{"id":101009,"date":"2018-03-30T15:00:28","date_gmt":"2018-03-30T14:00:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=101009"},"modified":"2018-03-29T22:05:04","modified_gmt":"2018-03-29T21:05:04","slug":"homilia-do-arcebispo-de-braga-na-celebracao-da-morte-do-senhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-arcebispo-de-braga-na-celebracao-da-morte-do-senhor\/","title":{"rendered":"Homilia do arcebispo de Braga na celebra\u00e7\u00e3o da Morte do Senhor"},"content":{"rendered":"<p><em>Perdeu a apar\u00eancia de um ser humano<\/em><!--more--><\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil aceitar, no texto de Isa\u00edas, a aparente incoer\u00eancia entre a ideia do Messias vitorioso e o homem desfigurado que ele descreve. O profeta n\u00e3o se poupa a pormenores. Como \u00e9 poss\u00edvel dizer com confian\u00e7a &#8220;vede como vai prosperar o meu servo&#8221; e depois inicia uma longa e contradit\u00f3ria descri\u00e7\u00e3o do servo sofredor. &#8220;T\u00e3o desfigurado estava o seu rosto que tinha perdido toda a apar\u00eancia de um ser humano&#8221;. &#8220;Muitas na\u00e7\u00f5es e reis ficar\u00e3o calados&#8221;. Depois continua dizendo que o servo cresceu &#8220;sem distin\u00e7\u00e3o nem beleza, nem aspeto agrad\u00e1vel&#8221;. Foi um castigado, ferido e humilhado. &#8220;Como um cordeiro levado ao matadouro&#8221; foi arrancado da terra dos vivos e ferido de morte. S\u00f3 ap\u00f3s este longo e penoso sofrimento, diz o profeta Isa\u00edas, &#8220;ver\u00e1 a luz&#8221;.<\/p>\n<p>Que o Messias, prefigurado no servo maltratado, possa ter este fim ign\u00f3bil \u00e9 absolutamente escandaloso. Na verdade, os primeiros crist\u00e3os que rezavam diante de uma cruz sabiam bem que a sua presen\u00e7a causava embara\u00e7o \u00e0s pessoas, particularmente diante dos n\u00e3o-crist\u00e3os. Por esta raz\u00e3o, os primeiros espa\u00e7os de ora\u00e7\u00e3o &#8220;com cruz&#8221; previam a possibilidade de a esconder atr\u00e1s de uma cortina ou no interior de um m\u00f3vel. A cruz, com toda a sua carga simb\u00f3lica, \u00e9 e ser\u00e1 sempre raz\u00e3o de esc\u00e2ndalo, motivo de divis\u00e3o das \u00e1guas, entre quem procura o caminho da ressurrei\u00e7\u00e3o e quem n\u00e3o o procura, entre crist\u00e3os e ateus. Poucos s\u00edmbolos como este t\u00eam o cond\u00e3o de quebrar o muro da indiferen\u00e7a generalizada.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que determinadas ideologias pol\u00edticas, sob a capa de uma aparente inclus\u00e3o, ordenaram a retirada dos crucifixos das escolas e edif\u00edcios p\u00fablicos. Persiste a incapacidade de distinguir entre a saud\u00e1vel laicidade do Estado e a perversa ideologia do laicismo. Quando o Estado, institucionalmente laico, n\u00e3o compreende que a identidade, as tradi\u00e7\u00f5es e os valores do seu povo s\u00e3o soberanos ent\u00e3o simplesmente presta um mau servi\u00e7o \u00e0 na\u00e7\u00e3o. Se o povo se rev\u00ea nos valores e na religi\u00e3o cat\u00f3lica, qual \u00e9 o beneficio de o privar de manifesta\u00e7\u00f5es que considera fazerem parte da sua identidade? N\u00e3o ser\u00e1 este um sinal de imaturidade democr\u00e1tica?<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, devemos ter consci\u00eancia que o cristianismo corre o perigo de se interpretar como a religi\u00e3o do &#8220;sofrimento&#8221;, de acreditar que &#8220;\u00e9 preciso sofrer&#8221; na vida. Em tempos, esta foi uma espiritualidade dominante. E, ainda hoje, conseguimos detetar alguns rastos da sua exist\u00eancia. \u00c9 perigo no sentido em que, se algum crist\u00e3o acredita mesmo que n\u00e3o existe uma sa\u00edda da sexta-feira santa, a esperan\u00e7a crist\u00e3 perde a sua vitalidade e profecia. O cristianismo \u00e9 a religi\u00e3o que acredita na esperan\u00e7a e na verdade da ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O saudoso Daniel Serr\u00e3o fazia uma interessante distin\u00e7\u00e3o entre a dor e o sofrimento. A dor biol\u00f3gica resulta do est\u00edmulo dos sensores que depois chega ao c\u00e9rebro e transforma-se numa emo\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel. Toda a dor tem sempre tratamento. Existe depois o sofrimento, que \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica e psicol\u00f3gica. \u00c9 poss\u00edvel, por exemplo, haver dor e n\u00e3o existir sofrimento, bem como o seu contr\u00e1rio. Enquanto a dor \u00e9 sempre trat\u00e1vel, o sofrimento exige um cuidado maior e uma interven\u00e7\u00e3o de outra ordem. Veja-se o caso da perda de um familiar, um amigo ou at\u00e9 um evento traum\u00e1tico. N\u00e3o provocam dor, mas antes sofrimento. E \u00e9 neste sentido que a sociedade contempor\u00e2nea, tal como n\u00e3o deseja sentir dor f\u00edsica, parece cada vez mais intolerante ao sofrimento. Na verdade, at\u00e9 se confundem as duas realidades.<\/p>\n<p>Caras irm\u00e3s e irm\u00e3os, \u00e9 para mim inevit\u00e1vel, neste momento, n\u00e3o pensar no drama da eutan\u00e1sia. Como o pr\u00f3prio nome indica, a eutan\u00e1sia \u00e9 uma &#8220;morte boa&#8221;. Diversos pa\u00edses na Europa legalizaram esta pr\u00e1tica. Em Portugal, existem j\u00e1 projetos para a despenaliza\u00e7\u00e3o do ato de matar um paciente. Em princ\u00edpio, quer-se aplicar a casos onde, de algum modo, a medicina n\u00e3o oferece mais solu\u00e7\u00f5es ou quando o paciente, refletindo, considera que a sua vida n\u00e3o \u00e9 digna. Aparentemente trata-se de um ato de compaix\u00e3o. Mas se olharmos para os pa\u00edses onde este ato \u00e9 praticado, descobriremos uma verdade oculta. A eutan\u00e1sia \u00e9 tamb\u00e9m praticada em doentes mentais, assim como em pacientes que sofrem depress\u00e3o ou ansiedade. Far\u00e1 sentido? Quais os limites para a eutan\u00e1sia? A posi\u00e7\u00e3o da Igreja sobre este assunto \u00e9 sobejamente conhecida: a vida \u00e9, desde o nascimento ao ocaso, algo sagrado e inviol\u00e1vel. Compreendemos o drama de quem se suicida, mas que uma segunda pessoa ajude uma outra a morrer \u00e9, simplesmente, matar essa pessoa.<\/p>\n<p>At\u00e9 h\u00e1 pouco tempo, este princ\u00edpio parecia \u00f3bvio at\u00e9 \u00e0 classe m\u00e9dica. Foi, infelizmente, com espanto que assistimos a um retrocesso da classe m\u00e9dica tamb\u00e9m neste aspeto. O Juramento de Hip\u00f3crates, considerado um momento solene para os novos m\u00e9dicos, afirmava na sua vers\u00e3o anterior: &#8220;guardarei respeito absoluto pela vida humana desde o seu in\u00edcio&#8221;. Desde o ano passado, os m\u00e9dicos juram apenas &#8220;guardarei o m\u00e1ximo de respeito pela vida humana&#8221;. O que significa &#8220;m\u00e1ximo respeito&#8221;? Esta deriva subjetiva, acreditamos n\u00f3s, apenas traz mais confus\u00e3o do que confian\u00e7a. O respeito pela vida dever\u00e1 ser sempre, e em todas as circunst\u00e2ncias, absoluto.<\/p>\n<p>A morte n\u00e3o \u00e9 um direito que assiste \u00e0s pessoas nem matar \u00e9 um dever dos profissionais da sa\u00fade. Ao mesmo tempo, ningu\u00e9m pode condicionar a liberdade e a moral de um m\u00e9dico ou enfermeiro por raz\u00f5es pessoais. \u00c9 preocupante, uma vez mais, quando verificamos que noutros pa\u00edses a obje\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia deixou de ser um direito. Assim sendo, como \u00e9 poss\u00edvel advogar a eutan\u00e1sia como um ato de liberdade quando o pre\u00e7o a pagar \u00e9 o aniquilamento da liberdade do outro?<\/p>\n<p>Sendo claro que a eutan\u00e1sia n\u00e3o \u00e9 um caminho nem um direito, importa sobretudo ir \u00e0 raiz do problema. O que conduz uma pessoa ao suic\u00eddio ou ao pedido de eutan\u00e1sia? \u00c9 aqui que considero pertinente a reflex\u00e3o de Daniel Serr\u00e3o: o sofrimento. O sofrimento, sendo do \u00e2mbito psicol\u00f3gico e, porque n\u00e3o diz\u00ea-lo, espiritual, quando \u00e9 desvalorizado leva \u00e0 morte. Mas as ferramentas necess\u00e1rias para curar esta ferida n\u00e3o s\u00e3o um bisturi ou um mero comprimido, mas antes o afeto, a presen\u00e7a, a seguran\u00e7a, a compaix\u00e3o, a esperan\u00e7a e acompanhamento m\u00e9dico e espiritual. Pretendemos fazer dos hospitais uma casa da morte ou uma casa da esperan\u00e7a? Pretendemos m\u00e9dicos que garantam o m\u00e1ximo respeito ou o absoluto e incondicional respeito pela vida? N\u00e3o \u00e9 mais proveitoso pol\u00edticas que ajudem os cuidadores, pol\u00edticas que apoiem as unidades de cuidados continuados e paliativos&#8230; pol\u00edticas educativas que ensinem \u00e0s crian\u00e7as o tesouro da vida, da integra\u00e7\u00e3o e do cuidado dos mais fr\u00e1geis?<\/p>\n<p>A vida \u00e9 um valor inegoci\u00e1vel. A Hist\u00f3ria da Humanidade j\u00e1 h\u00e1 muito nos deveria ter ensinado este princ\u00edpio fundamental. Basta que nos recordemos das mortes decorrentes das Guerras Mundiais, das ideologias autorit\u00e1rias, das persegui\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m Jesus foi uma v\u00edtima inocente da pol\u00edtica e da religi\u00e3o. Qual \u00e9 o pre\u00e7o de uma vida? Paremos este atropelo aos mais altos valores da Humanidade. A eutan\u00e1sia, por muito que nos custe, \u00e9 uma forma de aparente compaix\u00e3o, mas que, na verdade, resulta de interesses econ\u00f3micos e ideol\u00f3gicos ocultos, assim como \u00e9 o resultado da nossa incapacidade pessoal e social de cuidarmos dos nossos. E quando isso acontece, ent\u00e3o n\u00f3s pr\u00f3prios, como dizia o profeta Isa\u00edas, desfiguramo-nos e &#8220;perdemos a apar\u00eancia de ser humano&#8221;.<\/p>\n<p>Que as chagas abertas de Cristo, no dia em que fazemos mem\u00f3ria da sua morte, toque o cora\u00e7\u00e3o dos intervenientes pol\u00edticos, das institui\u00e7\u00f5es sociais e de sa\u00fade, bem como das comunidades crist\u00e3s, e nos ajude a sermos sinais de esperan\u00e7a numa cultura dominada pela morte.<\/p>\n<p>Braga, Catedral, 30 de mar\u00e7o de 2018<\/p>\n<p>D. Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Perdeu a apar\u00eancia de um ser humano<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":100825,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[308],"class_list":["post-101009","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-semana-santa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/101009","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=101009"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/101009\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/100825"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=101009"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=101009"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=101009"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}