{"id":101151,"date":"2018-03-30T23:18:31","date_gmt":"2018-03-30T22:18:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=101151"},"modified":"2018-03-30T23:18:31","modified_gmt":"2018-03-30T22:18:31","slug":"homilia-do-cardeal-patriarca-na-celebracao-da-paixao-do-senhor-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-cardeal-patriarca-na-celebracao-da-paixao-do-senhor-2\/","title":{"rendered":"Homilia do cardeal-patriarca na Celebra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o do Senhor"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ser da verdade, para ser de verdade<\/strong> <!--more--><\/p>\n<p>\u00abDisse-Lhe Pilatos: \u201cEnt\u00e3o, Tu \u00e9s rei?\u201d Jesus respondeu-lhe: \u201c\u00c9 como dizes: sou rei. Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que \u00e9 da verdade escuta a minha voz\u201d.\u00bb<\/p>\n<p>Um di\u00e1logo t\u00e3o r\u00e1pido, como este entre Pilatos e Jesus, car\u00edssimos irm\u00e3os, \u00e9 o segredo da nossa presen\u00e7a aqui, quase dois mil\u00e9nios depois. Da nossa presen\u00e7a aqui, quando podemos celebrar em boa paz e bom espa\u00e7o a Paix\u00e3o do Senhor.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m \u2013 e com maior realismo ainda \u2013 a mesma celebra\u00e7\u00e3o noutros espa\u00e7os por esse mundo al\u00e9m, entre guerras e destrui\u00e7\u00f5es, imensas tristezas e grandes abandonos. Tenhamos isto bem presente, e aos irm\u00e3os que a\u00ed mesmo ouvem hoje a Paix\u00e3o do Senhor e nela reveem as suas pr\u00f3prias vidas. Assim tamb\u00e9m os nossos irm\u00e3os dos Lugares santificados pela presen\u00e7a terrena de Cristo, a cuja manuten\u00e7\u00e3o se destina a coleta deste dia. Todos estamos e queremos estar na verdade de Cristo, escutando a sua voz.<\/p>\n<p>Express\u00e3o original e muito sua, que importa reter. \u00c9 t\u00edpica do Quarto Evangelho, como no trecho que ouvimos. Jesus veio ao mundo \u00aba fim de dar testemunho da verdade\u00bb. Modo de dizer que a verdade reside nele mesmo, como se manifesta e afirma.<\/p>\n<p>A verdade do imp\u00e9rio que Pilatos figurava impunha-se pela for\u00e7a das armas. A verdade que Jesus testificava era a da sua pr\u00f3pria pessoa e da ades\u00e3o ao que dizia e fazia. Precisamente a que nos re\u00fane agora aqui,\u00a0 sem qualquer coa\u00e7\u00e3o e em plena consci\u00eancia. Em plena consci\u00eancia, ou seja, no que mais intimamente sentimos e sabemos, e por isso mesmo somos: \u00abTodo aquele que \u00e9 da verdade escuta a minha voz.\u00bb Para o evangelista Jo\u00e3o, a verdade subsiste em Jesus Cristo, no que diz e testemunha, tudo sendo express\u00e3o de Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Aprofundemos um pouco mais estas palavras, pois traduzem a subst\u00e2ncia da nossa f\u00e9. Aprofundemo-las com a mente, mas sobretudo com o cora\u00e7\u00e3o. Sintamo-las, para percebermos que Reino \u00e9 o seu, como nos mant\u00e9m vitoriosamente consigo, como estamos agora e como estaremos sempre, aconte\u00e7a o que acontecer\u2026<\/p>\n<p>Noutro passo do mesmo Evangelho, Jesus compara-se a um pastor cuja voz reconhecemos e assim nos chama e re\u00fane em seu redor: \u00abAs minhas ovelhas escutam a minha voz: Eu conhe\u00e7o-as e elas seguem-me. Dou-lhes a vida eterna, e nem elas h\u00e3o de perecer jamais, nem ningu\u00e9m as arrancar\u00e1 da minha m\u00e3o. O que o meu Pai me deu vale mais que tudo e ningu\u00e9m o pode arrancar da m\u00e3o do Pai. Eu e o Pai somos Um\u00bb (Jo 10, 27-30).<\/p>\n<p>Trecho de suma import\u00e2ncia para percebermos o que se passa connosco e h\u00e1 de passar com muitos mais, em termos de realeza de Cristo. Porque escutamos a sua voz. Escutamo-la, de facto, pois nos ressoa diferente de todas as outras, mais decisiva e profunda. Na rece\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o Sinodal de Lisboa, como estamos a fazer neste ano, insistimos na Palavra de Deus como \u201clugar onde nasce a f\u00e9\u201d (CSL, 38) \u2013 maneira de dizer com S\u00e3o Paulo que \u00aba f\u00e9 surge da prega\u00e7\u00e3o, e a prega\u00e7\u00e3o surge pela palavra de Cristo\u00bb (Rm 10, 17).<\/p>\n<p>Ouvida em casa, quando tivemos a gra\u00e7a de nascer numa fam\u00edlia realmente crist\u00e3; ouvida na catequese e nas celebra\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias; ouvida de algum amigo que verdadeiramente o foi; lida nas Escrituras que as primeiras gera\u00e7\u00f5es crist\u00e3s nos deixaram\u2026 A palavra de Cristo, e o pr\u00f3prio Cristo como Palavra de Deus, inteiramente dita e feita, tomou-nos conta do cora\u00e7\u00e3o, esclareceu-nos a intelig\u00eancia e determinou-nos a vontade. Somos seus, inteiramente seus, definitivamente seus. E ningu\u00e9m nos arranca de ao p\u00e9 da sua Cruz, onde divisamos todas as cruzes deste mundo, mas tamb\u00e9m o fulgor da sua vit\u00f3ria sobre a morte e todo o tipo de morte.<\/p>\n<p>Radica tamb\u00e9m aqui a liberdade crist\u00e3. Venha o que vier, estamos seguros em Cristo, qual \u201cm\u00e3o\u201d que o Pai nos estende. Escutamo-lo atentamente, como seus disc\u00edpulos. Aprendemos sobretudo que a liberdade ganha-se com Deus, que \u00e9 tudo, e n\u00e3o sozinhos, que ser\u00edamos nada.<\/p>\n<p>A Palavra que Deus nos dirige em Cristo \u00e9 t\u00e3o perfeita comunh\u00e3o que at\u00e9 da morte faz vida. Como a sua Cruz, que tanto nos eleva para o Pai como nos alarga a todos. Sendo isto mesmo a liberdade perfeita, sem cativeiros de alma que nos detenham a entrega. Noutro passo do Quarto Evangelho, diz-nos assim: \u00abSe permanecerdes fi\u00e9is \u00e0 minha mensagem, sereis verdadeiramente meus disc\u00edpulos, conhecereis a verdade e a verdade vos tornar\u00e1 livres\u00bb (Jo 8, 31-32).<\/p>\n<p>O mundo em que vivemos est\u00e1 t\u00e3o cheio de palavras e contrapalavras, t\u00e3o denso de figuras e contrafiguras, que dificilmente nos agarra j\u00e1, para al\u00e9m dalgum alvoro\u00e7o imediato. No entanto, n\u00f3s estamos hoje aqui, como muitos por esse mundo al\u00e9m, celebrando a Paix\u00e3o de Cristo, transmitida por palavras antigas que n\u00e3o perderam vigor e figurada numa simples Cruz, como a adoraremos de seguida. Como Ele pr\u00f3prio anunciara: \u00abQuando tiverdes erguido ao alto o Filho do Homem, ent\u00e3o ficareis a saber que Eu sou\u00bb (Jo 8, 28). E ainda: \u00abEu, quando for erguido da terra, atrairei todos a mim\u00bb (Jo 12, 32).<\/p>\n<p>&#8211; Que verdade t\u00e3o grande, esta que aqui nos certifica, de corpo e alma rendidos ao mist\u00e9rio da Cruz do Senhor. Nela nos sentimos salvos, porque nenhuma esperan\u00e7a e nenhum sofrimento ficaram de fora da Paix\u00e3o de Cristo. Tudo inteiramente connosco, tudo inteiramente com Deus, tudo inteiramente salvo. Nele j\u00e1 e em n\u00f3s em esperan\u00e7a, que \u00e9 verdade garantida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A concentra\u00e7\u00e3o desta tarde na Cruz do Senhor n\u00e3o \u00e9 obra nossa, mas unicamente de Deus Pai que, pelo Esp\u00edrito, nos fixa em Jesus. Como tamb\u00e9m disse: \u00abNingu\u00e9m pode vir a mim, se isso n\u00e3o lhe for concedido pelo Pai\u00bb (Jo 6, 65). Reconhe\u00e7amos agora e agrade\u00e7amos sempre o impulso divino que nos traz aqui, junto de Cristo e da sua Cruz, trono do Reino e centro do mundo.<\/p>\n<p>Para que tamb\u00e9m na Cruz de Cristo divisemos a cruz do mundo, em tudo quanto nos faz sofrer \u2013 a n\u00f3s e aos outros. A\u00ed mesmo onde Cristo nos espera, para ser reconhecido e servido. Realmente, se dentro em pouco O vamos adorar aqui, \u00e9 para depois continuarmos a ador\u00e1-lo e a servi-lo em quem sofra neste mundo de todos os dias, locais e circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Por isso nos diz ainda S\u00e3o Jo\u00e3o, na sua primeira ep\u00edstola: \u00abN\u00e3o amemos com palavras nem com a boca, mas com obras e com verdade. Por isso conheceremos que somos da verdade e, na sua presen\u00e7a, sentir-se-\u00e1 tranquilo o nosso cora\u00e7\u00e3o\u00bb (1 Jo 3, 18-19).<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 mais do que a simples adequa\u00e7\u00e3o da mente ao objeto. \u00c9 objetivar na vida e na conviv\u00eancia atenta e solid\u00e1ria a religi\u00e3o da Cruz que nos salvou. Para sermos da verdade e para de verdade o sermos sempre.<\/p>\n<p>S\u00e9 de Lisboa, 30 de mar\u00e7o de 2018<\/p>\n<p><em>D. Manuel Clemente, cardeal-patriarca de Lisboa<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ser da verdade, para ser de verdade<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":101152,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[343,308],"class_list":["post-101151","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-de-lisboa","tag-semana-santa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/101151","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=101151"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/101151\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/101152"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=101151"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=101151"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=101151"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}