{"id":101169,"date":"2018-03-30T23:48:31","date_gmt":"2018-03-30T22:48:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=101169"},"modified":"2018-03-30T23:48:52","modified_gmt":"2018-03-30T22:48:52","slug":"homilia-do-bispo-de-coimbra-da-celebracao-da-paixao-do-senhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-de-coimbra-da-celebracao-da-paixao-do-senhor\/","title":{"rendered":"Homilia do bispo de Coimbra da Celebra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o do Senhor"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p>Car\u00edssimos irm\u00e3os e irm\u00e3s!<br \/>\nEste \u00e9 o dia que n\u00e3o deixa ningu\u00e9m indiferente, crentes ou n\u00e3o crentes, justos ou pecadores, de todas as condi\u00e7\u00f5es, pois todos nos identificamos com a dureza do sofrimento e da morte e todos nos queremos identificar com a esperan\u00e7a da vida. Este \u00e9 o dia que n\u00e3o deixa ningu\u00e9m de fora e que tem uma palavra a dizer a todos, porque n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que n\u00e3o passe pelas cadeias do fracasso, do desencanto, do sofrimento e das d\u00favidas mais dram\u00e1ticas \u2013 fazem parte da nossa condi\u00e7\u00e3o e nunca nos resignamos a ficar presos nas suas teias enredadas.<\/p>\n<p>Se a Boa Nova de Deus contemplasse apenas os dias de alegria, de gl\u00f3ria e de vit\u00f3ria, seria porventura apenas para alguns privilegiados pelas circunst\u00e2ncias felizes da vida, mas n\u00e3o para os deserdados e impedidos de participar dos seus bens. No sofrimento n\u00e3o h\u00e1 vencedores e vencidos, grandes e pequenos, ricos ou pobres, privilegiados ou deserdados. A dor, o medo e a morte s\u00e3o como que um denominador comum, assumido pela paix\u00e3o do Senhor, que se fez em tudo igual a n\u00f3s, exceto no pecado, para nos abrir o caminho da confian\u00e7a, da esperan\u00e7a e da bem-aventuran\u00e7a.<\/p>\n<p>A narra\u00e7\u00e3o da paix\u00e3o do Senhor perpassa todas as gera\u00e7\u00f5es e tem uma palavra a dizer a toda a humanidade, mesmo neste tempo em que se julgava estarem perto os novos c\u00e9us e a nova terra, sem dor, ser luto e sem morte; a paix\u00e3o do Senhor encerra uma Boa Nova para a humanidade iludida com o sonho de vencer todos os temores e de edificar sobre esta terra um mundo a todos os t\u00edtulos feliz.<\/p>\n<p>Esconder a cruz de Cristo ou eliminar da vista os sinais do sofrimento e da morte, como se tem pretendido fazer frequentemente, n\u00e3o significa que eles n\u00e3o continuem bem presentes em n\u00f3s. N\u00e3o precisamos de exaltar a cruz, o sofrimento ou a morte, porque eles se imp\u00f5em por si mesmos, e seria doentio e desumano faz\u00ea-lo. Precisamos, sim, de os enfrentar com realismo e de nos munir de fortes raz\u00f5es para os acolher e ultrapassar com esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da vida \u00e9 a primeira quest\u00e3o humana. N\u00e3o se trata de uma quest\u00e3o religiosa, como frequentemente se apresenta nos diferentes f\u00f3runs em que se discute a legisla\u00e7\u00e3o relativa \u00e0 sua interrup\u00e7\u00e3o no princ\u00edpio, no fim ou quando as circunst\u00e2ncias a tornam mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Preservar a vida constitui o sinal maior do progresso de uma civiliza\u00e7\u00e3o. As ci\u00eancias e a medicina, aliadas a todo o tipo de cuidados, cumprem a sua miss\u00e3o quando fazem tudo o que est\u00e1 ao seu alcance para que ningu\u00e9m se veja em situa\u00e7\u00f5es de debilidade e sofrimento que o leve a pensar em desistir de viver.<\/p>\n<p>Os Estados enquanto servidores da comunidade e de todos os seus membros cumprem a sua miss\u00e3o sempre que promovem os meios adequados para que a vida seja estimulada em toda e qualquer circunst\u00e2ncia, pois n\u00e3o podem ser as circunst\u00e2ncias mais favor\u00e1veis ou mais adversas que h\u00e3o de determinar o valor de uma vida humana. A vida humana vale por si mesma. Nesse sentido, s\u00e3o relevantes as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas das fam\u00edlias, a qualidade da educa\u00e7\u00e3o, as condi\u00e7\u00f5es de acesso \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 habita\u00e7\u00e3o, \u00e0 inser\u00e7\u00e3o social.<br \/>\nIgualmente relevante \u00e9 a promo\u00e7\u00e3o dos valores humanos fundamentais, que obste \u00e0 tend\u00eancia de um relativismo que chegue ao ponto de considerar a vida como uma escolha pessoal, como um beco sem sa\u00edda ou como uma realidade descart\u00e1vel. O trabalho em favor da harmonia interior, da constru\u00e7\u00e3o da esperan\u00e7a, do fortalecimento da vontade, do enraizamento de rela\u00e7\u00f5es humanas marcadas pela amizade, dos la\u00e7os familiares informados pelo compromisso de amor, constitui aux\u00edlio indispens\u00e1vel para a edifica\u00e7\u00e3o de uma cultura que promove e fortalece o desejo de viver.<\/p>\n<p>Car\u00edssimos irm\u00e3os, temos todos muito a fazer, tanto individualmente como nas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas para que a vida seja um valor cuidado, preservado e promovido em todas as suas fases mas, sobretudo, quando est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de maior debilidade. Crian\u00e7as e jovens, idosos e doentes, pobres e marginalizados nas fam\u00edlias, na escola, na Igreja ou na sociedade em geral, encontram-se entre os que mais precisam de apoio, de carinho e de algu\u00e9m que, estando verdadeiramente pr\u00f3ximo, os ajude a encontrar o sentido para as suas fragilidades materiais, emocionais ou relacionais.<br \/>\nH\u00e1 alguns dias ouvi um adolescente dizer-me com as l\u00e1grimas nos olhos: a minha vida \u00e9 muito dif\u00edcil. Frequentemente encontro idosos, particularmente nos lares ou outras institui\u00e7\u00f5es, onde t\u00eam todas as condi\u00e7\u00f5es materiais para uma vida digna, dizerem: tenho tudo o que preciso, mas n\u00e3o tenho ningu\u00e9m. N\u00e3o raro, em casa ou nos hospitais nos deparamos com doentes que podem ter os cuidados m\u00e9dicos adequados, mas sentem com ang\u00fastia a falta do carinho da fam\u00edlia ou da sociedade. Conhecemos tamb\u00e9m o fen\u00f3meno triste de pessoas que morrem e s\u00e3o sepultadas na mais crua solid\u00e3o, que n\u00e3o t\u00eam ningu\u00e9m ou que n\u00e3o se sentem queridas nem amadas por ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>De fato, investimos muito nas condi\u00e7\u00f5es materiais, mas demasiado pouco na rela\u00e7\u00e3o humana, na presen\u00e7a, na proximidade, no acompanhamento personalizado, que acaba por marcar mais a qualidade de vida do que tudo o resto.<br \/>\nEnquanto comunidades crist\u00e3s disseminadas por todas as geografias f\u00edsicas, humanas e sociais, havemos de estar na linha da frente na defesa da vida, da vida e com qualidade. N\u00e3o nos bastam as palavras, mas urge uma atitude de proximidade, uma aposta na rela\u00e7\u00e3o de caridade, uma identifica\u00e7\u00e3o com todos os que est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de morte.<br \/>\nSe outras institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas t\u00eam mais capacidade para se ocupar com as quest\u00f5es do desenvolvimento econ\u00f3mico que proporcione a todos condi\u00e7\u00f5es de vida dignas, a comunidade crist\u00e3, a partir da f\u00e9 e movida por ela, tem uma miss\u00e3o especial a cumprir: o fortalecimento espiritual, o qual, afinal, determina mais seriamente o que se passa no interior de cada pessoa e, por isso, favorece de modo mais completo a confian\u00e7a e o aconchego para olhar o futuro com esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Car\u00edssimos irm\u00e3os e irm\u00e3s, como nos disse o Papa Francisco h\u00e1 poucos dias, a cruz de Cristo \u00e9 um fort\u00edssimo sinal para os crist\u00e3os e para a humanidade. \u00c9 importante que esteja presente e vis\u00edvel nas nossas casas, mas n\u00e3o pode ser simplesmente um objeto de adorno. Pode ser bela sob o ponto de vista art\u00edstico e est\u00e9tico ou pode ser tosca e sem harmonia de forma, mas h\u00e1 de ser sempre apta para inspirar a medita\u00e7\u00e3o espiritual e nos abrir ao mist\u00e9rio que nos envolve. A sua contempla\u00e7\u00e3o pode mudar o rumo de uma vida, mas pode tamb\u00e9m tornar-se verdadeiramente est\u00e9ril se n\u00e3o nos leva a estarmos junto das cruzes dos nossos irm\u00e3os com como\u00e7\u00e3o e amor.<\/p>\n<p>Nesta celebra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o gostaria de deixar-vos uma radical provoca\u00e7\u00e3o: se passamos ao lado das cruzes dos nosso irm\u00e3os, d\u00e9beis, sem sa\u00fade, sem alegria, sem esperan\u00e7a e sem amor, desprezamos e negamos a cruz de Cristo. Proponho, por isso, irm\u00e3os e irm\u00e3s, que, na nossa vida pessoal de leigos, consagrados ou sacerdotes, no nosso programa familiar, na organiza\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o pastoral das par\u00f3quias e das comunidades, incluamos em lugar cimeiro a presen\u00e7a junto dos mais d\u00e9beis, particularmente dos idosos, dos doentes, de todos os sofredores.<\/p>\n<p>Adoremos, hoje, solenemente a cruz de Cristo, a cruz do Redentor; contemplemo-l\u2019O desfigurado, sem apar\u00eancia de um ser humano, sem distin\u00e7\u00e3o nem beleza para atrair o olhar, desprezado e repelido pelos homens, homem de dores e acostumado ao sofrimento como quem est\u00e1 \u00e0s portas da morte, de acordo com a profecia de Isa\u00edas; pe\u00e7amos-lhe que nos ensine a estar de p\u00e9, como Maria e Jo\u00e3o, junto \u00e0 Sua cruz e junto a todas as cruzes dos nossos irm\u00e3os.<\/p>\n<p>Coimbra, 30 de mar\u00e7o de 2018<br \/>\nVirg\u00edlio do Nascimento Antunes<br \/>\nBispo de Coimbra<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":98582,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center 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