{"id":102758,"date":"2018-04-15T17:15:56","date_gmt":"2018-04-15T16:15:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=102758"},"modified":"2018-07-27T15:06:16","modified_gmt":"2018-07-27T14:06:16","slug":"homilia-de-d-manuel-linda-na-entrada-solene-na-diocese-do-porto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-de-d-manuel-linda-na-entrada-solene-na-diocese-do-porto\/","title":{"rendered":"Homilia de D. Manuel Linda na Entrada Solene na Diocese do Porto"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>A intimidade com o Ressuscitado projeta-nos para o servi\u00e7o dos irm\u00e3os<\/strong><\/em><!--more--><\/p>\n<p>\u00c9 bela esta passagem do Evangelho: Aquele que congregou os Doze \u00e0 sua volta, qual verdadeira fam\u00edlia, e sofreu a sua fuga e abandono, parece que n\u00e3o consegue viver sem eles. Por isso, procura-os e recria a antiga convivialidade, como se nada tivesse acontecido. Para bem deles mesmos, j\u00e1 que, longe de Jesus, se debatem com o remorso, a incredulidade e o medo, somente superados pela oferta do encontro tu-a-tu. Como que a dizer, a eles e a n\u00f3s, que a miseric\u00f3rdia de Deus n\u00e3o falha, mesmo quando entra a nossa trai\u00e7\u00e3o mais vergonhosa. E que \u00e9 Ele quem nos procura para dar um sentido empolgante \u00e0 tentativa de recome\u00e7armos uma nova caminhada.<\/p>\n<p>Lida em chave catequ\u00e9tica, esta passagem evang\u00e9lica diz-nos tamb\u00e9m que a \u00abqualidade de vida\u00bb, inaugurada pelo Ressuscitado, passa por aquelas dimens\u00f5es que constituem o cerne do discipulado ou do ser Igreja: a evangeliza\u00e7\u00e3o, de que Jesus \u00e9 Mestre, a ponto de conseguir a proeza de lhes abrir \u201c<em>o entendimento para compreenderem as Escrituras<\/em>\u201d; a liturgia, j\u00e1 que tudo se passa no contexto da cena dos \u201c<em>disc\u00edpulos de Ema\u00fas que contaram [\u2026] como tinham reconhecido Jesus ao partir do p\u00e3o<\/em>\u201d; e a caridade, pois o \u201c<em>Mestre e Senhor<\/em>\u201d, que j\u00e1 tinha dado o exemplo do lava-p\u00e9s, agora chega ao ponto de se identificar com os esfomeados e implorar \u201c<em>alguma coisa para comer<\/em>\u201d. \u00c9 este an\u00fancio, celebra\u00e7\u00e3o e compromisso que constitui o cerne do Evangelho, aquele que, n\u00f3s, aqui no Porto, juramos constituir a nossa \u201c<em>alegria<\/em>\u201d e \u201c<em>a nossa miss\u00e3o<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9, tamb\u00e9m, desta intimidade, verdadeiro paradigma teol\u00f3gico e n\u00facleo embrion\u00e1rio da Igreja, que nasce a obra apost\u00f3lica, pois os disc\u00edpulos compreenderam bem \u201c<em>que havia de ser pregado em seu nome o arrependimento e o perd\u00e3o dos pecados a todas as na\u00e7\u00f5es, come\u00e7ando por Jerusal\u00e9m<\/em>\u201d. E que isso os implicava, a ponto de serem constitu\u00eddos \u201c<em>as testemunhas de todas estas coisas<\/em>\u201d.\u00a0Para que? A primeira leitura fornece-nos a resposta.<\/p>\n<p>Em todos os tempos e circunst\u00e2ncias, o homem arrasta consigo a terr\u00edvel inclina\u00e7\u00e3o a contradizer o plano divino. Se \u201c<em>o Deus de Abra\u00e3o, de Isaac e de Jacob, o Deus de nossos pais, glorificou o seu Servo Jesus<\/em>\u201d, as autoridades judaicas e os habitantes de Jerusal\u00e9m exigiram o seu aniquilamento. Mesmo que Pilatos tivesse intu\u00eddo esta invers\u00e3o dos valores e estivesse \u201c<em>resolvido a solt\u00e1-l\u2019O<\/em>\u201d. E n\u00f3s est\u00e1vamos l\u00e1, representados neles. Por isso, tamb\u00e9m n\u00f3s negamos o Santo e Justo e pedimos \u201c<em>a liberta\u00e7\u00e3o de um assassino<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>A obra da salva\u00e7\u00e3o tem de ser recuperada e atuada continuamente porque tamb\u00e9m \u00e9 incessante esta tenta\u00e7\u00e3o de preferir o mal ao bem e de optar pelo mundo das atitudes destruidoras, representadas na hist\u00f3ria pessoal de Barrab\u00e1s, gerando a morte do Justo. \u00c9 a apavorante sina da humanidade: rejeitar a verdade da exist\u00eancia, representada n\u2019Aquele que S\u00e3o Pedro define como \u201c<em>o Pr\u00edncipe da Vida<\/em>\u201d, e eleger a mentira da insensibilidade perante a morte. Que o digam as v\u00edtimas das viol\u00eancias e das guerras. Mas que os digam tamb\u00e9m os descartados e marginalizados pela civiliza\u00e7\u00e3o da abund\u00e2ncia e do desfrute.<\/p>\n<p>Todos reconhecemos os enormes contributos que os m\u00faltiplos sectores da sociedade podem dar para esta necess\u00e1ria e urgente sensatez humana, para se obstar \u00e0 invers\u00e3o dos p\u00f3los: a transmiss\u00e3o dos valores na fam\u00edlia, o inestim\u00e1vel contributo da cultura, a for\u00e7a ordenadora da lei justa, o papel organizador da atividade pol\u00edtico-administrativa, a preven\u00e7\u00e3o ou repress\u00e3o atribu\u00eddas \u00e0s For\u00e7as Armadas e \u00e0s For\u00e7as de Seguran\u00e7a, etc. N\u00e3o obstante, esta obra de salva\u00e7\u00e3o est\u00e1 confiada primordialmente \u00e0 Igreja, como guardi\u00e3 da mem\u00f3ria d\u2019Aquele que \u201c<em>por n\u00f3s homens e para nossa salva\u00e7\u00e3o desceu dos C\u00e9us<\/em>\u201d. A comunidade crente atualiza essa salva\u00e7\u00e3o agindo, simultaneamente, em dois \u00e2mbitos: internamente, na santifica\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, no tornar os cora\u00e7\u00f5es mais sens\u00edveis, mais semelhantes ao de Cristo; externamente, contribuindo para a humaniza\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es e das estruturas, no respeito pela autonomia das realidades terrenas.<\/p>\n<p>Caros diocesanos do Porto, minhas senhoras e meus senhores, esta \u00e9 a nossa miss\u00e3o. Porventura, mesmo sem o reconhecer, esta \u00e9 a fermenta\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica que o nosso mundo anseia. Sim, h\u00e1 muitas linguagens e compete-nos sermos especialistas na sua decifra\u00e7\u00e3o. E uma das que mais ressoam por a\u00ed \u00e9 o grito da opress\u00e3o do sem-sentido que tanto fecha a pessoa no seu individualismo narcisista como o conduz ao abandono dos outros. Ser presen\u00e7a de Igreja neste mundo passa, consequentemente, por \u201c<em>comover [os cora\u00e7\u00f5es] para desconvocar a ang\u00fastia e aligeirar o medo<\/em>\u201d, para usar a bel\u00edssima express\u00e3o de Agustina Bessa Lu\u00eds.<\/p>\n<p>Para esta a\u00e7\u00e3o pastoral de \u201c<em>comover<\/em>\u201d os cora\u00e7\u00f5es, conto com todos. Com todos. Conto, sobremaneira, com os jovens. Porque n\u00e3o sei dizer melhor, repito-lhes as palavras do querido Papa Francisco: \u201c<em>O tempo em que vivemos n\u00e3o precisa de jovens-sof\u00e1, mas de jovens com sapatos. Melhor: com as sapatilhas cal\u00e7adas. Este tempo s\u00f3 aceita jogadores titulares em campo, n\u00e3o no banco de suplentes<\/em>\u201d. Jovens e pessoas de todas as idades.<\/p>\n<p>A nossa equipa diocesana do Porto n\u00e3o ter\u00e1, portanto, suplentes: nem jovens nem crian\u00e7as, nem adultos nem idosos, nem ricos nem pobres, nem cultos nem humilhados. T\u00ea-los-\u00e1 a todos como titulares e em campo. Certamente treinados e capitaneados pelos bispos e padres. N\u00e3o para g\u00e1udio destes, mas para, mais organicamente, obter bons resultados e marcar pontos no atuar da salva\u00e7\u00e3o no mundo. N\u00e3o se retira, portanto, a determinante import\u00e2ncia aos pastores, mas eleva-se o timbre de o ser, pois, como escreveu o diretor de um grande jornal \u2013de facto, a laicidade tem tanto a ensinar-nos!- \u201c<em>o cristianismo \u00e9 proximidade, o que faz a diferen\u00e7a entre o burocrata e o pastor: um conta o n\u00famero de ovelhas, o outro procura cuidar delas<\/em>\u201d. Pensemos nisto, neste dia em que come\u00e7a, em todo o pa\u00eds, a Semana de Ora\u00e7\u00e3o pelas Voca\u00e7\u00f5es de especial Consagra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Caros fi\u00e9is em Cristo, estamos todos na \u00abbarca de Pedro\u00bb: ou navegamos ou nos afundamos. Ent\u00e3o, o melhor ser\u00e1 remarmos em conjunto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Senhor N\u00fancio Apost\u00f3lico, interrogo-me sobre as raz\u00f5es da minha nomea\u00e7\u00e3o para t\u00e3o honroso minist\u00e9rio, como seja este de Bispo do Porto, na tradi\u00e7\u00e3o, por exemplo, desse eminente e inesquec\u00edvel D. Ant\u00f3nio Barroso, cujo b\u00e1culo acompanhou todos os meus antecessores, desde h\u00e1 cem anos e, agora, me sustenta a mim pr\u00f3prio. E n\u00e3o encontro outro motivo que n\u00e3o seja o meu sotaque beir\u00e3o, mais propriamente da Beira Douro: o Porto j\u00e1 estava habituado a ele desde o senhor D. Ant\u00f3nio Francisco. Pois bem, se o imito na pron\u00fancia, saiba, igualmente, continu\u00e1-lo na simplicidade encantadora, na afetividade envolvente e na bondade contagiante. \u00c9 que, tal como ele, tamb\u00e9m eu estou convencido que s\u00f3 isso lan\u00e7a pontes da Igreja para o mundo e do mundo para a Igreja. Nesta linha, \u00e9 com um cora\u00e7\u00e3o duplamente agradecido que ressalto o gesto das C\u00e2maras Municipais do Porto e de Vila Nova de Gaia de atribuir o nome de D. Ant\u00f3nio Francisco dos Santos \u00e0 nova ponte, estrutura de aproxima\u00e7\u00e3o e de encontro: agrade\u00e7o este tributo \u00e0 Diocese do Porto que teve este ilustr\u00edssimo bispo como seu condutor; e agrade\u00e7o esta interpela\u00e7\u00e3o que me \u00e9 feita, a mim, pessoalmente, qual seja a necessidade de nunca me esquecer que um bispo \u00e9, por natureza e mandato divino, um \u00abpont\u00edfice\u00bb, um construtor de pontes.<\/p>\n<p>Tent\u00e1-lo-ei com a ajuda divina que imploro por interm\u00e9dio da \u00abRosa m\u00edstica\u00bb, a Virgem Santa Maria, venerada como Senhora da Assun\u00e7\u00e3o em toda a Diocese e como Senhora da Vandoma nesta nossa cidade episcopal.<\/p>\n<p>\u201c<em>Movidos pelo amor de Deus<\/em>\u201d, vamos \u00e0 nossa obra, irm\u00e3os.<\/p>\n<p>Catedral do Porto, 15 de abril de 2018<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>D. Manuel Linda, bispo do Porto<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A intimidade com o Ressuscitado projeta-nos para o servi\u00e7o dos irm\u00e3os<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":102759,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-102758","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/102758","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=102758"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/102758\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/102759"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=102758"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=102758"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=102758"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}