativas (Hist\u00f3ria, Italiano, Filosofia), para fazer delas p\u00falpito contra os p\u00falpitos. Em todas as escolas encontravam-se numerosos professores que faziam da sua c\u00e1tedra um p\u00falpito anti-crist\u00e3o, visando destruir a f\u00e9 dos seus alunos crentes.  Eram quase sempre pessoas que se colocavam frente \u00e0 experi\u00eancia religiosa com uma atitude preconceituosa e intolerante, em plena contradi\u00e7\u00e3o com aquela abertura de ideias que eles proclamavam, mas que s\u00f3 valia para quem pensava praticamente como eles. Segundo esses professores, tudo o que vinha da Igreja era a priori desumano, e com os crist\u00e3os nem valia a pena discutir: por isso, digo que o preconceito e a intoler\u00e2ncia constitu\u00edam os elementos caracter\u00edsticos da actividade deles na escola. J\u00e1 em 1954 ficava claro que a concentra\u00e7\u00e3o desses professores nas escolas-chave das cidades mais importantes (de facto, na regi\u00e3o da Lombardia a maioria deles se concentrava nos col\u00e9gios e nos institutos de magist\u00e9rio de Mil\u00e3o) n\u00e3o era uma coisa espor\u00e1dica, mas deliberada. O car\u00e1cter antidemocr\u00e1tico da opera\u00e7\u00e3o era favorecido pelo equ\u00edvoco do monop\u00f3lio estatal das escola p\u00fablica, que, se em tese n\u00e3o respeita nem limita a identidade cultural de ningu\u00e9m, na pr\u00e1tica &#8211; justamente porque se prop\u00f5e aos estudantes como que uma esp\u00e9cie de limbo imparcial, \u201cacima da disputa\u201d &#8211; termina, paradoxalmente, por colocar a consci\u00eancia cr\u00edtica dos jovens num estado de narcose, que os torna d\u00f3ceis \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o cultural de qualquer grupo organizado ou mesmo de um professor.   Em sua cruzada anti-cat\u00f3lica, os professores laicistas dos anos 50 n\u00e3o hesitavam em envolver at\u00e9 a tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria italiana, acusada de ser rica demais em personalidades crist\u00e3s.  \u00c9 sabido que, sobretudo contra esse laicismo, insurgiu-se polemicamente a Juventude Estudantil (Giovent\u00f9 Studentesca). Podemos at\u00e9 nos perguntar a raz\u00e3o dessa op\u00e7\u00e3o, quando j\u00e1 ent\u00e3o parecia (e os eventos posteriores vieram a confirmar isso) que ele (o laicismo) j\u00e1 estava em decl\u00ednio, e que o marxismo tomaria o seu lugar no papel de cultura dominante da intellighenzjia, tornando-se logo a escol\u00e1stica dos modernos \u201ccl\u00e9rigos\u201d. A coisa pode parecer ainda mais estranha se se leva em conta que aqueles eram os anos da \u201cguerra fria\u201d e da cruzada anticomunista. Para mim, ao contr\u00e1rio, parecia que combater a cultura marxista como o \u00fanico inimigo significava, antes de tudo, n\u00e3o entender a sua raiz. A cultura marxista, em seus aspectos anti-religiosos e anticlericais, nada mais \u00e9 que uma deriva\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e operativa do iluminismo.   Os governos centristas, sob a bandeira de um gen\u00e9rico anticomunismo, moviam-se segundo uma l\u00f3gica conservadora. Em especial, jogava a favor do conservadorismo a praxe banal t\u00edpica de grande parte das actividades do governo. O que caracterizava a classe dirigente daqueles anos era uma absoluta insensibilidade \u00e0 dimens\u00e3o cultural. Mais do que de criptofascismo, o n\u00facleo da lideran\u00e7a de ent\u00e3o pode ser acusada de insensibilidade cultural. E \u00e9 justamente a aus\u00eancia de dignidade cultural que determina a deteriora\u00e7\u00e3o do comportamento p\u00fablico em todos os n\u00edveis, levando-o para mais diversos tipos de fascismo.   Salvo nobres excep\u00e7\u00f5es, os professores crist\u00e3os &#8211; como, ali\u00e1s, toda a intellighenzjia cat\u00f3lica de ent\u00e3o &#8211; aplicavam tenazmente o princ\u00edpio da substancial separa\u00e7\u00e3o entre o religioso e o temporal e, seguindo &#8211; com fidelidade digna de melhor causa &#8211; a ideia abstracta de um Estado neutro, tomavam como ponto de honra ensinar sem propor nenhuma vis\u00e3o de mundo, sem comunicar nada daquilo que eram (e que, portanto, no fundo n\u00e3o eram). Por isso, n\u00e3o criavam nem propunham nenhuma posi\u00e7\u00e3o cultural, nem crist\u00e3 nem que respeitasse o cristianismo: isso como tom geral teorizado. E n\u00e3o \u00e9 de admirar que isso acontecesse justamente em Mil\u00e3o, onde tem a sua sede principal a Universidade Cat\u00f3lica do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a maior institui\u00e7\u00e3o cultural dos cat\u00f3licos italianos.   Naqueles anos, a Cat\u00f3lica (em pleno contraste com a sua inspira\u00e7\u00e3o original) se tornou justamente o lugar em que, com ampla articula\u00e7\u00e3o cultural, se sustentava e se difundia esse princ\u00edpio da separa\u00e7\u00e3o entre temporal e religioso, que depois causaria o eclipse da presen\u00e7a cat\u00f3lica na sociedade italiana.  Ao mesmo tempo, o vigor das associa\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas deixava-me perplexo: eu me perguntava como \u00e9 que, com toda a sua aparente for\u00e7a e capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o, essas organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o conseguiam ter incid\u00eancia sobre aqueles ambientes em que a maioria das pessoas passava horas decisivas da pr\u00f3pria jornada: das f\u00e1bricas aos escrit\u00f3rios, passando pelas escolas? Por outro lado, mesmo a f\u00e9 do jovem estudante nascido numa fam\u00edlia cat\u00f3lica e que cresceu em contacto com a par\u00f3quia termina por enfraquecer e se tornar meramente formal, se na escola ele n\u00e3o aprende que a f\u00e9 e a vida crist\u00e3 s\u00e3o capazes de responder \u00e0s problem\u00e1ticas te\u00f3ricas e existenciais que justo na idade escol\u00e1stica o tomam de assalto.   O que importa \u00e9, antes de tudo, que a f\u00e9 se torne mentalidade: \u00e9 a mentalidade que cria, dando nova forma \u00e0s coisas. Nas pessoas que se formavam nas associa\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas, a f\u00e9 em geral n\u00e3o se tornava mentalidade crist\u00e3.  Cito um caso, que me parece significativo. Eu lembro-me de que, nos primeiros anos de magist\u00e9rio no col\u00e9gio Berchet, numa classe havia um rapaz muito esperto e inteligente, cat\u00f3lico e Delegado dos Aspirantes da sua par\u00f3quia (os \u201caspirantes\u201d, segundo a estrutura tradicional da Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, eram os inscritos na associa\u00e7\u00e3o entre os 10 e os 13 anos. O delegado era aquele que, na par\u00f3quia, cuidava deles). Entre os seus colegas havia v\u00e1rios que, depois, se tornariam l\u00edderes dos grupos contestadores chamados \u201cextraparlamentares\u201d. E todos falavam bem dele, tanto os colegas quanto os professores; todos gostavam muito dele, apesar de suas id\u00e9ias cat\u00f3licas&#8230;  Percebendo isso, eu disse: \u201cVeja, a sua correc\u00e7\u00e3o, a sua honestidade, n\u00e3o levam a lugar nenhum, a n\u00e3o ser a voc\u00ea mesmo. Voc\u00ea n\u00e3o torna presente, na classe, o facto crist\u00e3o. Voc\u00ea simplesmente estuda, tira 10, est\u00e1 em paz com os colegas e \u00e9 amigo de todos; e tudo termina a\u00ed\u201d. Ou seja, aquele rapaz n\u00e3o tinha a dimens\u00e3o da eclesialidade; a sua moralidade era individualista e liberal.  A nossa tentativa nasceu, ent\u00e3o, como uma resposta a essa situa\u00e7\u00e3o de crise e de aus\u00eancia dos crist\u00e3os dos \u00e2mbitos mais vivos e concretos em que a grande maioria das pessoas &#8211; inclusive os crist\u00e3os &#8211; transcorria a pr\u00f3pria exist\u00eancia; como uma subvers\u00e3o (na medida das nossas for\u00e7as) de uma situa\u00e7\u00e3o que via os crist\u00e3os a autoexcluir-se educadamente da vida p\u00fablica, da cultura, das realidades populares, sob os vibrantes aplausos e o cordial consenso das for\u00e7as pol\u00edticas e culturais que tinham em mente substitu\u00ed-los no cen\u00e1rio do pa\u00eds.   Algum tempo depois de eu me tornar professor de religi\u00e3o no Berchet, notei que durante o intervalo, num dos patamares das escadas do col\u00e9gio, reunia-se um grupo de mo\u00e7os que conversavam com muita familiaridade e anima\u00e7\u00e3o; isso era todo dia, e sempre os mesmos. Essa amizade me impressionou. Eu me informei sobre quem eram, e me responderam: \u201cs\u00e3o os comunistas\u201d. Aquilo me chocou. Eu me perguntava: \u201cPor que os crist\u00e3os n\u00e3o s\u00e3o capazes nem dessa unidade que Cristo indica como a mais imediata e vis\u00edvel caracter\u00edstica dos que cr\u00eaem n\u2019Ele?\u201d.  Assim, um dia, depois das aulas, eu voltava para casa ruminando esse facto, irritado com essa incapacidade dos crist\u00e3os de serem fi\u00e9is a si mesmos e \u00e0 pr\u00f3pria f\u00e9. No caminho &#8211; eu poderia at\u00e9 citar o nome da rua &#8211; encontrei quatro rapazes que conversam entre si. Eu me aproximei e perguntei: \u201cVoc\u00eas s\u00e3o crist\u00e3os?\u201d. \u201cSim\u201d, responderam, um pouco assustados com a pergunta. \u201cAh! s\u00e3o crist\u00e3os\u201d, comentei.  \u201cE na escola quem percebe isso? Nas assembleias do gr\u00e9mio estudantil quem se faz presente e luta s\u00e3o s\u00f3 os comunistas e os monarcofascistas; e os crist\u00e3os, onde est\u00e3o?\u201d. Na semana seguinte, esses quatro jovens compareceram \u00e0 assembleia e fizeram um discurso que come\u00e7ou com estas palavras: \u201cN\u00f3s, cat\u00f3licos&#8230;\u201d.  A partir desse momento, naquela escola, por pelo menos dez anos &#8211; at\u00e9 quando ali eu estive (do ano acad\u00e9mico de 1954-55 at\u00e9 1964-65), o assunto mais discutido e debatido passou a ser Igreja e Cristianismo.  Fonte: www.cl.org.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Subindo aqueles degraus do Berchet&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[95,193,206,211],"class_list":["post-10307","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-accao-catolica","tag-educacao","tag-familia","tag-ferias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10307","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10307"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10307\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10307"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10307"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10307"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}