{"id":101194,"date":"2018-03-31T23:59:36","date_gmt":"2018-03-31T22:59:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=101194"},"modified":"2018-04-03T17:40:38","modified_gmt":"2018-04-03T16:40:38","slug":"homilia-de-d-jorge-ortiga-na-vigilia-pascal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-de-d-jorge-ortiga-na-vigilia-pascal\/","title":{"rendered":"Homilia de D. Jorge Ortiga, arcebispo de Braga, na Vig\u00edlia Pascal"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Quem nos ir\u00e1 revolver a pedra?<\/strong><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Passaram j\u00e1 alguns dias desde que Jesus foi crucificado e sepultado. Ao seu lado estiveram algumas mulheres, Maria \u2013 sua m\u00e3e \u2013 e o disc\u00edpulo preferido. Esteve tamb\u00e9m Jos\u00e9 de Arimateia, um fariseu, que na tarde da crucifix\u00e3o foi pedir a P\u00f4ncio Pilatos que lhe entregasse o corpo para o sepultar. S\u00e3o essas mulheres que agora, uma vez mais, velam e cuidam do corpo. Podemos imaginar a sua tristeza ao comprarem os aromas para embalsamarem Jesus. Podemos imaginar ainda os seus passos lentos e o n\u00f3 na garganta \u00e0 medida que caminham para o sepulcro. Nada daquilo parece fazer sentido.<\/p>\n<p>Nenhuma m\u00e3e deveria enterrar o seu filho. \u00c9 contra a ordem natural da vida, deixa feridas profundas e um sentido de vazio que se prolonga por muito tempo. Uno-me, neste momento, em ora\u00e7\u00e3o a tantas m\u00e3es e pais que se despediram cedo demais dos seus filhos. Gostaria de ter uma resposta confortante sobre o porqu\u00ea deste drama. Sei, contudo, que nenhuma resposta seria suficiente para a grandeza da pergunta. Acompanho-vos na dor, nas quest\u00f5es, mas sobretudo na esperan\u00e7a que nos vem de Deus. \u00c9 precisamente esta esperan\u00e7a crist\u00e3 que me permite dizer que o vosso filho est\u00e1 vivo junto de Deus, olha por v\u00f3s e acompanha-vos.<\/p>\n<p>Ao reler este Evangelho, somos de imediato transportados para o texto b\u00edblico de Domingo de Ramos. Nesse dia escut\u00e1mos que uma mulher, de m\u00e3os delicadas, quebrou um vaso de alabastro para derramar o perfume sobre a cabe\u00e7a de Jesus. Pensava faz\u00ea-lo como um gesto de gratid\u00e3o e devo\u00e7\u00e3o mas, na verdade, ungiu-o antecipadamente. E hoje confirmamos o alcance da sua atitude. Completa- se o ciclo da paix\u00e3o do Senhor. Maria Madalena, Maria e Salom\u00e9 \u201ccompraram aromas para irem embalsamar Jesus\u201d. Fazem-no como um gesto de respeito e de ternura, assim como n\u00f3s o fazemos quando visitamos a campa de um nosso familiar. Fazem-no, tamb\u00e9m, para restituir a dignidade ao corpo de Jesus que, outrora, fruto da viol\u00eancia humana, \u201ctinha perdido a apar\u00eancia de um ser humano\u201d.<\/p>\n<p>O tempo do luto, assim como todos os gestos a ele associados, merece toda a nossa considera\u00e7\u00e3o. O mesmo acontece com toda a realidade da morte. Choca-nos. Oprime-nos. Parece-nos que dever\u00edamos ter nascido para n\u00e3o morrer. Morrer \u00e9 sempre dif\u00edcil. Acompanhar aqueles que se v\u00eaem privados de familiares ou amigos \u00e9 o modo de testemunharmos que a morte n\u00e3o tem a \u00faltima palavra. Da\u00ed a import\u00e2ncia de vivermos o tempo de luto com gestos e atitudes que ofere\u00e7am verdadeira esperan\u00e7a. Nestes momentos manifestamos que somos crist\u00e3os com esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Creio, por isso, que seria importante que as comunidades crist\u00e3s, e de modo particular os sacerdotes, abra\u00e7assem o acompanhamento espiritual num per\u00edodo de luto como um aut\u00eantico minist\u00e9rio. Quando a dor e o sofrimento turvam a f\u00e9, um horizonte de esperan\u00e7a, aberto por um companheiro de estrada, pode ser determinante para o futuro dessa pessoa. A presen\u00e7a e a esperan\u00e7a, na hora do luto, geram uma gratid\u00e3o eterna.<\/p>\n<p>Era o primeiro dia da semana quando as mulheres se dirigiram ao sepulcro. Chegando l\u00e1 depararam- se com a enorme pedra rolada e o sepulcro aberto. O jovem vestido de branco, que se encontrava no interior, deixa-nos antever que se tratou de um gesto divino. Em boa verdade, a pedra da morte \u00e9 intranspon\u00edvel para as nossas for\u00e7as humanas. Foi um fen\u00f3meno para o qual n\u00e3o encontram explica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel e ficaram sem saber como reagir. Ficaram assustadas, diz o evangelista Marcos, sem ch\u00e3o. O jovem, quase lembrando o arcanjo Gabriel no dia da anuncia\u00e7\u00e3o, diz-lhes \u201cn\u00e3o vos assusteis\u201d. Trata-se, de facto, de um novo an\u00fancio. Assim como foi anunciado a Maria o nascimento de Jesus, tamb\u00e9m agora \u00e9 anunciada a ressurrei\u00e7\u00e3o do Messias a todo o mundo.<\/p>\n<p>A pedra que impedia o acesso abre-se, descodifica-se e inaugura um novo mundo de vida. Estas mulheres s\u00e3o, ao mesmo tempo, destinat\u00e1rias da mensagem e testemunhas do Viviente. \u201cVede o lugar onde O tinham depositado [&#8230;] agora ide dizer aos seus disc\u00edpulos\u201d (Mc 16,6). Como \u00e9 imprescind\u00edvel n\u00e3o se deter na morte e \u201cesperar contra a esperan\u00e7a\u201d (Rm 4,18). Tamb\u00e9m n\u00f3s podemos encontrar, no decurso da nossa vida, diversas pedras que nos impedem de tocar o ressuscitado e de o anunciar ao mundo que n\u00e3o o quer ouvir. Este \u00e9 o momento favor\u00e1vel para as retirar. Elenco apenas algumas.<\/p>\n<p>1. A pedra do medo. Esta \u00e9 a pedra que coloca no nosso cora\u00e7\u00e3o a semente da d\u00favida. Quando pensamos em Jesus, ou estamos prestes a fazer a experi\u00eancia Dele, por exemplo em per\u00edodo vocacional, temos medo de nos colocarmos em quest\u00e3o. Temos medo de que, ao nos encontrarmos com Cristo, que algo mude na nossa vida, que algo escape ao nosso controlo ou que simplesmente os nossos projectos pessoais n\u00e3o se realizem. A experi\u00eancia, e os relatos de tantos que nos precederam, diz-nos que Cristo nada nos rouba. Pelo contr\u00e1rio. Quando nos entregamos a Ele, os nossos sonhos e projectos multiplicam-se e expandem-se. \u00c9, no fundo, isso o que significa a ressurrei\u00e7\u00e3o: fazer nascer uma nova vida livre de amarras.<\/p>\n<p>2. A pedra dos estere\u00f3tipos. Esta \u00e9 a pedra que muitas vezes a sociedade coloca no nosso caminho. Sabemos que atravessamos tempos onde a religi\u00e3o e a ressurrei\u00e7\u00e3o est\u00e3o sob suspeita. S\u00e3o consideradas coisas antiquadas, irracionais e castradoras. Porque gostamos de nos sentir integrados, deixamo-nos, ami\u00fade, amarrar por estes estere\u00f3tipos e, passo a passo, vamos perdendo a nossa identidade. Confundimo-nos com a mentalidade do mundo e escondemos a coragem da diferen\u00e7a que expressa quem somos e em quem acreditamos. Qual \u00e9 o pre\u00e7o da nossa liberdade interior? A ressurrei\u00e7\u00e3o significa, neste sentido, a vit\u00f3ria sobre os estere\u00f3tipos e a liberdade de anunciar aquilo em que acreditamos. Por mais contradit\u00f3rio que possa parecer, o mundo aprecia gente livre, pessoas com coluna vertebral e coragem de assumir os seus valores. Sejamos essas pessoas que ousam falar de Cristo como algu\u00e9m vivo que nos seduziu e confiou a tarefa de sermos sua presen\u00e7a no meio do mundo.<\/p>\n<p>3. A pedra do comodismo. Esta \u00e9 a pedra que nos faz acreditar que haver\u00e1 sempre gente disposta a anunciar Cristo, que outros estar\u00e3o sempre prontos a rolar a pedra da morte. Haver\u00e1 sempre algu\u00e9m que falar\u00e1 ou trabalhar\u00e1. Quando nos instalamos e limitamos a assistir a esta l\u00f3gica, que em si mesma \u00e9 falsa, vamos progressivamente, e sem nos darmos conta, tornando desleixados no an\u00fancio. No momento em que Cristo apareceu aos seus disc\u00edpulos constituiu-os, e de consequ\u00eancia a todos n\u00f3s, ap\u00f3stolos do Evangelho. Ningu\u00e9m pode ocupar o lugar de cada um. At\u00e9 porque cada pessoa tem um carisma \u00fanico e um modo irrepet\u00edvel de narrar a sua experi\u00eancia. \u00c9 esta a beleza da ressurrei\u00e7\u00e3o: que o mesmo Cristo apare\u00e7a a todos de modo diferente. Se eu recusar a minha responsabilidade de an\u00fancio, mais ningu\u00e9m o far\u00e1.<\/p>\n<p>4. A pedra da mediocridade. Entramos na Igreja pelo baptismo, mas a din\u00e2mica que este encerra adormeceu. Preferimos ser crist\u00e3os mornos que deixam as coisas correr, marcando a nossa vida por uma indiferen\u00e7a que se manifesta em determinados momentos sociais. Fechamos a responsabilidade de anunciar a ressurrei\u00e7\u00e3o na gaveta. Esta pedra de vidas med\u00edocres, sem convic\u00e7\u00f5es profundas, dever\u00e1 ser retirada em favor da paix\u00e3o por Cristo e pala Sua Palavra, pela Igreja e pela alegria de ser pedra viva, atenta e pronta a edificar a comunidade. A ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo conduz-nos a querer ter voz activa e a viver a alegria ser Igreja.<\/p>\n<p>Caras irm\u00e3s e irm\u00e3os, esta \u00e9 a m\u00e3e de todas as vig\u00edlias. Uma noite de luz e de lume novo. Levamos connosco a miss\u00e3o de velar pela chama da ressurrei\u00e7\u00e3o. Fizemo-lo no momento inicial ao acender as brasas e ao acender o C\u00edrio Pascal, sinal da vida e do baptismo. Cada um n\u00f3s, \u00e0 imagem dos disc\u00edpulos de Ema\u00fas, tem o seu cora\u00e7\u00e3o a arder com o fogo do ressuscitado. \u00c9 isso que pe\u00e7o tamb\u00e9m a estes jovens baptizados esta noite: s\u00ea-de anunciadores de Cristo, ajudai a Igreja a derrubar as pedras do sepulcro e mantende viva a chama do baptismo. Amanh\u00e3 \u00e9 um dia novo em que Cristo visitar\u00e1 cada uma das fam\u00edlias e casas da nossa Arquidiocese.<\/p>\n<p>Vinde, Senhor Jesus, iluminai os nossos cora\u00e7\u00f5es, dai-nos a paz, a esperan\u00e7a e o alento para a miss\u00e3o. Aleluia!<\/p>\n<p>D. Jorge Ortiga<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem nos ir\u00e1 revolver a pedra?<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":87101,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[275,308],"class_list":["post-101194","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-pascoa","tag-semana-santa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/101194","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=101194"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/101194\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/87101"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=101194"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=101194"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=101194"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}