{"id":101269,"date":"2018-04-01T10:39:42","date_gmt":"2018-04-01T09:39:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=101269"},"modified":"2018-04-03T17:28:01","modified_gmt":"2018-04-03T16:28:01","slug":"homilia-de-d-manuel-clemente-cardeal-patriarca-de-lisboa-na-vigilia-pascal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-de-d-manuel-clemente-cardeal-patriarca-de-lisboa-na-vigilia-pascal\/","title":{"rendered":"Homilia de D. Manuel Clemente, cardeal-patriarca de Lisboa, na Vig\u00edlia Pascal"},"content":{"rendered":"<p>Mortos para o pecado e vivos para Deus<!--more--><\/p>\n<p>\u00abNa morte que sofreu, Cristo morreu para o pecado de uma vez para sempre; mas a sua vida \u00e9 uma vida para Deus. Assim v\u00f3s tamb\u00e9m considerai-vos mortos para o pecado e vivos para Deus, em Cristo jesus\u00bb<\/p>\n<p>Estas palavras que ouvimos a S\u00e3o Paulo, entre tantas outras que preenchem a Vig\u00edlia que celebramos, pedem-nos agora uma particular aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Num momento em que a gra\u00e7a batismal retoma a sua fonte e o seu \u00e1pice, importa considerar que significado tem em n\u00f3s. Melhor dizendo, o significado que o batismo h\u00e1 de ganhar em cada um de n\u00f3s, como sinal vivo de ressurrei\u00e7\u00e3o para todos.<\/p>\n<p>Antes de mais, reparemos na pr\u00f3pria vida de Cristo. Nada o separou de Deus Pai, nada o distraiu dos outros, especialmente dos que mais lhe urgiam aten\u00e7\u00e3o e servi\u00e7o. Nisto mesmo demonstrou perfeita coincid\u00eancia com o Pai, dispensador da vida de cada um e que nada mais quer sen\u00e3o que nos realizemos absolutamente todos. Como dissera a Nicodemos: \u00abTanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unig\u00e9nito, a fim de que todo o que cr\u00ea nele n\u00e3o se perca, mas tenha a vida eterna\u00bb (<em>Jo<\/em> 3, 16).<\/p>\n<p>Cristo recuperou em si mesmo a nossa humanidade em Deus, Fonte da Vida. T\u00e3o totalmente, que a pr\u00f3pria morte se tornou vida. Vida pelo modo como morreu, fazendo da pr\u00f3pria morte vida tamb\u00e9m. Geralmente a morte isola e destr\u00f3i a comunh\u00e3o com os outros. Muito pelo contr\u00e1rio, a morte de Cristo foi comunh\u00e3o total: Morre a perdoar aos inimigos, morre a partilhar o seu Esp\u00edrito e a sua M\u00e3e. Morre nas m\u00e3os do Pai, que lhe sustentam a cruz. Morre tamb\u00e9m \u00e0s m\u00e3os dos homens, para lhes pagar em bem o mal que lhe fizeram. E foi assim, transformado o abandono em comunh\u00e3o, que venceu a morte, como O celebramos agora, irrompendo como luz no negrume de todas as noites.<\/p>\n<p>Car\u00edssimos irm\u00e3os, o caminho est\u00e1 aberto. O caminho que levou aquelas mulheres at\u00e9 ao sepulcro. A\u00ed mesmo, onde a morte dera lugar \u00e0 vida. Para ouvirem, como n\u00f3s tamb\u00e9m acab\u00e1mos de ouvir: \u00abProcurais a Jesus de Nazar\u00e9, o Crucificado? Ressuscitou: n\u00e3o est\u00e1 aqui\u00bb.<\/p>\n<p>&#8211; Que ser\u00e1 ressuscitar? N\u00e3o o conseguimos abarcar totalmente agora, presos que estamos em cada lugar e dura\u00e7\u00e3o, que tanto nos constituem um a um como nos podem isolar dos outros. E isto n\u00e3o se resolve apenas quantitativamente. Assim como a vida eterna n\u00e3o significa o tempo alongado, mas o tempo transcendido, ressuscitar n\u00e3o significar\u00e1 deixar de ser quem somos, mas sermos n\u00f3s pr\u00f3prios doutro modo \u2013 do modo de Cristo, como absoluta comunh\u00e3o com Deus, com todos e com tudo.<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo disse, como ouvimos, que estaremos mortos para o pecado e vivos para Deus, em Cristo Jesus. Recebendo o seu Esp\u00edrito, recebemos a sua caridade. Morrer para o pecado \u00e9 morrer para a pr\u00f3pria morte, que \u00e9 o seu amargo fruto. Morte da alma que se fecha em si pr\u00f3pria e morte do corpo que \u00e9 a nossa comunica\u00e7\u00e3o assim desfeita. Muito pelo contr\u00e1rio, a caridade sempre persiste, como o verdadeiro amor que nos eterniza nos outros \u2013 e no Deus de todos.<\/p>\n<p>Com Cristo e no Esp\u00edrito de Cristo, tudo ressurge como vida compartilhada, outro modo de dizer C\u00e9u, plena verdade do que Deus \u00e9 em si mesmo, do Pai e do Filho na unidade do Esp\u00edrito. Sendo que o Filho \u00e9 como que o modelo da cria\u00e7\u00e3o inteira e da nossa condi\u00e7\u00e3o filial, frutos que somos da benevol\u00eancia divina.<\/p>\n<p>\u00c9 experi\u00eancia certa e confirmada que todos os momentos de verdadeira caridade assinalam a vida eterna. N\u00e3o nos faltam testemunhos fortes disto mesmo, como os que ouvimos a quem corresponde com generosidade \u00e0s necessidades materiais e espirituais dos outros, a quem parte e a quem fica, unicamente determinado pelo bem a fazer.<\/p>\n<p>A verdadeira prova da ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo \u00e9 a vida em ressurrei\u00e7\u00e3o de quantos, movidos pelo seu Esp\u00edrito, v\u00e3o vencendo a morte pela pr\u00e1tica do bem. N\u00e3o t\u00eam pressa, sen\u00e3o para servir. N\u00e3o t\u00eam medo, sen\u00e3o de ficar aqu\u00e9m. N\u00e3o querem vida, sen\u00e3o para a doar e sempre mais. Assim mesmo a garantem al\u00e9m de si, assim mesmo a eternizam em Deus Amor.<\/p>\n<p>&#8211; Quem deu pela ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, naquela madrugada de Jerusal\u00e9m? Pilatos j\u00e1 nem se lembraria de mais um dos que t\u00e3o facilmente condenava ao supl\u00edcio da cruz. An\u00e1s, Caif\u00e1s, os outros que o condenaram tamb\u00e9m, estariam at\u00e9 contentes por terem vencido alguma hesita\u00e7\u00e3o do procurador romano. Tudo estaria resolvido e encerrado com aquela grande pedra do sepulcro\u2026 Dois mil\u00e9nios transcorridos, todos esses passaram, como muitos outros que condenaram inocentes para se guardarem apenas a si pr\u00f3prios, por seguran\u00e7a ou conveni\u00eancia.<\/p>\n<p>Entretanto, aquelas mulheres deram por isso. Tamb\u00e9m os disc\u00edpulos acabaram por perceber. E assim come\u00e7aram uma cadeia de viv\u00eancias e testemunhos que constituem a subst\u00e2ncia da Igreja e da nossa condi\u00e7\u00e3o batismal. Sim, a vida de Jesus venceu a morte. Sim, o seu Esp\u00edrito reproduz em n\u00f3s a mesma vit\u00f3ria. Sim, o que celebramos nesta noite tornou-se a alvorada do mundo.<\/p>\n<p>&#8211; E de qual mundo, podemos perguntar? Deste nosso mundo, e como cabe precisamente a cada um. Ouvimos a indica\u00e7\u00e3o do jovem de branco, sentado no sepulcro vazio: \u00abIde dizer aos seus disc\u00edpulos e a Pedro que Ele vai adiante de v\u00f3s para a Galileia. L\u00e1 o vereis, como vos disse\u00bb.<\/p>\n<p>A Galileia era a terra deles, donde tinham partido. Aquela terra bem concreta, com nomes de cidades, gentes e of\u00edcios. A terra deles, como a terra de cada um de n\u00f3s, na vida de todos os dias. Onde tamb\u00e9m n\u00e3o faltam nomes, pessoas e tarefas, tudo a\u00ed mesmo, como est\u00e1 e como requer presen\u00e7a, aten\u00e7\u00e3o e cuidado. A\u00ed mesmo nos espera o Ressuscitado. A\u00ed mesmo O veremos e testemunharemos, precisamente agora. A\u00ed mesmo, onde houver vida a proteger, da conce\u00e7\u00e3o \u00e0 morte natural. A\u00ed mesmo, onde houver pessoas a acompanhar, com prioridade para os mais pobres, mais fr\u00e1geis ou mais s\u00f3s. A\u00ed mesmo, onde tantos nos esperam e o pr\u00f3prio Cristo nos aguarda.<\/p>\n<p>A\u00ed mesmo, em todo o tempo e circunst\u00e2ncia que requerem testemunhas aut\u00eanticas da ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo. Como seremos n\u00f3s e tanto mais quanto compartilharmos a sua caridade, o seu ser para os outros, maneira total de permanecermos na Vida que vence a morte, a Vida que n\u00e3o tem fim, porque \u00abo amor jamais passar\u00e1\u00bb! (<em>1 Co<\/em> 13, 8).<\/p>\n<p>&#8211; Sim, car\u00edssimos irm\u00e3os, tamb\u00e9m por n\u00f3s, a ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo alegrar\u00e1 o mundo!<\/p>\n<p>S\u00e9 de Lisboa, 31 de mar\u00e7o \u2013 1 de abril de 2018<\/p>\n<p>+ Manuel, cardeal-patriarca<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mortos para o pecado e vivos para Deus<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":101270,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[275],"class_list":["post-101269","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-pascoa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/101269","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=101269"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/101269\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/101270"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=101269"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=101269"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=101269"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}