{"id":101249,"date":"2018-04-01T11:30:08","date_gmt":"2018-04-01T10:30:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=101249"},"modified":"2018-04-01T09:20:25","modified_gmt":"2018-04-01T08:20:25","slug":"homilia-do-arcebispo-de-braga-no-domingo-de-pascoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-arcebispo-de-braga-no-domingo-de-pascoa\/","title":{"rendered":"Homilia do arcebispo de Braga no domingo de P\u00e1scoa"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Estradas da ressurrei\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong><!--more--><\/p>\n<p>Cristo Ressuscitou. Este \u00e9 o primeiro dia da Semana, o dia em que o Senhor venceu a morte. Para tr\u00e1s ficaram 4o dias de Quaresma, de prepara\u00e7\u00e3o interior para a vinda do Messias, e temos diante de n\u00f3s um novo tempo mistag\u00f3gico para interiorizarmos e expandirmos o evento Pascal. Foram 40 dias onde acompanhamos os passos da paix\u00e3o e morte de Jesus: a entrada triunfal em Jerusal\u00e9m, a \u00faltima ceia, a agonia no horto das oliveiras, a condena\u00e7\u00e3o e humilha\u00e7\u00e3o, a crucifix\u00e3o e a sepultura. Acompanh\u00e1mos ainda os intervenientes e a mistura de sentimentos e op\u00e7\u00f5es em momentos cr\u00edticos. Tivemos consci\u00eancia do quanto o Homem pode ser fr\u00e1gil e incoerente em tempos de amea\u00e7a mas tamb\u00e9m altru\u00edsta e bondoso perante uma injusti\u00e7a flagrante. Tudo isso terminou e foi perdoado por Cristo no alto da cruz. &#8220;Perdoa-lhes, Pai, porque n\u00e3o sabem o que fazem&#8221; (Lc 23,34).<\/p>\n<p>O primeiro dia, mais do que uma refer\u00eancia temporal, \u00e9 a indica\u00e7\u00e3o de que est\u00e1 prestes a iniciar um tempo novo. Disso nos d\u00e1 conta o Evangelho deste Domingo. Maria Madalena, Pedro e Jo\u00e3o correram para o sepulcro e deram conta que estava vazio. Era de manh\u00e3zinha, ainda escuro. Uma escurid\u00e3o exterior e interior. Poucos dias antes, Maria convivia com o Mestre, ouvia os seus ensinamentos, e agora caminha para cuidar do seu corpo maltratado. Mas o corpo n\u00e3o estava l\u00e1. Este acontecimento espantou tamb\u00e9m os ap\u00f3stolos. O que se teria passado? A receb\u00ea-los estava, diz-nos Mateus, um anjo do Senhor que desceu do c\u00e9u ap\u00f3s um grande terramoto. O anjo anunciou-lhes que o crucificado havia ressuscitado.<\/p>\n<p>Sabemos hoje, com a seguran\u00e7a da f\u00e9, que Cristo ressuscitou. A not\u00edcia \u00e9 de tal modo majestosa que deve ser partilhada por todo o mundo. \u00c9, no fundo, isso o que significa a corrida de Pedro e Jo\u00e3o. O primeiro representa a Igreja ainda ligada ao juda\u00edsmo, aos seus ritos e tradi\u00e7\u00f5es. O segundo, o disc\u00edpulo amado, representa a Igreja da esperan\u00e7a e do ressuscitado. Corre mais veloz, destemido e apressa-se por saber da novidade. Chegando ao sepulcro, debru\u00e7ou-se, viu mas n\u00e3o entrou. Pedro, mais lento, entrou no sepulcro, viu e confirmou. \u00c9 bonita esta imagem das duas velocidades da Igreja. Tamb\u00e9m hoje temos uma Igreja que caminha a v\u00e1rios ritmos. Alguns falam de tradicionalistas e progressistas. A juventude anseia por catapultar a Igreja para o futuro e os anci\u00e3os, com a sua experi\u00eancia de vida, tomam decis\u00f5es mais ponderadas e refletidas. Estamos dos dois lados. Somos fi\u00e9is a uma tradi\u00e7\u00e3o que confirma os nossos passos e mergulhamos no futuro com \u00e2nsia de novidade. Os dois ritmos s\u00e3o igualmente v\u00e1lidos e precisam um do outro para, na verdade, espelharem a identidade da Igreja: inova\u00e7\u00e3o nas metodologias da evangeliza\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a nos princ\u00edpios e valores que transmite. Valores esses que nem sempre correspondem \u00e0queles propostos pela sociedade e que devem ser validados \u00e0 luz do ensinamento de Cristo.<\/p>\n<p>\u00c9 nesta dupla estrada calcorreada por Pedro e Jo\u00e3o que nos queremos colocar. Queremos conduzir e preparar a Igreja para um tempo novo, com sinais claros de esperan\u00e7a. Proponho, hoje, esta estrada com cinco bifurca\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<ol>\n<li><strong>Estrada da pobreza e humildade. <\/strong>A experi\u00eancia da paix\u00e3o e morte de Jesus mostra-nos o quanto as coisas podem mudar de um momento para o outro. Um dia Cristo \u00e9 aclamado rei, ao som de hossanas, e no outro \u00e9 humilhado e crucificado. Ser fiel aos princ\u00edpios choca, muitas vezes, com as expectativas das pessoas. Mas, ao mesmo tempo, a Igreja n\u00e3o se pode advogar a dona da verdade. A Igreja do ressuscitado dever\u00e1 ser humilde, reconhecer as suas fragilidades e estar sempre pronta a recome\u00e7ar. A humildade traduz-se tamb\u00e9m num modo simples e pobre de se apresentar ao mundo. Ser pobre \u00e9 um caminho evang\u00e9lico que nos ajuda a centrar no essencial. Ajuda-nos, sobretudo, a desprender daquilo que n\u00e3o interessa para sermos \u00e1geis, leves e livres para partir em miss\u00e3o.<\/li>\n<li><strong>Estrada do acolhimento. <\/strong>J\u00e1 tive oportunidade de referir por diversas vezes que acredito que o acolhimento e a hospitalidade ser\u00e3o tra\u00e7os essenciais da Igreja de amanh\u00e3. Hospitalidade \u00e9 a coragem de acolher as pessoas no ponto em que se encontram, com a diversidade de pensamento e faz\u00ea-lo sem preconceitos. As pessoas referem-se \u00e0 Igreja como sendo uma institui\u00e7\u00e3o de dif\u00edcil acesso, burocr\u00e1tica e incapaz de compreender os dramas das pessoas. Por vezes temos tanta vontade de dizer aquilo em que acreditamos que nos esquecemos que, antes de mais, \u00e9 necess\u00e1ria disponibilidade para escutar. O que seria de Maria Madalena se n\u00e3o tivesse escutado com aten\u00e7\u00e3o as palavras do anjo? O que ser\u00e1 da Igreja se for incapaz de se colocar \u00e0 escuta?<\/li>\n<li><strong>Estrada do di\u00e1logo com a cultura. <\/strong>A ressurrei\u00e7\u00e3o foi, em muitos aspetos, uma novidade absoluta para os disc\u00edpulos. Cresceram com o paradigma do Messias, da liberta\u00e7\u00e3o e da lei. Agora tiveram de se reinventar, de mudar de paradigma e falar com uma nova linguagem: ressurrei\u00e7\u00e3o, vida e an\u00fancio. Imaginamos a dificuldade dos seus contempor\u00e2neos em compreender aquilo que diziam. Talvez hoje estejamos a atravessar um processo semelhante. Como disse o Papa Bento XVI, &#8220;n\u00e3o podemos dar por pressuposto que a f\u00e9 existe&#8221;. A cultura contempor\u00e2nea n\u00e3o \u00e9 a mesma de h\u00e1 algumas dezenas de anos. Muitos n\u00e3o compreendem a nossa linguagem, o nosso imagin\u00e1rio e o nosso pensamento. Esta estrada deve, por conseguinte, conduzir-nos a uma reinven\u00e7\u00e3o da linguagem e das pontes que unem a Igreja e a cultura. Este \u00e9 um imperativo se quisermos continuar a falar de Jesus.<\/li>\n<li><strong>Estrada da inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3. <\/strong>Porque a f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 mais um pressuposto \u00f3bvio, a Igreja do ressuscitado precisa de ativar processos de inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 de adultos. O pr\u00f3prio processo de maturidade humana \u00e9 cada vez mais tardio e, neste sentido, a Igreja deve ter metodologias adequadas a esta circunst\u00e2ncia. Isto n\u00e3o significa desvalorizar a catequese tradicional das crian\u00e7as. Significa que estamos num tempo novo e que as quest\u00f5es dos adultos t\u00eam uma densidade e horizonte diferentes e, por isso, devem ser levadas a s\u00e9rio. S\u00e3o cada vez mais os jovens adultos que se aproximam da Igreja para se batizarem. Ontem, na vig\u00edlia pascal, tivemos oportunidade de comprovar isso mesmo. Questiono-me se estaremos a fazer o suficiente. N\u00e3o estaremos demasiado confort\u00e1veis \u00e0 espera que os jovens venham ao nosso encontro ao inv\u00e9s de assumirmos uma postura proactiva?<\/li>\n<li><strong>Estrada da comunh\u00e3o. <\/strong>Todos os textos b\u00edblicos, inclusive o que acab\u00e1mos de escutar, falam-nos da dimens\u00e3o comunit\u00e1ria do an\u00fancio. Os ap\u00f3stolos s\u00e3o enviados dois a dois, os disc\u00edpulos caminham em conjunto para o sepulcro e, mais tarde, a comunidade crist\u00e3 re\u00fane-se no cen\u00e1culo, com Maria, em ora\u00e7\u00e3o. Trabalhar em conjunto ou, se preferirmos, em comunh\u00e3o \u00e9 uma exig\u00eancia da miss\u00e3o. Longe v\u00e3o os tempos em que as comunidades trabalhavam de modo isolado e eram autossuficientes. Longe v\u00e3o os tempos do bairrismo e dos projetos pessoais. A comunh\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 um testemunho para o mundo como uma necessidade. Pe\u00e7o, por isso, a todas as comunidades crist\u00e3s que se preparem para o futuro, que trabalhem em conjunto e coloquem a render os seus talentos em favor das comunidades vizinhas.<\/li>\n<\/ol>\n<p>As cinco estradas que agora proponho \u2014 e poderia indicar muitas outras \u2014 conduzem com esperan\u00e7a a Igreja para o &#8220;primeiro dia da semana&#8221;. O dia em que a Igreja far\u00e1 a experi\u00eancia do Ressuscitado e, com humildade, regressar\u00e1 ao esp\u00edrito das bem-aventuran\u00e7as. Rezo a Deus, e pe\u00e7o a todos os crist\u00e3os da nossa Arquidiocese, que esse tempo tenha in\u00edcio hoje mesmo. Hoje \u00e9, se assim o quisermos, o primeiro dia. Cristo ressuscitou, aleluia!<\/p>\n<p><em>D. Jorge Ortiga, <\/em><em>Arcebispo Primaz<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estradas da ressurrei\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":87101,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[172,275],"class_list":["post-101249","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-de-braga","tag-pascoa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/101249","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=101249"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/101249\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/87101"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=101249"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=101249"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=101249"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}