{"id":10244,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/mensageira-das-revelacoes-de-fatima\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"mensageira-das-revelacoes-de-fatima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/mensageira-das-revelacoes-de-fatima\/","title":{"rendered":"Mensageira das revela\u00e7\u00f5es de F\u00e1tima"},"content":{"rendered":"<p>Homilia de D. Jos\u00e9 Policarpo nas ex\u00e9quias da Irm\u00e3 L\u00facia  <!--more--> Senhor Bispo de Coimbra; Senhores Bispos; excelent\u00edssimas Autoridades; meus queridos amigos, irm\u00e3os e irm\u00e3s: A morte da Irm\u00e3 L\u00facia era inevit\u00e1vel. \u00c9 um momento de como\u00e7\u00e3o e \u00e9 com uma certa surpresa agrad\u00e1vel que verificamos que foram poucos os portugueses que lhe ficaram indiferentes. No entanto, esta cerim\u00f3nia solene que estamos a celebrar n\u00e3o \u00e9 especial porque a Irm\u00e3 L\u00facia era especial. Ela \u00e9 a liturgia da Igreja para uma crente que viveu a sua vida procurando seguir o Senhor na fidelidade, percebendo a sua vontade e o seu des\u00edgnio, \u00e0 busca do seu rosto. Por isso mesmo, este \u00e9 talvez o momento privilegiado para percebermos o que de extraordin\u00e1rio aconteceu na vida desta mulher, que se insere na normalidade de uma voca\u00e7\u00e3o crist\u00e3. O que de extraordin\u00e1rio ao n\u00edvel da f\u00e9 e da religiosidade acontece, se n\u00e3o se inserir na normalidade da voca\u00e7\u00e3o crist\u00e3, corre o risco de n\u00e3o ser verdadeiro. Tudo come\u00e7a numa escolha e num chamamento. A f\u00e9 crist\u00e3 come\u00e7a sempre numa elei\u00e7\u00e3o de predilec\u00e7\u00e3o, numa palavra escutada, numa mensagem de amor consentida e sentida, num desejo de Deus acerca de n\u00f3s. Come\u00e7a tudo quando uma experi\u00eancia do Divino se torna t\u00e3o forte que n\u00e3o a podemos ignorar, t\u00e3o enraizada na nossa consci\u00eancia que nem as nossas d\u00favidas a podem anular. Quando um projecto de Deus \u00e9 anunciado com tal clareza s\u00f3 me resta procurar segui-lo e ser-lhe fiel. E toda a vida crist\u00e3, para aqueles que procuram ser fi\u00e9is a este chamamento, \u00e9 esta longa espera, esta longa caminhada daquelas virgens fi\u00e9is e prudentes que a par\u00e1bola do Evangelho nos aponta simbolicamente e que aguentam, em todas a vicissitudes, em todas as dificuldades, porventura em todas as trevas, que aguentam a sua luz acesa \u00e0 espera que venha o seu Senhor. At\u00e9 \u00e0quele dia, como dizia a primeira leitura do profeta em que ent\u00e3o, num face a face, ser\u00e3o enxugadas todas as l\u00e1grimas, anuladas todas as dores, cumuladas todas as tristezas. O profeta n\u00e3o se refere apenas \u00e0s simples dores humanas que sabemos s\u00e3o inerentes ao pr\u00f3prio existir humano, refere-se tamb\u00e9m \u00e0s tribula\u00e7\u00f5es da f\u00e9. Esta caminhada de f\u00e9 \u00e9 tantas vezes uma caminhada sofrida, experimentada pela d\u00favida, pela tenta\u00e7\u00e3o, pela busca &#8211; e n\u00f3s sabemos, pela hist\u00f3ria da Irm\u00e3 L\u00facia, ela pr\u00f3pria no-las testemunhou nas suas mem\u00f3rias, nem ela foi dispensada desse tributo \u00e0 dor, \u00e0 obscuridade, \u00e0 busca aflita da luz de Deus.  Logo numa das primeiras apari\u00e7\u00f5es, a L\u00facia, em nome dos tr\u00eas, perguntou a Nossa Senhora: \u201cVossemec\u00ea quem \u00e9? E o que quer de n\u00f3s?\u201d. Essa pergunta que ela dirigiu a Nossa Senhora exprime o grito ansioso de todos os crentes, tantas vezes dirigido ao nosso Deus, a Jesus Cristo a quem entregamos a nossa vida, na profundidade da nossa f\u00e9. E Tu quem \u00e9s Senhor? O que queres de mim? \u00c9 uma pergunta que tem sempre uma resposta; uma resposta que se vai aprofundando, que se vai radicalizando, que se vai por ventura iluminando at\u00e9 \u00e0quele dia \u2013 neste momento ela j\u00e1 o conhece &#8211; em que essa resposta ser\u00e1 dada definitivamente.  A uma voca\u00e7\u00e3o corresponde, normalmente, uma miss\u00e3o. Deus chama-nos e confia em n\u00f3s; Deus chama-nos e envia-nos. A maneira como a L\u00facia narra nas suas mem\u00f3rias as apari\u00e7\u00f5es de Nossa Senhora, na simplicidade de crian\u00e7as, \u00e9 t\u00e3o claro que elas recebem aquela visita inesperada do C\u00e9u como uma miss\u00e3o, algo que o Senhor tinha para lhes pedir a elas, uma miss\u00e3o que tem a ver com a miss\u00e3o da Igreja, que tem a ver com aquele Mist\u00e9rio que atravessa a hist\u00f3ria dos homens que \u00e9 o projecto de bondade e de amor  transformador para todos quantos se quiserem abrir a ele. Uma miss\u00e3o que tem em comum a pr\u00f3pria intui\u00e7\u00e3o do Evangelho, \u201carrependei-vos e acreditai\u201d, uma miss\u00e3o que cada um deles exerce \u00e0 sua maneira. Um dia, a L\u00facia perguntou a Nossa Senhora se o Francisco e a Jacinta iam para o c\u00e9u. E Nossa Senhora disse-lhas que sim, que os vinha buscar muito brevemente para o c\u00e9u, mas que dela queria que ficasse mais algum tempo. Deu-lhe a entender que a miss\u00e3o dela n\u00e3o tinha acabado. H\u00e1 uma parte desta miss\u00e3o espec\u00edfica da Irm\u00e3 L\u00facia que n\u00f3s conhecemos. Ela foi a porta-voz, ela foi a mensageira das revela\u00e7\u00f5es. Francisco era um contemplativo, s\u00f3 gostava de estar calado a adorar o Senhor. A Jacinta, na sua emotividade de crian\u00e7a, ficava de tal maneira comovida e possu\u00edda do que via e ouvia, mas n\u00e3o dizia nada, ofereceu-se: s\u00e3o lindas as poucas as palavras que lhe conhecemos, j\u00e1 em Lisboa no hospital D. Estef\u00e2nia, onde ela entrega a sua vida. A L\u00facia \u00e9 sempre aquela que fala com Nossa Senhora. Hoje estamos a ler na liturgia um texto do livro do \u00caxodo, em que Mois\u00e9s diz a Deus, que o envia para enfrentar o fara\u00f3, \u201ceu n\u00e3o sei falar, eu n\u00e3o sou um bom falador\u201d. E Deus diz-lhe: \u201ctu vais e Aar\u00e3o falar\u00e1 por ti\u201d. L\u00facia \u00e9 aquela que fala, que comunica e que tem de tal maneira isso a peito como miss\u00e3o que comunica incansavelmente. Espero que muito brevemente possamos ter acesso, com publica\u00e7\u00f5es bem preparadas para o povo de Deus, a esse manancial imenso de doutrina espiritual na linha da Mensagem de F\u00e1tima que esta mulher t\u00e3o simples, mas t\u00e3o grande de cora\u00e7\u00e3o escreveu. H\u00e1 uma parte da sua miss\u00e3o que ela levou para o C\u00e9u no seu cora\u00e7\u00e3o. A Mensagem de F\u00e1tima \u00e9 um desafio \u00e0 penit\u00eancia, \u00e0 convers\u00e3o e \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o. N\u00e3o foi por acaso que mudou de Ordem Religiosa e foi para o Carmelo. Penso que na \u00faltima fase da sua vida ela assumiu, claramente, a ora\u00e7\u00e3o como miss\u00e3o.  N\u00f3s estamos comovidos porque a Irm\u00e3 L\u00facia \u00e9 a Irm\u00e3 L\u00facia. Com ela viva, todos os acontecimentos de F\u00e1tima eram nossos contempor\u00e2neos. A sua morte marca uma fronteira. A partir deste momento, F\u00e1tima \u00e9 um grande Santu\u00e1rio, uma grande mensagem, uma grande tradi\u00e7\u00e3o espiritual que n\u00f3s recebemos de Deus, que n\u00f3s recebemos de gera\u00e7\u00f5es e gera\u00e7\u00f5es de peregrinos, penitentes e orantes que tomaram a s\u00e9rio, contra tudo e contra todos, a simplicidade da mensagem.  Estamos comovidos n\u00e3o tanto porque ela morreu. Estamos comovidos porque hoje, entre F\u00e1tima e o C\u00e9u, uma nova ponte se estabeleceu. Comecei esta homilia, e termino-a como comecei, por dizer que a morte de L\u00facia nos comoveu e sensibilizou. Eu, pessoalmente, fui particularmente tocado pelo volume de reac\u00e7\u00f5es e das mensagens que, inesperadamente, surgiram de todos os quadrantes. Eu queria aqui agradecer em nome da Igreja a todos aqueles, pessoas e institui\u00e7\u00f5es, que nos fizeram chegar mensagens escritas, ou atrav\u00e9s de gestos e de decis\u00f5es tomadas, ou de declara\u00e7\u00f5es feitas em p\u00fablico, manifestaram cada um \u00e0 sua maneira, mas todos com grande respeito, que sentiram na morte desta mulher qualquer coisa que tocava Portugal. E quando uma comunidade nacional \u00e9 capaz de reconhecer numa religiosa, na simplicidade de uma religiosa discreta, mas na grandeza de uma espiritualidade vivida, um s\u00edmbolo que fala a todos, esse \u00e9 certamente para n\u00f3s um sinal de esperan\u00e7a. A L\u00facia hoje, junto de Deus, certamente ter\u00e1 perguntado outra vez a Nossa Senhora: \u201cvossemec\u00ea o que quer?\u201d. Oxal\u00e1 ela pergunte n\u00e3o tanto acerca dela, mas que lhe diga: \u201cE vossemec\u00ea o quer deste Portugal, desta terra de Santa Maria?\u201d.  S\u00e9 Nova de Coimbra, 15 de Fevereiro de 2005, <i>D. Jos\u00e9 Policarpo, Cardeal-Patriarca, presidente da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia de D. 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