{"id":101072,"date":"2018-03-30T10:49:13","date_gmt":"2018-03-30T09:49:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=101072"},"modified":"2018-03-30T13:03:36","modified_gmt":"2018-03-30T12:03:36","slug":"homilia-na-missa-vespertina-da-ceia-do-senhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-na-missa-vespertina-da-ceia-do-senhor\/","title":{"rendered":"Homilia do cardeal-patriarca na Missa Vespertina da Ceia do Senhor"},"content":{"rendered":"<div class=\"topoColunaDirInterior floatLeft\">\n<div class=\"floatRight\">\n<div id=\"0980980\"><strong>\u00ab Compreendeis o que vos fiz?\u00bb<\/strong><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><!--more--><\/p>\n<div class=\"texto\">\n<p>Acab\u00e1mos de escutar o que demoraremos a entender. Parecendo simples, ultrapassa completamente a nossa previs\u00e3o \u2013 como ultrapassou a dos disc\u00edpulos na \u00daltima Ceia.<br \/>\nJesus levanta-se da mesa. Tira o manto e toma uma toalha, que p\u00f5e \u00e0 cintura\u2026 J\u00e1 isto era surpreendente, sendo gesto de servo e servo hum\u00edlimo. Mais ainda o que fez a seguir, deitando \u00e1gua numa bacia e come\u00e7ando a lavar os p\u00e9s aos disc\u00edpulos, enxugando-os coma toalha\u2026<br \/>\nFoi normal a recusa de Pedro, ao chegar a sua vez: \u2013 Como podia aceitar tal invers\u00e3o de pap\u00e9is e que o seu Senhor se fizesse seu servo? Mais decisiva foi a resposta de Jesus: \u00abSe n\u00e3o tos lavar, n\u00e3o ter\u00e1s parte comigo!\u00bbAinda hoje ser\u00e1 dif\u00edcil de entender a atitude de Jesus, mesmo que as clivagens sociais n\u00e3o sejam t\u00e3o profundas, legalmente falando. Ainda assim estranhar\u00edamos que o principal do grupo nos aparecesse de s\u00fabito como o \u00faltimo de todos e no \u00faltimo dos servi\u00e7os.<br \/>\nNo entanto, dois mil\u00e9nios crist\u00e3os j\u00e1 nos deviam ter convencido. Todos quantos viveram no Esp\u00edrito de Cristo repetiram-lhe o gesto daquela Ceia que agora celebramos. N\u00e3o s\u00f3 o repetiram, mas assim mesmo demonstraram ser autenticamente seus disc\u00edpulos. Quando Saulo se converteu em Paulo, considerando como lixo tudo quanto fora antes, para se sujeitar a tantos trabalhos para servir a muitos com o an\u00fancio evang\u00e9lico. Quando Francisco de Assis deixou a vida abastada que levava, para servir a \u201cSenhora Pobreza\u201d e se tornar no menor dos irm\u00e3os. Quando, mais tarde, Jo\u00e3o de Deus albergou no seu hospital de Granada os pobres doentes que j\u00e1 albergara no seu cora\u00e7\u00e3o. Quando, bem perto de n\u00f3s, Teresa de Calcut\u00e1 se dedicou aos \u00faltimos dos \u00faltimos, como eram os moribundos daquela cidade imensa\u2026<br \/>\nSim, j\u00e1 dev\u00edamos estar inteiramente convencidos. Coisa, ali\u00e1s, s\u00f3 poss\u00edvel se, como eles, nos deixarmos convencer inteiramente por Cristo &#8211; pela sua verdade, que \u00e9 outro nome da sua caridade.<\/p>\n<p>Convenhamos que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Desde que a humanidade se conhece, \u00a0sempre tendeu a olhar Deus como se olha a si pr\u00f3pria. Em geral, projeta a grandeza que n\u00e3o tem, mas gostaria de ter. Figura-se em grande, em mil e uma representa\u00e7\u00f5es que no essencial andam em torno do mesmo. Das ru\u00ednas de antigas civiliza\u00e7\u00f5es \u00e0 moderna cinematografia, repetem-se figuras fant\u00e1sticas de poder e dom\u00ednio.<br \/>\nEsta persist\u00eancia tolda-nos o horizonte e deixa-nos pouco dispon\u00edveis para a revela\u00e7\u00e3o divina propriamente dita. A hist\u00f3ria b\u00edblica &#8211; de Abra\u00e3o a Mois\u00e9s, de Mois\u00e9s aos antigos reis e destes ao tempo de Jesus &#8211; apresenta-nos uma tens\u00e3o cont\u00ednua entre a diferen\u00e7a absoluta de Deus e a insist\u00eancia do povo em apropri\u00e1-Lo ao seu desejo e figura.<br \/>\nN\u00e3o admira que alguns considerassem blasfema a afirma\u00e7\u00e3o de Jesus como \u201cFilho de Deus\u201d. \u2013 Como podia ser t\u00e3o simples e t\u00e3o pr\u00f3ximo Aquele em que projetavam os seus pr\u00f3prios fumos de grandeza?<br \/>\nN\u00e3o admira que Pedro, e os outros certamente, n\u00e3o admitissem que Aquele que j\u00e1 entreviam divino se apresentasse assim, n\u00e3o s\u00f3 como um deles, mas como servo de todos\u2026<br \/>\nFoi preciso que Jesus insistisse com Pedro: \u00abSe n\u00e3o te lavar os p\u00e9s, n\u00e3o ter\u00e1s parte comigo.\u00bb Ter parte \u00e9 participar, partilhar a vida e o futuro de algu\u00e9m a quem se quer. Assim queriam Pedro e os outros, sa\u00eddos das suas terras para seguirem a Cristo. Mas foi-lhes preciso aprender o que era realmente a vida de Cristo, como modo t\u00e3o imprevisto de ser Deus Connosco.Esse modo concretiza-se em humildade e servi\u00e7o. J\u00e1 uma inesquec\u00edvel p\u00e1gina b\u00edblica dissera que, quando o profeta Elias reencontrou a Deus no monte Horeb, tal sucedeu em grande contraste com antigas teofanias. Nem na ventania impetuosa que fendia as montanhas e quebrava os rochedos, nem no tremor de terra, nem num grande fogo. Foi \u00abno murm\u00fario de uma brisa suave\u00bb (1\u00a0<em>Rs<\/em>\u00a019, 12).<br \/>\n\u00c9 tamb\u00e9m assim que Deus est\u00e1 na nossa vida, humilde e quase impercet\u00edvel no seu poder criador, com que agora mesmo nos faz estar aqui. Corremos o risco de n\u00e3o dar por isso, de n\u00e3o darmos por Ele, de n\u00e3o agradecer o seu amor \u2013 e podemos at\u00e9 dizer o seu servi\u00e7o. Em Cristo \u00e9 assim mesmo que Se apresenta: \u00abEu estou no meio de v\u00f3s como aquele que serve\u00bb (<em>Lc<\/em>\u00a022, 27).<\/p>\n<p>E com uma conclus\u00e3o l\u00f3gica e obrigat\u00f3ria: Se Deus \u00e9 servi\u00e7o, com Ele aprendemos o que toda a nossa vida h\u00e1 de ser, como servi\u00e7o tamb\u00e9m. A \u00fanica maneira de Lhe agradecer a vida que nos concede \u00e9 reparti-la com os outros. Por isso continua Cristo: \u00abCompreendeis o que vos fiz? [\u2026] Se Eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os p\u00e9s, tamb\u00e9m v\u00f3s deveis lavar os p\u00e9s uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, v\u00f3s fa\u00e7ais tamb\u00e9m.\u00bb<br \/>\nViver eucaristicamente \u00e9 agradecer a Deus a vida que nos concede e partilh\u00e1-la com os outros. Como Cristo nos ensinou a viver, do Pai para os outros e com todos para o Pai, no movimento do Esp\u00edrito.<br \/>\nDo modo mais concreto e simples, no dia-a-dia da celebra\u00e7\u00e3o e da caridade. Neste sentido, s\u00e3o muito claras as palavras do Papa Francisco, ainda h\u00e1 pouco (audi\u00eancia geral de 7 de mar\u00e7o): \u00abO significado desta Ora\u00e7\u00e3o [Eucar\u00edstica] \u00e9 que toda a assembleia dos fi\u00e9is se una com Cristo para magnificar as grandes obras de Deus e para oferecer o sacrif\u00edcio. E para nos unir devemos compreender. Por isso, a Igreja quis celebrar a Missa na l\u00edngua que as pessoas entendem, a fim de que cada um possa unir-se a este louvor e a esta grande ora\u00e7\u00e3o juntamente com o sacerdote.\u00bb Para sublinhar depois as tr\u00eas atitudes decorrentes: \u00abprimeira, aprender a \u201cdar gra\u00e7as, sempre e em todos os lugares\u201d, e n\u00e3o s\u00f3 em determinadas ocasi\u00f5es, quando tudo corre bem; segunda, fazer da nossa vida um dom de amor, livre e gratuito; terceira, fazer comunh\u00e3o concreta, na Igreja e com todos.\u00bb<br \/>\nConcluamos serem verdadeiramente assim a Eucaristia de Cristo, o sacerd\u00f3cio comum e o ministerial que a celebram, o mandato recebido e a cumprir.<br \/>\nComo est\u00e1 anunciado, dedicaremos o pr\u00f3ximo ano pastoral \u00e0 rece\u00e7\u00e3o ativa do n\u00famero 47 da Constitui\u00e7\u00e3o Sinodal de Lisboa, para melhor compreendermos e vivermos a liturgia como lugar de encontro com Deus e como comunidade celebrante. Insistiremos numa \u00abcatequese mistag\u00f3gica que introduza toda a comunidade na viv\u00eancia dos tempos lit\u00fargicos e na compreens\u00e3o dos seus s\u00edmbolos e ritos. [\u2026] As comunidades crist\u00e3s s\u00e3o chamadas a recuperar o sentido profundo do Dia do Senhor, pela participa\u00e7\u00e3o na Eucaristia e pela escuta da Palavra e encontrando formas de viver a fraternidade e a alegria crist\u00e3s.\u00bb<br \/>\nCome\u00e7ando agora o Tr\u00edduo Pascal, respondamos com mais certeza \u00e0 premente pergunta do Senhor: \u00ab- Compreendeis o que vos fiz?\u00bb Para renovar em cada Eucaristia a disposi\u00e7\u00e3o mais forte de agradecer e servir. Sigamo-Lo agora no rito, para O imitarmos continuamente na vida.<br \/>\nS\u00e9 de Lisboa, 29 de mar\u00e7o de 2018<\/p>\n<p><em>D. Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca de Lisboa<\/em><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00ab Compreendeis o que vos fiz?\u00bb<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":101073,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[343,308],"class_list":["post-101072","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-de-lisboa","tag-semana-santa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/101072","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=101072"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/101072\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/101073"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=101072"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=101072"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=101072"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}